EntreContos

Detox Literário.

Matéria de Estudo (Anorkinda Neide)

Conhecemo-nos, enfim. Depois de algumas aulas virtuais, confesso que não estava ansiosa para ver que cara tinha, nem que tipo de expressão faria ao me ver.

 

– Então, minha aluna aplicada, aqui estou!

 

Tinha a mesma cara de bobão que todos os outros… Vamos lá, paciência!

 

– Ah… Obrigada, por vir! Eu preciso tanto! Não estava conseguindo entender mesmo… Eu funciono melhor ouvindo de perto e olhando no olho, sabe como é…

 

Fiz a meiguinha, os bobões adoram as meiguinhas…

 

– Tudo bem, eu não costumo marcar aulas presenciais, mas pra você… abri uma excessão.

 

E um sorriso abestalhado. Aff! Só veio ao meu encontro porque paguei o dobro da quantia por uma aula ao vivo e a cores. Suspirei…

 

– Ai… A matemática é meu pesadelo, não consigo colocar em prática o que me ensinam! Ou os exercícios são pegadinhas? Só pode ser!

 

– Calma, Luciana… Nós vamos juntos desvendar a matemática, ok?

 

Falou com o olho enfiado no meu decote. Pronto, fisgado! O que uma jovem em apuros não consegue de um homem? Esse truque não muda com o passar dos tempos…

 

Suspiro novamente, olhando ao redor, fingindo não conhecer aquela biblioteca ‘amiga’. Aponto ao professorzinho uma mesa convenientemente próxima do balcão do ‘bibliotecário’.

 

– Vamos sentar ali? Guarde o lugar, vou buscar um copo de suco pra nós. Ou você quer água?

 

– Qualquer coisa.

 

O homem estava salivando… ou melhor, babando. Peguei os sucos de uma máquina automática que ficava na entrada da biblioteca.

Providencialmente num ângulo, onde eu ficava de costas para o professor ao apanhar os copos, com minha calça apertadinha.

 

– Vamos tomar este suco antes de pegarmos nos livros… Está calor, não é?

 

– Ô!

 

Vladimir, o professor de matemática, que oferecia aulas on-line de reforço para o Ensino Médio como forma de aumentar um pouco seus parcos rendimentos, estava trêmulo. Houve um tempo em que eu me divertia com estas reações, mas isso tudo tem apenas me enjoado.

 

Ele não reparou que eu nem provei do suco. Olhava para mim com a cara apalermada e quando percebi que o líquido fizera efeito e ele não conseguia manter o equilíbrio nem sentado, chamei o falso bibliotecário e ajudamos o pobre homem a caminhar até o carro da Instituição.

 

 

…….

 

O professor acordou 9 horas depois. Estava acomodado em uma cama simples mas confortável, de um quarto pequeno e estranho. Estranho, no sentido de diferente, fora do normal… Defronte à cama havia um roupeiro comum de duas portas e ao lado dele um biombo quase transparente que não escondia uma privada, uma minúscula pia e um chuveiro do outro lado dele. Ao lado da cama, um armário baixo e pequeno com uma porta. Este armário teria a função de ser criado-mudo e mesa de refeições.

 

– Caramba! Como vim parar aqui?

 

A porta abriu e Luciana entrou com uma sacola de compras na mão.

 

– Menina! O que aconteceu? Onde estamos? Como vim parar aqui? Não lembro de nada!

 

Vários pensamentos libidinosos passaram pela cabeça de Vladimir, mas ele tinha certeza de não ter feito nada com aquela moça. Luciana mal olhou para ele, dirigiu-se ao armário na cabeceira da cama e depositou ali os produtos da sacola: uma garrafa de água mineral, copos plásticos, um pacote de papel com dois sanduíches e duas maçãs.

 

O homem sentou-se na cama e percebeu que estava tonto.

 

– Tinha algo naquele suco, Luciana? O que está havendo?

 

A moça afastou-se dele e apoiou-se à parede defronte a cama, entre a porta e o roupeiro. Disse:

 

– Não está com fome? Sirva-se. Ali, você pode ver tem um banheiro improvisado, veja se não emporcalha tudo… O que você precisa saber é que está aqui e ficará por um bom tempo.

 

– O que é isso, um sequestro? Hahahaha… Só posso rir de minha conta bancária… Não pode ser isso. Menina, você me trouxe pra cá, por quê?

 

O nervosismo nele estava tomando conta do corpo todo. Tudo parecia irreal. Seus pensamentos começaram a ficar desconexos…

 

– Como assim, ficar aqui por um bom tempo? Não estou acreditando! Quem é você, afinal? Seu nome é Luciana? Não é, né? Claro que não é…

 

Tentou abrir uma janela que ficava na lateral da cama, mas ela era apenas um vidro espesso que dava para uma parede de tijolos.

 

– Eu preciso sair daqui!

 

O homem andava pelo quarto todo, respirando com dificuldade devido ao nervosismo. Luciana apenas olhava cada gesto dele, tranquilamente. Aos poucos, ele começou a caminhar mais devagar e olhou para a moça, perguntou:

 

– Você não vai falar nada?

 

Alguns instantes se passaram, os dois encarando-se, aparentemente, à espera do tempo passar.

 

– Menina, abra esta porta e me deixe sair daqui. – Ele falou calma, mas firmemente.

 

Ela continuava impassível, olhando para o professor boboca de matemática on-line.

 

– Ok. Você, com ajuda de alguém, é claro, me trouxe pra cá… Tem cama, comida, banho…

 

Vladimir levanta-se e abre o roupeiro, tem uma muda de roupa ali dentro.

 

– Roupas… Pra quê? Por quê?

 

– Olha, professor, esta é a única vez vou responder a perguntas. Todos os dias, eu voltarei com comida e roupa limpa. Não há como fugir, há guardas lá fora, portões, grade e essa coisa toda. E é só isso que vais saber.

 

Olhando fixamente nos olhos de Vladimir, ela ainda diz:

 

– Eu vou sair agora, e volto amanhã.

 

Sem lhe dar as costas, Luciana abre a porta e sai rapidamente do quarto, deixando o homem sem fala e sem ação por alguns minutos. Quando deu por si, o professor foi até a porta e bateu e chamou pela moça, chamou por alguém, tentou socá-la, deu pontapés e acabou desistindo. Sentou-se na cama e resolveu comer um sanduíche.

 

 

………

 

A partir dali, todos os dias o professor Vladimir pensava em fugir, enchia a moça de perguntas sem nunca obter uma resposta, caminhava impetuosamente pelo quarto, com raiva, desespero, ora com medo, ora absorto, sem pensamentos. Estressado, mas jamais pensou em ser violento com Luciana.

 

Ao passar muitos dias, perdeu a noção do calendário completamente, começou a acostumar-se com a situação. Quando Luciana vinha com a comida ou com uma muda de roupa limpa, que guardava cuidadosamente no roupeiro, levando a trouxa de roupa suja embora, só lhe fazia perguntas sem importância:

 

– Está frio lá fora?

– Você já teve um gato?

– Sabes que este quarto mede exatamente 30 passos, de parede a parede?

 

Numa certa noite, ele sobressaltou-se com o barulho da porta abrindo, lentamente. Ele estava começando a dormir, estaria sonhando?

Na verdade, Vladimir achava que era noite, pois estava com sono e deitou-se para dormir. Ele não fazia a menor ideia do passar das horas.

 

A porta abriu-se, realmente. E Luciana entrou, vestida com uma camisola transparente… E mais nada.

 

 

 

……….

 

Ao me ver semi-nua, o professor sentou-se apressadamente na cama e perdeu o dom da fala. Apenas aproximei-me e passei os braços por seu pescoço. Não foi preciso mais nada. Devorou-me em poucos minutos. E dormiu profundamente.

 

No dia seguinte, segui a rotina normal de levar-lhe roupa e comida. Ao me ver, começou com a metralhadora de perguntas:

 

– Você esteve aqui ontem à noite? Por quê? Eu sonhei? Não. Foi muito real. O que você quer de mim, menina?

 

Fiz cara de paisagem e nada lhe disse. Passei a visitá-lo todas as noites. Eu estava acostumada com este procedimento, ele não. Ficou confuso por dias, nervoso, excitado, tentando entender, mas nunca recusava uma foda. Por fim, acostumou-se e já me esperava nu, sentado na cama.

 

Como pré-estabelecido pela Instituição, faltei numa noite. Ele descontrolou-se novamente, andava pelo quarto, insone, me crivou de perguntas durante o dia, mas, eu estando vestida, ele não me encostava o dedo. E nem poderia.

 

 

………..

 

Aquele era seu último dia no confinamento.Vladimir foi liberado para voltar a seu mundo. Simplesmente, Luciana lhe trouxe as roupas que estava usando ao encontrar-se com ela na biblioteca e lhe disse:

 

– Hoje você pode voltar pra casa, professor.

 

– Voltar pra casa? Como? Por quê?

 

Já acostumado a não ter respostas, ele ficou resmungando questionamentos enquanto trocava de roupa, a moça encostada à parede o observava tranquilamente. Quando Vladimir terminou de aprontar-se, ela dirigiu-se ao armário/mesa e serviu um copo de suco de laranja.

Sem dizer nada, apenas olhando nos olhos do homem, ofereceu-lhe o copo.

– Eu vou te ver de novo, Luciana?

 

A moça apenas balançou a cabeça, negativamente. Ele estava trêmulo e com lágrimas nos olhos, tomou o suco.

 

 

………..

 

– O que será que eles fazem ao voltar à sociedade? Será que contam a alguém sobre o que se passou? Será que pensam em mim? Será que a dependência existe apenas dentro daquele quarto?

 

Ultimamente, Luciana também fazia perguntas que não seriam respondidas. Por isso mesmo, ela não as verbalizava. Ninguém ouviria…

O resultado do Estudo não está ao alcance dela. Luciana realiza os procedimentos e é só. É só o que ela pode fazer. É só o que ela sabe fazer.

 

Ao voltar ao seu quarto individual na Instituição, Luciana vê a mensagem azul piscando na tela de seu notebook. Sabia que este dia chegaria… Ela alcançou os dezoito anos, foram dois anos trabalhando compulsoriamente com os professores, desde que foi recrutada bebendo um copo de suco de laranja.

 

-Estou muito velha para esta função! Mas, eu não sei se quero abandoná-la! E principalmente, eu não sei se quero voltar para casa… Eu só sei ser Luciana.

 

 

………..

 

Ficha de Avaliação (acesso restrito)

 

Matéria de estudo: Gisele Albuquerque

Codnome: Luciana

Idade : 18 anos

Desempenho: Boa capacidade intelectual. Boa capacidade de memorização. Boa dessensibilização. Boa capacidade de adaptação.

Parecer final: Apta a ingressar no módulo ll – Estudo de desenvolvimento Fase adulta

 

 

.

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19 comentários em “Matéria de Estudo (Anorkinda Neide)

  1. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Gostei, embora tenha achado que faltou desenvolver um pouquinho mais, talvez por eu não ter sentido tanta empatia com as personagens, da forma como gosto de me sentir. Carece de uma pequena revisão aí, hein? Boa sorte!

  2. Thata Pereira
    11 de julho de 2014

    Eu gostei do conto, do modo como foi escrito, lutei com a troca de narrador, mas ok. Não acho ruim um conto ser aberto, mas eu realmente gostaria de saber o motivo da pesquisa rs’ O conto justifica muito bem o título e isso foi bastante interessante, pois imaginamos no começo algo associado à matemática, mas é algo completamente diferente. Real, irreal, só a justificativa do estudo poderia dizer. Não que precise ser.

    Boa sorte!!

  3. Pétrya Bischoff
    3 de julho de 2014

    A ideia não me agradou e a narrativa não seduziu. Gostaria de entender sobre o que trata a pesquisa. Boa sorte.

  4. felipeholloway2
    3 de julho de 2014

    O argumento behaviorista intriga. Ao repetir-se um nível acima (com a mulher que recruta a “cobaia” já tendo sido, ela mesma, recrutada), a inutilidade do experimento científico de observação parece sugerir, ainda, um terceiro nível: o do leitor que observa os personagens esperando extrair de seu comportamento algum insight, algum valor moral ou estético. E no entanto, como em inúmeros experimentos dessa escola teórica, o resultado obtido parece insatisfatório, ou, pior, irrelevante. Terminamos nossa análise com frustração similar à que sentiram professor e mulher, findos seus respectivos períodos de cativeiro. Bem interessante.

    Além das correções formais já mencionadas, sugeriria apenas que o autor encorpasse a história. O argumento e os personagens merecem.

    • Thomas
      5 de julho de 2014

      Obrigada, Felipe!
      Captaste exatamente o espírito da coisa toda… 🙂

  5. Thiago Tenório Albuquerque
    30 de junho de 2014

    Não me agradou, a ideia é boa, mas mal executada.
    Há muitas lacunas desnecessárias e isso me incomodou um bocado.
    Penso que uma revisão se faz necessária.
    No mais, te desejo boa sorte.

  6. Marcelo Porto
    29 de junho de 2014

    Lembrei de Oldboy. A história deixou muitas pontas soltas, faltou uma justificativa plausível para a situação e o porquê daqueles personagens passaram pela experiência.

    A troca constante de narração me incomodou um pouco.

    Boa sorte.

  7. tamarapadilha
    25 de junho de 2014

    Não gostei. Achei uma narrativa bem forçada além de não ter gostado dela e o enredo também não é grande coisa. Senti como se isso fosse um rascunho, deveria ter um grande desempenho para um desenvolvimento. Nada no conto conseguiu me atrair.
    Boa sorte.

  8. Fabio Baptista
    24 de junho de 2014

    Uma ideia interessante, mas não muito bem executada.

    Ficou tudo corrido demais, sem dar tempo do leitor degustar o mistério.
    A troca de narrador não me incomodou ou confundiu, mas não vi muita utilidade disso para a trama. Talvez se mudasse a perspectiva da Luciana para o professor esse recurso surtiria um efeito mais palpável.

    Pensei que o desenrolar da história seria meio “Old Boy”… mas acabei me surpreendendo. E dessa vez gostei das lacunas deixadas para o leitor.

    Esse “excessão” foi de matar…

    Abraço!

  9. Anorkinda Neide
    24 de junho de 2014

    O final justifica o conto.. muito legal!
    O espaçamento(acho q foi involuntário) mas dá um distanciamento na trama, compativel com o relacionamento dos personagens, bem distanciados, materiais de estudo mesmo.
    Sorte ae!

    • Anorkinda Neide
      24 de junho de 2014

      correção: O final justifica o titulo*

  10. Jefferson Reis
    23 de junho de 2014

    A narrativa custou me prender, viu!
    Mas quando me prendeu, funcionou.

    Obs: a troca de narradores não me prejudicou.
    Na verdade, gostei.

  11. Tiago Quintana
    22 de junho de 2014

    Interessante a história, tem um bom clima de suspense e paranoia, mas acho que a prosa precisa ser refinada um pouco; do jeito que está, ela me parece meio solta, meio sem cuidado.

  12. Eduardo Selga
    21 de junho de 2014

    Escrever um conto usando dois narradores é uma escolha arriscada, pois muito facilmente provoca confusão. Esta, ainda que possa ser desfeita com uma segunda leitura, não costuma ser bem aceita pelo leitor médio, tendo ela função estética ou não.

    Os parágrafos são sumários em demasia, não causam ambientação. Narrativa muito preocupada com os diálogos entre personagens sem vida. Terá sido proposital? Com qual objetivo?

  13. Edivana
    21 de junho de 2014

    Instigante! Queria saber o propósito do estudo. Boa sorte.

  14. Claudia Roberta Angst
    21 de junho de 2014

    O título ficou bom, mas “excessão”…Sério???
    Ainda bem que era um professor de matemática e não de português. 😦
    A troca de narrador confundiu um pouco minha leitura. Não sei se foi proposital, mas não funcionou muito bem comigo.
    A ideia é interessante, meio Nikita, recrutada para uma missão fatal, no caso, de mulher fatal. Vale a pena, tentar uma nova abordagem e caprichar no desenvolvimento.
    Recomendo revisão, revisão e mais uma dose de revisão.
    Boa sorte!

    • Thomas
      21 de junho de 2014

      Ouxi! exceção com dois ‘s’.. juro q eu não vi isso aí! :p

      Sorry sorry!

  15. mariasantino1
    21 de junho de 2014

    Uauau!
    .
    Opa, achei a ideia simples, bem executada e com as lacunas que eu gosto de preencher. Esse conto é extremamente curto ao mesmo tempo que condensa as informações para que o leitor (eu, pois só posso falar por mim) seja fisgado e instigado do início ao fim. Acho que uso de diários, relatórios, documentos… geralmente funcionam bem. Fiquei incomodada pela troca de narrativa, pois parecia a Luciana narrando, mas depois a mente abre. Gostei muito, munto mesmo.
    .
    Parabéns pelo conto e bom desafio para você. 😉

    • mariasantino1
      21 de junho de 2014

      Hey! Voltei para dizer que o título do conto foi uma bela sacada 😀

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Informação

Publicado às 21 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .