EntreContos

Literatura que desafia.

3. (Eduardo Barão)

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Não existo gratuitamente,
Espontaneamente
Ou coercitivamente.
Apenas existo.
E se não há faísca que lampeje sozinha
Ou breu que cesse sem ingerência,
Lanço ao vazio do destino uma – única – pergunta:
Para quem eu vivo?

 

— Eu também penso em arrumar o meu. O modelo é ótimo, mas não fiquei satisfeita com o decote. – as unhas tingidas de fúcsia contrastavam com o plástico branco na medida em que os dedos compridos tamborilavam sobre o mesmo. — Minha mãe foi para um spa em Battle Creek e conhece uma costureira ótima na região. Até sábado eu consigo resolver o problema.

Bocejou. Acabara de acordar e não fazia o mínimo esforço em demonstrar animação enquanto entretecia — e escutava, em resposta — ladainhas pelo telefone. Nem parentes distantes se mostravam inconvenientes a ponto de ligarem em um horário tão inoportuno.

— Acho que vou voltar a dormir. Te ligo mais tarde — e colocou o aparelho no gancho sem propiciar qualquer chance de retruque.

Esfregou os olhos, esticou os braços numa espreguiçada deliciosa e saltou do sofá disposta a trocar de roupa. Sua mãe viajara cedo e, se não cogitava a hipótese de dispensar a companhia do namorado (cujo porte atlético camuflava uma frivolidade latente) durante o resto do dia, consequentemente não pretendia recebê-lo de pijama. Dirigiu-se ao aparador da sala, apoiou os cotovelos na superfície e passou a admirar o próprio reflexo no espelho retangular fixado na parede. Os níveis preocupantes de narcisismo não a incomodavam, pelo contrário: sentia-se bem sendo bonita e reconhecer tal atributo soava-lhe apenas como um gesto de amor próprio. Muito amor.

Entre elogios e pensamentos pouco relevantes, sua atenção voltou-se a um fator externo. A brisa matinal tomara conta de seus poros e a sensação de estranheza deu-se graças ao fato das janelas da sala estarem devidamente fechadas, impossibilitando a entrada de vento no ambiente. Desinteressada e sonolenta, arrastou os pés vagarosamente até a cozinha. Tornou a bocejar. As rajadas de vento fresco escapavam através da brecha deixada pela porta semi-aberta. Sua mãe certamente não havia saído por ali e, por mais que esbraseasse os neurônios, não era capaz de se lembrar quando havia destrancado a porta pela última vez.

Sorriu de esguelha. De (quase) certeza seu namorado encontrara a chave embaixo do tapete ou — quem sabe — a reserva no vaso de plantas. As noções de sua mãe referentes à palavra “esconderijo” eram bem antiquadas, indubitavelmente.

— Evan?

Não obteve resposta e, assim, aproximou-se da porta. Os passos lentos não mais se deviam à sonolência, e sim ao receio que aflorara em seu peito como uma pontada de expectativa aparentemente inofensiva e impassível de cumprimento. Deparou-se com a fechadura intacta e, ao puxar o tapete para o lado, descobriu a chave no lugar de praxe. Vasculhou o vaso de plantas e teve a mesma surpresa. Perguntava-se como Evan conseguira abrir a porta sem arrombá-la ou abri-la do modo convencional. Descartou o truque com grampos e clipes. Os músculos sobressaíam-se perante a criatividade e ele jamais havia se mostrado inclinado a fazer algo do gênero.

—Evan?

O silêncio tornou a lhe martelar a cabeça. Esticou o pescoço e atentou-se ao quintal. Tudo em seu devido lugar: grama, cadeiras, piscina, muro, a mini estufa de sua mãe. Franziu a testa e agarrou a maçaneta no intuito de fechar a porta e esquecer aquele episódio.

De repente, um barulho. Um hálito quente sendo emanado contra sua nuca. O barulho era de lâmina, de corte rápido. O mesmo som que ouvira em um programa de culinária no qual o chef fatiava limões sicilianos para espremê-los posteriormente. Limões tão frescos quanto o vento soprado contra as maçãs de seu rosto que, dadas as circunstâncias, empalideceram instantaneamente.

Engasgou. A mesma mão que havia retirado a faca de seu pescoço encontrava-se envolta por uma luva preta de material lustroso. Couro, talvez. O sangue quente esguichou, manchou os azulejos e os cabelos dourados, escorreu até o seu peito e a fez ranger os dentes com o gosto agridoce impregnado na língua. Chocada e com a visão turva, caiu de encontro ao chão sem executar maiores espasmos. Ali permaneceu estática e sem vida como limões sicilianos partidos ao meio.

Era o fim.

***

Como uma bailarina presa à estrutura de uma caixa de música, sua vida girava em torno de três mundos distintos. O primeiro materializou-se logo quando seu pai decidiu parar (por livre e espontânea pressão) de lecionar em casa. Passaram-se anos desde então e o colégio ganhara status de ponto de equilíbrio em sua rotina. Em face da convivência forçada com pessoas de sua faixa etária, tornou-se atilada e comedida, contudo, não menos retraída.

Apoiada num dos pilares metálicos do ponto de ônibus, olhava para baixo enquanto aguardava o pai buscá-la com seu furgão vermelho e pouco discreto. A franja saliente cobria os olhos e as madeixas ruivas dançavam conforme as coordenadas ditadas pelo vento. Pálida, magra e de aspecto lânguido, puxava as mangas do moletom para baixo na tentativa de cobrir as mãos. Não estava frio, mas a possibilidade de mostrar mais que o absolutamente necessário nem sequer era considerada.

— Jillian…

As pupilas azuis dilataram. Sua visão voltou-se do pavimento vetusto e esburacado à pessoa que solicitara sua atenção. Na outra extremidade do abrigo coberto por acrílico, uma garota negra a fitava com uma expressão eufórica estampada no rosto. Greta Jones. Filha de um policial aposentado, representante de classe, sorriso radiante, fala e gestos repletos de trejeitos típicos de uma garota nascida em região metropolitana. Naquele exato momento, seus cabelos (alisados artificialmente, sem sombra de dúvidas) encontravam-se trançados e seu braço exibia um curativo médio perto do cotovelo.

Jillian fez um sinal com a mão para que a mesma não se aproximasse. Greta sorriu.

— Eu sei que você não gosta muito dessas coisas, mas eu e as meninas pensamos em fazer uma reunião na minha casa hoje à noite para discutirmos sobre os preparativos finais da formatura. — cada vez mais era enfatizado um sotaque afetado e nada convincente. — Também sei que você não planeja participar da festa, mas precisamos de ajuda na comissão depois do que aconteceu com a Olivia…

Tanto a expressão de Greta quanto o rumo de falatório haviam tomado ares sombrios.

A garota citada constituía o melhor exemplar de contraponto à sua personalidade. Loira, popular, carismática, candidata a rainha do baile de formatura, namorada do jogador de rugby mais promissor do colégio. Os ciclos vitais também haviam atingido níveis desiguais: Jillian ainda respirava. Olivia, por sua vez, ingressara no extenso quadro de vítimas de um maníaco homicida procurado pela polícia, cujos ataques fomentarem o anúncio de toque de recolher por parte das autoridades locais.

Todavia, aquilo não a comovia. Não se mostrava minimamente interessada em Olivia ou na proposta que acabara de ouvir. Vestidos bonitos e coroas não faziam parte de seus traçados ou de sua realidade. Contentava-se (ou conformava-se, não havia precisão) com a plenitude do insulamento ao qual se submetia.

— Eu entendo.

Duas palavras. Sussurradas, quase inaudíveis. Um tom tão austero que arrefecia o ar e anulava qualquer chance de aproximação.

Fez cara de nojo. Seu estômago havia embrulhado com alguma coisa e era notável seu empenho em desviar o olhar para fitar com o canto do olho o esparadrapo grudado no cotovelo de Greta. Aquele provável resultado de uma queda na aula de educação física parecia incomodá-la mais que o sotaque ou a simpatia exagerada que pairavam em cada gesto e palavra da representante de classe.

— Ótimo. Você quer que eu peça para meu pai te bus…

— Eu disse que entendo… — interrompeu.

Barulho de motor. Seu pai acenava da janela e fazia sinal para que a mesma entrasse. Deu alguns passos adiante e completou a frase.

— Não que me importo. — dito isso, abriu a porta do furgão velho e entrou sem aguardar uma resposta.

Greta suspirou fundo. Mesmo após inúmeros convites ignorados e tentativas fracassadas de diálogo, não conseguia ficar magoada.

Afinal, Jillian sem sua indiferença costumeira simplesmente não era Jillian.

***

Albion. Condado de Calhoun. Pouco mais de nove mil habitantes. Lar de dezenas de pescadores e donas-de-casa.

A casa de Jillian situava-se doze quilômetros ao sul, numa região ornamentada por árvores e por uma água lacustre gelada que afugentava banhistas. Pela janela do Motor Home, assistia a paisagem bucólica sem mostrar qualquer resquício de entusiasmo. Seu pai, aparentemente abatido, manteve-se calado durante boa parte do trajeto.

Seus olhos cederam à tentação de observá-lo por alguns instantes enquanto dirigia e bastaram alguns segundos para reafirmar mentalmente o quão bonito ele era. Alto e sisudo, escondia seus músculos usando uma camisa xadrez cafona. O rosto revestido pela barba espessa revelava olheiras e tornava evidente um cansaço de muito tempo. Muito jovem para ser pai, muito velho para correr atrás de novas aventuras.

— Você age como se estivesse me prestando um favor, Crispian. – o tom enfatuado permanecia o mesmo, mas diante dele se apresentava de forma menos arisca e mais comunicativa. – Sabe que eu consigo me controlar. Meu olfato continua sensível, mas não preciso que fique me vigiando.

— Eu sei, filha.

Ele a chamava de filha. Ela o chamava pelo nome. De qualquer maneira, tal inversão de valores não parecia importar. O velho Crispian (que de velho nada tinha) sorriu tímido na tentativa de consolar sua cria.

— Tanto é que vou te deixar sozinha hoje à noite para tirar as teias do meu arsenal de pesca. O que acha?

Jillian não quis demonstrar, mas tal notícia a deixara abismada. Olhou para trás e viu algumas maletas de plástico jogadas no interior do veículo, bem como duas varas próprias para pescaria. Uma era de seu pai e a outra presumiu pertencer a um tio não muito distante.

A relação era fria, porém estável. Não existiam demonstrações gratuitas de afeto ou apego. O admirava em silêncio, mas sabia lidar bem com a sua ausência durante o dia. No entanto, fazia-se mister assegurar que tal conjuntura tomava outras proporções durante a noite.

— Por que não me avisou antes?

— Não gostou da surpresa? Só quero mostrar que confio em você.

Ele tinha razão. Peixes e minhocas não resolviam problemas complexos, mas um homem dedicado e probo merecia desfrutar de momentos de lazer como qualquer outro ser humano. Seria uma forma de recompensá-lo por todo o amparo e apreço que ele depositara em seu peito durante dezessete anos sem pausa. Tantas noites mal dormidas foram de grande serventia: já se sentia preparada para enfrentar o mundo que a esperava. Os mundos (além do que ela já conhecia) que a esperavam.

Ela assentiu com a cabeça baixa. Ele prolongou o sorriso e prosseguiu.

— Minha Jill já provou ser crescida o bastante para passar uma noite sozinha. Só precisa me prometer que vai se comportar.

Crispian insistia em tratá-la como criança. Ela bufou. Só não ficava brava pelo simples fato de saber que havia genuinidade em meio a tanta pieguice.

Ele realmente a amava e, por mais implícito que pudesse parecer, era correspondido.

— Eu não tenho escolha. Nunca tive.

***

Saiu do box enrolada em uma toalha. Tinha tanta vergonha do próprio corpo que evitava ao máximo olhar para o mesmo. Aproximou-se da pia e usou a palma da mão para limpar o espelho embaçado pelo vapor. Rosto limpo, cabelos úmidos, feições delicadas e bem delineadas. Uma boneca.

Grunhiu. Teve vontade de quebrar o espelho com o punho fechado e obstruir sua visão diante de qualquer instrumento que pudesse refletir aquela imagem que tanto causava dor às pessoas que lhe rodeavam Não clamava mentalmente por namorados ou melhores amigas, apenas remoia a vontade de ser uma pessoa normal.

A vontade mais utópica dentre as tantas abstrusas na parte mais profunda de seu âmago.

Engoliu o choro. Julgava-se indigna de pranto ou qualquer outra manifestação de sentimentos. Ao invés de perder tempo com lágrimas vãs ante a satisfação de seus anseios, caminhou até seu quarto e tratou de se vestir o mais rápido possível. Seu pai já havia saído e ela precisava cumprir alguns afazeres: cozinhar seu próprio jantar, regar as plantas, espanar a poeira. Aquele casebre velho de frente para o lago seria sua única companhia até a manhã seguinte e constituía mais um mundo-cenário intrínseco à sua existência. Palco de seu enclausuramento voluntário e, afinal de contas, um mundo não tão alheio ao primeiro: em ambos sentia-se sozinha e/ou mal interpretada.

Descalça e encoberta por um vestido branco à altura dos joelhos, vestiu o cardigan cinza que ganhara de aniversário. O ar álgido cortava sua pele nívea como uma navalha bem amolada e, por ter fechado a janela, sabia que o vento escapava por um lugar paralelo ao seu quarto. Aprumada, saiu disposta a encontrar a matriz do frio. Confirmou suas suspeitas ao adentrar o quarto de Crispian: a mania de sair sem fechar a janela do quarto vinha de longa data.

O cheiro moscado a fez se lembrar da doçura do pai — viúvo cordial e desesperadamente devoto ao império que construíra. No caso, uma família que aos poucos se desfez com a partida de sua mãe. A alegria antes constante não permeava mais seus corações desde a doença que a vitimara.

Sentada à beira da cama, sentiu as pálpebras pesarem ao olhar o retrato de sua mãe grávida posto sobre a superfície do criado-mudo. Autocontrole não era mais o bastante e a lágrima não tardou a escorrer pelo rostinho cândido. Levantou o braço de prontidão e limpou a bochecha usando a manga do suéter abotoado.

Ela também era ruiva e tinha um sorriso lindo. Sorriso esse que há muito não brotava entre os lábios de Jillian.

“Tive pouco tempo para te amar”, lamentou-se entre os devaneios que a acometiam.

Ergueu-se. Desperta e arrepiada com o frio, percebeu que a janela aberta ficara em segundo plano e caminhou até a mesma. Nisto, teve a nítida impressão de que o céu ameaçava um chuvisco leve. Antes de fechá-la, esticou o pescoço e caminhou com os olhos pelas rosas ramificadas no jardim vertical junto à parede exterior abaixo da janela. Estranhou o fato de algumas parecerem murchas ou despedaçadas, mas preferiu relevar. Talvez não estivessem sadias graças ao mau tempo.

***

Fatiava os rabanetes em rodelas finas com o auxílio de um facão de cozinha e uma tábua de carne. Estava enojada. Tomar sopa com certeza amenizaria o frio, mas não saciaria sua fome que — por um motivo desconhecido — se acentuava de forma colossal durante a noite. Nada saciava.

Concentrada, agachou-se para pegar uma panela no armário sob a bancada da pia. Primeiramente encheria a panela de água, aqueceria no fogão e terminaria de picar os ingredientes naturais. Levantou-se com o utensílio em mãos e assentou o mesmo sobre o mármore gelado.

Arregalou os olhos repentina e espontaneamente. Seu corpo inteiro estremeceu em um temor jamais experimentado antes. Abruptamente, deu um passo largo para o lado e agarrou o cabo da panela.

Não estava sozinha.

Na velocidade de um estalo de dedos, uma faca foi cravada em meio aos rabanetes cortados na tábua. O homem alto e truculento banhado por trajes pretos dos pés à cabeça que surgira de supetão certamente teria conseguido esfaqueá-la caso seu reflexo não fosse bem apurado para a idade.

Uma fração de segundos foi o tempo que levou para girar a mão e lançá-la contra o debuxo de agressor. A panela acertou em cheio a sua cabeça e o mesmo tremeu, mas permaneceu imóvel. Emitiu um som similar a um rosnado que escapou por qualquer fresta da máscara que ocultava seu rosto. Não parecia obstinado a estuprá-la ou praticar latrocínio. Tortura poderia ser consequência, mas o que ele almejava ia além de qualquer clichê cinematográfico.

Um apreciador da morte. Do sangue quente escorrendo, do ar tornando-se rarefeito até inexistir diante do véu que a morte lançava sobre seus escolhidos. Um animal no sentindo mais sinuoso da palavra: cauteloso o bastante para passar despercebido até uma eventual investida, suficientemente enérgico para não se deixar abater por uma pancada.

Ele fechou o punho e, sem ponderar, desferiu um golpe contra o rosto de Jill sem se importar em deformar tamanha simetria. Com um soco foi capaz de fazer o que ela não havia conseguido com uma panela: a pobre caiu no chão cuspindo sangue e sentindo seu nariz queimar em brasa — provavelmente deslocado. O desgraçado sabia exatamente o que estava fazendo. Duas garotas em Battle Creek, duas em Tekonsha, duas em Marshall. Olivia não era um caso isolado e, passados mais de dois meses após a sua morte, o colégio já havia voltado ao normal e o assunto tornara-se menos recorrente entre as rodas de alunos. No entanto, fazer parte de tais estatísticas definitivamente não era uma alternativa inclusa em seus planos.

O brutamonte pareceu gostar da brincadeira e flexionou a perna em um chute que atingiu seu corpo com a mesma dureza e impacto de uma rocha. Cuspiu mais sangue. O fato em si era curioso: não sentia o gosto ou cheiro do líquido bombeado pelo próprio coração, apesar de senti-lo circulando por suas veias. Tomou fôlego e suplicou baixinho em tom lacrimoso:

— Eu não… Eu não quero fazer isso… Eu prometi para o meu pai… P… Por favor…

“Eu faço o que você quiser”.

“Socorro”.

“Não quero morrer”.

Em meio a tantos exemplos de apelos estereotipados, ela optou por escolher um descabido e — a princípio — incompreensível. Bem sonora foi a gargalhada exprimida pelo algoz na sequência. Acreditava que uma garota tão especial merecia receber um tratamento de igual mensuração.

Usando a mão para atar mechas daquele cabelo enferrujado em um nó improvisado, começou a arrastá-la pelo chão da cozinha. Chorou, mas não se debateu. Não gritou. Não ofereceu resistência, mesmo desejando que tudo acabasse como num filme: sairia correndo floresta afora até encontrar um abrigo com telefone para alertar a polícia. Tudo muito prático e objetivo na tela de uma televisão, mas ali o sangue não era xarope. A angústia não era encenada. A dor era real.

Foi jogada contra a parede como um saco de batatas é jogado em um depósito de supermercado. A cabeça bateu, toldando-lhe a visão e imobilizando cada músculo de seu corpo mirrado por incontáveis segundos. Não encontrava mais forças para engatinhar e rastejou pelos azulejos brancos sem rumar para um lugar certo.

Aí veio a surpresa: a mesma mão que a derrubara foi estendida como apoio.

Ele a puxou carinhosamente para cima e a repousou sobre seu peito rígido. A mudança no teor era drástica e, por mais que não a entendesse, não encarava mais o termo “fugir” como possibilidade: as pernas estavam bambas e cederiam ao chão na ausência da força empregada para reerguê-las. Destarte, cerrou os olhinhos e amoleceu. Amoleceu de corpo inteiro como uma namoradinha que se entrega ao par de formatura consoante o ritmo lento da música de fundo. Ironicamente, Greta e outras meninas de sua sala discutiam alegres sobre os últimos detalhes do famigerado baile naquele exato momento.

— P… Papai…

O barulho da lâmina atravessando cada centímetro de sua carne era nauseante. A sensação? Inenarrável. Os filetes de sangue brotaram em abundância e mancharam o tecido branco do vestidinho conforme escorriam e desenhavam um caminho repleto de curvas. Ela não era dura como uma tábua de carne.

Era maleável como rabanetes.

— É para… Para isso que eu me escondo? É para isso que eu me… Anulo? — havia algo doce em sua voz e os olhos parados não mostravam quaisquer sinais de dor.

—Para poupar pessoas como você…

O cabo da faca foi esmurrado e pôde sentir o céu da boca sendo pintado de vermelho. Veias saltaram de seu pescoço. Os olhos, outrora serenos, tomaram um aspecto animalesco.

 — Da minha fome?

A mandíbula despencou. A boca dera lugar a um abismo negro e — aparentemente — sem fundo alcançável. Os dentes aumentavam gradativamente de tamanho, rompendo os limites da gengiva e transformando meras pontas esmaltadas em presas de lobo sedento. Aquele era o terceiro mundo que conhecia. Não mais um cenário.

Uma condição.

Sem aviso prévio, o meio-termo entre dom e maldição surgiu poucos dias após seu aniversário de cinco anos. Na sorte de não contar com a presença de vizinhos bisbilhoteiros por perto, seu pai tomou as rédeas da situação trancando-a no porão. Não era uma desgraça genética ou simples truque do acaso: sua filha era um monstro capaz de dilacerar gatos e lebres com poucas mordidas. Não pensou em tornar o caso público. A ciência e o corpo social — sempre de mãos dadas — não estavam preparados para algo daquela magnitude e na certa transformariam o mais lindo fruto de seu breve casamento em uma cobaia para testes.

Contudo, o tempo não é só cúmplice das estações. Não é apenas a mão que embala o ciclo berço-progresso-túmulo. O mesmo tempo que arrancara a esposa de seus braços e transformara sua filha em uma aberração foi o responsável pela solução contingente de seu maior problema: Jillian aprendeu a controlar o seu apetite bizarro. Descobriu aos poucos como conciliar a forma comum com a fera insaciável. Descobriu aos poucos como trocar a dieta de carne crua pela comida convencional. Descobriu aos poucos como levar uma vida normal. Sangue fresco já não era mais imprescindível e a figura bestial que antes aflorava sem motivos foi plenamente contida.

Até aquele momento.

Num desses raros momentos em que o cordeiro se transforma em leão, terminou de mastigar o pedaço de carne do caçador-presa cujo corpo jazia dividido em duas partes ao lado. O pescoço havia sido destroçado a dentadas e a cabeça encontrava-se separada do resto. Um grito ecoou pela cozinha.

— Por que me… Me abandonou… Pai?

Voltou à forma frágil e debilitada de antes. Não foi capaz de adiar o inevitável e, prostrada no chão encharcado pelo fluído escarlate que quase fazia jus ao laranja de seus cabelos macios, arrancou a faca em um movimento rápido. Em seguida, notou que não conseguia mais se mexer. Estava morrendo. Sem fé, sem amigos, sem seu pai para alentá-la, sem amor. Estava morrendo sem nem ao menos ter vivido.

O olhinho parado verteu uma última lágrima. Não ouviria mais a voz de Crispian que, mesmo rouca e viril, tocava suas orelhas como fino veludo. Não olharia mais o lago pela janela, corvejando a ideia (corajosa) de tocar a água fria com os pés. Não iria mais para o colégio, onde — mesmo que minimamente — podia se sentir parte de um cosmo normal. A morte talvez não fosse o começo de um novo mundo. Talvez fosse o fim dos que já existiam.

Mas…

Nada disso parecia pior que a dúvida. Nada parecia pior que perecer sem ter sua última pergunta respondida. Uma única pergunta lançada ao vazio do destino.

“Para quem eu vivi?”.

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35 comentários em “3. (Eduardo Barão)

  1. Eduardo Barão
    6 de abril de 2014

    Nem usando um pseudônimo feminino eu consegui me livrar das deduções certeiras. Talvez meu estilo seja (infelizmente) meio sui generis 😛

    Sobre o conto…

    Eu já havia bolado a trama há muito tempo. Já havia construído Jillian há muito tempo. Só precisava de um tema propício para, boom, colocar tudo no papel. Acabei me precipitando.

    De qualquer forma, não me arrependo de ter escrito o conto. Pois que seja esquisito, surreal, teen, romântico (não foi minha intenção, mas no frigir dos ovos acabou soando poético em algumas partes). Acho que o maior triunfo de um autor é, além de contar com o apoio e auxílio de ótimos colegas e escritores, amar a própria obra.

    Ah, uma observação: eu curso Direito. Doutrinadores dessa área geralmente usam um vocabulário rebuscado e — na maioria das vezes — prolixo. Isso acabou impregnando em mim, mas tentarei acertar num próximo desafio (caso participe).

    Deixo aqui meu muitíssimo obrigado por todas as críticas, sugestões, puxões de orelha e etc. Sou novato nesse meio e espero aprender muito com vocês. 😉

  2. jggouvea
    5 de abril de 2014

    Eu venho tentando ler este conto há dias. É bastante grande e intimidador, e há várias coisas nele que me distraem, que me repelem. Não gosto de ambientações estrangeiras gratuitas, por exemplo (e o autor não conseguiu me convencer da necessidade disso). Não gosto muito de narrativas em flashback e não gosto de histórias contadas do fim para o princípio. São preconceitos meus, são de estimação, e influenciam em como leio.

    Acima de tudo, eu não gosto da violência abusada de forma pornográfica, como me pareceu ser o caso. Não consegui ler até o fim. Não sei se vou tentar de novo. Não é a minha praia.

    Peço desculpas à/o autor/a, mas não me desce. E isso não é culpa da qualidade do texto. Apenas não sou o público dele.

    • Anna
      6 de abril de 2014

      Não precisa me pedir desculpas. Ninguém é obrigado a gostar de determinado estilo, mesmo em um desafio definido expressamente por um tema específico (e não por um gênero, afinal).

      Sobre a ambientação estrangeira: preferência pessoal. Não é porque nasci no Brasil que preciso usar isso como restrição à minha criatividade. Neste mesmo desafio temos contos ambientados no Brasil, França e até mesmo e universos paralelos (hehe). Existe necessidade? Na cabeça do escritor, existe. Nada é gratuito quando não existe compromisso de se podar para agradar gregos e troianos.

  3. Marcellus
    5 de abril de 2014

    Achei curiosa a combinação de palavras mais rebuscadas, como a conjugação do verbo “corvejar” com o uso excessivo da expressão “o mesmo”. Talvez a autora queira rever esse ponto.
    No mais, apesar de não ser o meu estilo predileto, desejo sorte e dou os parabéns.

  4. Bia Machado
    5 de abril de 2014

    Visualmente, esteticamente, achei interessante, sim. Mas não consegui me envolver o suficiente nessa primeira leitura. Parabenizo o autor, indiscutível que sabe usar as palavras, criar efeitos com a sua escrita, mas para mim, pelo menos nessa leitura, não foi envolvente. Boa sorte pra você.

  5. Hugo Cântara
    5 de abril de 2014

    Um bom conto. O autor demonstrou que possui um vocabulário basto e, mais importante do que isso, sabe usá-lo. A leitura fluiu bem, o enredo cativou e a protagonista foi bem construída. A tensão foi aumentando ao longo do conto, com o ponto alto aqui:
    “Antes de fechá-la, esticou o pescoço e caminhou com os olhos pelas rosas ramificadas no jardim vertical junto à parede exterior abaixo da janela. Estranhou o fato de algumas parecerem murchas ou despedaçadas, mas preferiu relevar. Talvez não estivessem sadias graças ao mau tempo.”
    O leitor consegue sentir o que vem aí e entusiasma-se cada vez mais com o texto.
    O final foi inesperado mas não me desiludiu.
    Parabéns e boa sorte!
    Hugo Cântara

  6. Wilson Coelho
    5 de abril de 2014

    Eu achei o conto estranho: uma combinação meio água-e-óleo – escrita romântica cheia de palavras não usuais, trama meio hollywoodiana e teen. Achei interessante, mas não consegui gostar.

  7. Alexandre Santangelo
    5 de abril de 2014

    Bom conto, Gosto de contos intimistas, e esse me prendeu. Excelente narrativa. Parabéns!

  8. Thata Pereira
    3 de abril de 2014

    Eu adorei a narração. As frases, como já disseram, encaixaram-se de uma forma muito bonita. Gostei mais do início do que do fim. Do meio para o final precisei voltar alguns trechos para conseguir entender a história, o que não tira, para mim, o mérito do conto e do(a) autor(a). Não sei se estará entre os meus escolhidos, mas tenho certeza que será um dos cogitados. Apenas uma coisa pesará um pouco: cadê o fim do mundo? :/

    Boa sorte!!

  9. fernandoabreude88
    3 de abril de 2014

    Algumas construções estão pra lá de ricas, mas isso não é uma constante no conto. Gostei da fragmentação de algumas frases, que passam a fazer sentido separadamente no decorrer da leitura. Pesou a mão no romantismo? Sim. Algumas coisas estão meio exageradas, mas é um bom conto, construído por alguém que sabe bem o que está fazendo e, por isso mesmo, acho que está entre meus 10 preferidos.

  10. Socram Bradley
    1 de abril de 2014

    O sangue jorrando…a boca sentindo gosto de sangue…veias saltando….caraca….GOSTEI! 🙂 É um fim… PArabens!

  11. Vívian Ferreira
    1 de abril de 2014

    Embora bem escrito, me conectei muito mais com o início do que com o final do conto. Talvez por gosto pessoal ou por achar o fim um pouco confuso. Como alguns já comentaram também considero que não se enquadra muito no tema ¨Fim do Mundo¨. De qualquer forma, parabéns pela excelente escrita e boa sorte!

  12. Felipe Moreira
    30 de março de 2014

    A escrita casou muito bem com a densidade da narrativa, desenvolveu uma imagem perfeitamente viva da personagem. Esse trecho em particular me encantou bastante:
    “O olhinho parado verteu uma última lágrima. Não ouviria mais a voz de Crispian que, mesmo rouca e viril, tocava suas orelhas como fino veludo. Não olharia mais o lago pela janela, corvejando a ideia (corajosa) de tocar a água fria com os pés. Não iria mais para o colégio, onde — mesmo que minimamente — podia se sentir parte de um cosmo normal. A morte talvez não fosse o começo de um novo mundo. Talvez fosse o fim dos que já existiam”.
    Eu me senti bem íntimo da personagem. Confesso que comecei a leitura imaginando um evento que revelasse o fim do mundo realmente, a personagem lidando com isso. Porém, não posso dizer que fiquei decepcionado com um final pessoal, quase que bucólico. Parabéns pelo trabalho.
    Boa sorte. \o

  13. Pétrya Bischoff
    27 de março de 2014

    Meu momento dramático no Entre Contos: me li nessa personagem, digo, quando criança. Todos os trejeitos, desde a postura até as mangas do moletom. A frase quw senti arrancada do porão de minhas memórias foi: “Não clamava mentalmente por namorados ou melhores amigas, apenas remoía a vontade de ser uma pessoa normal”. Talvez por causa da guria é que eu simpatizei com o conto. No início a narrativa remeteu-me Stephen King, que é meu autor favorito e acabei me deparando quase com uma Carrie, isso foi bom. Penso que não tenha muito da estória para falar, mas de qualquer maneira, parabéns e boa sorte.

  14. rubemcabral
    27 de março de 2014

    Eu gostei da linguagem, em partes. Achei algumas frases belíssimas, quase que esculpidas: “Contudo, o tempo não é só cúmplice das estações. Não é apenas a mão que embala o ciclo berço-progresso-túmulo.” Além de bonita, a construção foi inteligente, “ciclo berço-progresso-túmulo”, preciso roubar essa!

    Contudo, penso que houve certo exagero romântico em outras partes, e os resultados então não foram tão bons. Creio também que houve certo excesso de palavras/expressões resgatadas do baú do vovô. (Acho que li a palavra “álgida” pela última vez em algo do Eça de Queiroz, por exemplo).

    (Fica a sugestão: escreva algum romance de época ou conto passado no século 18 ou 19, você certamente domina bem o vernáculo e tem sensibilidade para desenhar boas personagens femininas, fora que o seu texto é muito visual).

    Quanto ao enredo, deste eu não gostei. Resultou meio franksteiniano, por ter costurado alguns elementos que normalmente se estranham: romance, inspiração de filme teen, slasher, etc. Lembrou-me filmes do Dario Argento.

    Ah, como o pessoal já notou ao reconhecer o estilo, também sei quem é o autor.

    • Anna
      27 de março de 2014

      Levei como elogio. AMO Dario Argento!

      Fica aqui o meu grande obrigad* por todas as dicas.

  15. Fabio Baptista
    26 de março de 2014

    Com exceção às repetições de “o mesmo” que me incomodaram um pouco durante a narrativa, um texto muito bem escrito.

    Gostei mais da primeira parte, quando parecia que seria um conto sobre um psicopata ou algo do tipo. Depois achei que, apesar da qualidade da escrita, as peças do quebra-cabeça ficaram meio soltas. Continuei com essa impressão mesmo vendo os comentários do autor sobre as pistas deixadas ao longo da história.

    O final teve uma certa emoção e impacto, mas não o suficiente para me conquistar.

    Um bom conto, mas que não me agradou muito.

    Abraço.

  16. Felipe Rodriguez
    26 de março de 2014

    Não gostei, achei as frases longas e arrastadas demais, o que me fez cansar muito durante a leitura. O final também não me agradou.

  17. Rodrigo Arcadia
    26 de março de 2014

    Olha, só, o final revelador estragou o conto. puxa! Tudo indo muito bem, narrativa que prende, um ar misterioso pelas vítimas assassinadas, a frieza de Jillian, uma pena, por isso deixo meu lado positivo e negativo do conto.

    Abraço!

  18. Claudia Roberta Angst
    26 de março de 2014

    Gostei da escrita, das imagens criadas e de como a narrativa foi conduzida. No entanto, o final não me agradou. Por birra mesmo, de leitora que queria um desfecho diferente. Na verdade, eu imaginei o tempo todo que a protagonista fosse a serial killer. Tudo bem que já estava claro que não era, mas eu sou teimosa, fazer o quê?
    A leitura flui fácil e a linguagem atrai sem cansar. Boa sorte!

  19. Gustavo Araujo
    25 de março de 2014

    Durante boa parte do texto eu me peguei pensando (em um segundo plano) – caraca, que conto legal; ficaria excelente no desafio “noir”.

    A narrativa é primorosa. As descrições me fizeram imergir na história e até o ponto em que Jillian está sozinha na cabana a tensão só fez aumentar. Eu queria – muito – ver como isso iria acabar. Já tinha bolado, é claro, a minha lista de suspeitos e tentado adivinhar o final. E então veio essa transformação bestial.

    Confesso que não gostei. Acho que a intenção do autor foi surpreender, criar um desfecho completamente inesperado, inventivo e criativo. Estou certo de que essa reviravolta vai agradar muita gente, mas comigo não funcionou. Sou um leitor chato, desses que gosta de ver a trama resolvida no mesmo estilo (ou pelo menos na mesma linha) traçado inicialmente.

    Para mim, um final ao estilo clássico, revelando o assassino como alguém “normal” seria mais palatável. Do jeito que está ficou muito surreal. Seria mais ou menos como dizer que Jill era, na verdade, uma alienígena vinda de Saturno…

    Demais disso, a meu ver o texto não se adequou ao tema. Não consegui enxergar um fim de mundo digno do nome. Dizer que “a morte é um fim de mundo” pode até ser verdade, mas aí já estamos abrindo demais o universo de possibilidades. Desse jeito, até uma flor murchando, ou um prédio caindo, poderia ser um fim de mundo. Não creio ter sido esta a proposta do tema, mas isto é uma consideração estritamente pessoal. Naturalmente haverá quem entenda que tal adequação existe, sim.

    De qualquer forma, quero parabenizar o autor pelo domínio que tem da escrita. É muito, muito bom ver um conto bem desenvolvido, com um vocabulário rico, vasto e inteligente. Mesmo longo, o texto fica fácil e prazeroso. Apesar de eu ter criticado o final da história – e também achado que não se adequou ao tema – quero reafirmar que no geral achei o conto excelente.

    Boa sorte!

    • Anna
      25 de março de 2014

      Oi, Gustavo. Agradeço o comentário útil e embasado.

      Spoilers (sem intenção de emendar desculpas, apenas esclarecendo meu ponto de vista):
      O final não foi redigido com o intuito de surpreender. Aliás, minha intenção inicial era justamente deixar tudo muito óbvio para o leitor. O conto está repleto de pistas (o machucado de Greta, o fato de ser supervisionada e instruída pelo pai, seu desprezo por vegetais e mais algumas trivialidades) e desde o começo é possível notar que Jillian não se isola por vontade própria. Como a expressão “literatura fantástica” pode ser interpretada de diversas formas, me dei ao luxo de optar por uma trama absorta em moldes surrealistas e o final nada mais é que uma explicação para o poema-desabafo inicial.

      Sobre o tema, nada a declarar. Tentei algo metafórico e deixo esse debate a cargo de vocês.

      Novamente: obrigad*.

      Atenciosamente, Anna McCann.

  20. Weslley Reis
    25 de março de 2014

    Um conto acima da média, com certeza. Foi fácil imergir na história e se perder procurando entender o que viria a seguir. O artifício de que a trama era uma, seguido da surpresa de outra, foi ótimo.
    Por outro lado não vejo como encaixa-lo no desafio, a abstração para encarar a morte como um fim do mundo individual torna o tema amplo até demais.
    De toda forma, parabéns pelo exímio trabalho.

  21. giulialisto
    25 de março de 2014

    Nossa, adorei! Não esperava por essa, por ela ser um monstro e achei original e surpreendente. Começa sem muitas pretensões, parecendo um filme teen trash americano, mas vai tomando forma e tem um final realmente inesperado. Além disso, o conto está extremamente bem escrito. Parabéns!!

  22. Anorkinda Neide
    24 de março de 2014

    Não pude gostar, pq não entendi várias coisas… a questão: Para quem eu vivo? é uma questão romantica? não consegui encaixá-la na historia.
    Talvez pq não entendi o que aconteceu no final, a cena se passa muito rápida..slow motion, por favor, a tia é lenta… 🙂
    Não entendi quem morreu, quem era o esfaqueador de mocinhas e quem abraçou a moça? quando ela transformou-se? fiquei confusa!
    (agora eu reli pela terceira vez e vi q o matador e a mocinha morreram.. é isso?)

    O texto ser altamente bem escrito, que chega a irritar.. hehehe
    Tem imagens lindas do ponto de vista literário, que nao condiz com o conto teen que se apresenta.. numa prosa poética, seria tudo muito lindo:
    ‘O ar álgido cortava sua pele nívea como uma navalha bem amolada’
    ‘Contudo, o tempo não é só cúmplice das estações. Não é apenas a mão que embala o ciclo berço-progresso-túmulo.’
    ‘Não ouviria mais a voz de Crispian que, mesmo rouca e viril, tocava suas orelhas como fino veludo.’

    E o fim do mundo? Metaforico… os tres mundos da menina acabaram com sua morte…
    Buenas, apesar de o conto não ser o meu número, lhe parabenizo pela competência na escrita.
    Alías, ao escrever tudo isso aqui, pensei em descobrir o autor, um certo alguém que estreou no site no mês passado..será?

    Abração

    • Anna
      24 de março de 2014

      Agradeço a leitura e peço desculpas se alguns trechos não foram suficientemente claros.

      1. A intenção da história não é ser romântica. A protagonista odeia a vida que leva e se questiona sobre o motivo que a leva existir: Deus, seu pai, sua condição. Eu não quis entrar em paradigmas religiosos, mas tentei deixar implícito ao citar o termo “fé”.
      2. “Aí veio a surpresa: a mesma mão que a derrubara foi estendida como apoio.” Acho que já está óbvio quem a derrubou. Por conseguinte, é fácil descobrir quem a abraçou. Respeito tua opinião, mas não acho que tenha ficado confuso.
      3. O povo em geral reclama da inserção de passagens poéticas e linguagem rebuscada em meus contos. Prometo acertar isto nos próximos desafios.

      Abraço.

      • Anorkinda Neide
        25 de março de 2014

        Quanto à terceira questão que vc falou…
        Talvez tenha quem reclame de sua linguagem e sua poesia, mas o que eu vi foram pessoas elogiando exatamente isso.!
        Peço aos deuses da Escrita que jamais lhe deixem abdicar dessa sua qualidade linguística.. o que vc precisa fazer é adequar as histórias… que público vc quer alcançar? Foque nisso.
        Aqui estamos exercitando neste desafio, mas o seu tom literário é somente seu e vc vai afiná-lo no trilhar de sua vida, não somos nós, colegas deste brinquedo, que vamos definir como será a sua obra que é independente e irrevogavelmente sua.
        Pense nisso.
        Tô torcendo por vc, pq virei fã de carteirinha 🙂
        Abração

    • Jefferson Lemos
      26 de março de 2014

      Ih, Anorkinda, Já descobri o autor desse texto também. rs

      • Anorkinda Neide
        26 de março de 2014

        Rapaz, eu tenho por certo três autores… e várias outras suspeitas fortes.. rsrrrs
        estou usando meus instintos investigativos!

      • Jefferson Lemos
        26 de março de 2014

        Por certo eu tenho quatro. Se eu for colocar todos dos quais desconfio aqui, vou citar metade dos textos. hahaha

  23. Maurem Kayna
    23 de março de 2014

    O início, cuja brutalidade pareceu um pouco gratuita, quase me fez desistir, mas venci a resistência e passei por cima até da escrita um pouco pomposa em excesso e gostei muito da forma como se deu o desfecho. Acho que se a linguagem fosse melhor trabalhado teria realmente me empolgado com esse texto. Parabéns.

  24. Eduardo Selga
    23 de março de 2014

    A dicção deste texto não é a do conto, e sim do romance ou da novela, característica que vez por outra aparece por aqui. Digo isso porque a velocidade da progressão da trama é lenta e nela abrem-se afluentes (mas não é necessariamente arrastada) e não há apenas um núcleo dramático. Além disso, a protagonista habita vários espaços ficcionais diferentes.
    Apesar da riqueza vocabular, que felizmente não é usada de modo afetado (pecado comum quando se quer demonstrar domínio da Língua), incluindo palavras como “atilado”, “probo”, “abstrusas”, “nívea” e “destarte”, a narrativa não ganha cores nem sabores. Exceto na cena final. Também o fato de ter escolhido uma dinâmica de filme de “Roliúdi” não apetece a trama.

  25. Jefferson Lemos
    23 de março de 2014

    O conto está muito bem escrito, isso é verdade. A narrativa descreve as cenas de forma concisa, e direta. Consegui imaginar muito bem o cenário. Porém, a história não me agradou muito.

    O final foi legal, e surpreendente, devido ao tom de filmes hollywoodianos durante todo o percurso do texto. Mas não consegui me conectar com a história. Achei que não se encaixou muito no tema, pois não me remeteu ao fim do mundo, mesmo que fosse apenas o fim do mundo dela.

    De qualquer forma, o texto está muito bom e muito bem escrito. Espero que outros possam apreciar melhor do que eu.

    Parabéns e boa sorte!

  26. Helena Frenzel
    23 de março de 2014

    A escrita é boa e o texto não deixa de ser interessante, prende o leitor em vários trechos. Pontos que não me agradaram pessoalmente poderiam agradar sobremaneira a públicos mais jovens ou aos que gostam de histórias de vampiros e monstros, os gostos são diversos neste mundo (graças a Deus, não!?). O enredo pareceu-me bem construído à primeira vista e quanto à exploração ou abordagem do tema… bem, a morte não deixa de ser um fim ou um começo, não? Se vale a abordagem, aí eu não discuto, deixo com os participantes. Ah, e o título? Cordiais Saudações!

  27. adriane dias bueno
    23 de março de 2014

    Conto intimista a meu ver, com boa narrativa, boas reflexões. Mas penso que este tipo de conto não se enquadraria numa narrativa de fim de mundo, pois trata do fim de uma pessoa. Mas excelente de qualquer forma. Sucesso.

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Publicado às 22 de março de 2014 por em Fim do Mundo e marcado .