EntreContos

Detox Literário.

Canela (Eduardo Barão)

canela

Veio sem aviso prévio e de dentro pra fora uma vontade absurda de contrariar aquela velha máxima: o mundo não muda, e sim a forma como o enxergamos.

O mundo muda sim. E pra pior.

Eu continuo o mesmo cara de antes. Verdade seja dita: com mais responsabilidades, mais velas apagadas e anos corridos. Mais planos e expectativas, talvez. Contudo, a vontade de assistir desenho, usar boné virado para trás e mascar chiclete de uva não foi embora. Uma fruta não deixa de ser uma fruta só porque amadurece. Eu não deixei de ser um garoto só porque me tornei um homem.

Sucumbindo ao clichê do medo, da dúvida, da crônica e da reflexão; galguei degrau por degrau do ônibus (apenas dois que pareciam centenas) com a cara amassada e um oco no peito deixado por mais um dia gelado no trabalho. Três anos tomando café requentado e ouvindo papo insosso de engravatados tão desinteressados como desinteressantes. Três anos caindo na saudade de chegar à casa de meus pais após um dia puxado no cursinho de inglês e me jogar com a mochila no sofá para fitar o teto com a consciência limpa: nada de contas, nada de namoradas, nada de nada. Nada de futuro. O presente era suficiente e a rima parecia mais agradável.

E falando em suficiência, eu gostaria que só a saudade bastasse para o tempo regredir. Mas se nunca bastou aos outros, não bastaria por capricho meu.

Brisa melancólica das 18h30minh. Uma senhora de suéter rosa desembarcou naquele ponto. Tirando meia dúzia de gatos pingados, o gigante de metal se encontrava quase vazio; coisa atípica para o horário. Uma mão segurava a maleta de relatórios, a outra se apoiava na barra amarelada do teto para me ajudar a manter o equilíbrio. Olhei pra cima, baixo, lados. Entre tantos rostos indiferentes, um se destacava: a mocinha meio gótica no banco da última fileira parecia abatida. A franja desgrenhada do cabelo cor-de-hulha cortado a navalha cobria o rostinho pálido e colado na janela embaçada pela poeira. Dado o contexto, uma comparação não tardou a rechear meu pensamento:

“Cíntia?”.

E, de fato, estava mais abatida que eu. Não que fosse da minha conta; não mesmo. Mas um olhar – e só um olhar – bastou para que eu me identificasse com tamanho cansaço. Ou tristeza. Ou os dois. E na dúvida, me aproximei. Ato inédito e nada comedido.

– Com licença.

E me sentei ao seu lado. Não me respondeu, tampouco mexeu algum músculo. Outra garota teria reagido arqueando a sobrancelha e estranhando o fato de alguém ocupar o espaço ao seu lado diante de tantos bancos vazios. Ela não.

– Eu acho esse tempo chato. Nublado pra caramba, mas não chove. Dá vontade de dormir, não é? – prossegui, acomodando a maleta no colo. – Pelo menos amanhã é sex..

– Eu não vou… – ela me interrompeu, mexendo os lábios pela primeira vez e emitindo um som tão doce como sussurrado. – Sair com você por dinheiro.

E virou o rosto, me olhando nos olhos. Os meus eram castanhos, os dela eram azuis. Arregalei os meus num susto e quase pulei da cadeira. Em seguida, me recuperei e ri baixinho. Olhei para os cantos e me certifiquei de que ninguém havia escutado.

Eu não era um tarado e definitivamente não merecia ser tratado como um.

– Eu sei, mocinha. Sou casado.

– Aham. E isso só piora a situação. – mal respondeu e tornou a colar o rosto no vidro.

– É que você parece precisar de ajuda. E eu nunca fiz isso antes, sabia? Só fico remoendo na minha cabeça a chance de melhorar o dia de alguém com um sorriso. Eu sempre fico feliz quando alguém conversa comigo sorrin…

– Eu tenho dentes. Sei como sorrir.

– E essa mania feia de me interromper?

– Não te conheço e não gosto desse papo de psicólogo.

– Eu não sou psicólogo.

– Psicólogo, professor de primário, assistente social. Tanto faz. Não gosto e continuo não te conhecendo.

– Psicólogos aconselham, encaminham, receitam… E eu só quero conversar contigo, por mais que não me conheça. Eu posso sentir quando alguém precisa de estímulo; de um empurrão. Às vezes eu preciso e não encontro alguém para me ajudar. As pessoas não se importam.

– Eu não sei dizer se me importo. Você não tem cara de quem precisa pegar ônibus.

– E eu não preciso. Meu carro enguiçou e tá no conserto. Cíntia e eu estamos indo trabalhar a pé desde ontem.

Silêncio. Se uma aranha estivesse tecendo sua teia perto dali, certamente eu seria capaz de ouvi-la. Ela não parecia interessada em continuar me respondendo. Eu não a culpava: talvez o papo de psicólogo vindo de um desconhecido engravatado fosse realmente maçante. Contudo, eu não desisti.

– Cíntia é a minha esposa. Não que você queira saber, ou melhor, sei que você não quer… Mas amanhã é o nosso primeiro aniversário de casamento. Acredita que eu a conheci numa sorveteria?

Silêncio.

– Ela amava sorvete de creme. Eu sempre achei sem graça, mas aprendi a gostar por causa dela. Nem tudo que é sem graça deixa de ser bom.

Nada. Tive a leve a impressão de vê-la rolando os olhos, completamente entediada.

– Ela é parecida contigo. Bem magrinha. Eu vivia chamando ela de Olivia só para irritar. Só pra ver embrabecer e ficar vermelha. Olivia Palito.

Ela virou a cabeça na minha direção mais uma vez. Notei suas olheiras. Borrões escuros na pele branquinha que mais pareciam maquiagem. Emendando um aparente misto de sono com desânimo aos suspiros, esboçou um sorriso tímido pela primeira vez. Mais uma primeira vez.

– Você não se parece com o Popeye.

Eu ri. Ela estava ouvindo tudo, afinal de contas. Mil respostas, piadas e frases prontas martelaram minha cabeça em uma fração de segundos; no entanto, uma freada brusca anulou qualquer palavra prestes a escapar de minha boca. Ela planejava descer naquele ponto.

Sem se despedir, levantou-se e passou por mim sem pedir licença. Ajeitou a mochila puída no ombro e cambaleou de leve pelo corredor, escondendo as mãos nos bolsos do moletom preto. Estava fraca e os pés ostentando um par de all star surrados mal conseguiam sustentar o pouco peso de seu próprio corpo.

Eu poderia ter ignorado, mas corri ao seu encontro.

Saltei num ponto que não era meu e apressei o passo para acompanhar uma menina que acabara de conhecer.

– Hei. – pousei minha mão sobre o mesmo ombro que apoiava a mochila. – Você tá bem?

Ela hesitou. Não pareceu surpresa ao ouvir minha voz e demorou alguns segundos até se virar para mim com a mesma expressão impassível de antes.

– Você de novo? Não tem medo que eu te assalte? – e se o rosto permanecia o mesmo, o tom de voz já havia adquirido nuances de impaciência.

– Claro que não. – ri. – Você mal consegue andar direito, quem dirá roubar dinheiro de alguém. Quando foi a última vez que comeu alguma coisa?

– Se eu quisesse esmola, já teria pedido.

– Eu sei que não quer esmola, mas não precisa ter vergonha. Tem uma confeitaria aqui ao lado que serve uma das minhas tortas favoritas.

Ela abaixou a cabeça. Eu não precisava ser psicólogo para entender que estava diante de uma garota teimosa e orgulhosa como qualquer outra da mesma idade. Estendi minha mão e ergui seu queixo delicadamente para que fixasse seu olhar repleto de dúvidas no meu.

– Eu não tenho dinheiro. Preciso economizar pro ônibus.

– Sem problemas. Eu pago.

– Seria esmola, de qualquer forma.

– Encare como um encontro de amigos.

– Eu não sou tua amiga.

– Então encare como um encontro de recém-conhecidos.

Fiz sinal para atravessarmos a rua. Ela bufou e cedeu à minha péssima lábia, sincronizando seus passos com os meus até chegarmos a uma pâtisserie cara e com uma vitrine tão deslumbrante que me remetia a filmes franceses da década de 60. Não que eu fosse um apreciador nato de cinema cult, obviamente.

Entramos. No trajeto até uma das mesas, precisei desviar de alguns olhares de reprovação lançados por duas funcionárias. A forma como ela estava vestida causava estranheza em um lugar tão refinado, mas isso não era o bastante para me atingir ou causar qualquer arrependimento.

Sentamos. Havia uma elegância na sua postura que não condizia com o visual. Coluna ereta, olhar sereno e cotovelos devidamente apoiados no colo. Enquanto fazia pedidos a uma das funcionárias, sua boca manteve-se fechada e seu semblante transparecia certo receio. Novamente, eu não a culpava. Após alguns instantes, já servidos com pedaços de torta, tentei suscitar novo diálogo.

– Lembra que te falei que aqui serviam uma torta que gosto muito? Então, é essa. Espero que goste de noz-pecan.

Ela terminou de engolir o que já havia mastigado, limpou a boca com um guardanapo e me respondeu sem muito entusiasmo:

– Eu odeio noz-pecan.

– Por que tá comendo então? Ué.

– Porque você tá pagando e eu tô com fome.

– Mil desculpas. Eu sei que devia ter pedido tua opinião antes, mas é que eu e Cíntia sempre pedimos essa torta. – estava constrangido e a forma como articulava as palavras só ajudava a evidenciar isso. – E como você não conhece o menu, pensei que seria mais prático…

– Eu conheço o menu. Já vim aqui outras vezes.

Não podia negar: estava surpreso. E envergonhado, sem sombra de dúvidas. Embasado meramente na sua aparência, acabara de formular um pré-julgamento e escancará-lo sem ponderar.

– Já? Mas…

– Você acha que eu moro na rua e que não conheço lugares chiques, eu sei. – ela me interrompeu mais uma vez, como se pudesse ler o meu pensamento. – Mas eu só tô passando por uma fase no… Quer dizer, não sei por que tô te contando isso.

– Não fica acanhada. Tá passando por uma fase difícil?

– Não. Tô enfrentando uma fase nova da minha vida. Não deixa de ser difícil, mas não é como você tá pensando. – aos poucos, sua expressão ia ficando mais suave e menos fechada. – Eu só precisei sair de casa para correr atrás do que realmente queria.

– Você fugiu?

– Não. – riu baixinho, envergonhada. – Se você foge, é porque devia ter ficado. E eu só deixei pra trás o que já não era meu.

– Você é novinha ainda. Não sabe o que tá fazendo…

– Eu já tenho dezoito e, se não soubesse, não teria feito.

– Ter dezoito anos não significa absolutamente nada num mundo onde ser adulto não é vantagem. Daqui dez anos tu vai querer voltar no tempo pra reverter essa besteira que tá fazendo.

– Quer dar lição de moral? Parece até redator de cartilha do MEC. Você também faz besteiras, todo mundo faz. Até porque não me parece muito sensato convidar uma garota estranha para sair e comer sendo casado e mais velho.

– Eu não me lembro de ter dito que era sensato, e sim que queria te ajudar.

– Eu dispenso essa hipocrisia. Você só veio atrás de mim porque eu sou parecida com a tua esposa.

Minha língua congelou dentro de boca. Eu já não conseguia pensar em qualquer outra resposta além do silêncio porque, apesar de ser duro aceitar, era a mais pura verdade. Antes de reagir, tive tempo de vê-la empurrando e prato e se levantando. Em seguida, abriu a mochila e tirou uma nota de cinquenta, jogando-a na mesa sem me olhar e saindo sem se despedir como fizera no ônibus.

Eu poderia ter desistido. Contudo, pela segunda vez, tracei o caminho mais tortuoso. Não esperei mais e paguei a conta, correndo do estabelecimento para fora na esperança de encontrá-la por perto. Apressei o passo, olhei para os lados e a vi contornando a esquina levando consigo um pouco do meu orgulho. Corri mais, quase fui atropelado, tropecei, senti a alça da maleta escorregando entre meus dedos; mas mamãe sempre dizia que o esforço recompensava.

E a minha recompensa seria ouvi-la aceitando minhas desculpas.

– Hei. – gritei sem medo de ser ouvido e tachado de maluco pelos outros pedestres. – Espera.

Ela ouviu. Déjà vu. Quase dobrando outra esquina, se virou para mim e ignorou minha visível falta de fôlego, permanecendo imóvel enquanto eu me aproximava a alguns metros de distância. Se ela forçava tamanha frieza, conseguia ser bastante convincente. Uma rocha pareceria mais expressiva.

– Você tava certa. – cheguei esbaforido, largando a maleta na calçada e apoiando as mãos nas pernas enquanto recuperava todo o ar perdido.

– Do que cê tá falando?

– Você me lembra Cíntia sim. E é por isso que fui e vim atrás de você. – catei a maleta do chão, ajeitando minha postura. – Porque toda vez que olho pra ti me lembro de como ela é especial e de como você também deve ser, mesmo com toda essa máscara pesada que carrega por aí pras pessoas não se aproximarem.

Ela sorriu (dentes brancos de porcelana, dignos de boneca) e não se importou em parecer outra maluca conversando em voz alta no meio da calçada movimentada.

– Obrigada.

– O quê?

– Obrigada pela torta. Não precisava ter feito isso por mim. Eu sei que fui chata com você, mas eu sou chata assim com todo mundo. Como você disse antes, as pessoas não se importam. Eu pensei que você não se importasse.

– Deixa disso e me diz teu nome. Eu posso te ajudar a voltar pra casa.

– Não precisa. Conto se contar o teu.

– Mario.

– Tipo Mario Puzo?

– Quem?

– O escritor.

– Eu escrevo umas bobagens de vez em quando, mas nunca ouvi falar desse cara.

– Ele nasceu na Itália e… – ela parou de falar e olhou para o meu pulso, fitando o meu relógio. – Eu preciso ir.

– Pra onde?

– Eu arrumei um lugar pra ficar.

– Você pode ficar na minha casa.

– Hãn? Não seja idiota. Tua mulher odiaria a ideia e seria estranho.

– Então me deixa te acompanhar.

– Você não precisa voltar pra casa?

– Você não sabe se virar? Eu também sei.

Ela rolou os olhos e suspirou fundo. Na sequência, sorriu e cedeu mais uma vez à minha lábia que talvez não fosse tão péssima assim. Estendeu a mão para me cumprimentar e, num gesto cordial e inesperado, se apresentou:

– Ornella.

Apertei sua mão de bom grado e passei a segui-la em pernadas vagarosas. Logo, meu sorriso se transformou em uma gargalhada sonora que a fez franzir a testa.

– Do que cê tá rindo?

– Não é do teu nome. É bonito, diferente. Italiano ou francês, não é? – meus olhos cintilavam só de contemplarem a visão de uma Ornella gentil. – Mas é que… Rima com canela.

– Você parece criança, sabia?

– Não sou tão mais velho que você, Nella. – arrisquei um apelido.

– Meu pai escolheu esse nome. Ele é italiano e disse que o significado tem a ver com flores. Não combina comigo, eu sei.

– Tua família é italiana do tipo que se reúne pra comer massa no domingo?

– Do tipo que ouve música clássica.

– E você gosta?

– Aprendi a gostar tocando piano.

– Não acredito que toca piano. Isso é fantástico, Nella.

– Eu parei de tocar quando saí de casa.

– Isso não faz muito sentido pra mim.

– Gosta de viver uma vida de treinos? Condicionada? Eu saí e parei por perceber que tinha ficado presa a minha vida toda.

– É bom se prender a algo. A um motivo. A vida flui melhor assim.

– Não é bom se prender a algo quando a vontade não é sua.

– Você realmente não sabe o que fala. – lancei uma investida de través e a censurei com palavras. – A vida é feita de motivos. Eu tenho um motivo pra ir trabalhar num lugar chato, pra pegar ônibus e voltar pra casa. Os meus motivos na infância não eram complexos e nem exigiam grandes responsabilidades, por isso que sinto saudades. Talvez eu seja um eterno preguiçoso e insatisfeito, mas o que importa é que você se prende a um motivo e não há como escapar disso.

– Sabe… – suspirou. – Eu era loira e pintei meu cabelo, usava uniforme de colégio e agora uso o que o dinheiro que consigo pode comprar. As pessoas não ditam mais os meus motivos. Eu não quero motivo pronto. Eu quero encontrar um novo.

– Mas não é assim que as coisas funcionam. Você não pode deixar pra trás uma vida boa e promissora. Isso não é certo.

– Não é certo, mas eu deixei. Porque mesmo sendo certo, não me deixava feliz.

– Mas eu segui a minha vida em frente e deu certo pra mim.

– E você é feliz?

Ela parou de andar. Eu também parei. Estávamos em frente a um portão laranja semiaberto que servia de entrada para um corredor mal iluminado. Dali eu só podia enxergar uma porta de vidro e um interfone na lateral.

Era como se tivesse regredido aos meus dezoito anos e estivesse conversando com uma paquera do ensino médio. Mais intimidador que qualquer entrevista de emprego ou chefe zangado.

– Eu… Talvez eu… Tenha uma pontada de inveja… – minha voz ficou trêmula sem que eu pudesse remediar. – Porque você conseguiu largar tudo sem olhar pra trás e sem sentir saudades. Eu tenho medo. Eu sinto saudades.

– Inveja de mim e do que eu fiz? Eu me tornei invisível aos olhos dos outros. As pessoas se afastam.

– Você acha isso ruim?

– Se achasse, teria voltado para casa. Só penso que não é motivo pra inveja.

– Você não é invisível, Nella.

– Você não teria olhado para mim se eu não te lembrasse a tua Olivia Palito.

– Sabe a canela?

Ela não me respondeu mais. Alguns pingos finos de garoa rolaram das nuvens às nossas faces. O céu cinzento honrou as ameaças: estava começando a chover. Ela olhou para o portão, murmurando baixinho e cansada:

– É aqui que eu vou ficar.

– Sabe a canela? – insisti, ignorando os pingos e a sua última frase.

– O que tem?

– Li em algum lugar que ela não tem sabor. O gosto que sentimos tá associado ao aroma. Se taparmos o nariz e fingirmos que não sentimos o cheiro, ela realmente não terá gosto algum.

O chuvisco ralo engrossou e tomou proporções de pancada, circundando nossos rostos com rastros transparentes.

– E você é como a canela. – continuei. – Eu podia ter ficado em pé até descer no meu ponto, fingindo não te ver. Só que decidi me sentar do teu lado e não gostaria que tivesse sido diferente. Você não é invisível pra mim.

Eu não saberia distinguir as lágrimas que rolavam de seus olhinhos das gotas de chuva que se fundiam e pingavam do queixo ao chão. Antes que seus braços magros envolvessem meu tronco num abraço de urso, só tive tempo de ouvir o barulho da sua mochila se estatelando no pavimento encharcado.

Eu retribuí. Como um pai. Como um amigo.

Como um falso psicólogo.

– Eu posso te ajudar a ir pra casa, falar com tua família. Você tá fraca e eu não quero te deixar assim. Não posso fazer isso.

– Sentir saudades e olhar para trás não é errado…

– Eu sei disso.

– Mas eu quero errar. Eu quero que me deixe errar.

Olhei pro seu rostinho e limpei suas lágrimas de chuva com a palma da mão, em um gesto bem mais simbólico que útil. Consenti fazendo sinal positivo com a cabeça. Ela se desvencilhou dos meus braços e pegou a mochila, indo em direção ao portão. Terminou de abri-lo e, antes de entrar, se virou para mim pela última vez:

– Eu não tô triste, Mario.

E se desfez de qualquer lágrima ou seriedade com um sorriso que fez valer meu dia, fechando o portão e andando até a porta de vidro sem olhar para trás. Pude vê-la apertando um dos botões do interfone antes de finalmente dar as costas e começar a caminhar até encontrar um ponto de ônibus próximo. Meu queixo tremia e a camisa grudava no peito conforme a chuva descia sem previsão de término.

Cheguei a tempo de pegar um ônibus com outras pessoas que aguardavam em pé no abrigo. Sucumbindo ao frio, galguei degrau por degrau (dois que pareciam centenas) com a mesma cara amassada e o peito preenchido por uma vontade de voltar pra casa e ouvir minha Olivia reclamando da minha demora e do jantar que provavelmente preparara com tanto carinho e já havia esfriado.

Uma mão segurava a maleta de relatórios, a outra se apoiava na barra amarelada do teto para me ajudar a manter o equilíbrio. Inclinei meu rosto e me deparei com a última fileira vazia, incluindo os bancos próximos às janelas. E enquanto meus olhos marejavam, estufei o peito e senti vir de dentro pra fora uma vontade absurda de acolher pra mim aquela velha máxima: o mundo não muda, e sim a forma como o enxergamos.

Eu não sei se o mundo mudara enquanto girava sob meus pés, mas eu certamente passei a enxergá-lo de outra forma.

E tudo por causa dela.

Nella.

Canela.

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21 comentários em “Canela (Eduardo Barão)

  1. rsollberg
    12 de julho de 2014

    Bem interessante! Adorei o comecinho e curti demais os diálogos.
    Apreciei as referências e senti certa identificação. Maduro, belo, e com muita emoção.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  2. Bia Machado
    12 de julho de 2014

    Adoro canela, rs… E ficou muito bonito o desenvolvimento, acho que manteve bem o ritmo, tanto que nem senti a leitura, quando vi, já era o final. Personagens muito cativantes, humanos, diria até apaixonantes! Uma melancolia até… Parabéns, muito bom mesmo.

  3. tamarapadilha
    10 de julho de 2014

    Muito reflexivo e comprido, mas o texto e a humanidade dos personagens compensa. Bacana a cena final da chuva, não sei porque mas eu adoro cenas na chuva.

  4. Pétrya Bischoff
    10 de julho de 2014

    Que conto doce! Em alguns momentos essa rebelde sem causa que tem tudo e abandona em busca de liberdade me incomodou um pouco, mas é tudo descrito com tanta ternura que esse clichê tornou-se irrelevante. Também não senti sexualidade ali, o que foi bom. E o melhor em toda a ideia do texto, foi que essas situações acontecem muito comigo, de completos estranhos desabafarem em pontos de ônibus, ou pelas calçadas e praças. Sério, pode parecer distante e bizarra a estória do conto, mas acontece! Está de parabéns, boa sorte.

  5. Thata Pereira
    10 de julho de 2014

    Nossa, que conto lindo! Peço licença para o(a) autor(a), mas eu vou compartilhar no meu Facebook! haha’
    Por um momento pensei que ela fosse a Cíntia, mas depois tirei essa ideia da cabeça. Ficou bonito mesmo assim. E é sério esse lance da canela? eu odeio canela… :p Parabéns!!
    boa Sorte!!

  6. Brian Oliveira Lancaster
    25 de junho de 2014

    Genial. Comum em certo sentido, mas cheio de significado. Exaltou claramente os sentimentos acima dos eventos.

  7. Tiago Quintana
    24 de junho de 2014

    Gostei, um conto terno sem ser piegas; simples, mas não simplório.

  8. Anorkinda Neide
    18 de junho de 2014

    O texto é muito bom, os diálogos tb. Parabens pela escrita.
    Não consegui embarcar nas reflexões, por elas mesmas, não sei, não conectei.
    E achei bastante estranha a abordagem do homem no onibus.. andar atrás da menina, achei muito obsessivo isso.
    Acho que o encontro deles poderia dar-se de outra forma, de repente, acontecendo alguma coisa no ônibus que incitasse a aproximação deles, mas assim…eu, ao menos, não gostei dessa abordagem.. parecia um crente atrás de ajudar uma alma infeliz, ou depois de correr atrás dela, parecia um tarado mesmo… ehehe embora dê pra entender a intenção do homem, mas mesmo assim… essa abordagem não tá legal.
    Sorte ae!
    Abraço

  9. Jefferson Reis
    17 de junho de 2014

    Gostei do conto com cheiro de crônica.
    Os personagens foram realmente bem construídos. Não preciso dizer que gostei bastante de Ornella e da associação com a canela.

    Minha parte preferida é quando ela revela conhecer o menu.
    Ornella é um iceberg.

  10. Edivana
    16 de junho de 2014

    Gostei do conto, cheio de reflexões, um desamor e cansaço da vida adulta em choque com o frescor da loucura. Bem, achei que quando ele a seguiu no ponto do ônibus foi a insanidade aflorando, até pensei que seguiria para um plano de terror, mas você manteve a leitura do cotidiano, e ficou legal. Agora, sério que o cara não devolveu os 50 reais da moça?

    Boa sorte!

    • Mario P.
      16 de junho de 2014

      “– Eu não me lembro de ter dito que era sensato”.

      rs

      • Edivana
        16 de junho de 2014

        Oh! Não seja impertinente! rs

  11. Davi Mayer
    15 de junho de 2014

    Texto bom, mas não gostei muito da história, apesar de me prender até o final para saber do desfecho.

    Parabéns e boa sorte.

  12. Luci lopes
    14 de junho de 2014

    Uma cena do cotidiano, sem clichês como um homem mais velho se aproveitando de uma garota, ou uma donzela em apuros desejando ser salva.
    A leitura é leve. dinâmica.

    gostei muito.

  13. Cristiane
    14 de junho de 2014

    Gostei do texto! A leitura flui rapidamente, o que é muito bom e os personagens tem uma certa complexidade que cativa. Mário é mais inteiro, mais bem trabalhado enquanto Ornela me parece um rascunho, uma pintura inacabada (gosto desse efeito). Em alguns diálogos ela se mostrou demais perdendo um pouco da sua personalidade.

    Não gostei dos “teu” e “tua” utilizados nos diálogos, soaram estranhos. O escritor tem bastante potencial, mas o texto pede uma revisão mais apurada.

    Parabéns pela obra e boa sorte no desafio!

  14. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Gostei do texto, cheio de emoção e nos força a refletir.
    Muito bom.
    Parabéns e boa sorte no desafio.

  15. Eduardo Selga
    10 de junho de 2014

    Talvez este seja o conto que, até o presente momento, dentre os que li, tenha a dimensão humana dos personagens mais evidenciada. Ao contrário de alguns outros textos, os personagens não são apenas instrumentos de uma narrativa, marioneticamente: eles representam ideias que são muito caras às pessoas e sobre as quais a maioria não gosta de refletir honestamente: a felicidade, essa quimera, é possível desobedecendo regras sociais (ou, por outra, obedecendo-as)? Será mesmo que amadurecer, ou melhor, adultecer, implica necessariamente calar o jovem dentro de nós, essa força caótica que pode apontar novos caminhos?

    Tendo em vista tais simbolismos, no enredo o encontro de Mário com a Ornella não é o encontro de um homem e uma adolescente no ônibus, exceto num primeiro plano: é o encontro de um adulto com sua adolescência, e a esposa, Cíntia, apenas mencionada, é a âncora que agarra o personagem Mário à realidade, à rotina, à normatividade social. O ônibus é a própria linha do tempo. Não à toa ele se sente mais confortável quando desembarca ao lado de seu passado (a juventude).

    Muito bom.

  16. Fabio Baptista
    9 de junho de 2014

    Gostei.

    Imaginei todas as cenas como um desenho japonês, não sei por quê.
    Achei que o autor conseguiu construir bem a atmosfera e conduzir a trama com ternura, passando bem os sentimentos e intenções dos personagens (em nenhum momento me pareceu que o Mário tinha interesses sexuais, por exemplo).
    O desenrolar da história não me pareceu muito verossímil, contudo.

    Mas, como eu estava vendo tudo como um desenho japonês, consegui suspender meu pessimismo em relação ao mundo, aceitar que esse tipo de vínculo é possível e aproveitar essa excelente narrativa.

    (Ah… sobrou um “h” no horário e não entendi o lance da cafeteria… ela pagou a conta, jogando a nota de 50 na mesa, mas depois agradece o cara… ?)

    Abraço.

    • Mario P.
      9 de junho de 2014

      Olá, Fábio. Só esclarecendo sua dúvida: o agradecimento de Ornella se refere exclusivamente à boa intenção de Mario.

      A nota lançada estava sendo economizada para eventuais viagens de ônibus – consoante se infere no que ela disse em determinado momento do conto – dando a entender que a mesma levava uma vida de mochileira.

  17. Claudia Roberta Angst
    9 de junho de 2014

    Li o conto, que não é nada curto, sem me dar conta do tempo. Os diálogos agilizaram e facilitaram a leitura, tornando tudo mais agradável. O autor conseguiu transmitir a sutileza dos sentimentos e sensações desse encontro tão banal entre uma menina e um rapaz mais maduro. Cada um com seus mundos e sonhos, realidades distantes, mas com a mesma capacidade de querer algo melhor para si. Enfim, gostei. Boa sorte!

  18. mariasantino1
    9 de junho de 2014

    Oi.
    .
    Um bom conto, carregado do emoção, com algumas reflexões interessantes. Os diálogos são bem usados e a narrativa me ganhou. Gostei da frase “redator de cartilha do MEC. Gostei de como deixou a Ornella instigante (piano, Mário Puzo, música clássica, má aparência…).
    Esperei por algo a mais no final, entretanto, apreciei o que foi oferecido pelo autor.
    .
    Parabéns pelo conto. Boa sorte. Abraços.

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Publicado às 8 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .