EntreContos

Detox Literário.

Longe e tão perto (Tamara Padilha)

Todos os dias são especiais, porém, algumas datas são mais marcantes do que outras. Elas estão ali presentes, para nos lembrar e fazer pensar em uma felicidade que chegou inesperadamente. Em um presente especial que recebemos, ou ainda, como é meu caso, em uma felicidade e um presente perdido, para sempre. Irremediavelmente levado para longe, literalmente junto com a chuva e o vento.

Assim começo mais uma página, Dany. Com essa constatação em relação ao que significa para mim o dia de hoje. Em relação ao que ele significou para nós. Uma data tão marcante ao longo dos anos. Anos que você esteve ao meu lado. E agora de certa forma se tornou marcante a mim também, mas dessa vez tenho que passá-la sozinha. Sou obrigada a acordar, fazer minhas refeições. Cuidar dos afazeres. Cumprir todos os deveres que me são impostos, mesmo com sua ausência. Eu gostaria que o mundo parasse nesses dias. Contudo ele não para. O ponteiro do relógio continua andando, andando… levando-me para a frente, mesmo quando em algumas horas meu desejo é voltar aquela colina onde lhe deixei. Ser levada pelo vento e pela água, da mesma maneira que você foi. Estar em todas as partes e ao mesmo tempo em um só lugar, como você, anjo.

Talvez alguns possam pensar que é loucura a minha vontade de manter diários por todos esses anos. Cadernos nos quais ainda lhe revelo, através de cartas, os meus pensamentos mais obscuros. Meus segredos. Medos. E principalmente onde eu posso revelar-lhe toda a saudade que sinto.

Toda a falta que você faz aqui é inexplicável. Não possui tamanho. As lembranças são como facas e ao mesmo tempo flores, pois todas as vezes que resolvo resgatá-las, sinto-me como se algo me rasgasse por dentro. Algo perfurando cada centímetro dos meus órgãos internos e arrancando minha pele sem anestesia. Porém, também elas me alegram. Fazem com que eu possa sentir seu cheiro novamente, sentir seus braços me apertando e seu sussurro baixo me dizendo que ficaria tudo bem, logo após um pesadelo.

Hoje tive um sonho. Foi o mais vívido. Foi aterrorizante, pois por mais que eu tentasse gritar, bater ou correr, não consegui mudar o curso das coisas. Eu já deveria saber que seria assim… Deveria recordar-me que você sempre dizia que quando uma história é escrita ela é permanente… O que pode se modificar é o que ainda não foi escrito. Porém aquilo que já está fixo nas folhas não se apaga, não se altera, nunca…

Provavelmente o que fez com que eu tivesse o sonho desta noite foi a data. A grande e fatídica data… Nesse momento, enquanto escrevo, posso ouvir sua voz baixa e melodiosa pedindo: “Sam. Vá direto ao ponto e conte a história, por favor.”. Você era tão direto, prático, sensato… Enquanto eu sempre fui cheia de rodeios, desvios e impulsividade. Defeitos que você dizia que amava em mim… E no sonho dessa noite pude recordar claramente de um dos únicos momentos em que você também foi impulsivo… E isso lhe custou o que era mais precioso. Sua vida.

Foi como um filme. Me senti transportada a esse mesmo dia, anos atrás… O dia amanhecendo, enquanto acordávamos radiantes, com um enorme sorriso no rosto, imaginando que nada acabaria com ele. Logo os preparativos tomaram conta e ficamos distantes um  do outro por várias horas…

Ah, Dany… Se soubéssemos que aquela era nossa última vez… Eu teria passado a noite em claro lhe observando. Passando os dedos por seu rosto e guardando cada parte de suas feições em um canto da memória. Um lugar inacessível a qualquer outra coisa, onde fosse possível a abertura a qualquer momento. Teria aproveitado aquela noite que foi desperdiçada com um sono que poderia ter tido mais tarde. Perdi nossos  últimos momentos com brigas fúteis. Não dei os beijos que deveria ter dado, os abraços que poderia apertar, as palavras que poderia dizer, e tudo isso por achar que mais tarde haveriam outras vezes para tudo isso ser feito. A gente não se toca que os minutos podem ter sido os últimos, que os segundos foram os finais até que seja tarde demais. Se o pudéssemos saber com antecedência, provavelmente os prolongaríamos, tornaríamos estes em infinitos. Daríamos mais atenção a cada batida do relógio, ao contrário disso, deixamos estes sairem pelo ralo como gotas de água de um imenso oceano, que na verdade está se acabando. Se descobríssemos antecipadamente que estaríamos tocando aquelas mãos, aquele rosto pela última vez jamais sairia de perto por um instante sequer. Se fosse possível descobrir quando aconteceriam as últimas vezes não as deixaríamos acontecer, querendo postergar o inevitável. Tentando adiar o impossível.

Mais tarde, depois de toda a festa, as congratulações por causa de nosso casamento, as felicitações que nada serviram posteriormente, você chegou ao meu lado e disse que voltaria logo… Que iria em busca do meu presente de casamento. Tentei convencê-lo a levar-me consigo, mas dessa vez você foi inflexível… Depois descobri que você havia ido conferir se estava tudo preparado para minha chegada, na casa em que você havia nos comprado, e da qual eu não sabia da existência…

Infelizmente, antes que você chegasse até o local para cumprir seu objetivo, uma ponte mal feita interferiu em seu caminho… Os policiais disseram-me que você era a única pessoa que passava por lá naquele momento, como se a perda de uma única vida ao invés de muitas fosse motivo para agradecimento.

No sonho, assim como acontece até hoje em dia, os momentos após a notícia chegar até mim ficaram em branco. Como se eu tivesse sido trancada em uma sala acolchoada, privada de sons, imagens e gostos. Só consigo recordar com nitidez da hora que eu deixei você ir… uma ironia. Como se houvesse escolhas em você ir ou ficar…

Foi um momento lindo e doloroso… Aquela alta montanha. Sim, no local onde você pediu para que construíssemos uma vida juntos. Um dia de uma chuva fina e insistente… E uma brisa leve, que apareceu justamente na hora em que eu espalharia suas cinzas… Como se fosse um anjo ajudando-me… Levando sua alma para o céu e ao mesmo tempo espalhando as cinzas de seu corpo para os lugares mais distantes, para que mesmo agora longe, você estivesse perto…

Acordei sentindo uma paz incomum, bem como o vento e a chuva chegando pela janela, exatamente como no dia em que você partiu… Esses elementos estavam presentes para garantir-me, que você continua vivo aqui dentro. Nas lembranças. Nessas páginas que escrevo fielmente. Nas conversas em que tenho com seus pais. Na casa em que moraríamos juntos. No porta-retratos da foto em que dissemos sim, durante nossa cerimônia de casamento, e também continua vivo no meu amor…

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17 comentários em “Longe e tão perto (Tamara Padilha)

  1. Thata Pereira
    11 de julho de 2014

    A frase do “arrancando a pele sem anestesia” me lembrou meus antigos diários. Nem ouso lê-los novamente, um drama… :p rs’ Por isso não gostei da frase, mas apenas isso. É uma história muito bonita, realmente parece um relato e se tratando de um conto onde é apresentado um diário, ponto positivo!!

    Boa sorte!!

  2. Bia Machado
    11 de julho de 2014

    Gostei do texto, um pouco diferente do que eu procuro ler, mas bonito, com uma visível emoção. Boa sorte!

  3. felipeholloway2
    3 de julho de 2014

    O texto oscila bastante. Temos construções imagéticas muito belas (como a do tempo que a narradora lamenta haver perdido com o sono, quando poderia ter simplesmente assistido o amado dormir, guardando cada traço dele num canto seguro da memória) dividindo espaço com outras bastante piegas (a casa na montanha, a chuva insistente durante o ritual fúnebre, a reflexão sobre a “preciosidade” do tempo etc.). Infelizmente, estas últimas me pareceram maioria, comprometendo o resultado final e a pungência do relato como um todo.

  4. Pétrya Bischoff
    3 de julho de 2014

    Compartilho da sensação dos outros leitores; será um relato? Se sim, sua dor é, infelizmente, bela. Se não, tens uma característica singular e muito bem sucedida em passar essas “coisas” no texto. Há esses deslizes apontados, como recontar o acidente em um diário mantido há muito, mas… Que se foda. Não há como avaliar algo assim. O autor poderia nos esclarecer se é real? Pois penso que seja.

    • Vitória
      3 de julho de 2014

      Olá. Então, na verdade não foi baseado em fatos reais não. Escrevi essa história ouvindo Love in the afternoon, do Legião urbana, ela é uma música que me toca muito. Mas nunca tive nada sequer parecido na minha vida

      • Pétrya Bischoff
        3 de julho de 2014

        Hm, obrigada pela resposta. Apesar de não haver vivenciado, entendo que uma canção possuir esse poder, bem como ótimos textos – como o teu 😉
        Parabéns e boa sorte.
        P.S. Surgiu-me uma imagem mental da autora… Penso saber quem seja 🙂

  5. Marcelo Porto
    29 de junho de 2014

    Um relato particular e triste.

    Como conto não me convenceu. Mais parece uma narrativa real, resultado da qualidade da autora, que demonstra um bom domínio da escrita e nos carrega para dentro da situação.

    Por questões de gosto não me identifiquei, mas é uma boa leitura.

  6. Anorkinda Neide
    24 de junho de 2014

    Dos contos intimistas deste desafio o mais emocionante, até agora…
    mas… sempre ele, o ‘mas’…
    Se a mulher escreve o diario há tantos anos… não haveria necessidade de ela repetir a historia, reescrevê-la.. ela reescreve os fatos por que está esclarecendo o leitor, não é? assim achei.
    Não achei tb que o ato do noivo foi impulsivo, como dito pela protagonista.. ele foi checar a casa nova, isso não é impulsivo… de repente, a hora não era a apropriada… o q tb ficou meio estranho.. mas a vida da gente pode ter estes lances ‘nada a ver’ e fatidicos, infelizmente…

    Mas o texto é lindo… eu perdi um amigo muito proximo, embora virtual neste mes, então estas duas frases calaram fundo no meu coração, obrigada por elas… e quem sabe aqui já fica uma homenagem ao Arcadia, não é? Obrigada por esta sensibilidade…
    queria…
    “Ser levada pelo vento e pela água, da mesma maneira que você foi. Estar em todas as partes e ao mesmo tempo em um só lugar, como você, anjo.”
    🙂

    • Vitória
      3 de julho de 2014

      Obrigada, fico feliz que gostou. Como disse em outro comentário não é nada de real, pura imaginação, rs. E meio que nessa ocasião ela reconta a história para o leitor e para si mesma, já que é uma data importante, a data em que ele se foi então ela está contando para refletir sobre tudo. E além de diário é como se fossem cartas para ele, então ela ao mesmo tempo conversa com si mesma, com ele e de quebra com o leitor.

  7. Fabio Baptista
    24 de junho de 2014

    Não gostei.

    Está bem escrito e tudo mais (só achei um “aquela” que deveria ter crase), mas não me cativou. Acho que peguei birra desse negócio de diário mesmo…

    Essa frase aqui ficou muito boa:
    “Algo perfurando cada centímetro dos meus órgãos internos e arrancando minha pele sem anestesia”.

    Mas foi pouco.

    Abraço.

  8. Brian Oliveira Lancaster
    24 de junho de 2014

    Triste. O autor realmente transmite uma angústia de alguém olhando através da janela e escrevendo. Creio que muitos compartilham o sentimento de “perda” de alguma coisa. Nessa salada de frutas, os textos que se sobressaem, às vezes, são os mais simples.

  9. Jefferson Reis
    23 de junho de 2014

    Enquanto lia, surgiu-me a pergunta: o autor desse texto terá passado por isso ou é pura ficção? Fico com a segunda alternativa e por isso redobro os parabéns.

  10. Tiago Quintana
    22 de junho de 2014

    Muito bem escrito! Sugiro apenas uma revisão ortográfica. Por exemplo, em “‘Sam. Vá direto ao ponto e conte a história, por favor.’.”, bastaria o segundo ponto.

  11. Claudia Roberta Angst
    21 de junho de 2014

    Uma linda e triste história de amor, em tom confessional. Emociona, conduz o leitor a uma reflexão sobre a finitude da vida, da futilidade de alguns posicionamentos no dia a dia. Boa sorte!

  12. Eduardo Selga
    21 de junho de 2014

    O presente conto é muito bom para se fazer uma reflexão sobre os limites de gênero narrativo. De todos os contos aqui postados com a proposta de diário, relato ou depoimento, este é, dentre os lidos por mim até aqui, o que mais parece ser, de fato, uma confissão autoral (como são os diários) e não um enredo de ficção. E o mais curioso: determinar se o texto é uma coisa ou outra, neste caso, não depende do texto em si, antes de um fator externo, desconhecido pelo leitor: se a autora vivenciou o narrado, é diário; se o enredo é criação, é conto. Mas essa impossibilidade em classificar é um dos elementos de qualidade deste texto, já que a ideia foi criar um conto com “cara” de diário. Mesmo não tendo as marcas paratextuais do diário (data e vocativo) o leitor médio recebe o texto como confessional. E aí entra outra questão: se não for, é preciso louvar a capacidade da autora em produzir algo tão lírico e, ao mesmo tempo, sem algumas marcas típicas da declaração de amor.

    Há uma “regra” na produção textual, não raro levada a extremos por alguns, que diz que o adjetivo só deve ser usado quando “estritamente necessário”, valorizando-se o substantivo. Isso é válido para se evitar floreios inúteis, mas, como toda “regra” em ficção, não pode ser levada a ferro e fogo. E este conto mostra isso. A adjetivação, abundante algumas vezes, é o que causa uma atmosfera lírica.

    Quando um texto literário está bem escrito não consigo acreditar em acasos. Digo isso porque vejo (miragem?) uma ambiguidade quanto ao gênero dos personagens. Tanto o personagem quanto a personagem são batizados com substantivos próprios que tanto podem designar masculino ou feminino, Dany e Sam.

    Há falhas gramaticais no uso da crase (“aquela” em em vez de “àquela”) e colocação pronominal. Mas me chamou a atenção a regência equivocada em “E agora de certa forma se tornou marcante a mim também […]”, em que “a mim” deveria ser substituída por “para mim”.

    Um belo texto.

  13. Edivana
    21 de junho de 2014

    Seu conto é uma lição, das vezes que pensamos ser infinitos, mas não o somos. O conto não me tocou muito, mas identifiquei-me com algumas partes. Boa sorte.

  14. mariasantino1
    21 de junho de 2014

    Alô!
    .
    Gostei de algumas passagens do conto, o fim por exemplo, senti um fio de tristeza nele. Algumas coisas parecem reais (isso é bom).
    Boa sorte.

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Publicado às 21 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .