EntreContos

Detox Literário.

Mar dos olhos de Marcela (Eduardo Barão)

klaus

Sem ela.

A cada passo dado, o vento se aproveitava da força concedida por Deus para converter cada rajada em navalha que lhe fatiava os sonhos. Vento transformado em navalha que reduzia sonhos a míseras porções que afundavam na grama com seus pés. Grama que por sua vez não era mais grama. Pedra escabrosa. E os sapatos não existiam: estava descalço num caminho composto de pedras que esfolavam as solas de seus pés como lixa ao invés de relva. Era assim que se sentia e era assim que o destino coadunava; formalizando a despedida através de todos os fatos arremessados pelo vento contra sua face.

Como sonhar num caminho de pedras?

Vitinho prostrou-se sobre o túmulo e chorou. Chorou sentido; chorou amargo e sem perdoar a terra por tê-la engolido. Sem perdoar o tempo que não a esperou envelhecer. Sem perdoar a dor que lhe castigava o peito moribundo com tamanha gana que não abria brechas para o otimismo que um dia existira ali – escasso e sem estímulo.

Queria que voltasse. Ordenou em pensamento. Suplicou em gestos desesperados. Queimou por dentro pela brasa que substituíra o frescor. Pelo vazio que substituíra o tudo.

Pelo nada que substituíra o mundo (que já não existia mais).

Como sonhar num caminho onde sonhos estão enterrados?

***

Alcançando-a.

Vitor Hugo não era especial e sua mãe já havia feito questão de ressaltar isso durante seu aniversário de sete anos.

– Tu vai sofrer pacas, guri. Com amor, com amigos, com a vida. A vida é assim, cê sabe. – ela riu e esmagou o cigarro num cinzeiro, tonta após esvaziar uma garrafa de vinho sem pestanejar. – Aliás, cê não sabe, mas vai aprender. A vida vai se encarregar de te ensinar como me ensinou. E tanto aprendi que tô sozinha contigo aqui. Sozinha.

Não riu mais. Chorou. Engasgou. Soltou fumaça pelas ventas. Ele, conformado, assoprou as velas do bolinho-guaraná e fez um desejo que esqueceu logo em seguida. Aprendeu desde cedo a não criar expectativas. Expectativas são como velinhas: sopro vem terminar.

Poucos aniversários depois, a mãe faleceu. Overdose que sua família tentou esconder a todo custo fingindo se tratar do mesmo mal que a avó padecera em razão do uso excessivo de determinado medicamento: cirrose. Rimava, mas ele sabia que não era verdade. Sabia, mas acatou sem contestar. Acatou também a vontade de seu tio de postular em juízo a favor de sua guarda. Maleável como puxa-puxa de melado nas mãos de criança, habituou-se a cada regra do novo lar: lavar os pratos após cada refeição, revisar lição de colégio todas as tardes e passar as noites estudando a Bíblia ou clamando perdão pelos pecados cometidos e porvindouros. Nada de lagartear.

Tudo mudou com a chegada de D. Carminha à vizinhança.

Dona Carminha tinha cara de mãe: robusta, cabelos presos em coque, avental sempre presente. Evitava falar alto por vergonha de salientar seus problemas de dicção (a mesma língua presa que conferia um charme especial à Clarice Lispector), mas era uma mulher de prendas interessantíssimas. Sempre receptiva e amorosa; assava bolo e biscoito e distribuía para a criançada. Dona de um salão de beleza de porta de quintal, Carmem tinha tempo de sobra para fazer buchicho apoiada no muro da vizinha e para acolher Vitor em sua casa enquanto tio Bonifácio trabalhava no escritório. Tio e vizinha eram solteiros inveterados – ele por ser rabugento, ela por opção. No entanto, ambos resolveram adotar.

Adotar sobrinhos.

– Vitinho, não toca nessa ambrosia. – o “r” de ambrosia soara quase gutural, mas não perdeu a compostura. – A filha da minha irmã tá vindo pra cá e ela ama esse doce aí. Espera ela chegar primeiro.

Vitor deu de ombros. Não era garoto de fases, de emoções. Não se importava com elogios ou broncas. Tirava notas boas na escola porque o tio lhe condicionara a isso previamente. Era religioso porque o tio lhe mandava à Igreja. Sempre o tio. Dono de suas vontades e anseios. Carminha não entendia a frieza do menino, mas respeitava e via até lado positivo: não precisava mandar mais de uma vez. O guri sempre obedecia.

Esperaram tanto que a ambrosia esfriou. Repentinamente, sucedeu-se uma correria danada após o toc toc que ecoou pela sala. Dona Carmem limpou as mãos no avental florido e correu em direção à porta. Abriu, saiu, dispensou o táxi, quase tropeçou nas malas e entrou de mãos dadas com uma princesinha ruiva.

– Bah, Vitor! Sai de trás da cômoda. Deixa de ser acanhado e vem cumprimentar a amiguinha.

Ele tinha corpo de criança e coração indiferente. Um gurizote tão mirrado que dava a impressão de ser tímido, mas nunca tinha queimado tanto as bochechas como naquele dia. Não entendia de anatomia e se pautou na crença de que as maçãs do rosto passaram a concentrar e circular todo o sangue do resto do corpo naquele exato momento. Só assim conseguiria encontrar uma explicação fajuta para aquela vermelhidão exacerbada.

Saiu de trás da cômoda com a cabeça baixa, mas não se manifestou.

– Vem cá dar um abraço na Ana Marcela. Não seja tímido. Ela veio lá de Gramado pra passar uma temporada aqui com a gente.

A baixinha fez uma careta como se tivesse chupado limão e deu uma puxada na barra da saia da tia em seguida, repreendendo-a.

– Ah, esqueci. Ela não gosta de Ana. Então vem dar um abração na Marcela.

Vitor se aproximou em passos bem calculados e estendeu a mão na tentativa de oferecer um aperto. Vã. Ela ignorou e pulou em seu pescoço como se fossem parentes de fato. Abraçou com força, com o amor de uma prima, com a cumplicidade de uma boa amiga. Ele desmaiou três vezes em pensamento e retribuiu até o beijinho na bochecha.

A ambrosia? Ninguém mais se lembrou de comê-la.

***

Com ela.

A temporada se estendeu a um, dois, três… Quase oito anos. Carmem tinha mais recursos financeiros e gozava de melhor saúde quando comparada à irmã de Gramado e se dispôs a cuidar de Marcelinha (e diminutivos eram bem comuns naquela casa) com todo o zelo e disciplina que uma segunda mãe poderia proporcionar. Ela e Vitinho cresceram lado a lado dividindo livros, doces, experiências e conversas.

Trocavam gibis e selos. Atravessavam de bicicleta a ponte sobre o riacho. Estudavam juntos. Quando foi matriculada no mesmo colégio, passou a defendê-lo daquela velha conhecida dos oprimidos aborrecentes: o bullying. Riam dele e de suas orelhas grandes. “De abano”, diziam. Ela esbravejava, deixava de fazer amizades para protegê-lo. Tão pequena e forte ao mesmo tempo; na mesma mensuração de um David enfrentando uma legião de Golias.

Ela não seguia o padrão impregnado no resto das garotas da cidade. Trocava poncho e bota por vestido, sapatilha e cardigan. Dançar no CTG1? Preferia ajudar a tia-mãe no salão ou zerar as prateleiras da biblioteca. Se pedissem a Vitor uma definição, ele decerto diria que a mesma surgira de uma pintura: as incontáveis sardas no rosto simétrico se assemelhavam a respingos de tinta. Uma constelação de estrelas pequenas que orbitavam abaixo do Sol – no caso, um emaranhado de madeixas tão lisas como ruivas.

E ele amou aquela ruivinha desde o primeiro olhar. Desde aquela primeira fitada nos olhos azuis. Olhos de moçoila que não quis crescer, e não de cigana oblíqua e dissimulada como no livro que exibia em sua cabeceira.
Toc toc.

– Resolveu aparecer, é? – ela nem precisou terminar de abrir a porta para saber quem estava do outro lado. – Depois de sumir a semana inteira e não atender mais o telefone…

Vitor encheu os pulmões, deu um passo adiante e a abraçou.

– O tio quis resolver umas coisas lá em casa. Vim aqui te explicar.

– Eu tô brincando, bobão. Não precisa dar satisfação, sei que tava estudando. Só acho que o Seo Bonifácio tá muito ferrenho.

– Tá sozinha? Dona Carminha saiu?

– Romaria, bobão. – ela tinha essa mania de chamá-lo assim a cada dez segundos. – Só volta mais tarde. Vem cá que eu quero te mostrar uma coisa.

Assim que ele entrou, Marcela trancou a porta e atravessou a sala aos trancos e barrancos. Mesmo magrela, era tão desengonçada que tropeçava em desníveis que nem ao menos existiam e esbarrava em todos os vasos de cerâmica que Carmem colecionava com demasiado apreço. Vitor se acomodou no sofá e aguardou enquanto ouvia o barulho da geladeira sendo aberta na cozinha. A bonita retornou segurando uma bandeja de plástico repleta de morangos gordos que a tia comprara na feira.

– Vamos lá atrás?

– No salão da Carminha? Tá maluca?

– Olha só o medo do vivente. Já disse que a tia saiu, vem logo.

E foram. Passaram pela cozinha, copa e adentraram o cômodo com muito cuidado para não derrubarem esmaltes e hidratantes. Assim que girou a maçaneta, Marcela tornou a encará-lo:

– Tu lava meu cabelo hoje, pode ser?

Antes que ele pudesse sair do transe instantâneo ao qual havia sucumbido, ela correu de encontro ao lavatório e se aconchegou na estrutura estofada ao mesmo tempo em que apoiava a cabeça na cuba móvel, deixando a bandeja entre os shampoos na mesinha ao lado.

– Que brincadeira é essa, Marcela?

– Não é brincadeira, Vitinho. Anda logo.

Ele se aproximou e as bochechas o denunciaram: estava vermelho como um pimentão e duro como um espantalho. Quando finalmente chegou atrás do lavatório, o coração saltou do peito à garganta e o fez engasgar enquanto tocava os cabelos macios já devidamente soltos e espalhados pela cuba. Marcela sorriu e abocanhou um morango enquanto Vitor se preparava para ligar a torneira.

Ligou.

– Que gelado… – ela suspirou enquanto a água traçava caminhos tortuosos pelo cabelo de ferrugem.

– Tá ruim?

– Não. Deixa assim.

Ele dedilhou cada canto, massageou cada têmpora, sentiu os fios ficando pesados ao reterem o líquido que lhe banhava as mãos. Ela relaxou. Fechou os olhos. Gatinha manhosa ronronando.

– Marcela… Posso te fazer uma pergunta?

– Já tá fazendo. – ela riu e mastigou outro morango. – Brincadeira, pode fazer.

– Por que nunca namorou?

– Por que tá perguntando isso?

– Porque eu quero saber.

– Eu sou chata, falo demais. Tu é o único garoto que me atura. E eu te acho bobão porque garotos são bobos. Eu nunca precisei de alguém ao meu lado pra ser feliz, pra me dizer o que devo fazer.

– Mas eu sempre estive ao teu lado e sou um garoto.

– Mas contigo é diferente, Vitinho. Nós sempre fizemos tudo juntos porque sempre decidimos as coisas juntos.

– Eu gosto de ti.

– Só gosta?

– Não. Eu te amo.

– Eu também te amo, tu já sabe. Agora me conta o que tinha de tão importante pra explicar quando entrou. Fiquei curiosa.

Silêncio. Vitor ajeitou os óculos e molhou as lentes sem querer. Apertou o shampoo contra a palma da mão e em seguida esfregou carinhosamente sobre as mechas, modelando-as com o auxílio da espuma branca que havia se formado.

– O tio vai me mandar pra Santa Maria. Disse que tem contatos, que é amigo de reitor. Quer que eu faça cursinho, preste vestibular…

– É longe. Tu quer ir?

– Não, mas também não tenho como negar. Moro de favor na casa dele.

– Não pensa assim. Isso é besteira.

– Não é. Ele vai bancar a viagem, a república…

– Vitinho… Eu…

– Eu sei. Não precisa falar.

– Eu quero que se esforce pra ser feliz enquanto estiver lá. Muita gente sonha em fazer faculdade. Tu estudou muito pra conquistar isso.

– Mas vou te perder.

– Me perder? – ela inclinou o rosto para cima e fixou seu olhar no dele. – E cartas? Telefone? ICQ2? Tá, não sei mexer com ICQ, mas dá-se um jeito.

– Não vai ser a mesma coisa.

– Mas é pro teu futuro.

– Eu queria ficar do teu lado.

– E quem disse que vai passar a vida inteira lá?

Ele enxaguou e desligou a torneira. Abaixou-se, pegou uma toalha e a secou vagarosamente. Após poucos segundos, ela se desvencilhou e pulou para o chão. Os cabelos úmidos grudaram no vestido e passaram a emanar um cheiro gostoso.

– Esse fio que a gente criou… – gotas desconexas às da torneira escorreram pelo seu rostinho. – Não tem tio ou distância que possa cortar.

Aquele conhecido clichê dos livros de romance nunca fora tão vivo e reluzente antes. Marcela se posicionou na pontinha dos pés e delicadamente pousou suas mãos sobre os ombros de Vitor. Desferiu um beijo rápido e com gosto de morango. Flecha certeira. Nem tão longe da bochecha, nem tão longe da boca.

No cantinho do lábio.

– Vitinho…

Ele a segurou com força e evitou que a mesma tropeçasse no ar, como já era de praxe. Até parada ela conseguia cambalear.

– O quê?

– Lava meu cabelo de novo?

***

Perdendo-a.

Cinco chamadas perdidas no celular. “Celular”. Um tijolo azul que tinha comprado a preço de banana por intermédio de um colega com o qual rachava o aluguel. Todas elas possuíam a mesma referência: telefone do tio. Desfez-se do casaco e das listas de exercício condizentes com o conteúdo programático do curso. Jogado na cama, suspirou fundo e resolveu retornar a ligação. Sabia que Bonifácio só ligava por motivos de dinheiro ou notas baixas. Não ligava para dar bom dia, não ligava para desejar boa prova.

– Alô?

– Oi, tio.

– Ah, Vitinho…

– O senhor me ligou.

– É, tentei falar contigo a manhã inteira… – a voz tremeu. – Eu queria saber como as coisas tão andando por aí. Quinto período, né? Sei que deve estar puxado pra ti.

– Sim, mas tá tudo bem. Tô quase arrumando um estágio e aí te aviso pra mandar menos dinheiro.

– Não se preocupa. Eu só liguei porque… – engoliu em seco.

– O que aconteceu?

– Vitor… – o som emitido vibrava sofrido através do alto-falante. – Prometa que vai ficar calmo…

– Fala o que aconteceu.

– A menina Marcela…

Menina Marcela.

O fio não tinha sido cortado. Marcela o segurou enquanto pôde com suas mãos franzinas. De longe, ela o motivava a seguir em frente extraindo significado dos presentes mais simples: enviava cartas abarrotadas de colagens e recortes, livros de aventura para distraí-lo diante da rotina exaustiva de estudos, fotos com aura de infância e gosto de saudade. Marcela era pedra-hume, era peça final de quebra-cabeça. Cicatrizava, completava. Contudo, Vitor tinha medo.

Afinal de contas, seria possível vencer o destino numa partida de cabo de guerra?

– O que tem a Marcela?

– Aconteceu uma tragédia… Bom… Um acidente na rua da livraria… Na frente da praça…

– Do que o senhor tá falando?

– A guria sofreu um acidente. Um acidente de carro.

– Um… Aci…

– Vitor, fica calmo.

– Calmo é o caralho. Me fala o que tá acontecendo, tio. Me fala logo. Ela tá bem? Se machucou?!

– Pare de falar assim, Vitor… Ela… Tava andando…

– Como assim? Andando de carro? A Marcela não tem carteira; a Carminha não tem carteira. Nem carro elas têm. O que aconteceu?

– Ela foi atropelada, Vitor. Acho melhor tu vir pra cá.

Aquela desengonçada. Sempre com pressa, sempre gastando rolos de fita microporosa para cobrir os machucados dos tombos que levava. E se Vitor estivesse ao lado dela, teria puxado a mesma pela manga do casaco e soltado um “olha por onde anda” bem sonoro seguido de um abraço apertado para convencê-la de que tudo ficaria bem se ela tivesse um pouco mais de cuidado ao atravessar a rua.

Bonifácio não esclareceu se Marcela estava bem ou não. Remendou fatos, se esquivou de respostas. Vitinho trocou o luto antecipado pela luta e as lágrimas pela pontinha de esperança que inflava em seu peito como um balão prestes a explodir. A capacidade de reprimir sentimentos era – sem sombra de dúvidas – a coisa mais valiosa e conveniente que aprendera com seu pai de criação (pois de coração estava longe de ser).

Malas, roupas e maiores explicações foram deixadas de lado. Correu contra o tempo para arranjar assento num ônibus rodoviário e torrou todo o dinheiro previsto para o mercado em uma passagem só de ida. Sem água mineral, sem mochila. Só carteira e documentos. Só desespero. E cada quilômetro rodado servia de combustível para promessas. Prometeu trancar a faculdade, passar o resto da vida cuidando de sua pequena destrambelhada. Prometeu enfrentar o tio e sair daquela casa que tanto o assustava. Casa-casulo que o inibiu, que o tornou seco, que o tornou quase resignado. Quase.

Quando chegou, estrelas já riscavam o negrume que tomara conta do céu. Sardinhas brilhando num rosto de menina bonita. Torceu para que uma cadente despencasse e lhe concedesse dois desejos abrangidos em um só: saúde para Marcela e paz para o seu coração. Como combinado, tio Bonifácio já o esperava de prontidão no estacionamento e ele não precisou de convite para abrir a porta da perua e se jogar no banco dianteiro. O tio manteve o olhar sereno e a boca fechada durante o trajeto. Dirigiu sem dizer boa noite e sem tecer questionamentos.

Talvez não permitissem visitas naquele horário – cogitou. Sem problemas; viraria a noite na sala de espera se fosse preciso. Doaria até o último fio de cabelo para vê-la mais uma vez e para tentar alegrá-la dizendo que parecia uma astronauta com tantos tubos e ataduras à sua volta.

– Pronto. – proferiu sério enquanto parava o carro e tirava a chave da ignição.

– Por que me trouxe aqui, tio? Me leva pro hospital. Eu tô aqui pra ver a Marcela.

– Vitor… Foi impossível te contar antes. Tu precisa ser homem. Precisa ser forte.

Vitinho girou o pescoço e limpou o vidro embaçado enquanto o frio lhe trincava o peito sem casaco. Avistou uma dezena de carros enfileirados na calçada da capela; envoltos pela bruma característica de noites úmidas. Uma garota de vestido preto consolava uma senhora acima do peso igualmente vestida a caráter. Carminha.

Capela. Velório. Marcela.

– Me tira logo… Dessa… Merda… E me leva pro hospital…

– Eu sei que é difícil, mas não há mais o que fa…

– Só me leva pro hospital… – interrompeu com os olhos túmidos e recheados de veias que latejavam em sincronia com a raiva evidenciada a cada palavra. – Me leva… Pro… Hospital…

– Eu sei como tu amava essa guria…

Socou o porta-luvas e sentiu o punho retornar dormente após o atrito. Todas as estrelas-sardas do universo caíram ao mesmo tempo e perfuraram sua pele, seus ossos, seu âmago. Não realizavam desejos novos. Só destruíam desejos já realizados, expectativas já supridas, glórias de outrora.

– O senhor não sabe… – a cachoeira dos olhos rompeu a barreira do orgulho e inundou seu rosto enquanto se empenhava em não gaguejar. – Como é viver pensando em alguém que mesmo longe te faz querer mais… Te faz querer uma vida tranquila; sem passar por cima dos outros, sem desejar mal… Como se aquela faísca de sentimento fosse o bastante pra te fazer andar todos os dias sem se preocupar com mais ninguém além dela…

Bonifácio estendeu os braços. O mesmo sádico que antes lhe poupara da notícia que transformaria seus desígnios em pó estava oferecendo um abraço pela primeira vez.

– E quando essa caixinha onde você deposita todas as fichas… Quebra… – continuou. – Sabe como isso é corrosivo, tio?

Vitinho amoleceu e acolheu o abraço do tio. Aceitou o perdão subentendido e percebeu que sua mãe tinha falado a verdade desde o princípio.

Fechou o pranto. Quis se matar.

***

Sonho feito de brisa.

Os dias continuaram competindo maratona no calendário e os planetas permaneceram girando após a partida de Marcela. O rapaz recém-habilitado que atropelara a ruivinha continuou andando livre pelas ruas sem se culpar pela vida que havia ceifado precocemente. Sem motivos, sem lição de moral, sem mérito. O coração de Vitor Hugo (pois Vitinho tinha ficado para trás num passado distante e imaturo) continuou batendo. Nada mudou. E se a dor nunca deu uma trégua, foi necessário aprender a conviver com ela incrustada na mente e no peito. A velha máxima das mães que perdem filhos, das crianças que perdem bichinhos de estimação, dos casais que se separam por fatalidades às quais todos se sujeitam. A dor não era exclusividade sua.

Aproveitou as férias do trabalho para visitar Carminha e matar as saudades daquela ambrosia que tanto apreciara na infância. Entretanto, o contato com o tio tinha se tornado escasso após sua formatura. Aprendeu a respeitá-lo e admirá-lo por todo o investimento fomentado em prol de seu futuro, mas ambos sabiam que um vínculo afetivo seria insustentável graças às circunstâncias e ao passado que insistia em voltar à tona.

Aproximou-se do túmulo. Marcelinha provavelmente acharia graça de sua roupa social e barba cerrada. Caçoaria do ar confiante e independente que exalava em cada poro de homem vivido. Sem esposa e filhos, mas feliz. Feliz como jamais pensou que seria na ausência dela. Em algum lugar do céu ela retribuía rindo faceira. Rindo vermelha. Rindo ao ler seu próprio epitáfio. Rindo só por rir.

Vitor trocou as flores secas por novas e coçou a cabeça. Matutou sobre o livro que sua menina tinha pensado em comprar enquanto caminhava até a livraria. Provável e posteriormente seria enviado ao apartamento no qual se alojara em Santa Maria para se unir à estante improvisada na parede de seu antigo quarto. Talvez fosse um livro piegas como os abraços e selinhos que trocavam às escondidas. Livro de aventura. Ficção científica. Suspense. Dicionário. Ou talvez… Talvez fosse um mar. Um mar como os olhos de Marcela. Oceano azul de planos desfeitos e momentos transformados em lembranças que não podiam mais ser recapturadas vividamente.

Vitor Hugo que não era mais Vitinho se levantou, limpou a calça dos vestígios de grama e se despediu mais uma vez de Ana Marcela – que enquanto viva tinha sido apenas Marcela. Andou sem olhar para trás e se sentiu aliviado ao perdoar o tempo, a terra e a dor. Aliviado por perdoar a noite que se arraigara em seu viver.

O fio não tinha sido cortado.

A travessia não tinha fim.

…………………………………………………………………..

Notas:

  1. Centro de Tradições Gaúchas (CTG).
  2. ICQ, programa pioneiro de comunicação instantânea via internet.

“Travessia”, disponível em:

https://www.youtube.com/watch?v=gjn0xsKIUiM

46 comentários em “Mar dos olhos de Marcela (Eduardo Barão)

  1. Pedro Paulo
    9 de janeiro de 2026
    Avatar de Pedro Paulo

    Este conto é uma ótima abordagem daquelas tragédias que consistem justamente no não vivido, no que poderia ter sido. Os personagens são muito bem caracterizados e tem a verossimilhança de uma experiência de vida real, o que prende à leitura e aumenta a intensidade do trágico. O trecho da lavagem de cabelo é o que melhor aborda essa pureza de sentimento. Aqui, passados mais de dez anos: parabéns!

  2. Nara Susane Klein
    6 de outubro de 2014
    Avatar de conta-removida

    Não é à toa que venceu o Desafio sobre Música! Esse conto é muito emocionante, me fez chorar enquanto lia 😥
    Lindo, lindo demais! Minha alma romântica agradece! ❤
    Parabéns! 🙂

  3. Fil Felix
    4 de outubro de 2014
    Avatar de Fil Felix

    #O QUE GOSTEI: seu conto é daqueles simples, mas de grande sensibilidade. A história é tocante e traz uma ótima mensagem a respeito da morte sem ser piegas. Está brilhantemente escrito, parece algo profissional (não sei se o autor de fato é), com ótimas descrições e diálogos críveis.

    #O QUE NÃO GOSTEI: é um pouco longo, possui uma estrutura quase que de romance, se distanciando de um “conto” mais tradicional.

    #O QUE MUDARIA: talvez daria uma recortada nele, porém está perfeito assim. Cabe ao gosto de cada um , aos mais românticos com certeza será um 10.

  4. Lucas Almeida
    4 de outubro de 2014
    Avatar de Lucas Almeida

    Cheio de emoção, bem escrito, aquele gostinho de “quero mais”. Não sei o que mais dizer do seu texto. Brilhante! Confesso que estou cheio de inveja branca( se é que isso existe) de você! Brincadeirinha. Parabéns 😀

  5. Carolina Soares
    4 de outubro de 2014
    Avatar de Carolina Soares

    Um conto muito belo e de uma escrita dotade de tamanha sensibilidade que nos trás uma imersão indescritível, parabéns! Um dos melhores até agora

  6. Alana Santiago
    4 de outubro de 2014
    Avatar de Alana Santiago

    Muito bonito! Impossível ler sem se emocionar, sem deixar alguma lagriminha escorrer. Nem sei o que dizer, a não ser que durante algum tempo fugi deste conto por causa do tamanho, mas que agora, depois de terminada a leitura, tudo o que queria era ter centenas de páginas desta história para ler, com todos os detalhes que ficaram nas entrelinhas do conto… Parabéns!

  7. Gustavo Garcia De Andrade
    4 de outubro de 2014
    Avatar de Gustavo Garcia De Andrade

    !!!!!!!!!

    Me fez chorar, poxa. Não se faz isso com os outros!
    Esta narrativa é tão bem construída, íntima, concreta ao mesmo tempo que subjetiva… que eu não sei o que dizer a não ser: parabéns. A honestidade do personagem, internamente, perante o tio; a honestidade dx escritorx perante o romance dos personagens e a história a ser contada! É um conto honesto, e isso merece aplausos.
    Não tenho o que criticar nesta primeira leitura apressada a ler todos os contos em 3 dias k
    Muito bom!

  8. Thiago Mendonça
    3 de outubro de 2014
    Avatar de Thiago Lee

    conto fantástico! me emocionei!
    a narrativa foi perfeita! o autor é altamente talentoso 🙂

    [Afinal de contas, seria possível vencer o destino numa partida de cabo de guerra?]
    amei essa frase, onde você se baseou?

  9. felipeholloway2
    3 de outubro de 2014
    Avatar de felipeholloway2

    O quase leixa-pren no início do conto tinha me deixado ressabiado. Essa apreensão se confirmou em todo o primeiro ato, no qual o autor me pareceu perder a mão no equilíbrio entre o tom lírico e a franca pieguice. O vento aproveitando a força dada por Deus, a menção ao destino, a cena do choro no túmulo, a dor “castigando o peito moribundo” (!), o duplo questionamento acerca dos sonhos, certo rebuscamento gongórico… os elementos iam compondo um cenário excessivamente sentimental que me fez torcer bastante o nariz.

    No entanto, as coisas melhoraram muito depois da introdução, embora vez ou outra ainda irrompesse uma frase de fazer corar um José de Alencar. Um dos grandes méritos do autor é entender que, para uma morte causar impacto na ficção (e, algumas vezes, na vida real), é necessário fazer com que o leitor se importe com o personagem. Caso contrário não será uma tragédia, será estatística (vide o excelente experimento do Roberto Bolaño na “Parte dos Assassinatos”, em 2666). Temos cristalizada, na cena da lavação dos cabelos, toda a docilidade da personagem-título, todo o seu potencial de cativar, o que é muito importante, já que é da ausência dela que o conto se propõe a extrair sua força comovedora, ainda no ato de abertura. Não por acaso, é fácil associar essa passagem a outras já clássicas da literatura, em que certa personagem cai nas graças do herói e, consequentemente, do leitor: Blimunda desenhando uma cruz com sangue no peito de Baltasar, em Memorial do Convento; Júlia confessando a Winston que curte o sexo pelo sexo, e não como protesto político ou qualquer baboseira assim, em 1984; Dorian Gray vendo Sibyl Vane representar dramas shakespearianos, no palco; e, claro, a referência machadiana mais imediata, Capitu e Bentinho brincando de eucaristia.

    No todo, considerei o conto bem acima da média na maioria dos aspectos, ainda carente de desbaste em outros (os colegas foram certeiros ao mencionar certa artificialidade no diálogo com o tio), e que só não me ganha de todo devido à carga excessiva de sentimentalismo. Acredito que havia como dosar esse elemento sem perder a força pungente que permeia o texto.

    Parabéns ao autor.

    • Klaus
      3 de outubro de 2014
      Avatar de Klaus

      Olá. Antes de esclarecer alguns pontos, gostaria de agradecê-lo pela crítica embasada. Garanto que foi de extrema valia.

      Uma questão que me deixou deveras curioso diz respeito à forma como as pessoas encararam a proposta norteadora do texto: muitos acham que cada fragmento da narrativa gira em torno da personagem Marcela. E, na verdade, minha intenção inicial ao escrevê-lo foi mostrar a trajetória paulatina do protagonista perante a condição que a ausência dela lhe impôs; isto é, início e final retratam uma cena idêntica sob pontos de vistas diferentes (um sob a perspectiva fresca da morte recente e outro sob a ótica conformada de alguém que já passou por um processo longo de aceitação e amadurecimento). Isso justifica a presença inicial de uma explosão de sentimentos exagerados e confusos, que por sua vez acha um contraponto no fim com toda aquela brisa de serenidade anos após o episódio-magno. Sendo assim, infere-se do narrador apenas o que é sentido por Vitinho: desde a descrição inicial da própria Marcela até a sensação que sua partida precoce deixou; todas as nuances partem de seu panorama particular.

      Até mais.

      • Klaus
        3 de outubro de 2014
        Avatar de Klaus

        Ops, corrigindo: sob pontos de vista diferentes.

  10. Fabio D'Oliveira
    3 de outubro de 2014
    Avatar de Fabio D'Oliveira

    Gostei bastante! Simples e sensível, como adoro! Para um texto longo, a leitura foi bem agradável, isso significa que está muito bem escrito e que a narrativa é envolvente. Parabéns pelo texto!

  11. Edivana
    3 de outubro de 2014
    Avatar de Edivana

    Eis um conto muito bem escrito, uma história de amor-trágico muito “fofa” e um final muito bom. A construção e a linguagem, achei excelente. Mas estou meio que me sentindo culpada por não sentir muita empatia pela dor dele.
    Sensacional essa frase: “Expectativas são como velinhas: sopro vem terminar”.

  12. tamarapadilha
    1 de outubro de 2014
    Avatar de Redescobrindo Palavras

    Gostei bastante. Confesso que achei um pouco extenso, mas o final bonito me cativou. É… eu adoro dramas e tragédias. O início quando ele fala de vento, grama e pedras já me prendeu, aí o meio quando percebi que se tratava de conto gaúcho me deixou mais interessada ainda e aí em todo aquele papo de lavar o cabelo, por mais bonito que foi me cansou, mas logo voltou a me segurar quando aconteceu a morte. Não vi erros a serem destacados. Isso seria bacana se fosse até desenvolvido em algo maior.
    Boa sorte

    • tamarapadilha
      1 de outubro de 2014
      Avatar de Redescobrindo Palavras

      Ah, esqueci de destacar que encontrei a alusão a Machado de assis, Dom Casmurro, ali no meio.

  13. pisciez
    1 de outubro de 2014
    Avatar de pisciez

    É um texto muito bonito e muito bom de ler.

    A ideia do conto é simples, sem muitas novidades. O que brilha aqui são as emoções, as descrições, a vida que é dada para cada cena, cada personagem. Tudo é descrito de forma tão bela e gostosa de ler que você nem vê o tempo passar. Quando percebemos, acabou, e ficamos aqui com olhos marejados.

    Muito bom conto. Parabéns. Tiro meu chapéu!

  14. Pétrya Bischoff
    1 de outubro de 2014
    Avatar de Pétrya Bischoff

    Ah! Sabes a sensação de quando um personagem morre no final de um livro? Aquele tiro no peito que arranca e leva consigo um pedaço? Sentimos isso com um livro pq ele nos permite criar laços com a estória, devido seu tamanho. Aqui senti o mesmo que no livro, passaste as mesmas emoções, desenvolveste tudo que deveria… em um conto.
    Começamos sabendo da morte, no entanto, quando ela chega, depois de convivermos com ambos, perdemos o chão com Vitinho.
    Chorei, também.
    A escrita é direta e suave. Há delicadeza nas descrições e uma certeza reconfortante enquanto no Vitor Hugo.
    Meus mais sinceros parabéns e boa sorte.

  15. Gustavo Araujo
    29 de setembro de 2014
    Avatar de Gustavo Araujo

    Pelo menos a meu ver, este conto se situa em um patamar acima dos demais que já li no desafio. A escrita é densa, experiente e rica, jamais resvalando em excessos descritivos. Aliás, é muito bacana isso, quando o autor conhece o exato limite entre a necessidade de descrever uma cena de modo detalhado, e a vontade de parecer erudito. Aqui tem-se o equilíbrio que serve como exemplo para todos nós.

    Porém, o que mais me cativou não foi a perícia na escrita, mas a trama em si. É verdade que é simples, mas foi com simplicidade que algumas das narrativas mais marcantes da literatura foram escritas. Taí o “Pequeno Príncipe” como prova.

    Contudo, a simplicidade não resume a obra. A verdadeira pérola deste conto é a relação entre os personagens – não só entre os protagonistas. Tudo soa natural, as conversas, o amor, a insegurança, a decepção, o medo, a redenção. Há um pouco de tudo aí, bem ao estilo de Khaled Hosseini, para mim, um dos escritores que melhor definem relações humanas.

    O amor entre Marcela e Vitinho mostra-se verdadeiro por essas nuances, pelo pedido para que ela lave seu cabelo, pela suposta ideia de que ela, ao ser atropelada, ia à livraria. Essa conexão entre ambos é algo singelo e ao mesmo tempo sublime. E o que a torna realmente distinta é a dor. Sabemos desde o início qual será o fim de Marcela e como Vitinho irá sofrer com a partida precoce dela. Mas mesmo assim lemos com avidez na esperança de que talvez, numa dessas, a história mude, que surja um feitiço ou uma máquina do tempo e altere o destino. Lógico, nada disso ocorre e a morte da menina funciona como um selo de competência narrativa.

    Minha única observação negativa vai para o uso da palavra bullying, lá pelo meio do texto. Esse é um conceito muito moderno – de poucos anos para cá. Creio que ficou deslocado ali, quando se fala de uma época que mesmo o ICQ era novidade. Minha sugestão é que o autor retire a expressão, até porque ela guarda consigo uma conotação politicamente correta chatíssima e que afasta o leitor do clima da história. Retirá-lo não fará a mínima falta.

    Por fim, peço ao autor, encarecidamente, que não deixe de comentar os demais textos deste desafio. Seria uma lástima ver deletado este fantástico “Mar dos Olhos…”

    Parabéns. É o conto que eu gostaria de ter escrito.

  16. Wesley Buleriano
    29 de setembro de 2014
    Avatar de Wesley Buleriano

    Uma bela história de amor, ainda que não seja o meu tipo preferido de história. O autor teve muita habilidade em construir uma trama bem amarrada, de maneira simples e fluida, mesmo com o lirismo de algumas descrições. É difícil não relacionar com outras histórias parecidas, porque é uma temática bastante comum de modo geral, e funciona muito bem como entretenimento pois o potencial de tocar, sensibilizar o leitor é muito grande e, especificamente nesse conto, foi trabalhado de maneira muito hábil. Boa sorte.

  17. Camila H.Bragança
    27 de setembro de 2014
    Avatar de Camila H.Bragança

    Estimado colega.

    Vossa ideia poderia ser clichê, pálida e anêmica, contudo, como um ourives – característica de um escritor maduro -, atesto que a condução pitoresca transformou vosso texto em uma obra deleitável. A canção escolhida poderia servir de trilha sonora caso o trabalho fosse transformado em um curta. Não acho que os diálogos são ruins ou pouco naturais, mas estou caindo aqui de paraquedas e, por conseguinte, seus confrades devem saber o que dizem. Pontuo que retire os nomes dos capítulos substituindo-os por números romanos se, por ventura, seu propósito for manter um suspense maior quanto ao conteúdo.

    Saudações!

    • Camila H.Bragança
      27 de setembro de 2014
      Avatar de Camila H.Bragança

      Erro: porventura.

  18. Andre Luiz
    25 de setembro de 2014
    Avatar de Andre Luiz

    O que dizer deste conto? Primeiramente: Emocionou-me de forma nunca antes vista. Sim, eu chorei. Não porque não queria chorar, mas porque tudo me fez voltar a minha mente e refletir sobre a vida, o sentido em ser feliz e a paz em estar ao lado de quem se ama. Marcela temos nós em nossas vidas. Somos e estamos Vitor Hugo. Marcelas vêm e vão, porém nossa essência perdura, perene, pela eternidade. A narrativa suave e simples conduz o leitor e o faz adentrar como nunca na história das personagens. Parabéns pela excelente produção.

  19. Swylmar Ferreira
    24 de setembro de 2014
    Avatar de Swylmar Ferreira

    Conto muito bom, muito bem narrado e bem escrito, fazendo com que o leitor (ao menos eu) sinta a angustia do personagem principal. A forma está excelente assim como o enredo.
    Parabéns Klaus, um belo conto de amor

  20. Felipe Moreira
    24 de setembro de 2014
    Avatar de Felipe Moreira

    Uma história tão simples, comum, narrada de forma grandiosa, madura. O texto tem uma carga forte, essencial e o protagonista ganha formas vivas. Assim como Vitinho, eu também fiquei encantado por Marcela e o seu jeito peculiar, naturalmente apaixonante. De fato, a travessia não tem fim. A música também encaixa o enredo com precisão.

    Parabéns e boa sorte.

  21. Willians Marc
    23 de setembro de 2014
    Avatar de Willians Marc

    Uma estória comum, mas escrita de forma impecável. Não gosto desse tipo de tragédia romântica, mas é inegável a habilidade do autor com as palavras. Não tenho sugestões de como melhorar o conto, está bem acima do meu nível atual de escrita.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  22. rsollberg
    22 de setembro de 2014
    Avatar de rsollberg

    Lindo!

    Narrativa impecável, a cena do cabelo sendo levado é bela de se visualizar, é sensível, e ainda dá a profundidade da relação de Vitinho com Marcelina, e Vitor consigo.

    Mesmo sendo um conto curto, foi possível criar conexão com os personagens, especialmente empatia.

    Uma excelente história de amor… Amor a vida, ao que ainda está por vir, amor a esperança.

    Senti dó de Vitor Hugo, mas também senti muita admiração por sua fibra. Numa vida que invariavelmente irá te decepcionar, seguir em frente é bastante difícil, mas é o único caminho.

    Parabéns e boa sorte.

  23. Thata Pereira
    22 de setembro de 2014
    Avatar de Thata Pereira

    Que conto bonito! Fiquei com receio de lê-lo agora e não dar tempo de terminar, pois é um pouco longo, mas deu, pois flui com muita facilidade. É linda a parte que a menina pede que ele lave novamente os cabelos dela e triste a parte da culpa, quando ele pensa que, se estivesse com ela, poderia tê-la puxado e impedido o acidente. Gostei muito!

    Boa Sorte!!

  24. Angélica Vianna
    20 de setembro de 2014
    Avatar de Angélica Vianna

    Adorei o conto, o tom lirico utilizado e apesar de ser um conto de romance não foi tão previsível e os personagens foram retratados de maneira diferente da esperada e com características interessantes , gostei da estrutura e da forma simples da escrita. Boa sorte!

  25. José Leonardo
    19 de setembro de 2014
    Avatar de José Leonardo

    Olá, autor(a).

    Há de se elogiar a verve de quem compôs essa história. Realmente mostra alguém capaz de escrever um romance sem dificuldades. Erros gramaticais e ortográficos vi pouquíssimos, praticamente imperceptíveis. Eu fundiria a primeira parte ao final para não antecipar o desfecho da narrativa (talvez até terminado o conto com aquela parte), mas está de bom tamanho. A “participação” da música (o teor percebido) também está num nível que me agrada.

    Entretanto, os diálogos, apesar de espontâneos, deixaram a desejar (sobretudo na parte entre Bonifácio e Vitinho — creio que poderia ser um colóquio mais denso, estendido, e que deixasse os sentimentos do protagonista “em carne viva”, algo a nível do choque proporcionado por uma morte). A parte “Com ela.” a meu ver é mais “fraca” se comparada às demais; há expressões ali (quatro primeiros parágrafos) que não gostei, principalmente do trecho: “Se pedissem a Vitor uma definição, ele decerto diria que a mesma surgira de uma pintura: as incontáveis sardas no rosto simétrico se assemelhavam a respingos de tinta”.
    Como comentei em outro conto, talvez me falte sensibilidade o suficiente para apreciar seu texto no máximo potencial que ele deva oferecer. Histórias de amor (ainda que um tanto trágicas) são quase o oposto do que gosto de ler. Por isso, embora respeite o sentimento que se desprendeu daqui, seu conto não conseguiu me conquistar.
    Tenho certeza que conquistará a outros e que já está.

    Boa sorte.

  26. Rogério Moraes Sikora
    18 de setembro de 2014
    Avatar de Rogério Moraes Sikora

    Muito bom. Gostei mesmo. Um texto carregado de lirismo. Narrativa fluente, enredo verossímil. Personagens cativantes. Ótimo conto. Parabéns e boa sorte!

  27. Davi Mayer
    17 de setembro de 2014
    Avatar de Davi Mayer

    O que gostei:
    A narrativa, o estilo literário e o talento do autor.

    O que não gostei:
    Trama um pouco batida de amor estilo Está escrito nas estrelas.

    O que precisa ser melhorado:
    Inovar, deixar a trama com um pouco de reviravoltas.

  28. fmoline
    15 de setembro de 2014
    Avatar de fmoline

    Olá,

    Uma breve história de amor entre dois jovens… Nossa, como eu odeio romances (não o estilo literário), são sempre escritos iguais, entende? Esse é extamente o ponto, o autor conseguiu escrever de uma maneira diferente! Isso, sim, é o máximo, é a qualidade do texto! Cara, você escreve muito bem, mesmo. Muita maturidade, muito conteudo, muito bacana! Nossa, conseguiu aproveitar o melhor de um amor juvenil. Me surpreendi gostando tanto dessa história.

    Parabéns! Um dos melhores. Meus maiores cumprimetos.

  29. José Geraldo Gouvêa
    15 de setembro de 2014
    Avatar de José Geraldo Gouvêa

    Que conto bacana! Merecedor de muito elogio. Tem uma dicção parecida com a do Érico Veríssimo jovem (Olhai os Lírios do Campo, um de meus livros de cabeceira).

    Não há muito que dizer sobre um texto desse calibre, que revela toda a maturidade do autor.

  30. Andréa Berger
    14 de setembro de 2014
    Avatar de Andréa Berger

    Adorei o conto. As referências à Machado desfizeram qualquer implicância que eu geralmente tenho com histórias de romance (Marcela, minha personagem preferida de Machado, os olhos, a passagem de lavar os cabelos… senti vontade de reler todos os livros dele). Sua história caminha lindamente com a música escolhida, e adorei o lirismo de sua prosa. Só fica a dica (já dita em vários comentários) de melhorar um pouco seus diálogos e expandir um pouco seu personagem principal (aí entra mais uma questão de conexão, não senti nada por ele, entretanto, estava encantada com Marcela).
    Um abraço e boa sorte.

  31. Leandro Cefali
    14 de setembro de 2014
    Avatar de Leandro Cefali

    Boa narrativa e momentos emotivos, mas romance sempre ficou a desejar pra mim….

  32. Klaus
    12 de setembro de 2014
    Avatar de Klaus

    Olá. Agradeço de coração cada crítica/dica/feedback. 😉

    Tenho uma dificuldade imensa em produzir diálogos e tentarei acertar isso num próximo desafio.

    Aproveito o espaço para fazer a correção de uma passagem presente no segundo capítulo: “revisar lição de ESCOLA todas as tardes”.
    Escola e colégio são tratados como sinônimos aqui onde moro, mas sei que para algumas pessoas o primeiro engloba apenas ensino fundamental e o segundo compreende o que chamamos de ensino médio (ou colegial). Salientei para evitar qualquer confusão quanto à trajetória etária do protagonista no capítulo em questão.

  33. Brian Oliveira Lancaster
    12 de setembro de 2014
    Avatar de Victor O. de Faria

    Uma história que se passa no Sul! O tom intimista e meigo me fez criar empatia imediata com o garoto, através de sua jornada. E o loop do meio para o fim foi triste, melancólico e certeiro! No entanto, talvez tenha faltado um pouco mais da letra, mas a essência se faz muito presente. Um ou dois palavrões não fecharam muito com o personagem. Mas curti e muito. (Observação impertinente: pessoas com nome Vitor ou Victor detestam ser chamados de “Vitinho”).

  34. Lucimar Simon
    11 de setembro de 2014
    Avatar de Lucimar Simon

    Um ótimo conto. Gostei muito da narrativa. Bem escrito, sem erros grosseiros. Os hipertextos ficaram bem colocados. Pensar isso em uma produção textual é uma mostra de domínio de produção. As personagens estão muito bem construídas. Particularmente não me agrada um conto que tem muitos diálogos. prefiro os que não tem. Se eu fosse especialista como muitos que tem passado por aqui diria que ficou muito longo, mas isso não deixou prejuízos a narrativa, apenas cansa o leitor um pouco. Parabéns. Boa sorte.

  35. Rubem Cabral
    11 de setembro de 2014
    Avatar de Rubem Cabral

    Ótimo conto: personagens palpáveis e muito vivos, que geram empatia imediata (impossível não gostar da menina sardenta e trapalhona). Narração rica – sem excessos -, com poesia e metáforas na medida certa.

    Como crítica construtiva, sugeriria dar uma olhada rápida em alguns dos diálogos, que não ficaram sempre naturais.

    Minha outra crítica – pequena, pequena – seria quanto à trama: bonita, porém bem simples.

    Contudo, como disse, gostei bastante, parabéns.

  36. JC Lemos
    10 de setembro de 2014
    Avatar de JC Lemos

    Impecável!

    Não sou pessoa de romances, mas o seu conto, meu caro autor… arrastou-me para a pele de Vitor Hugo, e me fez sentir seus anseios. Fez-me pensar em como seria o futuro sem a pessoa que amo, que tenho ao meu lado, dividindo meus sonhos…

    Não tenho muito mais o que dizer. Seu conto me tocou, e fiquei feliz por ter lido algo tão bem tecido. E mais feliz ainda por ser um texto que não se encaixa em meus gostos.

    Sem sombra de dúvidas, das 9 edições que participei, essa está sendo a melhor.

    Meus sinceros parabéns!
    Boa sorte!

  37. Fabio Baptista
    10 de setembro de 2014
    Avatar de Fabio Baptista

    ====== ANÁLISE TÉCNICA

    Muito pouco a se falar aqui. O nível da escrita é excelente.

    – Ele tinha
    >>> Não chega a ser uma cacofonia… mas costumo evitar.

    – ela tinha
    >>> aqui sim… cacofonia

    – “– Já tá fazendo. – ela riu”
    >>> Esse “ela” deveria começar com maiúscula.

    ====== ANÁLISE DA TRAMA

    Existe um enredo, claro… um bom enredo aliás.
    Os personagens são cativantes, os sentimentos são palpáveis.

    Cheguei ter um flashback de emoções reais com a cena do chuveiro… enfim, tudo aqui é bastante verossímil.

    Porém, essa história implorava por um desenvolvimento que iria muito além das 4.000 palavras.

    Não ficaram pontas soltas, mas por exemplo:
    “Prometeu enfrentar o tio e sair daquela casa que tanto o assustava”

    Nesse momento eu não estava com o sentimento que a casa assustava tanto assim o Vitinho. Talvez até tenha sido falado no começo, mas esse é o tipo de coisa que exige mais tempo para o leitor assimilar.

    ====== SUGESTÕES

    Pegar essa belíssima narrativa e escrever um romance!

    ====== AVALIAÇÃO

    Técnica: *****
    Trama: ***
    Impacto: ****

  38. Gabriela Correa
    10 de setembro de 2014
    Avatar de Gabriela Correa

    O lirismo de sua escrita me evocou o lirismo da própria canção. Doce e melancólico. Senti, além da já citada referência ao universo machadiano, um quê do meu ídolo Guimarães Rosa no tocante à travessia – sobretudo pela frase final, que me evocou a que encerra Grande Sertão: Veredas. Belo enredo, com um desfecho igualmente bonito e delicadamente descrito. Gostei de sua construção de personagem também. Seu conto é uma delícia de se ler! Parabéns e boa sorte!

  39. mariasantino1
    10 de setembro de 2014
    Avatar de mariasantino1

    Oi, autor! Beleza?

    Gostei de muitas passagens do conto, da referência ao Dom Casmurro e da canção escolhida. Você repassou uma timidez e beleza similar ao Memória de um Sargento de Milicias quando o Vitinho vai conhecer a Marcela (é parecido, para mim, com o contato do personagem do livro ao conhecer a Luisinha). Tem beleza e tragédia. Parabéns pela boa escrita (acho até que as cacofonias e repetições de “ela”, foram propositais)
    Não sei se você conhece, mas há um conto (novelinha, na verdade) excelente de um autor chamado Theodor Storm (aliás, esse autor tem um conto de terror sobre gatos que PUTZ! Bom, viu?), o conto a que me refiro chama-se: IMMENSEE. Nele há doses certeiras de descrições (sente-se até o cheiro e temperatura), aflição e o melhor, melancolia pulsante. Se você não leu e se gosta de romances assim, melancólicos, leia, vai gostar.

    Boa sorte, desculpe o divagar e um abração.

  40. Claudia Roberta Angst
    10 de setembro de 2014
    Avatar de Claudia Roberta Angst

    Que beleza! Um conto que me deu vontade de chamar de meu.
    Linda história, linguagem adorável (ahah… nós e a prosa poética), personagens bem caracterizadas.
    Já estava imaginando um romance entre o tio e D. Carminha. Não seria fofo?
    Percebi nuances de Dom Casmurro: Vitinho (Bentinho) e “(…) não de cigana oblíqua e dissimulada como no livro que exibia em sua cabeceira.” Claro que Marcela seria o oposto de Capitu.
    Enfim, achei a leitura deliciosa. Apenas o último diálogo de Vitinho com o tio achei um tanto forçado e rebuscado para o momento retratado.
    Só me resta lhe dar os parabéns e desejar boa sorte (mais?). 🙂

  41. Anorkinda Neide
    10 de setembro de 2014
    Avatar de Anorkinda Neide

    Que espetáculo! Parabéns!
    Eu já queria vir comentar antes mesmo de terminar a leitura, quando em meio aos primeiros parágrafos, identifiquei a música… que suave, que delícia ir pincelando assim, de leve, a letra tão pulsante deste clássico. E esta canção em específico é tão importante pra mim e pra boa parte dos brasileiros.. rsrsrs
    Decepcionei-me um pouco com os diálogos,não estão bons.
    Mas a historia é linda e terminei chorando, de verdade.. chorando bem chorado! que gostoso! hehehe
    Obrigada!

  42. Lucas Rezende
    9 de setembro de 2014
    Avatar de Lucas Rezende

    Eu que não gosto de histórias de amor fiquei triste moça.
    Gostei como você separou a história, ficou muito bem construída. Também desenvolveu legal os personagens, não tem como não se afeiçoar a eles.
    Ótimo trabalho.
    Boa sorte 😉

E Então? O que achou?

Informação

Publicado às 9 de setembro de 2014 por em Contos Campeões, Música e marcado .