EntreContos

Detox Literário.

O Abrigo (Sidney Muniz)

O Abrigo

Capítulo I – O Acidente

A fome e o frio começaram a incomodar como ansiedade que se acomoda, intransigentes. Despi-me do orgulho e caminhei até a fila do outro lado da rua, tentando esconder-me dos olhares amarelados que me inspecionavam. Foi uma hora e meia de espera, experimentando o odor de esgoto dos seres invisíveis ao meu lado. Queria simplesmente não os enxergar, fazer assim, como o resto do mundo faz.

Todavia, foi assim que percebi que o destino havia me transformado num deles. Pertenciam a mim um corpo sujo e as mudas de roupas já surradas que me caracterizavam. Olhei para minhas unhas e enxerguei a imundície impregnada entre elas e minha pele.  Já era passada uma semana desde o ultimo banho, tão logo constatei que meu perfume havia dado lugar ao fedor bizarro da malcheirosa calçada. Fedia algo pútrido mesclado a urina velha.

Tinha passado as últimas noites enrolado em jornais velhos, abaixo da lua cinzenta que reprimia o céu. Não fosse pelo medo de estar ali, teria dormido ao menos duas horas em cada noite, no entanto apenas breves cochilos me ofereceram forças para me sustentar de pé naquele dia.

Verdadeiramente já não era mais o mesmo. Os pensamentos eram cada vez mais confusos, o raciocínio era lento, e a cabeça latejava incontidamente. Estava a um passo da completa insanidade.

Na mente as imagens dos corpos ensangüentados sobre o asfalto eram como agulhas que perfuravam meu cérebro, sorrateiramente. Queria arrancá-las, mas meu coração ainda sangrando me impedia. Relutantemente permanecia mergulhando naquele abismo sem fim, e foi precisamente quando deduzi isso, que qualquer coisa me despertou daqueles devaneios…

– Próximooo!!! – Bradou a voz forte que penetrou meus ouvidos.

Em resposta entrei pela porta, recebi um casaco velho e um cobertor fino. Pude ver o olhar do homem me analisando como se eu fosse um cão sarnento.

– Boa noite! – Cumprimentei.

– Você é o número 73… Siga pelo corredor! – Falou rispidamente, desviando o olhar para o próximo da fila. “Nem uma boa noite?” Discorri comigo mesmo, afinal era habituado com ambientes mais receptivos. A contragosto ignorei-o. Marchei em direção ao corredor e avistei um garoto vindo de encontro a mim. O pequeno logo parou, e olhou em meus olhos.

– Primeira vez aqui? – Interrogou-me com a voz fina e meiga de uma criança qualquer, porém um tanto bisbilhoteira.

– Sim – respondi – qual é seu nome? – Investiguei.

– Me chamam de Rodinha! – Respondeu tão naturalmente, que me senti abobado. Não ousei perguntar o porquê. O garoto espontaneamente apertou minha mão e me perguntou o meu nome.

– E a autoridade como se chama? – “Autoridade”…  Aquilo me lembrava algo, e meio a lembranças interrompidas o respondi secamente.

– Augusto Duarte.

– E isso lá é nome de mendigo? – Proferiu com um riso bobo no rosto – Vou te chamar de… Deixe-me veeerr – E continuou maquinando, com um dos olhos meio fechado, pois estava pensando. Aquela expressão no rosto do menino era um tanto quanto escarninha.

Naquele momento me senti mal. Afinal, como uma criança com tantos problemas podia ter um sorriso na face e ainda ser tão espontâneo?

– Seu Guto! Ah… Ta bem melhor assim. Venha comigo – Convidou, enquanto os dedos e mãos davam vida a cadeira de rodas, que, diga-se de passagem, mais me lembrava uma sucata.

O segui sem saber para onde ia. O piso de cimento natado estendia-se naquele enorme abrigo. O garoto parecia conhecer cada milímetro da instalação. Passamos por várias portas trancadas a cadeado. Achei aquilo estranho.

– O que há aqui dentro? – Indaguei.

– Sei lá… Acho que são quartos desativados. Esse lugar antigamente era um reformatório – Me contou, e naquele instante ouvi um curioso barulho de correntes se arrastando, e isso me fez parar abruptamente.

– Você ouviu isso?

– Não ouvi nada. Deve ser sua fome, Seu Guto. Seu estomago já roncou umas três vezes desde a entrada – E era verdade, a fome era grande, e os sons involuntários chegavam repentinamente.  Continuamos, e pude ver o enorme salão a nossa frente.

– Lugar estranho – Observei ao ver a enorme quantidade de mendigos deitados sobre colchões que jaziam esparramados pelo chão. Havia faixas amarelas pintadas no piso demarcando o local. A frente de cada colchão ficava um número.

– O seu vai ser aquele. Pode deixar suas coisas lá, pois nós vamos jantar – Anunciou como se estivesse fazendo as honras da casa.

– Minhas coisas? – Pensei alto. Mas eu não tinha nada, pelo menos coisa nenhuma que tivesse trago comigo.

– Você não tem muito tempo que ta na pior, né?

– Não – Confirmei.

– E pelo visto também não é daqui. Fica tranqüilo que a galera é firmeza. São mendigos, mas não são ladrões – revelou como se aquilo pudesse amenizar minha dor, e também estranheza com aquele lugar.

Saímos dali e entramos num outro corredor. Tão logo estávamos no refeitório. Uma fila enorme se estendia a nossa frente. Ainda assim não demorou tanto para chegar nossa vez. Pegamos nossas bandejas, e uma senhora com uma berruga peculiar na testa serviu-nos, apanhando a comida com uma colher de concha, e virando-a por sobre os pratos. Sentamo-nos a mesa. Aquela sopa estranha e gosmenta me parecia algo divino naquela ocasião. Devo confessar que comia como um verdadeiro animal.

– Acalme-se cara! Não é o fim do mundo – Alertou um senhor, sentado a minha frente.

– Ele é novato, Carvão! – Interviu Rodinha.

– Mas assim não vai ver nem os cabelos do sovaco da Wille?

– Wille? – Fiquei confuso. Em resposta, chegaram os risos incontidos, enquanto apontavam com os olhos para a mulher gorda que usava um batom vermelho ridículo borrado sobre lábios torcidos.

– Arg! Mas por que Wille? – Pesquisei inocentemente.

– Dãããa!!! Fre Wille, Seu Guto! – Revelou Rodinha, batendo com a mão fechada sobre a testa, insinuando pelo visto que eu fosse um cabeça oca.

– Ahhh –Respondi enquanto revirava a sopa com a colher. Foi em uma dessas reviradas, para meu azar, que vi um amontoado de pêlos, grossos e desalinhados, e a ânsia me tomou.

– Não vai querer é? – Carvão me perguntou, e quando já ia arrastando minha bandeja na direção dele, a mão de Rodinha pousou sobre a minha.

– Vai sim – Me advertiu, lançando-me ainda um olhar repreensivo. Pegou a colher e tirou o cabelo, lançando-o no chão, fora do alcance de minhas vistas.

Estranhamente toda a náusea foi embora. Senti que estava sendo ridículo, tamanhas eram a fome e fraqueza que sentia. Lembrei-me dos dois corpos naquele maldito acidente. Peguei a colher, mergulhei-a na sopa enchendo-a, e ainda relutante engoli a comida enquanto os insights me perturbavam.

Depois de jantarmos deitei-me sobre aquele colchão duro, mas ali, naquelas circunstâncias se tentassem me roubá-lo lutaria por ele com todas minhas forças. Não sei como alguém pode dormir com o som de tantas pessoas roncando ao mesmo tempo. Só sei que apaguei de repente, e como em todas as noites após aquela tragédia, sonhei com o acidente.

Dirigia desesperado, minha mulher estava a ponto de dar a luz. Já casados há dez anos havíamos decidimos por fim ter nosso primeiro filho. Ela havia começado a sentir as contrações de repente, peguei a bolsa que já estava aprontada, apanhei as chaves e liguei o carro. Dava para perceber que tinha alguma complicação. Ela foi no banco de trás, deitada, gritando de dor.

Desesperado, afundei o pé no acelerador e segui pela estrada que não estava tão movimentada, pois já eram duas da manhã. Notei que Laura havia desmaiado de repente no banco de trás e olhei-a apavorado. Por cerca de três segundos eu havia girado meu maldito pescoço para ver se ela estava bem, e foi justamente nesse simplório espaço de tempo que o outro carro apareceu, saindo de uma rua erma, abruptamente, e desastrosamente nossos carros colidiram.

Ouvi os gritos. O Pai desesperado abriu a porta, e vi o buraco no pára-brisa. Ele correu para fora. As mãos e braços da mulher estavam estendidos sobre o capô, enquanto no pescoço um enorme caco de vidro atravessava a garganta. Mais a frente, no chão, havia uma criança de um ano de idade, que de certo estaria dando os primeiros passos. Para minha agonia a miúda estava dividida em três pedaços por sobre a pista. O Homem olhou para mim com um olhar sanguinário… Senti minhas pernas formigarem… Então eu acordei.

02h00min hs – Madrugada fria…

– Lauraaaaa! – Gritei. E antes mesmo de abrir o olho havia percebido que meu corpo estava banhado em suor. A perna ainda formigava. Bati a mão assustado em minha coxa, e pude sentir a barriga daquela criaturinha se arrastando em mim. Levantei-me e bati as mãos na calça. O rato asqueroso desceu pela perna e caiu no chão, fugindo desnorteado. Olhei ao meu redor, e para minha total surpresa havia um bando de colchões vazios. Procurei por Rodinha, mas ele não estava ali, não havia ninguém a não ser eu. Brevemente voltei a ouvir aquele mesmo barulho de correntes, mas agora parecia mais alto. Uma sensação de medo me vistoriou por completo.

– Tem alguém aí? –Perguntei para o nada, e como esperado não houve resposta.
Capítulos II – Sonho ou pesadelo

O Som das correntes arrastando-se parecia vir em minha direção. Olhei para todos os lados a procura do que me espreitava, mas não havia mais ninguém ali. Não havia nada. Um grito de dor ecoou, parecendo vir do corredor. Senti-me como aquele amaldiçoado rato, minúsculo e apavorado. Obviamente, fiz o que qualquer outro faria. Corri na direção contrária, indo para a cozinha, enquanto meus pés alternavam a sensação de pisar no chão frio e outrora nos colchões, afundando na espuma.

Entrei no refeitório, senti meus pés deslizarem e bati a testa em algo, flutuei por um mísero segundo até que as costas bateram contra o chão. Minhas vistas embaçaram, e a dor me visitou, espontânea e latente. Apoiei as mãos no piso para me erguer e ainda zonzo senti que havia algo errado. Simultaneamente o cheiro da morte adentrou minhas narinas. Olhei para minhas mãos e quase senti o gosto do sangue viscoso na minha boca.

– Que droga é essa? – Raciocinei, ao ver minhas mãos repletas daquele liquido carmesim. Ao meu redor vislumbrei todo o piso encharcado do mesmo vermelho, mas o que me assustou ainda mais foi o som das gotas que tocavam o chão, nostálgicas e sombrias. Meus olhos acompanharam a trajetória delas ao inverso, e viajaram em direção ao teto onde os corpos jaziam dependurados em ganchos que atravessam suas gargantas e despontavam sadicamente pelas bocas, como se aquilo fosse uma câmara fria de um frigorífico saído de um filme de terror. Os corpos estavam abertos, partidos ao meio, rasgados na vertical, em carne viva. Era uma visão absurda e inimaginável. As vísceras estavam dependuraras, dançando no ar.

Me levantei abruptamente. Enojado, queria me livrar de todo sangue que se impregnava em minhas roupas e mãos. Ainda evitando olhar diretamente para os cadáveres pude reconhecer a carcaça negra a meu lado. Fiquei estático por um minuto. Os olhos esbugalhados do defunto a minha frente eram bisonhos. Lembrei-me de rodinha o chamando de carvão. Agora o pobre homem era apenas um punhado de carne e ossos, tendo as entranhas ainda agarradas ao que restava do corpo. Ele estava retalhado como um peixe que iria ser assado. Meu estomago parecia estar sendo o palco da segunda guerra mundial. Não resisti, e vomitei. Olhando para o meu vomito esparramado no chão e sentindo o azedo temperando a língua, vomitei de novo, e de novo…

Arrastei-me dali de olhos fechados, evitando as imagens, e encurvado para que não batesse a cabeça nos corpos. Ao sair de lá estava de novo no salão, porém algo havia mudado. Perguntas se formavam em minha mente. Onde estavam os colchões? E o que significava isso tudo?Eu estava ficando louco? E afinal, o que era aquilo nas mãos dele?

– Você? – Perguntei atônito

– Silêncio, Seu Guto, eles podem te ouvir! – Sussurrou, enquanto a voz chegava assombrada pelo vento, me provocando um calafrio na espinha.

Rodinha estava de pé a minha frente, empurrando um carrinho de bebê ao meu encontro. Um carrinho lindo, azul, com um chocalho dependurado. O som das correntes ainda me perturbava. Quanto ao medo? Bem, o medo só aumentava.

– Pegue-o! – Disse o garoto, entregando-me a criança que estava enrolada por um cobertor. Não sabia o que estava acontecendo. O moleque não estava mais na cadeira de rodas, mas algo subitamente me acalmou naquele momento, como se tudo que tivesse visto não importasse mais. Senti a respiração da criança. Ainda não a havia visto, levei a mão até o rosto ainda coberto e o desembrulhei. Meu coração logo quis saltar de meu peito, e uma enorme repulsa me tomou por completo.

– O que é isto??? – Sobressaltei, e em meio ao susto deixei a criança cair. Rodinha correu até ela (É… Surpreendentemente ele podia correr) e a pegou novamente.

– Acalme-se pequeno! Ele não pode te fazer mal algum – Falou, ninando a criança após pegá-la no colo, e então a desembrulhou por completo, depois a colocou no chão.

Era um garotinho completamente deformado, o sangue minava de seu rosto, e escorria pelas mãos e no corpo desnudo. Uma das pernas havia sido decepada na parte inferior do joelho, as mãozinhas estavam quebradas, numa delas não havia o polegar, apenas um ossinho apontando para fora da carne. Os ossos atravessavam a pele, e ele se arrastava em minha direção. Instintivamente dei dois passos para trás, descrente e horrorizado.

– Não pode ser!! Que lugar é este? Quem é você garoto? Eu estou no inferno? – As perguntas chegavam, enquanto constatava que só podia ter ficado louco. Rodinha então sorriu para mim, e depois colocou o dedo indicador junto aos lábios me sugerindo silêncio.

– Ta ouvindo? – Sussurrou.

– Sim, estou. É o mesmo barulho que ouvi quando passamos no corredor – Reconheci como se estivesse em transe.

– Eu te falei. Era o barulho da fome. A fome deles, Seu Guto! – Revelou o jovenzinho.

– Eles quem?

– Eles – Respondeu, apontando na direção do corredor. Virei – me subitamente naquela direção e não vi nada a não ser o vão da porta que levava ao corredor.

– Mas não há ninguém ali! – Retruquei, e me virei novamente na direção do menino, que subitamente não estava mais lá. Nem ele, tampouco o bebê. Mal tive tempo para pensar se aquelas ausências me causariam alivio ou pavor… E então ouvi…

– Próximo!!!

Era a mesma voz que me chamou quando estava na fila. Wille apareceu subitamente vindo do corredor com sua berruga horrível, mastigando o que me parecia ser uma orelha humana crua. Os dentes agora se mostravam pontiagudos, como os de um demônio.

– Venha novato! – Ela chamou, segurando uma faca enorme de açougueiro na mão. A lâmina estava tingida de sangue.
Pensei em recusar aquele estranho e sombrio convite, mas essa idéia escapou de minha mente, quando ela disse a única coisa que me faria segui-la.

– Sua esposa esta a sua espera!

Seria possível que ela ainda estivesse viva? Laura, e meu bebê, vivos depois daquilo tudo? Se Deus realmente existia, e naquele momento não acreditava mesmo nisso, ele não permitiria que eu os visse novamente. A única coisa que me restou foi acreditar que em meio todo aquele suposto pesadelo, um sonho de repente não me faria mal.

Ressabiado e com a pouca coragem que consegui reunir daquela motivação extra, segui na direção daquela que poderia ser minha pior escolha.
Capítulo III – Ressurreição

– Minha mulher está viva, Wille? – Perguntei aturdido, mas a gorda apenas me lançou um riso amarelado, o que obviamente não era um sim, mas em contrapartida também não anulava minhas esperanças.

A acompanhei pelo corredor que dessa vez parecia ser mais longo. As portas eram enormes, de madeira rústica, largas, com cerca de um metro de largura e dois metros e meio de altura, e estavam todas trancafiadas. E o que era mais assustador era que havia uma janela de grades por onde o som escapava. Uma pequena janela a altura de um metro e setenta, a largura desse vão gradeado era de cerca de uns vinte e cinco centímetros por vinte e cinco centímetros.

Rodinha estava errado, aquilo realmente não era meu estômago, eram gemidos fugindo da boca de alguém que certamente estava sofrendo ali dentro.

– Onde está Laura? – Perguntei novamente, e a resposta foi uma gargalhada sinistra, sendo proferida por Wille, enquanto essa se virava em minha direção, segurando a enorme faca com a mão direita.

O medo chegou até mim de uma maneira claustrofóbica, Wille era enorme, e aquela distancia, naquele corredor, ela se tornara ainda maior. Afinal, quando ela iria me atacar? Em resposta a essa e outras perguntas meu medo só crescia.

Contudo ela não andou em minha direção, mas continuava a rir sadicamente. Logo, a gorda apontou para o fim do corredor, onde o homem voltou a gritar:

– Próximo! – Era o mesmo homem, a mesma voz, e o mesmo medo.

– Eu não vou sair sem Laura – Afirmei, quando Wille me apontou a porta a meu lado. Olhei para porta de madeira e pude ver além das barras. Ali não havia gemidos, apenas soluços e lágrimas. Ainda que estivesse surdo e não a ouvisse, reconheceria seu cheiro.

Era como se um jardim inteiro invadisse o ar, e rosas vermelhas e azuis dourassem os campos. Podia respirar novamente. E podia lembrar-me do acidente.

Via a criança ainda em pedaços na rua, a mãe morta tão próxima dela e o pai vindo em minha direção. Senti o liquido escorrer em minha testa, e minhas vistas se embaçaram. Podia ouvir a voz de Laura, e a do pobre pai desesperado.

– Ele vai ficar bem. Ele vai ficar bem, Laura. Ele só está confuso – Ele disse.

– Mas Roger, ele fala o tempo todo que matou a mãe e o filho, ele acha que eu morri no acidente.

– Ele está confuso, querida. Meu filho bateu forte demais com a cabeça, terá que ficar o resto da vida em uma cadeira de rodas e por não ter colocado o cinto de segurança os médicos disseram que a batida foi muito grave. Seu esposo ainda está aí dentro, ele sabe que você está do lado dele.

– Ele chama a cadeira de rodas de rodinha? Ele está louco. Meu Deus – Laura dizia, enquanto Wille voltou a me cutucar.

– O que foi Wille? – Perguntei.

– Não sou Wille! Sou Laura! – Estou tentando fazer você acordar! – Ela disse – Quero matar esses personagens que você inventou! Tirá-los de dentro de você! Eu quero meu Augusto de volta!

Lembrei-me de meu medo, do medo que tive de perder ela e meu filho. Lembrei-me de pisar fundo no acelerador, e me recordei de um carro bater contra o meu. Meu pai? Deus! Ele estava desesperado.

– Augusto, querido! – Ela me chamou enquanto estava me preparando para a defesa do caso de número 73 da minha carreira. O nome do réu era Valdir Espinosa, mais conhecido como Valdir Sanguinário. Ele era meu cliente, o homem era gordo, tinha uma enorme berruga na testa, mas o que me interessava mesmo é que ele era um milionário. Estava me pagando uma alta quantia para livrá-lo da acusação de tráfico de órgãos.

Eu estava entrando tanto naquele caso que nos últimos dias mal tive tempo de dar apoio a Laura. Mal sabia o que ela estava sentindo.

– Roger, ele ta chegando! Ele ta chegando! Ufh.. Ufh – Ela dizia e respirava.

– Como? Ele? Ele?? O nosso… Ah meu Deus!! – Larguei toda a papelada por sobre a mesa, mas não antes de dar uma ultima olhada nas fotos das supostas vitimas. Havia fotos de adultos e crianças, em sua maioria eram mendigos. Mas uma em especial me chamou a atenção. Uma criança, muito pequena, tinha o corpo aberto, era só um bebê. E ainda vi outra de um senhor, um negro dependurado em um gancho de açougueiro indo para incineração. O que eu sabia é que havia provas suficientes para acusar Valdir, e eu as tinha, e ele havia me confidenciado que era culpado. Esse é o mal de ser o advogado de defesa, na maioria das vezes não se pode fazer a coisa certa.

Liguei para meu pai, que morava próximo a nós e avisei que estávamos indo para o hospital. E foi assim que a tragédia se desenhou.

Quando os carros colidiram vi-o correndo a meu encontro. Eu estava no chão, mal havia colocado o cinto de segurança. Laura perdera a consciência por poucos segundos, bastou um susto para gerar outro susto.

Meu pai ficou tão eufórico, era como se minha mãe estivesse renascendo junto daquele bebê. Era uma sobrevida visto que sua enorme casa havia se tornado seu aparente tumulo. Ele me contava que a noite era como se ouvisse a voz dela entrando junto do vento zombeteiro que flertava com as frestas. Dizia o quão era ruim tomar café sozinho, fazer almoço e jantar para uma pessoa só. Quando o contei que Laura estava grávida, lembro dele me abraçar aos prantos. Não, ele não me parabenizou, mas me agradeceu por aquele presente que acabara de ganhar. Uma nova razão para viver.

E foi essa euforia que o fez mudar a direção, passar por um caminho distinto e ir a meu encontro. Chocamo-nos, num acaso do destino, um choque para todos e principalmente para mim. Todo aquele turbilhão de acontecimentos se abrigou em minha mente. Estava preso no obscuro de minhas lembranças, no medo, em meio pesadelos e sonhos. Estava em pânico, pois não sabia se estava vivo ou morto.

E foi ali, do lado de Wille, ao sentir o cheiro de Laura, ao ouvir o homem que o tempo todo me chamou no tribunal durante aquela defesa… “Próximo”. Eu sentia o terno fino sobre meu corpo, cobrindo-me o tempo todo, escondendo minha verdadeira essência, como se aquilo tudo fosse uma fantasia que me transformasse noutro ser. Rodinha seria meu guia. Uma cadeira de rodas que me auxiliaria na continuação de minha jornada, e descobri que podia fazer algo mais pelas pessoas e por mim mesmo.

– Próximo! – Chamou a voz, e senti uma dor incrivelmente forte em minha cabeça. Virei-me para Wille, e ela não parecia ser tão feia assim, e de repente minhas vistas embaçaram como quando aconteceu o acidente. Senti a presença de rodinha de novo, e ouvi sua voz.

– Ei, você não tem muito tempo que ta na pior né? – Perguntou o garoto de muletas. Ele não tinha uma das pernas, a mesma havia sido amputada a altura do joelho e suas mãos eram deficientes, envergadas para trás, mas ele sorria – você vai ficar bem – Afirmou com a certeza de alguém que já tivesse passado por tudo aquilo.

Eu estava naquele mesmo corredor, Laura tomara o lugar de Wille. Eu podia ver o quarto e as camas. Virei-me para trás ao sentir as mãos pequenas de Laura sobre meus ombros, e então a chamei.

– Laura? – e chamei também meu pai – Pai? – e os ouvi eufóricos.

– Augusto!!

Laura veio até mim, papai chegou logo depois e me beijou a testa, porém agora era ele quem me dera um presente, uma nova razão para viver.

– Olha quem está aqui pequeno – Disse ao bebê – Veja Augusto, sabe quem é esse? – Ele perguntou para mim, e antes que eu tivesse forças para falar, antecipou – Esse, meu filho, é o “seu Guto”, o nosso Guto! – eu chorei, chorei sentindo ainda a garganta doer, onde um caco de vidro havia me perfurado, percebi que minhas pernas mal se moviam, e estava feliz mesmo que não pudesse mais andar. As lágrimas se derramaram em meu rosto, mas não pela minha desgraça, pelo contrário, elas chegaram pela felicidade de minha vitória.

Enfim estava livre daquele maldito abrigo.

Dois meses passaram rápido. Estávamos todos no parque, passeando. Eu e minhas rodinhas, Guto e seu voador. Ah, o meu menino era tão sapeca. Papai corria ao lado dele como fosse uma criança, e Laura estava ali do meu lado, orgulhosa de mim, minha grande companheira.

– Ei autoridade – Ela me chamou como há muito não me chamava, desde quando havia passado a me dedicar tanto ao meu trabalho.

– O que foi amor? – Respondi.

– Você fez a coisa certa ao entregar as provas para justiça, afinal você não era mais o advogado dele – Disse, enquanto acariciava meus cabelos já grisalhos – e era verdade, ele havia me demitido alegando que não queria ser defendido por um maldito aleijado, justamente com essas palavras ordenadamente preconceituosas.

Olhei para Laura, minhas mãos a buscaram até mim, e então a beijei.

– Eu te amo, Laura. Eu simplesmente te amo.

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16 comentários em “O Abrigo (Sidney Muniz)

  1. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Gostei, digamos, muito mais da primeira metade. Não sou muito fã de dividir o conto em capítulos, e vou ser sincera, foi complicado ler a última parte, destoa muito… Um enredo bem complexo, no entanto, e acho que é um bom material para ser trabalhado pelo autor. Boa sorte!

  2. Cristiane
    11 de julho de 2014

    Gostei da trama, esperar até o final para compreender o texto, as ligações entre sonho e realidade foi bastante estimulante. Os nomes dos personagens no abrigo foram perfeitos. Adorei o personagem rodinha, gostaria de ter visto um pouco mais dele… rs

    Texto muito criativo, principalmente a primeira e segunda parte prendem bastante a atenção.

    Críticas: O texto precisa ser revisado com cuidado, algumas mudanças estruturais e uns cortes sutis para uma leitura mais limpa. Os títulos nos capítulos são desnecessários, apenas um espaço maior seria suficiente e deixaria a leitura mais interessante.

    Parabéns!!!

  3. tamarapadilha
    11 de julho de 2014

    Só gostei da parte do abrigo, creio que se tivesse ficado naquilo, com um desfecho ali mesmo seria mais interessante. E esse fim de felizes para sempre? Quebrou o clima inicial de suspense e já misturou tudo. Regular o conto.

  4. Pétrya Bischoff
    10 de julho de 2014

    Então, não sei ao certo o que dizer. Gostei da narrativa da primeira parte (que não segue no resto do texto) e das sandices do pesadelo na segunda parte. No entanto, achei desnecessária a explicação da relação entre os delírios e os acontecimentos na vida do cara, ao menos esse detalhamento todo poderia ter sido resumido a referências. As sanguinolências, embora em demasia, não me chocaram, penso que nem todos tenham aquele dom com determinadas descrições. No geral, penso que esteja mais para bom que para ruim. Boa sorte.

  5. Thata Pereira
    10 de julho de 2014

    Eu estava gostando e o que iria mencionar entre a primeira e segunda parte é que eu não usaria a definição dos capítulos. Quebrou o ritmo da minha leitura, mas isso é uma coisa que muda de uma pessoa para outra. Mais cuidado com os acentos!

    Não gostei da terceira parte. Pensei que estava entendendo e do nada tudo ficou extremamente confuso. Julgo até que não entendi o final. Mas as duas primeiras partes eu estava gostando, um conto para ser reescrito.

    Boa Sorte!

  6. Tiago Quintana
    23 de junho de 2014

    Lamento, mas achei o conto um pouco simples demais – até mesmo simplório.

  7. Eduardo Selga
    19 de junho de 2014

    O paralelismo estrutural é um recurso narrativo que, uma vez bem usado, pode provocar grande efeitos estilísticos, principalmente nos casos em que há a sensação de circularidade, como é o caso do presente conto. Contudo, a técnica ainda não está apurada o bastante, gerando certa nebulosidade interpretativa que, no caso, me parece indesejável. A repetição de eventos parecidos em contextos diferentes (os corpos pendurados e abertos / o sujeito acusado de tráfico de órgãos humanos, por exemplo) é um “mise en abyme” (narrativa em abismo) que poderia ter funcionado perfeitamente. Nem creio que tenha sido causado por eventos em excesso, e sim pelo fato de o(a) autor(a) não dar a todos o mesmo espaço narrativo. O resultado é que algumas vezes o leitor se pergunta onde termina o espaço do real e onde começa o da alucinação, se posso falar desse desequilíbrio perceptivo. Por vezes, autores que trabalham nesse território limítrofe querem de fato a obscuridade, faz parte da estratégia narrativa, mas no presente conto, acredito, isso não ajuda. Não do modo como foi feito.

    A narrativa segue uma curva que vai do abstrato ao concreto. Ou seja, o leitor não sabe exatamente onde o protagonista está (será de fato um abrigo?), pois ele mesmo sente uma estranheza, mas aos poucos a abstração dá lugar ao real, como no fim. Uma ideia muito boa, cuja melhoria de tratamento passa pelo que foi dito acima.

    Quanto à gramática, há várias situações de próclise usada no lugar da ênclise, como em “O segui sem saber para onde ia”, que deveria ser “segui-o […]”; uso de trema (já abolido pela norma) em “Fica tranqüilo que a galera é firmeza”; grafia equivocada em “[…] que de certo estaria dando os primeiros passos” (decerto) e palavra usada erradamente em “[…] e foi justamente nesse simplório espaço de tempo que o outro carro apareceu […]” (o significado de SIMPLÓRIO não se encaixa na frase).

  8. Anorkinda Neide
    18 de junho de 2014

    Olha eu gostei do conto, gostei do final.. mas realmente está um pouco confuso, o que cansa a leitura.
    Mas é um bom conto, parabens!

  9. Edivana
    16 de junho de 2014

    Oi, meu comentário não vai divergir do dos colegas, o começo é muito bom, a gente acaba se sentindo dentro da pele da personagem, depois o horror que ele sente nos pega, mas o final, poxa, o final deixou a desejar. Em todo caso, seu talento é limpo. Parabéns.

  10. Davi Mayer
    15 de junho de 2014

    é um bom texto, o começo me empolgou muito… Cenas bem descritas, palavras bem empregadas, etc…

    O que não gostei muito foi que no ultimo capitulo senti uma confusão de ideias, não sabia se ele estava pensando, acontecendo, ou sonhando… sei lá… A proposta é muito boa.

    Sabe o que mais, pensei que estivesse vendo um filme do Supercine… KKKKKKKKKK Muito bom…

    Parabéns, no mais valeu a leitura.

  11. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Gostei da ideia, mas não da execução do texto.
    Gostei da aura de terror geral, mas o final foi decepcionante para mim.
    Um texto bom, mas que poderia ser melhor trabalhado.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

    • Lavinia Silva
      12 de junho de 2014

      Obrigado Thiago. E obrigado a todos, entendo perfeitamente o que estão sentindo em relação ao final. Agradeço pelas considerações. Digo que não alteraria o desfecho, mas pelos pontos de vistas apresentados, concordo que ele poderia ter outra medida, ou seria dosagem… Agradeço!

  12. Jefferson Reis
    10 de junho de 2014

    Gostei do primeiro e do segundo capítulo, mas o terceiro quebrou o ritmo que me conquistara. Ficou muito explícito. Prefiro os contos cujo clímax esteja próximo ao desfecho. Em “O abrigo”, o momento de maior tensão (que é muito bom) acontece e, seguindo-o, vem o desfecho longo e morno.

    Mesmo assim, gostei muito da narrativa, que me empolgou. A apresentação não revela muito sobre a identidade do protagonista, dando liberdade imaginativa ao leitor. Boa jogada do autor, pois isso aumenta as chances da surpresa na hora da revelação.

    Também gostei muito das associações: Rodinha com cadeira de rodas, o caco de vidro na garganta, os mendigos abatidos com o tráfico de órgãos. O autor soube descrever um pesadelo.

  13. mariasantino1
    9 de junho de 2014

    Olá!
    .
    Engraçado, comecei a ler e mergulhei achando que era um conto de terror, e nesse gênero só me cativam os finais trágicos. São poucos finais felizes que me interessam, pois não sou muito fã deles (algo meu mesmo). Gostei do conto, mas achei o final é explicadinho demais, preferia que fosse só exposto os fatos anteriores e a conclusão do que era o quê ficasse por conta do leitor.
    .
    Observe as dicas dos colegas.
    Abraços.

  14. Claudia Roberta Angst
    9 de junho de 2014

    Olá. Acho que as falhas gramaticais já foram bem comentadas pelo Fábio Baptista. Nada que uma boa revisão sem pressa (difícil, né?) não resolva.
    Percebe-se que o autor teve o trabalho de elaborar e costurar toda a trama, o que não deve ter sido nada fácil. O realismo da descrição de alguns momentos chegam a chocar, o que é ótimo. No entanto, em alguns pontos, senti a leitura travar, precisando voltar um pouco na narrativa para me certificar de algum sentido. De qualquer forma, apresentou um bom conto. Boa sorte!

  15. Fabio Baptista
    8 de junho de 2014

    Gostei de algumas coisas, não gostei muito de outras.

    Primeiro a gramática, que acabou chamando a atenção:
    – ultima / estomago / liquido / vomito / distancia / tumulo
    >>> Acentuação

    – tivesse trago
    >>> trazido?

    – a nossa frente
    >>> Crase

    – Repetição excessiva de “havia”.
    >>> Isso foi o que mais incomodou

    A história é bem bolada, mas acredito que tenha pecado um pouco na execução. A descrição do convívio com os mendigos é bem feita (chega a dar nojo o cabelo na sopa) e o capítulo 2 é bastante tétrico, criando uma aura pesada. O capítulo 3, da revelação, ficou confuso (é compreensível, mas não é muito claro), muitos nomes e eventos misturados, uma overdose de informações. Acredito que o resultado teria sido melhor se ficasse um pouco mais simples.

    Abraço.

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Publicado às 8 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .
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