EntreContos

Detox Literário.

À Flor da Pele (Pétrya Bischoff)

Nas unhas compridas o esmalte escarlate descascava melancolicamente. Entre os dedos o cigarro se desfazia em cinza e cinza; dançando e subindo delicadamente, caindo seco, pó no cinzeiro.

Pelas frestas da única e enorme janela da peça entrava o frio de inverno com gotículas de água gelada. Geada. Sem vento ou vida, só o inverno.

Da cama assistia, no escuro, cores mortas dançando no céu de seu quarto. Queria comê-las, pareciam saborosas. No entanto, a moleza a impedia de esticar o braço. Imaginava, então, seu sabor.

Doce, mas não de açúcar, nem de fruta, nem de mel. Doce como o gosto da boca –saliva-, do beijo –tesão-, da resina –loucura-, e morno também. Alimentou-se e aqueceu-se daquelas cores, do sabor das lembranças.

Quando o cigarro caiu nas cobertas, vidrou-se no furo que abriu. Hipnótica com o rubro corrosivo proclamou, sem perceber, os versos de Augusto dos Anjos:

“…

E amou, com um berro bárbaro de gozo,
O monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!”

E riu ao ouvir-se falar, gargalhou até engasgar e envergonhar-se em mais um início de noite.

Levantou, calçou-se e vestiu a jaqueta e as calças; beijou-lhe as têmporas –roubou-lhe um pensamento-, suspirou e foi. Era tarde e as convenções não permitiam devaneios. Foi-se, então. Deixando para trás as cores, os sabores, os beijos, seu beijo. E lá fora a vida era cinzento-alaranjada dos postes-T, preocupações. Mas ela deveria ir.

Peter Pan.

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27 comentários em “À Flor da Pele (Pétrya Bischoff)

  1. tamarapadilha
    12 de julho de 2014

    Normalmente eu não gostaria desse conto pois gosto de coisas mais concretas, explícitas. Mas… como sempre existem as exceções, nesse caso eu gostei, e gostei muito. Sua linguagem quase ou podemos chamá-la de poética ficou perfeita. Eu admito que não entendi nada com nada sobre realmente o significado do conto mas mesmo assim me chamou bastante atenção a forma como foi construído.
    Boa sorte.

  2. Bia Machado
    10 de julho de 2014

    Gostei muito do que li em quase todo o conto. Exceto a última linha. Cresci com a história do Peter Pan, tanto em livro quanto em filme (e no cinema, veja que coisa antiquada, haha!), mas não consegui captar essa relação do Peter Pan com todo o restante do conto. No mais, parabéns. Li o que escreveu sobre estar expondo uma coisa que é genuinamente sua e só posso lhe dar os parabéns, porque isso não é fácil. Adoro estranhezas, coisas que me tiram do conforto. Adorei essa personagem tão “incompleta”, que pude moldar à minha maneira, quando você, escritora, fez da forma como desejava. Muito bom!

  3. rsollberg
    7 de julho de 2014

    Gostei muito do tom, pois permite o leitor viajar. Imaginei a Wendy “voando” na noite, iluminada pelas luzes dos postes T. …Triste por ter que ir embora. Adoro contos lacônicos, pois tento preencher com as minhas loucuras, com os meus devaneios. Ao mesmo tempo o texto é bem visual e descritivo, e, nesse sentido, consegui me transportar para o local, para a “cena”.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  4. felipeholloway2
    2 de julho de 2014

    Bom, creio que me faltaram referências para compreender o que o conto teve de objetivo (como a Thais, desconheço a história do Peter Pan), e sensibilidade para captar o que porventura ele possa ter tido, de subjetivo.

    Mas gostei dos versos do Augusto. =)

    • Cornalina Bordô
      2 de julho de 2014

      Hahaa’, não há como errar com Augusto 😉
      Obrigada pela leitura e comentários.

  5. Thata Pereira
    1 de julho de 2014

    Adoro brincar com histórias infantis, tornando-as mais “adultas”. Estava gostando do conto, pois hoje as pessoas preocupam-se demais com entregar tudo bem mastigado para o leitor, algo que não possibilita duas — ou mais — interpretações. Isso é ruim? É bom? Acho que fazer sempre é ruim, mas por qual motivo vez ou outra não posso fugir da regra? “Não posso porque a maioria das pessoas não aceitam histórias fora dos padrões”. %$#@& – #@ os padrões! Gostei exatamente disso no conto.

    Mas uma coisa me incomodou: eu não conheço muito bem a história do Peter Pan, não sei se o(a) autora(a) colocou algo no conto que fizesse referência a algum dos personagens da história ou ao mundo que vivem. Quando o nome “Peter Pan” apareceu no final do conto, apareceu de uma maneira solta. Caso a referência tenha aparecido, por gentileza, alguém me informa? Como disse, não conheço muito bem a história… mesmo de uma bastante sútil, acho que essa referência só iria acrescentar o conto.

    Boa Sorte!!

    • Cornalina Bordô
      2 de julho de 2014

      Thata,
      Obrigada pela leitura e comentário; quanto ao “Peter Pan”, li nos comentários várias interpretações que aceito de coração, o autor tenta passar algo, mas o válido é a maneira que o nosso íntimo recebe e devolve aquilo. O que eu senti nesse recorte foi a vontade de voltar, o medo do mundo adulto, o não querer crescer. Lá fora (da casa ou de sua mente), o que dita sua vida é a idade… quem disse que tenho ou quero ter essa idade?
      Mas cada um sinta o que sentir hahhaa’

  6. JC Lemos
    30 de junho de 2014

    Não consegui entender direito o conto, mas quem disse que é para ser entendido? hehe
    Acho que, pelo estilo textual, sei quem é o autor. E acho também, que quem já pode apreciar outros trabalhos do mesmo, tem uma melhor aceitação de seus devaneios.
    O conto está bem escrito e esse tom onírico deu um charme a mais. Mesmo sem conseguir pegar o que queria passar(se queria passar algo, vai saber, né:P ), gostei do que li.

    O autor tem habilidade e está de parabéns!

    Boa sorte!

  7. rubemcabral
    27 de junho de 2014

    Resolvi adotar algum critério de avaliação, visto que costumo ser meio caótico para comentar.

    Pontos fortes: boas descrições, poesia, construções imagéticas, as sensações que o texto evoca, a surpresa no final.

    Pontos fracos: achei o conto muito conciso, gostaria de mais.

    Sugestões de melhoria: apesar de passar o “recado” com poucas linhas, teria gostado de conhecer melhor a “Wendy”.

    Conclusão: bom conto!

  8. Brian Oliveira Lancaster
    24 de junho de 2014

    Juro que não entendi. Gosto de contos curtos que geram impacto, mas para mim, gerou um pouco de confusão. A linguagem melancólica/poética caiu muito bem.

  9. Tiago Quintana
    23 de junho de 2014

    Gostei da linguagem onírica. Prefiro tramas mais concretas, mas isso é puro gosto pessoal e não deve ser ponto contra o conto.

  10. Swylmar Ferreira
    23 de junho de 2014

    Gostei do conto.
    Ousado, com certo glamour. Apesar de curto, o autor transmite o que deseja.
    Quem tem olhos para ver, que veja. Ficar especulando não é legal.
    Parabéns.

  11. Anorkinda Neide
    15 de junho de 2014

    Gostei da interpretação da Wendy! huihauha

    A(O) autor(a) parece que quer esta interpretação livre, como num poema ou prosa poética, onde podemos até mesmo entender nada do texto, mas a poética baila à nossa frente e encanta.
    Mas não foi o que aconteceu comigo.. eu não vi a poética, vi um conto confuso e só.

    Como vc disse, escreveu para si e é assim mesmo que o leitor vê o texto.
    Abraço ae!

  12. Edivana
    15 de junho de 2014

    Os recursos da linguagem são belos, não nego, mas fiquei um pouco decepcionada. O texto é vago, para mim, no concerne ao final. Até ele, identifiquei-me com o marasmo da personagem, mas e aí? Ela foi pra rua, terra do nunca, vender seu corpo para o capitão gancho? Não sei, não encontrei muito nesse ponto. Ou é Peter Pan, assinando o texto? …Parei. Abraços.

  13. Cristiane
    12 de junho de 2014

    “À flor da pele” foge do esperado, do retilíneo contexto heroico costumeiro.

    Gosto do estilo apresentado, embora acredite que neste texto as nuances de poesia poderiam ter sido melhor trabalhadas, dando mais leveza e beleza ao conto. A cena é demasiadamente crua e fria.

    Gostei muito do comentário do Eduardo Selga, mas discordo que “o fio da estória existente aqui, permite, a depender do leitor, belas leituras múltiplas”, o texto é muito raso. Para tanto seria necessário mais subjetividade.

    Parabéns ao autor por sair do lugar comum! Com um pouco mais de trato poderá atingir o objetivo proposto.

    Boa sorte!

    • Cristiane
      2 de julho de 2014

      Estou relendo esse texto porque me deixou meio na dúvida. Confesso que fiquei encucada com ele o tempo todo, sempre me lembro dele quando vou pensar nos votos, então cá estou para dizer que em uma segunda leitura, com mais calma, com o coração mais aberto e a mente menos ansiosa consigo ver muita beleza e muita poesia nele, apesar de ainda me passar desapercebido o significado da referência a Peter Pan no final. rs A imagem criada me cativa bastante.

      Ao ler o texto com o objetivo de fazer uma crítica, seja ela boa ou ruim, acabei por perder a oportunidade de aproveitar melhor as sensações que puderia me causar. Foi um erro grave que cometi.

      Alguns estilos, às vezes nos soam estranhos, mas numa segunda ou terceira leitura vamos digerindo as ideias e aprendendo a apreciar o sabor.

      Quero me retratar e afirmar que sua escrita tem muita qualidade!

      Abraços e boa sorte no desafio!!!

      • Cornalina Bordô
        2 de julho de 2014

        Cristiane,
        Muito obrigada pela sensibilidade de uma segunda chance. Confesso que também costumo reler, depois de alguns dias, os textos que me encucam. Quanto às referências que muitos buscaram, não existem. Justifiquei à Thata o Peter Pan como sendo esse receio do mundo adulto… que realmente é seguro de si enquanto “gente grande”?

  14. Thiago Tenório Albuquerque
    12 de junho de 2014

    Não gostei.
    Fiquei perdido no texto.
    Espero que outros consigam entender o que o autor queria expor já que eu me perdi por completo.
    Boa sorte no desafio.

  15. Jefferson Reis
    8 de junho de 2014

    Não importa o que o autor pensou, não importa como os outros leitores interpretaram; este conto mostra, para mim, a Wendy muito louca depois de transar com o Peter Pan.

    • Cornalina Bordô
      8 de junho de 2014

      Haahahaa! Não teria melhor resposta para começar meu dia. Valeu!

  16. mariasantino1
    7 de junho de 2014

    Um texto cheio de lacunas que me causou estranheza. Não posso dizer que não gostei, no entanto, há muito implícito que foi proposital do autor e que grande parte só cabe a ele mesmo.
    .
    Sem mais. Abraços.

  17. Cornalina Bordô
    7 de junho de 2014

    Senti necessidade de me manifestar diante de tamanha estranheza sobre este conto… Sabe o que acontece? O Desafio Livre chegou a mim como uma maneira de apresentar o meu trabalho sem amarras ou receios. Apresento aqui minh’alma expurgada tal qual é o turbilhão de pensamentos e sensações que se fundem em minha mente em um caótico gozo emocional.
    Houve um episódio no desafio passado que achei interessante, em que o autor repudiou seu conto, tanto pela pouca aceitação do público leitor, quanto pela pouca familiaridade com o tema. Aqui não há tema, o que dificulta esse desafio interno; devemos provar a nós mesmos que somos bons, em nosso próprio terreno. Não tenho pretensões de agradar ou vencer aqui, mas apresentar algo puramente meu.
    No entanto, agradeço aos que leram e comentaram e aos que ainda o farão; as Artes são tão subjetivas que jamais tentaria empurrar-lhes goela abaixo algo que pode significar somente a mim neste mundo. Serei, um dia, autor para poucos leitores, mas estes sentirão meus suspiros entrelinhas.

  18. Fabio Baptista
    7 de junho de 2014

    Li duas vezes e não entendi a proposta (se é que existe uma proposta).

    Percebe-se que o autor sabe o que está fazendo (sabe escrever bem, em outras palavras), mas não consigo me ver apreciando um texto que não compreendi (seja por falta, ou talvez excesso, de habilidade do autor ou por incapacidade intelectual minha). Se bem que eu gosto das músicas do Nirvana… mas acho que é diferente :D.

    Abraço.

  19. Claudia Roberta Angst
    7 de junho de 2014

    Sabe que eu gostei? Curto, poético e sensível. Entendi e me identifiquei com a moça observando as cores do seu momento único, como são todos os momentos enfim. Pode não ser sensacional, mas envolve. Boa sorte!

  20. Rafael Magiolino
    6 de junho de 2014

    Não entendi o texto. Acredito que pelo fato de ter sido curto e envolvido muita poesia o contexto acabou ficando de lado. Como já dito pelo colega, a estrutura ficou muito avulsa, não conseguiu prender minha atenção.

    Abraço!

  21. Eduardo Selga
    6 de junho de 2014

    Boa parte dos contos postados nos desafios dos quais participei até agora segue,de uma maneira ou de outra, a estética moderna de composição textual. Ou seja, sem muita ousadia, principalmente quanto à linearidade. Por ser mais seguro, por causa de certo desassossego com a recepção do texto por parte do leitor e eleitor, tenho visto poucos textos que tentam abandonar a modernidade e dar um beijo de língua na boca da estética pós-moderna.

    Este conto, conscientemente ou não, faz isso. Seguindo um dos padrões das narrativas dessa estética, o texto parece não contar nada. Porque não há enredo do modo como estamos habituados (começo, meio, fim, protagonista, tensão, herói etc), e tudo é fragmentado e incompleto. Não há um todo, como nas narrativas modernas. Por certo isso causará algum incômodo, dando a sensação de que não está bem feito.

    Esteticamente é uma opção arriscada, pois aquilo que é narrado nas entrelinhas é com facilidade confundido com o inverossímil ou com o não dito. Nesse tipo de texto cabe ao leitor completar as muitas lacunas propositais existentes no texto. Quando os “buracos” não são extensos demais, ok. O problema, conforme já disse aqui em relação a outro texto, é quando o espaço é demasiadamente grande para o leitor construir a ponte.

    Tudo isso posto, o fio de estória existente aqui, permite, a depender do leitor, belas leituras múltiplas, por ser fortemente imagético. Mas acho que há material para mais, sem perder a densidade e essa “vaguidão específica”, como dizia Nelson Rodrigues.

    Obs.: Quando digo “moderno” não digo “atual”. Estou a me refirir ao Modernismo, estética surgida no Brasil após 1922 e “substituída” pelo Pós mais ou menos depois da Segunda Guerra.

  22. williansmarc
    6 de junho de 2014

    Olha só, vou ser bem sincero, não consegui me encaixar na viajem do autor. A estrutura poética deixou tudo muito vago para qualquer interpretação e não há uma narrativa a ser seguida. Mas talvez seja um problema desse leitor que esta fazendo esse comentário.

    Espero que os demais consigam julgar melhor do que eu esse conto.

    Boa sorte!

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Publicado às 6 de junho de 2014 por em Tema Livre e marcado .
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