EntreContos

Detox Literário.

Saci (Marcelo Porto)

saci

 

– Nóis já passou por aqui, Bentinho… – Tião Mateiro evita me olhar, ele finca o facão no grande tronco caído à nossa frente, sem conseguir evitar o profundo suspiro de desanimo, perscrutando a mata fechada.

– Vamos por aquela trilha, Tião. – indico o caminho que se abre à direita.

– Já passamo por ali… O mardito tá inganando a gente, ele tá na ispreita de nóis! – O velho peão se vira e me encara carrancudo.

Os rugas na testa são profundas, resultado dos anos de labuta. As sobrancelhas desgrenhadas molduram os olhos com as íris marcadas pela catarata. A barba branca, manchada pelo fumo de mascar, contrasta com a pele preta e cheia de vincos, o chapéu de palha completa a imagem do preto velho. Apesar de já ter passado dos sessenta, ainda preserva o corpo rígido e forte, resultado da genética privilegiada.

Um assovio sibilante corta o silêncio opressor que emudeceu a mata desde quando entramos, na desesperada busca pelo meu filho.

– É o coisa ruim! – os olhos do mateiro se enchem de pavor. – Isso num é passarinho, é o dianho do tiziu!

A luminosidade denuncia o entardecer, em breve será noite de Sexta-Feira Santa e aqui deveria ser o último lugar onde estar. Nossas roupas estão impregnadas de sangue, estamos fedendo a morte, já perdemos toda a comitiva, só restaram nós dois. A mata cresce opressora ao nosso redor, as árvores se fecham sobre as nossas cabeças e não deixa nos orientar pelo sol ou estrelas. Meu externo dói com a pulsação desesperada do coração, não sei quanto tempo mais aguentarei essa agonia.

Sempre achei que os causos do meu avô eram lendas ou estórias para assustar crianças. Agora sei que eram as mais pura das verdades.

Diferente dos contos da carochinha, o meu avô Bento, de quem herdei o nome, sempre pesou a mão nos detalhes aterrorizantes, sempre nos advertiu dos perigos da mata, naturais e sobrenaturais. Para ele as entidades do mato eram demônios, produto do sofrimento dos índios e escravos nos tempos da colonização, conjurados pelos oprimidos e esquecidos pelo inferno.

Esquadrinho o matagal apertando o punho do meu facão, o fedor de enxofre fere as minhas narinas, tenho a impressão de ver labaredas em forma de olhos nos observando por entre os arbustos, nos cercando, se movimentando a uma velocidade sobrenatural.

Tião Mateiro também percebe, ele puxa para fora da camisa encharcada de suor o rosário feito de capim santo e dentes de alho, que traz pendurado no pescoço. Com as mãos em posição de oração, pressiona o terço improvisado e começa a sussurrar uma reza ancestral.

– Tá cum medo Preto Veio?! – uma voz maligna preenche o ambiente, como se a mata estivesse possuída e falasse conosco. Tião se ajoelha, enquanto repete o sinal da cruz de forma ininterrupta.

– Vosmecê parece cum seu fio…  – a vegetação me oprime, a aflição de saber que meu filho está em poder deste demônio é abominável.  – Viero atrás dele? Rririri… Num sabe nem onde tão… Ririri….

– Por favor, deixe o meu filho em paz! Não ele não tem nada a ver com isso! – suplico para a mata que se fecha, nos sufocando.

– Como num tem?! Riririri…

– Deixa meu filho ir embora, eu te suplico! É uma criancinha, não tem culpa das atitudes do meu avô!

– Nhô Bento… Era ele que eu quiria! 

O fedor aumenta, uma nevoa escura começa a invadir a clareira emanando da vegetação ao redor. Ouço um casco batendo contra o chão, saltando firmemente, aproximando-se de nós.

– Me leva no lugar do meu filho!

– Num percisa pedi…Num vô deixá ninhum de sua raça pra vim atrás de mim de novo!

Tião se levanta e risca no chão de terra batida, um círculo ao nosso redor. Retira rapidamente da bolsa várias cabeças de alho e as espalha aos nossos pés, enquanto entoa a sua prece, criando uma barreira invisível entre nós e a estranha nevoa que já domina toda a clareira.

– Vosmecê e suas mandinga, Preto Veio… – a voz reverbera de todo lado, carregada de sarcasmo. – Da urtima vez vosmecê inda era novinho, e pelo jeito, inda continua lambeno as bota dos sinhozinho…

Tião corta alguns pedaços de fumo de rolo e os lança para dentro do denso nevoeiro negro, que encobre toda a nossa visão.

– Num ache que uns presentinho vai fazer eu isquecê vosmecê!

A nevoa espessa começa a se aglomerar na nossa frente, tomando a forma de um vulto com quase dois metros. Onde deveriam estar os olhos, surgem dois buracos em brasa, por trás da cortina diáfana identifico um cachimbo, preso por entre presas afiadíssimas, numa bocarra aterrorizante. A fumaça começa a se dissipar por baixo, deixando ver um casco grotesco, bifurcado, encimado por pelos negros e grossos, com uma espora afiadíssima, imunda de sangue, se projetando onde deveria estar o calcanhar bizarro.

Tião aumenta o tom da reza e antes de se tornar totalmente visível, a entidade começa a se dissolver na nevoa, que volta a se espalhar em direção às entranhas da mata.

– Por favor, liberta o meu filho! Me leva no lugar dele! – imploro.

– Riririri… – a risada tétrica reverbera da mata. – O que isso te lembra, Preto Veio?!

Tião me encara assustado.

– Dessa vez num vai sobrá ninguém pra vortá…

– Ocê num se atreva! – o velho interrompe a reza e grita raivoso.

– Mermo dispois dessa famia te iscunjurá, vosmecê inda defende eles?!

– A culpa é docê! Ocê qui disgraçou cum a minha vida! – o velho mateiro tira da bolsa um emaranhado de palha seca trançada, começa a dar muitos nós e a corta-la em vários pedaços. – Seu coisa ruim dos inferno, ocê nunca divia de tê saído do lado do capeta!!

Tião joga os pedaços das palhas trançadas ao nosso redor, o mesmo par de olhos ardentes surge à nossa frente por entre a vegetação densa.

– Irrrrc! A sua paia vai acabá… E seu sussêgo tomém!

Subitamente um redemoinho é formado onde se encontravam os olhos macabros e adentra à clareira, levantando poeira e sugando todas as tranças lançadas pelo mateiro, se afastando rapidamente em direção à mata fechada. Instintivamente corro na direção do vento, Tião me impede no ato, segurando o meu braço de modo brusco.

O hálito de fumo mascado se mistura ao odor do enxofre que domina o ar, dificultando ainda mais a minha respiração, quando, num estranho silêncio, o velho me força a encará-lo e coloca no meu pescoço o terço que carregava pendurado, deixando-nos frente à frente, envolvidos pelo estranho ritual, no centro do círculo cheio de cabeças de alho.

O coisa ruim foi disfazê os nó… ––murmura como se tentasse nos esconder dos olhos e ouvidos da mata. – Se quizé pegá aquele pixuna, temo que incontrá a toca dele. – penso em me desvencilhar daquele laço ridículo, mas a prudência me impede.

– Ele está com o meu filho!

– O minino deve de tá perdido na mata, o mardito num pode fazê mal a criança batizada. O jeito de arresolvê esse perrengue é prendendo o tiziu de novo!

– Essa é segunda noite que ele tá perdido! Ele pode ter se acidentado, deve tá com sede e fome!! Se a gente não encontra-lo logo…

– Se acarme, Bentinho! Inquanto o coisa ruim tivé sorto, nóis num vamo cunsegui achá o seu fio… Temo que achá a toca do peste!

– Eu vou matar aquele filho da puta!

– Num se mata esse bicho, o único jeito é prendê ele de novo! – Tião retira da bolsa uma garrafa velha e me encara, sem disfarçar o olhar de censura.

Maldita garrafa.

O meu avô sempre evitou que nos aproximasse do oratório da Nossa Senhora, onde todo mundo desconfiava que era onde ele escondia a garrafa do saci. O oratório ficava na capelinha construída atrás da sede da fazenda e só ele tinha a chave.

A pequena igreja foi construída logo após a morte do meu pai, o que tornou o vô Bento numa pessoa melancólica e solitária. Só ele frequentava a capela, mandou plantar ao redor diversas ervas medicinais, sendo a principal o capim cidreira, também chamado de capim santo.

Eu ainda era um bebê quando o meu avô a construiu, cresci órfão de pai, vendo o velho murchar, cuidando da pequena igreja como se ali estivesse a porta do inferno. Fazendo-nos temer aquele lugar, tornando-o território proibido. Com o tempo a fama de mal assombrada ajudou a afastar-nos.

Até a sua morte.

– Ocê num divia de tê tirado a garrafa da igrejinha… – Tião lê os meus pensamentos, enquanto recolhe as cabeças de alho do chão. – Tu divia de tê respeitado as ordi do teu vô e deixá aquele lugá mardito lacrado!

– Eu achava que era superstição… – lamento sem conseguir sustentar o olhar do peão. – Como eu poderia supor que tudo que ele contava era real?

– O mizerento istragou cum a vida do pobre, Nhô Bento num quiria cocê tomém penasse… – o mateiro segura o meu ombro, forçando-me a encará-lo.

– Porquê meu avô tinha um demônio preso em casa?!

– Era o jeito que ele tinha de protegê o que restou da famia! Dispois que seu pai…– os olhos de Tião revelam o pesar.

– Foi por causa da morte do meu pai que ele prendeu o saci?! – as feições amargas do velho me respondem afirmativamente. – O saci matou o meu pai!! – deduzo, sentindo a fúria me sufocar.

– O coisa ruim levou seu pai pra mata… – Tião baixa as vistas sem conseguir me encarar. – Eu e Nhô Bento fomo atrás… Mas a gente num cunsiguiu  sarvá o coitado… –sinto as mãos firmes do velho pressionarem os meus ombros, enquanto ele sofre com as lembranças. – Tá acunteceno tudo de novo! – O mateiro volta a me encarar com os olhos marejados. – Sua vó nunca me perduô…

A figura amargurada de minha avó invade a minha mente, ela odeia o Tião, além da morte do seu único filho, ela também o julga culpado pelo comportamento desequilibrado do meu avô desde o fatídico dia. Ela sempre foi cética quanto à história contada e o acusa de utilizar as crendices do Nhô Bento para encobrir a sua responsabilidade.

– Eu e seu pai era como irmão, crescemo junto… – o mateiro não sustenta as lágrimas. – Nhô Bento fazia gosto na nossa amizade e inté a sua vó gostava de mim… Se eu num tivesse incasquetado em ir pra quermesse, seu pai tinha aquetado o facho tomém…

A Semana Santa sempre foi uma tortura para a família, perder o filho único numa data tão marcante, é ainda mais dolorido. Como único neto recebi a herança maldita e me obrigo a todos os anos passar a data sofrida ao lado deles.

Sexta-feira Santa era o único dia do ano em que minha vó permitia a aproximação de Tião da sede da fazenda, época em que ele e o meu avô reforçavam a plantação de ervas ao redor da igrejinha, rezavam e faziam rituais durante toda a noite, ocasião em que a vó remoía o seu rancor, relembrando as dores do dia da morte do meu pai e amaldiçoava o mateiro por não deixar que as lembranças amargas se atenuarem.

– Inté aquele dia sua famia era filiz. – Tião baixa os olhos tristes. – Ocê inda era minino de leite e eu num quiria ir sozinho pra festança… Mermo co sua vó recramano pra gente aquetá o facho… Seu pai sabia que eu tinha uma namoradinha na vila e queria me ajudá. Foi naquela noite que a disgraçera aconteceu.

Tião perscruta a mata ao nosso redor e apura os ouvidos.

– O coisa ruim foi pra longe… – diz enquanto retira outro terço de alho da bolsa e coloca no próprio pescoço.

O preço por relembrar o passado também é alto para o peão, ele aproveita o retorno dos sons da mata para se afastar de mim e das memórias dolorosas.

A luz prateada da lua nova passa pela copa das árvores e as trilhas de terra batida parecem brilhar, se destacando na escuridão aterrorizante às suas margens.

– Vamo pro ribeirão… O mardito tem medo de água corrente e de lá nóis pode se situá mió.

Sigo o mateiro observando as costas daquele homem sofrido, que pena nas mãos da minha avó por anos a fio, sempre numa atitude subserviente e triste, e que hoje, paradoxalmente, demonstra uma firmeza e liderança que eu nunca imaginaria.

– Como vamos chegar na toca do saci, Tião?

– Se eu bem me lembro ela ficava dispois da cachoeira do ribeirão… No samambaial da mata.

– Meu avô sempre me disse pra ficar longe dali! – sinto os pelos da nuca eriçarem, lembrando da última regra que quebrei.

– Nhô Bento tinha razão… Foi lá que nóis pegô o peste! Ele faz a toca debaixo da frô da samambaia…

– Nunca vi uma flor de samambaia… Não sabia que existia.

– Nunca ninguém viu essa frô, o bicho num deixa ninguém chegá perto dela… Dize que o homi que tivé uma frô dessa, pode tê carqué coisa que quisé. – o mateiro se vira e me encara. – É só uma pro samambaial intêro e ela só abre na meia noite da Sexta-Feira Santa!

Aprendi da pior forma a não desconfiar das crendices do interior, não sei onde termina a lenda e começa a verdade, resolvo me calar e sigo em silêncio o caminho trilhado pelo mateiro, que dá o assunto como encerrado e se desloca rapidamente à minha frente.

A lua nos observa no firmamento sem nuvens e repleto de estrelas, o som das águas e a sinfonia dos animais noturnos nos dão a certeza de que o saci não está por perto, Tião nos guia contra a corrente do riacho caudaloso.

– Quando nóis chegá no samambaial, o coisa ruim vai aparecê… – Tião tira da bolsa duas pequenas peneiras feitas de palha e me entrega uma, eu a prendo no cinto. – Eu vô jogá pra ele as trança de novo e quando ele virá redemoinho pra pegá elas, ocê joga essa penera em cima do vento.

– Porque você não fez isso lá na clareira?

– Porquê pra pegá o bicho nóis num pode de tá protegido… E precisamos da paia do samambaial prá dá três nó em vorta da garrafa que nóis vai prendê o peste!

Um arrepio de terror percorre a minha espinha, lembro dos corpos dos outros componentes da comitiva, todos destroçados pelo saci, enquanto olho para a rolha com uma cruz desenhada que fecha a garrafa nas mãos de Tião.

O ruído da cachoeira me desperta. Depois de subir pelas pedras repletas de limo chegamos ao alto da colina, de onde, sob a luz do luar, vemos parte da imensa propriedade que herdei.

Tião me olha e sinaliza que teremos que sair da segurança da beira do rio. Engulo seco e o sigo para dentro da mata.

O samambaial é imenso, o silencio opressor e a escuridão cerrada denunciam que estamos novamente sob o domínio do saci. As lanternas quase não iluminam o caminho, a nevoa escura é tão espessa que mal conseguimos enxergar um ao outro.

À medida em que nos embrenhamos no samambaial me sinto cada vez mais perdido, as folhas densas e cada vez maiores nos cercam com mais intensidade a cada passo.

– Ririri… – o som medonho nos faz estancar imediatamente. – Preto Veio, vosmecê acha que eu sô a mula sem cabeça?!   

Tião se volta e me encara com o pavor estampado na face.

– E o sinhozinho? Nunca acreditô nos causos do seu vô e agora arresorveu virá caçadô de saci…

Inesperadamente sou envolvido pelas imensas línguas de folhas de samambaia e arrastado para trás. A nevoa se adensa e a luz da lanterna de Tião some da minha vista.

Estou sozinho.

Insisto em ir para a frente mas a densa folhagem me impede. Sem ter como me situar caminho desesperado até que me vejo completamente só e perdido no meio da vegetação espessa e úmida, a luz da minha lanterna se resume à minha face, a lua sumiu e a sensação de desespero faz a minha garganta travar.

– O Preto Veio matô o seu pai e o seu avô e agora vai matá vosmecê…

Meu coração dispara, sem a proteção de Tião sou um alvo fácil. Com o facão em mãos começo a golpear a vegetação que se repõe a cada golpe, tento avançar mas as samambaias me desnorteiam e me levam para a direção que querem, até que me entrego ao cansaço, sentindo a angústia de não ter conseguido salvar vida do meu filho.

A escuridão se adensa, a nevoa negra me oprime, fazendo a luminosidade da minha lanterna sumir, mesmo ligada. Sinto a maldade se tornar palpável, junto com o fedor de enxofre, o peso do ar se torna insustentável, me fazendo vergar.

Solto a lanterna e o facão e caio ajoelhado com a cabeça baixa, devido ao peso insuportável nos ombros. Percebo a luminosidade da lua voltar, junto com a aparição que começa a se materializar à minha frente.

O casco bifurcado surge, junto uma única perna, peluda e musculosa. A espora impregnada de sangue coagulado se destaca sob a luz do luar, levanto a vista e vislumbro a coisa mais aterrorizante já que vi na vida. Um monstro com quase dois metros de altura, os pelos da perna cobrem até a altura da cintura da criatura, encimada por um tronco grotesco, coberto de escamas da cor de carvão, os braços longos são terminados com mãos desproporcionais, com um estranho buraco na palma e garras letais, na bocarra cheia de presas pende um cachimbo fumacento, os olhos em brasas incendeiam, iluminando a face reptiliana e alongada. No topo da cabeça um chifre cresce longo e pontiagudo, num tom avermelhado intenso.

Sinto a minha carne queimar quando sou içado pelas axilas e forçado a encarar a monstruosidade de frente. 

– No seu fio eu num posso pegá… Mas vosmecê nada me impede… Riririri a quantidade de dentes naquela boca é inacreditável, as garras afiadas penetram nas minhas costas dolorosamente, quando sou erguido e forçado a encarar a besta, o fedor de fumo misturado com enxofre é insuportável. – O cheiro do seu sangue é igual ao do sinhozinho seu pai… – O saci aproxima as fendas disformes do meu rosto e suga o meu cheiro.

A brasa do cachimbo toca a minha bochecha e queima a minha carne dolorosamente, a dor me faz lembrar do meu filho, sozinho e perdido na mata à mercê do monstro. Penso nos meus avós, lembro do desgosto pela vida que se abateu sobre eles, por causa desse demônio, tento lembrar da face do meu pai, que nunca conheci.

Sentindo minha carne rasgar, suspenso pelas garras afiadas, instintivamente arranco o cachimbo da boca da fera, tentando diminuir um pouco da dor que arde na minha bochecha.

Surpreso pela reação, a besta afasta bocarra ameaçadora e grita enfurecido.

– Me devorve meu pito!! – sinto as garras penetrarem ainda mais nas minhas costas. – Devorve meu pito!!

A trava diminui e caio no chão duro, a luz da lua parece se tornar mais brilhante, o facho da lanterna irradia no chão irregular. Os olhos fumegantes do demônio demonstram algum tipo de temor, sem pensar, arranco o terço que o Tião me deu e o enrolo no cachimbo do maldito.

– Vosmecê me devorve meu pito… – o tom ameaçador não combina com as feições e as atitudes do saci.

Com o sangue escorrendo pelas costas me levanto e encaro a besta, que parece diminuir a olhos vistos.

– Devorve o pito que devorvo seu fio! – a voz do demônio se torna menos gutural e ele começa a tomar a forma de um moleque negro capenga. – Se vosmecê num me devorvê meu pito, nunca que vai vê seu fio de novo… – as presas amareladas mal cabem na boca do negrinho com a carapuça vermelha e nu em pelo.

– Primeiro você me entrega meu filho… – mostro o cachimbo enrolado com o rosário de Tião, o demônio parece sentir dor com a visão. – Quando ele estiver comigo, te devolvo o cachimbo!

– Vosmecê tá mintino… Vosmecê acha que podi me inganá? – os olhos em brasa se dirigem para a minha cintura, na direção da pequena peneira que Tião me deu. – Vosmecê tá nas minha terra, essas mandiga do Preto Veio num funciona aqui…

– Então venha pegar o seu cachimbo! – arrisco.

– Vosmecê tem que me dá o pito… Senão seu fio morre!

– Se alguma coisa acontecer com ele você nunca mais terá o seu cachimbo de volta!!

Os braseiros da face do saci se enchem de raiva, o vermelho vivo dos olhos demonstram a ira incontida da besta.

– Vosmecê vai pagá, a sua raça toda vai pagá!!

Com um assovio cortante, a estranha figura começa a girar e some dentro de um redemoinho, e antes que eu consiga pegar a minha peneira ele desaparece samambaial adentro, deixando uma trilha aberta, à luz do luar.

– Tião, Tião!! – grito pelo mateiro, sentindo-me solitário e apreensivo quanto a seguir a trilha deixada pelo demônio. O silêncio é opressivo, as grandes folhas de samambaia parecem me guiar na direção do saci.

Sem alternativa, pego a lanterna na mão esquerda, mantendo o cachimbo firme na outra mão e sigo a trilha aberta. À medida em que avanço, a vegetação se fecha às minhas costas, lembro das palavras do meu avô, onde ele dizia que o saci é o mestre das mentiras, de como ele induz os homens a se embrenharem cada vez mais nas matas, até que não haja mais retorno.

O bolo na garganta aumenta ao imaginar o meu filhinho na mesma situação, sem alternativa e seguindo o caminho traçado pela besta, sem esperanças e com o destino traçado pela desgraça.

Acompanhado pela lua, chego numa pequena clareira. O emaranhado de samambaias se tornam raízes expostas que deslizam pelo chão, até formarem um toca no centro do local.

Ilumino a entrada com a certeza de que aquele é o covil do demônio.

Procuro o facão e percebo que o deixei para trás, busco o caminho pelo qual cheguei e não consigo identificar por onde trilhei, na clareira diversas trilhas se abrem ao meu redor.

Ao me aproximar da entrada da toca, vejo que se trata de uma caverna que cresce por baixo da terra, coberta de raízes e pedras pontiagudas. Me forço a entrar, apesar de todos meus os sentidos gritarem para eu sumir daqui.

O facho de luz da lanterna diminui sensivelmente dentro do buraco, caminho com dificuldade por causa do chão irregular, passo a mão pela cintura e me assusto com o fato de ter perdido também a peneira que Tião me dera. Olho para trás e sei que não a encontrarei novamente.

Aperto o cachimbo fedorento e sigo em frente tentando controlar o pavor, que insiste em me dominar.

Depois de algum tempo chego num grande salão de pedra, as raízes sustentam o teto criando uma estranha abóboda natural, de onde, do centro desce uma coluna de folhas gigantescas de samambaia, finalizadas por um bulbo pulsante que emite uma luminosidade etérea.

No primeiro passo ao adentrar o salão, sinto o peso da maldade que domina o local. A nevoa negra desce das raízes, forrando o chão do salão, o facho de luz da lanterna se apaga e eu vergo ante o peso descomunal.

Sem ação, sinto os meus dedos serem esmagados, me forçando a largar a minha única esperança de salvação, enquanto o cachimbo é elevado sobrenaturalmente, a fumaça se condensa, formando o demônio de uma perna só com o chifre descomunal no topo da cabeça.

– Vosmecê foi avisado que aqui é minhas terra! – a besta pega o cachimbo e destroça o terço de capim santo e alho. – Aqui dentro as mandinga do Preto Veio num funciona…

A bocarra cheia de presas se abre e o demônio prende o cachimbo no canto dos lábios grotescos. A baforada no fumo catinguento o faz crescer ainda mais.

Levanto com dificuldade e me vejo totalmente à mercê do monstro, sem Tião e dentro do covil sou uma presa fácil. Sem pensar tento correr para o lado, o saci desaparece de onde estava e no mesmo momento surge na minha frente, antes que possa esboçar qualquer reação sinto o golpe poderoso na face, que me projeta contra a parede dura de pedra.

A dor da queda é pior que a do golpe, as pontas irregulares do chão ferem as minhas costas e o sangue escorre pelo nariz quebrado.

– Aqui dentro os preceito são feitos por mim… Vosmecê divia de tê aceitado a troca! – sou suspenso pelas garras poderosas. – O seu minino pelos ano que o Nhô Bento tirou de mim!

Sou jogado novamente para longe, o impacto na parede rígida quebra algumas costelas, a dor lancinante me faz gritar, sinto o pulmão arder, o sangue na boca denuncia a perfuração do órgão. Antes de cair no solo, o casco bifurcado surge na minha frente, dominando todo o meu campo de visão, a espora ameaçadora está a poucos centímetros do meu pescoço. Agonizando e sofrendo pela impotência em salvar o meu filho, espero o golpe derradeiro.

Subitamente uma luz amarelada ofusca as minhas vistas, a besta se vira e contempla a flor que começa a desabrochar do bulbo no centro do salão de pedra.

A flor de samambaia.

Como se estivesse hipnotizado, o saci me deixa para morrer e salta em direção ao vegetal.

As imensas pétalas amarelas se abrem delicadamente, com manchas avermelhadas em direção ao centro, de onde saem diversos filetes que emanam uma luz inebriante. Diante de tal espetáculo, por um segundo esqueço a dor e o sofrimento e me vejo também hipnotizado por tamanha beleza. A grandiosidade do evento, faz o demônio se curvar para esperar o seu ápice.

Uma onda de dor me faz golfar uma grande quantidade de sangue coagulado, as costelas quebradas cravam cada vez mais fundo no meu pulmão, a laceração me faz contorcer com o tormento da morte, o ar começar a faltar e o ato de respirar se torna um suplício.

Ao me contorcer vejo um vulto se deslocando pela lateral do salão, a besta não o nota, de tão extasiada com o desabrochar da flor de samambaia.

Tião Mateiro também está aqui.

Quero me entregar aos braços da morte, o sofrimento é desumano. Meu olhar se cruza com o de Tião, a tristeza do peão traduz o meu estado, o demônio ainda não percebeu a sua presença. Tento sinalizar para o Mateiro de que não adianta, para ele ir embora e salvar a própria vida. O velho finge não me entender e se posiciona na parede logo atrás do saci.

Um passo em falso e a besta percebe a sua presença.

O demônio se vira e se depara com Tião.

– Vosmecê divia de tê fugido quando dexei, Preto Veio!!

As feições do demônio se tornam ainda mais terríveis, os olhos viram labaredas incandescentes, o chifre se torna de um vermelho abrasante, as garras crescem e se transformam lâminas mortais. O ruído dos pulos do saci trepidam as paredes, os urros do de ódio fazem os tímpanos sangrarem

– Ocê é uma cria dos inferno!! – Tião berra enquanto pega uma pequena imagem da Nossa Senhora Aparecida da bolsa.  – Eu vô te manda de vorta!!

A pancada projetou Tião para próximo de mim.

– Aqui suas mandinga num funciona, Preto Veio… Vosmecê vai morrê igual ao seu sinhozinho!

Tião me olha sem acreditar, tento gritar mas o sangue impede e sufoco mais uma vez. O barulho ensurdecedor dos cascos contra a pedra nos fazem virar e ver que o demônio está sobre nós. O saci crava as garras afiadas no peito do velho e o lança para longe, urrando como uma fera ensandecida.

Tião cai aos pés da flor de samambaia.

A feição da besta se altera, em meio a agonia percebo que o Mateiro também viu a hesitação do demônio.

De longe vejo o esforço sobre humano do velho em levantar o braço e puxar o caule da flor. Com o fedor insuportável de enxofre o saci se desintegra na minha frente e imediatamente se reintegra na frente de Tião Mateiro.

Em prantos e respirando com muita dificuldade o peão me encara e grita alto.

– Me perdoa!! Eu quiria que essa disgracêra nunca tivesse acuntecido!!

 

***

 

– Vumbora Tião! Que vergonha é essa?! Você é o padrinho do meu neto! – meu pai aumenta a voz propositalmente, Tião fica ainda mais encabulado com a brincadeira ao entrar na pequena capela da fazenda.

Como presente de aniversário pelos 90 anos do meu avô, resolvi fazer a cerimônia do batizado do meu filho aqui na igrejinha da Nossa Senhora Aparecida, que ele construiu na fazenda. Minha avó é a felicidade em pessoa, na Sexta-Feira Santa, a data mais especial para ela, com a família toda reunida, ela não cabe em si.

Ela vai até a porta da igreja e traz o administrador da fazenda pelo braço, sem esconder a alegria de levar o seu filho postiço até o altar, onde o padre aguarda para os rituais do batizado.

A festa vai entrar pela noite adentro, até a reza da meia-noite, quando todos comemoramos a união e a felicidade da nossa família, que cresce cada dia mais, com os filhos e netos do meu pai e de Tião, o meu tio querido.

– Olha meu filho, esse é o seu tio-avô Tião… Ele já viu um saci aqui na fazenda! – brinco com o meu filho, enquanto Tião o carrega no colo.

– Eu e seu vô! Nóis vimo o tiziu numa Sexta-Feira Santa, ingual a hoje… – o velho administrador roça a barba branca carinhosamente no rosto do meu filho.

A gargalhada é geral. Todo mundo sabe que a partir dali o assunto será dominado pelos causos de Tião e do meu pai sobre o dia em que escaparam do saci e nunca mais desobedeceram as ordens da minha avó.

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20 comentários em “Saci (Marcelo Porto)

  1. Thata Pereira
    12 de julho de 2014

    Eu gosto desses contos de interior, principalmente quando o(a) autor(a) faz uso desses diálogos típicos. Acho muito gostoso de ler rs’ Apesar disso, senti o tamanho do conto, até penso que não foi por ser grande, pois estava gostando bastante. Mas, infelizmente, por ser um dos últimos postados isso acabou pesando um pouquinho. Parabéns por desenvolver uma história que fale de um elemento do nosso folclore.

    Boa Sorte!!

  2. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Há a boa técnica de narrar aqui, isso é indiscutível, mas pra mim não funcionou. É coisa minha, pelo visto, levando-se em conta os comentários. Bom trabalho! =)

  3. Pétrya Bischoff
    11 de julho de 2014

    Não sei pq, mas esses causos e maneirismos não me agradam. A linguagem me incomodou durante todo o texto e a insistência na figura do “Coisa Ruim” não fortaleceu o terror como deveria… Enfim, boa sorte.

  4. Fabio Baptista
    25 de junho de 2014

    Uma boa aventura.

    Não sou de comentar sobre a extensão dos textos, prefiro me ater à qualidade, porém aqui acredito que o autor tenha se alongado um pouco além da necessidade. Algumas passagens no encalço do Saci poderiam ser cortadas, dando mais ênfase para a batalha final.

    Também acho interessante a inclusão de elementos do folclore brasileiro, mas o bacana desse texto é que ele continuaria sendo uma boa narrativa mesmo se o monstro central fosse substituído (o que é ótimo, porque não fica aquela coisa de “ficou legal só por causa do saci”).

    A narrativa no presente me incomodou um pouco e o final poderia ser melhor trabalhado. Tive que ler duas vezes para ter certeza de quem era quem ali.

    Algumas coisas que escaparam na revisão:

    – desanimo / nevoa
    >>> acento (aliás, “nevoa” se repete por diversas vezes no texto)

    – Os rugas
    >>> As rugas

    – as mais pura das verdades
    >>> concordância

    – sobre humano
    >>> sobre-humano

    Algumas vezes as falas do mateiro soaram artificiais (tipo um sotaque forçado). No começo, por exemplo:

    – Nóis já passou por aqui

    Logo em seguida ele manda um:
    – Já passamo por ali

    Não parece a mesma pessoa falando, poderia padronizar o passou (ou melhor “passô”) ou o passamo.

    Abraço!

  5. Felipe Holloway
    25 de junho de 2014

    O conto não me agradou por dois motivos: ainda que se trate de um causo, tem os dois pés bem fincados no gênero do terror, e, nesse âmbito, a sutileza sempre funcionou melhor para mim do que o escracho. Não consigo me sentir sequer remotamente atemorizado por uma criatura cujo aspecto monstruoso é constantemente martelado pelo narrador, e cuja alcunha é atualizada a cada duas linhas por um dos personagens, de modo a re-reforçar o quão repulsiva e má é a tal entidade (coisa ruim, mardito, cria dos inferno, tiziu etc.). O segundo motivo é o desfecho, que recorreu a um artifício que, embora ancorado numa informação contida no corpo do conto (e avalizada pela lenda original do Saci, tal como descrita no inquérito de Lobato), teve um gosto de “faca que para a centímetros do peito do herói”. A pessoa escolhida para a narração também não é das melhores, na minha opinião: a primeira. Eu nunca consigo efetivamente temer pela sorte do narrador-personagem, nesse formato, sobretudo quando o tempo verbal é pretérito — o que, ainda bem, não foi o caso aqui.

    Em contrapartida, a despeito dos pequenos erros ortográficos já apontados, é bastante perceptível a maturidade do autor, que utiliza do linguajar e da experiência individual para diferenciar as vozes narrativas e conferir verossimilhança aos personagens. Sem falar nas pequenas analepses que entremeiam o conto e situam o leitor no tempo mais ou menos como as descrições primorosas da mata o situam (ou des-situam, né, Saci, rs) no espaço. Aliás, creio, uma narrativa que deixasse sugerida a presença do saci apenas por essa desorientação psicológico-espacial seria mais do meu agrado.

    Bom conto.

    • felipeholloway2
      25 de junho de 2014

      P.S.: em face da primeira frase, a que encerra o meu comentário me fez parecer bipolar, rsrs. Só ‘desambiguando’: quis dizer que o texto é bom no que tange ao domínio técnico.

    • Tiago Quintana
      25 de junho de 2014

      Não sou o autor do conto nem pretendo defendê-lo, pois acho que isso não cabe a mim, mas fiquei curioso com uma coisa, se não se incomodar: se em vez de enxergar este texto como um conto de terror, você o visse como um conto de aventura, isso afetaria sua opinião? Por favor, não encare como uma crítica, ataque ou similar, é uma curiosidade honesta. 🙂

      • felipeholloway2
        26 de junho de 2014

        Pergunta interessante, Tiago.

        Existe muita dificuldade, acredito, em se situar certos textos como ‘apenas’ de aventura ou ‘apenas’ de terror. Se a narrativa apresentada trata de um empreendimento ousado, cheio de acontecimentos imprevistos, surpreendentes, significa que estamos diante de um exemplar unívoco do primeiro gênero? Neste caso, parafraseando o que o Vergílio Ferreira anotou em seu diário, para um cego, o simples relato em primeira pessoa da travessia desacompanhada de uma rua configura um texto de aventura. E se o elemento precipitador dessas adversidades estiver revestido de sobrenaturalidade, como é o caso do Saci, aqui, isso é o bastante para rotular o conto como tão somente de terror? Supondo que esse tipo de distinção seja essencial para a apreciação de um texto (o que, sabemos, não é), creio que o mais sensato, aqui, seria enxergá-lo como um híbrido. Mas a concentração, nessa mistura, do elemento terror me pareceu bem maior justamente porque o narrador ocupa um tempo muito grande do conto tentando me convencer da maleficência, monstruosidade e letalidade daquela entidade, que sabemos não-humana.

        Explicada a minha opção, respondo que não, a mudança de percepção sobre o gênero não alteraria de modo significativo a minha impressão do texto.

        Abraços.

    • Jefferson Reis
      26 de junho de 2014

      Em nenhum momento me passou pela cabeça que o gênero do conto fosse terror.

      • Lobato Monteiro
        26 de junho de 2014

        Originalmente a história não foi concebida como um conto de terror, durante o seu desenvolvimento essa vertente se tornou mais forte por elementos do próprio cânone do personagem, que apesar de ser visto como um moleque peralta e inofensivo, originalmente é uma entidade bem malévola.

        Mas isso é apenas um detalhe, acho interessantíssima essa discussão sobre o conto, é por isso que corri para encaixa-lo neste desafio. Além dos feedbacks interessantíssimos, aqui temos a certeza que seremos lidos por quem conhece do assunto.

      • Tiago Quintana
        27 de junho de 2014

        Concordo. O saci tem que ser descrito como apavorante, assim como Grendel, o dragão e tantos outros monstros das histórias de antigamente o foram; mas isso não implica que a história é de terror.

        Não pude responder ao outro comentário, mas obrigado pela resposta, Felipe! 🙂

  6. tamarapadilha
    25 de junho de 2014

    Enredo bacana. Gostei da ideia, assim como outros colegas, da inserção do folclore brasileiro como tema para uma história. Os diálogos um tanto caipiras também ficaram interessantes porque insere ainda mais o leitor dentro do clima da fazenda. Mas me incomodei bastante com alguns erros ortográficos que apareceram por aí, além de preferir narração no passado e não no presente.
    Boa sorte.

  7. Anorkinda Neide
    25 de junho de 2014

    Meu Deus!!! Que Saci é esse?!!
    Quando eu pensei q o final seria apenas a salvação da criança o Tião me vem com o melhor pedido de todos! hehehe
    Clichê? pode ser.. mas muito bom!
    Parabens!

  8. Jefferson Reis
    24 de junho de 2014

    Ririri.

    Que maravilha de conto. Prendeu minha atenção de tal modo que a leitura quase não pesou. E que saci medonho.

    Gostei muito da parte em que Bentinho pega o cachimbo do demonho, fazendo-o ficar mais parecido com o imaginário popular de como é o negrinho peralta.

    As descrições dos cenários são mesmo muito boas. Quando o protagonista chega ao topo da colina e pode visualizar boa parte da fazenda, imagino um lugar lindo, com lua grande e céu azul escuro aveludado.

  9. Claudia Roberta Angst
    23 de junho de 2014

    É sempre uma boa ideia inserir o folclore brasileiro em um conto. Boa ideia que eu nunca tenho ou tento realizar…rs. No entanto, acho que a narrativa alongou-se demais mesmo sendo plena de ação e certo suspense. Algumas falhas ortográficas perturbaram um pouco a leitura, embora a fala característica dos personagens. esteja bem elaborada. Boa sorte!

  10. Edivana
    23 de junho de 2014

    Gostei do conto, muito! O clima de tensão, a crendice do Saci, o enredo bem trabalhado, tudo. O que não gostei foram alguns erros de ortografia, e não me refiro à fala caipira, não. Abraços, boa sorte.

  11. Eduardo Selga
    22 de junho de 2014

    Meio a alguns contos inspirados numa estética de filme estadunidense e vídeo game, que reproduzem um sistema simbólico estrangeiro, é muito bom descobrir que o imaginário brasileiro não está abandonado enquanto enredo ficcional.

    Mas o mérito deste conto não reside apenas aí. É narrativamente bem estruturado, não obstante demasiado longo, e consegue criar ambientação. Isso é relativamente fácil quando o cenário é urbano e doméstico, mas ao fugir disso a dificuldade aumenta, até pelo receio do autor quanto à “correta” recepção do texto.

    Há um aspecto sociológico que costuma ficar sublimado em contos que abordam o o negro no folclore brasileiro, como o Saci e o Negrinho do Pastoreio: a demonstração de que existe na sociedade o “espaço do branco” e o “espaço do negro”, ainda que convivendo num macroespaço. No conto, esse “universo maior” é a floresta, mas dentro dela há regiões exclusivas do Saci, onde as rezas não funcionam. Do mesmo modo como nas grande cidades há guetos destinados a populações marginalizadas, onde a a lei institucionalizada não entra.

    E nesse ponto também a questão do sincretismo religioso: embora as rezas sejam proferidas pelo preto velho (numa alusão à umbanda, religião brasileira de origem), elas pertencem à cultura europeia branca, pois vêm do catolicismo. Como na sociedade brasileira, o personagem negro retransmite elementos de uma cultura que não a de sua etnia de origem.

    Há luta de classes no conto, e nem tão disfarçada assim. Reiteradas vezes o Saci se refere à sua intenção de acabar com a “raça” a que pertence o protagonista. Na verdade, classe social. E condena o mateiro pelo fato de ele, negro, ainda “lamber as botas” do patrãozinho.

    Curiosamente, o conto não mostra nenhum traço pós-moderno. Antes, ele é todo moderno, seja na temática seja na linguagem. É que a pós-modernidade é um grande balaio onde cabe de tudo, do barroco às vanguardas literárias.

  12. Tiago Quintana
    22 de junho de 2014

    Adorei o conto! Excelente história e excelente prosa! Gostaria apenas de sugerir um pouco mais de cuidado com a ortografia. Por exemplo, em diálogos, não se coloca o ponto final antes do travessão (“– Vamos por aquela trilha, Tião”, não “– Vamos por aquela trilha, Tião.”); “esterno”, não “externo”; e por aí vai. Mas reitero: é uma história ótima com uma excelente narrativa!

  13. mariasantino1
    22 de junho de 2014

    Ah, que lindo! Chorei!
    .

    Fiquei tão feliz com esse conto com gosto de causo. Você me cativou de uma forma que torci pelos personagens, e não posso dizer que não gostei do final do teu conto. Não, não tem como, eu simplesmente adorei o retorno. Naveguei na trama, vi o medonho saci, senti o cheiro da mata e a aflição do Tião Mateiro e do Nhozinho e escutei esse Ririri, dos infernos. Foi ótimo ver um pouco da nossa cultura sendo descrita de modo tão primoroso. O seu texto é rico em descrições, ousado e assustador.
    .
    Parabéns pela criatividade. Ótimo desafio para você. Abraço.
    .
    Ps- Só participei de uma edição, mas acho que sei de quem é o conto. Chutarei 😉

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Informação

Publicado às 21 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .