EntreContos

Detox Literário.

Babel (Jaci)

Akkad parou sobre a elevação. Envolvido pelo silêncio, seu olhar deslizou pela vastidão da terra pardo-amarelada. A região devastada há séculos pela guerra entre Amonins e Enaquins, a raça dos gigantes que sucumbiram a degeneração, desaparecendo no pó dos tempos.

O sacerdote evita atravessar aquela região, terreno infestado de escorpiões, serpentes, lobos, e Sombras, entidades sem essência que suga o espírito do viajante e deixa seu corpo secar ao sol escaldante. Em vez de seguir pelo pântano, decide cortar caminho pelo vale do Utûnu, caminho mais longo, não menos perigoso, pois lá vivem, no cume mais alto, as Hespérides, filhas da morte. Elas cultivam no jardim, maçãs que lhes dá vida eterna. Nunca ninguém conseguiu roubar uma maçã. Akkad nem pensa nisso.  

 Para passar pelo vale é preciso pagar pedágio. Quando lá chega, ele joga uma moeda de prata numa jarra que está sobre uma pedra na entrada. Quando o tilintar da moeda ecoa pelos montes, só então, o viajante atravessa o vale. Akkad segue a trilha por entre as rochas sem olhar para cima.

Na saída do vale, ele ficou apreensivo ao encontrar um homem alto e forte na beira de um regato. O sujeito, vestindo um colete de pele de leão, tinha cara de mau. Porém ele mostrou-se ser pacifico com viajantes.

─ Que o dia lhe seja próspero, peregrino! – saúda o gigante, com um sorriso amistoso.

─ Desejo o mesmo para o senhor.

─ Sabe para que lado fica  a morada das Hespérides?

Akkad aponta para o vale.

─ Lá, mas aconselho não ir, pois elas têm um dragão como guardião do jardim.

─ Sei disso, não se preocupe. Obrigado pela informação.

Ele pega um tacape que estava no chão e parte correndo para o vale.

─ Quem é o senhor que não tem medo de dragões?

─ Me chamo Hercules.

Akkad seguiu caminho, admirado pela coragem de Hércules, mas achando que ele sucumbiria nas armadilhas do jardim, mesmo antes de chegar ao dragão. 

Ao fim de cinco dias, Akkad chega à Babilônia. Sem descansar, dirige-se para o palácio do rei. Ele cobriu o rosto com o manto para não ser reconhecido. Tinha vergonha do motivo de ter partido.

Como de costume, Yaren estava na entrada. Dependendo do assunto, marcava uma audiência com o rei. Na maioria dos casos ele mesmo resolvia os problemas da comunidade auxiliado por seus secretários. Akkad entrou na longa fila e quando chegou a sua vez, desnudou o rosto. Yaren o reconheceu de imediato.

─ Sacerdote Akkad! Pensei que nunca mais o veria por aqui. Deseja falar com o rei?

─ Tenho um assunto muito importante para tratar com ele.

─ Pretende retomar o seu posto no templo?

─ O assunto mais importante é outro.

─ Espero que sim. Acompanhe o servo.

Yaren fez um sinal para um homem postado na porta. Akkad o seguiu. Agora, que não era mais um funcionário do reino, precisava seguir o protocolo. Depois de atravessar corredores e salas, Akkad chegou a um pátio interior, o centro da vida oficial e da administração do reino. Numa sala contígua, o soberano recebia seus funcionários, mensageiros e embaixadores. No lado oposto, o rei concedia as entrevistas para requerimentos importantes.

Ninrod estava recostado num divã, conversando com um dos seus ministros, comendo uvas e sendo abanado por um eunuco.  

─ Então, o velho Akkad voltou! Curou-se do mal que o afligia? Quer voltar ao seu antigo cargo no reino?

Akkad procurou controlar sua raiva. Ninrod estava sendo sarcástico. Sabia muito bem por que ele deixou a cidade há quase um ano. Ele era casado com Mirena e ela o abandonou por causa de outro homem. Magoado, e envergonhado, ele resolveu ir embora. Foi para o reino de Mari, prestar serviços de cultos ao deus Dagon. Voltou por causa de um sonho, de uma revelação divina, não por Dagon, mas por Marduk.

─ Voltei com urgência para dar-lhe uma mensagem, meu senhor.

─ Do rei Zimrilin?

─ Não. De Marduk. Ele veio a mim em sonhos e disse, volte ao rei Ninrod e faça-o saber do seguinte; que um deus surgido dos confins do firmamento, está matando todos os deuses do céu. Quero que construam uma torre tão alta que alcance os céus e no topo coloquem minha imagem com um braço erguido, segurando uma espada.

Akkad fez uma pausa, perscrutando o rosto do rei. Ninrod não demonstrou nenhum espanto, mas ficou interessado pelo assunto.

─ Esse deus destruidor tem nome?

─ No Sinear eles o chamam de Yawé.

─ Que aparência tem esse deus?

─ Dizem que se parece com um homem idoso com barbas e cabelos brancos. Ele costuma atravessar os céus numa carruagem de fogo.

─ Ah! Então deve ser ele que os astrólogos viram nos céus. Como ele pode estar destruindo outros deuses se é velho em anos considerando que a velhice nos deixa fracos?

─ Dizem que pelo poder da palavra.

─ Poder da palavra? Então é por isso que Marduk precisa da espada para cortar a língua desse deus Yawé. Marduk disse como construir a torre? 

─ De tijolos queimados, com argamassa e betumem por causa da umidade do rio. Com cinco mil e cinquenta côvados de altura pois, segundo alguns astrólogos, essa é a distância da terra ao céu.

─ Preciso consultar a Sibila para saber se essa obra tem bons augúrios. Ministro Belakin, nos acompanhe.

Saindo do palácio, os três homens seguiram pela rua das procissões e chegaram logo depois ao templo de Ishtar. Entraram no belo jardim, onde os canteiros de mirra, aloés e gálbano eram separados por caminhos lajeados.

O santuário da Sibila, ficava um pouco antes da porta arqueada do templo, uma pequena construção, tendo nas paredes externas, imagens em baixo-relevo dos principais deuses da Babilônia. Dentro, havia um divã em cada lado da porta, em frente, um banco alto e ao lado um incensório com a fumaça aromática emanando do braseiro.

Ao fundo, de uma entrada fechada por uma cortina purpura, uma voz soou:

─ Quem busca a sabedoria dos deuses? 

─ Sua majestade, Ninrod, o rei. – respondeu Belakin com um tom grave na voz.

A mulher emergiu das cortinas. Vestia uma roupa comprida até os pés, enfeitada de joias, sementes e dentes de animais. Era bonita, de rosto pálido, emoldurado pelos cabelos encaracolados. Olhou para o rei, esboçando um sorriso, uma mão segurando a outra, um modo e um costume de demonstrar afabilidade e educação.

─ Sejam benvindos. Em quê, posso ser útil ao meu rei?

─ Gostaríamos de fazer uma consulta.

─ Uma consulta aos deuses? Então terei que preparar-me. Com licença.

Ela entrou no cubículo e voltou em seguida com um manto sobre a cabeça. Jogou um punhado de ervas aromáticas no braseiro e alçou-se para o alto da cadeira. Ela ficava numa posição mais alta que o consulente, representando o poder religioso, a voz dos deuses. Muito mais importante que o próprio rei, um simples mortal. Inclinou a cabeça, as mãos repousando nos joelhos com as palmas para cima. Ficou assim por alguns minutos. Era indispensável paciência. Caso quebrassem o silêncio, não haveria mais consulta, a ligação com o divino se romperia.

A Sibila permaneceu calada por um tempo, até que soltou um longo suspiro e proferiu;

─ O dever de um rei é governar para o seu povo com sabedoria. Garantir seu bem-estar, seus direitos terrenos e o acesso às dádivas que os deuses dão a quem merece. Deve também obedecer aos desejos dos deuses, assim como todo mortal, caso não o faça, sofrerá as consequências por sua rebeldia.  Se Marduk pediu uma torre que chegue ao céu, esta deve ser feita para que a paz e a prosperidade sejam cada vez maiores em nosso reino. Tudo correrá bem.

A mulher suspirou novamente e retirou o véu da cabeça. O rei ergueu-se, satisfeito com o augúrio. Belakin depositou algumas moedas nas mãos da Sibila e eles se retiraram. A tarefa a seguir, foi planejar com os arquitetos reais, a construção da torre.

Depois de alguns dias de planejamento, a torre começou a ser erguida. Um quadrado de noventa metros como alicerce, construído com pedras, argamassa e betume por causa da umidade, já que o terreno escolhido ficava perto do rio. Sobre ele, outro quadrado de oitenta metros, desta vez com tijolos cozidos, argamassa e betume e sobre esta, outro de menor tamanho e assim sucessivamente até chegar ao céu. No topo seria construída a capela com a estátua de Marduk empunhando a espada.

Para o trabalho foram intimados escravos e recrutados homens e mulheres livres, com direito a uma medida de sal e cincos moedas, pagas no fim do mês. O rei deu a Akkad, a tarefa de supervisionar os operários, providenciando serviços religiosos, incentivando-os com cânticos a Marduk, garantindo a força espiritual para enfrentar o trabalho árduo, e prometendo uma vida de bem-aventurança no além tumulo.

Na margem do rio, com uma forma de madeira, os oleiros moldavam os tijolos que os carregadores levavam para os forneiros cozerem nos fornos da olaria. Foram empregados cerca de 20 mil trabalhadores entre oleiros, forneiros, carregadores, pedreiros, carpinteiro, aguadeiros, capatazes e cozinheiros, se revezando em grupos de trabalho.

 A construção estava em seu segundo ano quando, em uma de suas supervisões, Akkad deparou-se com Mirena na seção dos oleiros. Alguma coisa o fez andar por um outro trilho naquele dia. Ficou surpreso ao ver sua ex mulher de joelhos no barro, as mãos barrentas, moldando tijolos. Suas vestes estavam sujas, o rosto queimado pelo sol. Apesar da expressão fatigada, trabalhava com vigor. Akkad espantou-se ao ver o volume sob o vestido. Mirena estava grávida.

Ela não demonstrou nenhuma surpresa ao vê-lo. Sabia que dia menos dia ele descobriria que ela era um dos operários.

─ Por que está aqui, trabalhando desse jeito?

─ Porque preciso de dinheiro para sobreviver.

─ Eu julgava que você estava tendo uma boa vida com aquele mercador rico, em Hatti.

Mirena respondeu num tom magoado.

─ Ele me prometeu uma vida de princesa. Isso eu tinha, mas ele é mau, mostrou seu verdadeiro caráter. Por qualquer motivo me batia e quando soube que eu estava grávida, me mandou embora. Disse que o filho não é dele.

─ Lamento saber disso. E fico angustiado de vê-la assim, ainda mais com um filho na barriga. Se você quiser, as portas da minha casa estão abertas. Você não precisa trabalhar aqui. Ganho o suficiente para nós dois.

Mirena olhou par Akkad, duas lágrimas escorriam por seu rosto.

─ Você me perdoa? Cuidará do meu filho como se fosse seu?

─ É claro que sim.

****

Mirena deu à luz a um menino. Naquele dia Akkad não foi trabalhar, ficou em casa para dar assistência à esposa. Estavam os dois conversando sobre que nome dar ao bebê, quando soaram gritos na rua. Akkad saiu para ver o que estava acontecendo. Algumas pessoas corriam, outras olhavam assustadas para o alto. Ao longe, sobre os telhados, subiam colunas de fumaça. Akkad ficou espantado quando um dragão surgiu voando e cuspindo fogo sobre a cidade. A princípio ele ficou admirado, logo em seguida percebeu a gravidade da situação. Voltou a entrar, pegou Mirena, a criança e fugiu para o rio. Logo em seguida deparou-se com Hercules destruindo a torre com seu tacape. Ele havia começado na parte mais alta, ainda não concluída e veio descendo derrubando as paredes. A construção desabou num monte de escombros.

Reconhecendo Akkad, Hercules se aproximou.

─ Olá, meu amigo! Graças a você consegui encontrar o jardim das Hespérides. Roubei os pomos e o dragão se tornou meu amigo. Zeus ficou com inveja dessa torre dedicada a Marduk e mandou-me derrubá-la. – Hercules fez um gesto para o rio. ─ Tem um barco ali na margem. Fuja com sua família. Essa Babilônia, orgulho dos caldeus será destruída e nunca mais será habitada. Entre suas ruinas as feras farão o seu covil e encher-se-ão as suas casas de corujas. Os lobos uivarão em seus castelos e os chacais em seus palácios de luxo.

Akkad arrepiou-se com o vaticínio, pegou a mão de Mirena e dirigiu-se para o barco.  Já, no meio do rio, eles olharam para trás e viram a cidade em chamas. Logo depois, passou voando, Hercules montado em Pégaso, acompanhado do dragão. Akkad foi para o reino de Mari e nunca mais voltou a confiar em sonhos, tampouco em premonições das Sibilas. Ele, Mirena e o filho Enkidu, tiveram uma vida feliz. Enkidu tornou-se um guerreiro lendário na Mesopotâmia.

4 comentários em “Babel (Jaci)

  1. Kelly Hatanaka
    28 de novembro de 2021

    Oi Jaci.
    Minha avaliação será feita com quatro critérios: tema (2 pontos), correção/escrita (2 pontos), criatividade (3 pontos), personagens (3 pontos).
    Tema (2): Totalmente dentro do tema. Tudo gira em torno de várias mitologias.
    Correção/escrita(1): Uma escrita muito boa, clara e agradável. Poucos erros como, por exemplo: “sucumbiram a” sem crase, “entidades sem essência que suga”, “maçãs que lhes dá”, teriam sido eliminados com uma revisão mais apurada.
    Criatividade(2): Uma história bastante inventiva, seguindo os passos de Akkad e terminando no destino da Babilônia. A cada passo, mais detalhes do ambiente são revelados, de forma natural e orgânica.
    Personagens(3): Excelentes. Cada personagem tem suas próprias características. Akkad, que é o que mais aparece, é uma figura muito interessante, é fácil torcer por ele e foi bom que ele tenha tido seu final feliz ao lado de Mirena. Mesmo os personagens menores estão muito bem delineados. Novamente, excelente!
    Geral: Gostei muito! Uma história bem contada e gostosa de ler.
    Parabéns e boa sorte.

  2. Lucas Suzigan Nachtigall
    26 de novembro de 2021

    Em primeiro lugar, saudações, Jaci. Temos aqui um conto interessante.
    Uma mistura curiosa de mitologias (que me fez me lembrar de Age of Mythology e Titan Quest, que inclusive aborda a Babilônia), mas foca especialmente na mitologia Hebraica, com toques da grega e alguma referência bem rudimentar a Marduk.
    Acho que o conto está legal, apesar de algumas sutis revisões serem necessárias (“Sombras, entidades sem essência que suga o espírito do viajante”, se são entidades, elas sugam).
    Com relação à narrativa, eu acho que ela tem muita coisa que acaba nem sendo utilizada no desenvolvimento da história. É quase como se o conto fosse um resumo de um livro, cheio de coisas que acabaram ficando lá. Nessas situações, é importante perceber o que PRECISA ficar e o que pode ser removido. Isso ajuda muito na fluidez da narrativa, que fica atropelada com tanta coisa ao mesmo tempo. Pense nisso
    O personagem principal parece vazio: não sei quem ele é ou o que faz ali. Ele está lá, mas por quê? Não consigo me identificar com ele, pq na real eu nem sei o porquê dele estar fazendo o que faz. Trabalhe um pouco mais na “alma” do seu personagem, e ele se tornará cativante ao leitor.
    Espero que tenha ajuddo, e boa sorte.

  3. Antonio Stegues Batista
    23 de novembro de 2021

    Dos contos que li até agora, esse é o que tem vários personagens mitológicos, as Hespérides, Hércules, dragão, Pégaso, o cavalo alado, deuses da Mesopotâmia, e a mítica torre de Babel. Gostei da história, da ambientação que nos dá uma visão da antiga Babilônia e a construção da torre. Uma escrita simples, mas com um bom enredo, uma boa estrutura, ambientação e diálogos.

  4. Emanuel Maurin
    19 de novembro de 2021

    Olá Jaci, tudo de bom para você.
    Um sacerdote corno, após levar um chifre foge do reino. Teve um sonho e volta para contar ao rei sobre o sonho. No caminho de volta evita atravessar cercanias perigosas e encontra Hercules, fala pra ele da terra do dragão e das maças que dão vida eterna. Chega ao reino e com ajuda do rei começa a construção de uma torre que vai chegar no céu para cortar a língua de Zeus, mas Hercules chega montado no dragão e destrói tudo.
    Seu conto é bem escrito e empolgante, gostei muito do cenário e dos personagens. O ponto forte é quando Hercules chega montado no dragão e destrói a torre de Babel. O tema está dentro das regras do certame, a estrutura está boa. O conto é fluido e gostoso de ler. Boa sorte no desafio.

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Informação

Publicado em 17 de novembro de 2021 por em Mitologias.
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