EntreContos

Detox Literário.

Lei da Sorte (Homem Suado)

Era noite quente naquelas bandas. Gente direita não dava o ar da graça nas ruas danadas de incerteza. Enquanto fumava, Roberto olhava da janela uma cena velha. Um menino aparentando uns 11 ou 12 anos traficando na rua quinquilharias do que o dia lhe rendeu:  um relógio, uma pulseira, uma carteira. O canto escuro escondia os objetos, mas também flagrava as pequenas mãos negociando como profissionais. Roberto mirou a cabeça da criança, bem no meio da testa. Ele era bom nisso. Sorriu marotamente, enquanto viu o garoto se desesperar com a luzinha vermelha no seu terceiro olho. A turma da nova geração fadada aos maus hábitos se dissipou em fração de segundos. Roberto riu alto. Seu whatsapp notificou uma mensagem. Leu e, aliviado, ligou para o pai.

– Consegui tua operação. Mas ó, tu tem que tá no hospital amanhã bem cedinho, senão passa outro na frente!

– Não acredito! Meu Deus! Meu filho, como tu conseguiu isso? Eu sou o quatrocentos e pouco na fila!

– Depois eu te conto, vai dormir, meu velho!

Nem Roberto acreditou que conseguiu. A cara orgulhosa acompanhou o brilho cintilante de sua Carlinha, uma Taurus G2C que adorava ser alisada por uma flanela velha. Ninguém ia acreditar no preço que ele pagou por ela também. Quase nada. Era um homem de muita sorte, sabia disso. E contava com isso.

Roberto não falava quase nada, mas tinha muitas perguntas. Não era muito inteligente, por isso não entendia muito bem as coisas. Não entendia por que o pai esperava por longos quatro anos uma vaga para operar urgentemente os olhos, se o hospital público nem fila tinha. Médico? O hospital tinha. Equipamentos? O hospital tinha também…

Outro dia teve uma crise de riso quando prestou atenção na telinha do trem, que anunciava a proibição de venda de produtos por ambulantes dentro e fora dos vagões. Na hora, ele comia um chocolate de R$ 2,50, muito gostoso. Onde mais, senão em um vagão de trem,  na Central do Brasil, ele pagaria um preço tão justo por um Suflair? – “Moço, pode ser tudo roubado!” – uma estudante se indignou. – “Quem garante que a tua mochila também não é?” – Roberto ria mais ainda. – “Ah num é não. Comprei na loja, tá?” – “Tá bom, minha querida…”. Sem saber, a estudante defendia o art. 40 do Regulamento de Transporte Rodoviário. Sem saber, Roberto concordava que os ambulantes eram Patrimônio Cultural de Natureza Imaterial do estado.

O dia nasceu, afinal ele nasce para todos, não? Para os que cumprem e também para os que não cumprem o seu dever. Roberto se preparou para mais um dia de labuta. Trancou a casinha e saiu. A poucos metros de sua residência, um pedido do mesmo moleque que Carlinha apontou na noite anterior:

– Oi, tio! Tá indo cedo pro trabalho hoje!

– Moleque, quantas vezes eu tenho que te falar pra não me chamar de tio? Eu não sou da tua família, pirralho! Aí tu faz merda por aí e vão atrás do teu “tio”… Que que tu quer?

– Meu cartão do passe livre deu ruim. Falaram que só vou ter outro no mês que vem. Se eu não for pra escola, vai cortar o dinheiro da mãe. Tu pode me dar alguma intera na passage, tio?

– Não.

– Mas, tio…

– Vai se foder moleque, tenho nada aqui não. E se tivesse não ia te dar. Quem garante que tu não tá mentindo?

Que dia aborrecedor! Foi um dia escaldante, não houve ar condicionado que desse jeito naquele trem. No meio daqueles trabalhadores já esgotados do futuro do dia, um ser humano suou mais que todos. Era eu. Minhas mãos inquietas olhavam o bolso a todo instante, querendo se certificar de algo importante. Meu lenço. Ninguém notou, exceto Roberto. Apenas Roberto cumprimentou com a cabeça as minhas mãos e meu rosto. Ao chegar a Estação da Central do Brasil, a multidão galopou para fora dos vagões. Os últimos a aparecerem em meio à poeira de sol fomos Roberto e eu, o homem suado. Os dois andamos lado a lado, passos lentos, pesados e precisos. Passos de quem sabia andar por ali. Após alguns metros juntos, nos separamos da nitidez do dia. Esqueci de dizer, meu nome é Jorge.

– Fala, Geraldo! Tudo bem, meu chapa? – entrei no restaurante que eu andava frequentando. Era modesto e ficava muito cheio às segundas. Aliás, era uma segunda-feira.

– Salve, Jorge! Veio cedo hoje! Tu deve tá passando mal de fome, suando desse jeito – falou o empático dono do restaurante.

– Pois é cara, tô morrendo de fome!

– Então se apressa porque hoje tá cheio aqui. Segunda é sempre assim! Ou vai ter que esperar repor a comida. Ou volta mais tarde, tu trabalha aqui perto? Eu me esqueci.

– Ah, tá bom… vou fazer meu prato… Geraldo, tu tá sabendo o que tão falando por aí? – cochichei.

– O que, cara? Depois tu me conta, tenho que dar um gás aqui… – uma fila começou a se formar no caixa do restaurante.

– Bicho, um amigo meu me falou que aquela mulher que sentava ali no canto teve uma infecção depois que almoçou aqui. A mulher tá internada e tudo! – falei baixinho no ouvido do caixa e dono do restaurante.

– Que isso, mermão?! Aquela loura? Ah cara, mas quem garante que foi porque comeu aqui? – sussurrou de volta pra mim, sem disfarçar sua preocupação. Os clientes começaram a ficar irritados com a demora no atendimento. Um homem apareceu com uma nota de R$ 200 com um lobo-guará estampado nela, para pagar um refrigerante.

– Amigo, não tem menor?

– Putz, cara! Só tenho isso!

Geraldo ficou nervoso do calor, da fila, da mulher internada e daquela nota do lobo-guará que nunca viu antes. Abriu abruptamente a caixa registradora. Tentou pensar, mas os clientes já reclamavam na fila. Contou o troco de R$ 195 reais.

– Geraldo, vou te deixar trabalhar cara, tá bem cheio… – claro que percebi o grande movimento do restaurante.

– Amigo, tô bem atrasado, meu horário de almoço já acabou – pressionou o homem da nota do lobo-guará.

– Tem certeza que não tem menor? Vou ficar desfalcado aqui, cara.

– Ei! Ei! A gente aqui também tem hora! Bora aí! – um outro cliente gritou no fim da fila.

– Cara, melhor tu dá logo esse troco. Neguinho tá ficando bolado na fila! – dei um empurrãozinho nas mãos do pobre dono do restaurante. E Geraldo deu o troco de R$ 195. Otário!

Depois de dobrar a esquina, Roberto contou as notas, uma a uma. 

– Porra, achei que ele fosse chamar alguém para ver se a nota era falsa – eu disse, derretido de suor.

– Jorge, a gente tem que cuidar desse tempo aí. Demorou muito, cara! Se der tempo para eles, fode tudo! Essa nota tem um relevo muito alto, bicho! Não quero mais trabalhar com ela não! Vamo diminuir o olho e trabalhar com as de 100 que é mais tranquilo. E a propósito, bicho, tu tá suando feito um gambá!

– Esquenta não, brodage, tô pensando numa outra situação, mais segura pra gente – eu disse enquanto cheirava minhas axilas para tirar minhas próprias conclusões. 

– Valeu, então. Vou lá que meu pai vai internar amanhã. Toma aqui tua parte.

– Vai com Deus, irmão!

Roberto se apressou para o próximo trabalho, estava atrasado. E esse trabalho era o mais gostoso. Tinha Mariana. O galanteador trotou até a casa lotérica que frequentava duas vezes na semana. Na frente da loja estava uma mesinha pequena de fórmica branca descascada e uma banqueta. E as coxas de Mariana. Lugar certo para se perder, mesmo aquele que acha que tem rumo. Eu mesmo já me perdi nelas. Por pouco tempo, infelizmente. O pai da bela me enxotou para longe. Ele tinha um armário que “guardava” a filha e a banca do jogo do bicho. Chamava-se Reno. Costumava usar um chapéu preto e também costumava ter mais de dois metros de altura. Mas essa altura variava muito, quando estava perto de Roberto ele diminuía o próprio tamanho e ficava bonachão. Filho da mãe. Eu já falei que Roberto era um cara de sorte?

– Como tá hoje, Reno?

–  Tá fraco, Roberto. Só  dez apostas, mano.

– Calma amigo, agora são onze – sem tirar os olhos das coxas e da dona delas – , e vou de coelho hoje – continuou Roberto. Mariana sorriu, sem disfarçar.

– Hahaha tu é uma figura, cara! Tu já pegou seu dinheiro com o pai da princesa?

–  Esquenta não cara, tá tudo certo. Seu Brás já desenrolou uma parada comigo de uma vaga no hospital… eu passei aqui pra ver se tava tudo certinho. Amanhã eu dou uma força aqui. Valeu!

– Até mais, mano.

O pão do dia já estava garantido e o encontro de sexta à noite já estava marcado com Mariana. Sempre que iam transar um deles apostava no coelho. Era o código acertado entre os pombinhos.

Roberto chegou a casa à noite. Cansado bastante, mas não o suficiente para não polir Carlinha, aquela Taurus G2C.  Acabou cochilando do jeito que chegou, mas o barulho de alguma maldita festa de algum vizinho desocupado o fez se levantar de sobressalto. Que trabalhador poderia dormir com aquela balbúrdia? Abriu a porta e saiu para pegar um ar e acender um cigarro. Em frente à casa, viu o moleque que lhe pediu dinheiro no começo do dia. Estava vendendo uns cigarros de maconha para uns garotos abastados da classe média. Roberto não perderia essa chance, então se aproximou do bando. 

– Seguinte, vou falar só uma coisa pra vocês: VAZA! – bastou pisar no cigarro ainda inteiro e aceso, e dar uma escarrada no chão, para que todos evaporassem para os seus lares confortáveis de maconheiros da Zona Sul carioca. Só ficou o moleque, tremendo no âmago de sua base de existência.

–  Tu vai me matar, tio?

Roberto enfiou a mão no bolso de trás da calça. O pobre menino fechou os olhos e esperou o destino, já contando estar no inferno, mas ao abrir um olho, viu os dedos de Roberto contando R$ 100.

– Toma aqui moleque. Pra tua passagem de ônibus. Quero ver você na escola. Todo dia. Se tu não for, eu vou saber e o negócio vai ficar ruim pra tu – escarrou de novo, virou lentamente e voltou para casa com uma paz que não se compra, e com um passo de quem sabe aonde vai.

Daquele dia em diante, o menino nunca mais faltou uma aula sequer! Passado algum tempo, não se viu mais Roberto também. Uns dizem que morreu de um tiro certeiro de um vingador.  Outros dizem que o pai de Mariana arrancou suas bolas. E ainda há quem diga que, de tanto golpear de bairro em bairro, o amigo enriqueceu e foi para o estrangeiro. O pai dele diz que ele foi aprovado em uma faculdade de Direito no interior de Minas Gerais e foi morar com parente, mas nessa última verdade ninguém acredita porque é descabida demais. Fato é que até hoje todos os que o conheceram se perguntam por onde anda Roberto, se vivo. 

Quanto a mim, eu não sou um cara de sorte, não fiquei com Mariana e perdi o meu parceiro de trabalho. O sumiço de Roberto me intrigou muito. Perdi a coragem de continuar com os furtos e  trambiques. Poucos dias depois, eu encasquetei e fui à casa onde ele morou. Eu tinha uma cópia das chaves dele, mas jurava que a proprietária tinha um mínimo de massa cinzenta. Fui até lá só por ir ou por intuição, sei lá, o fato é que a chave se encaixou perfeitamente na fechadura e, adivinhem o que encontrei sob o assoalho rachado do quarto? Sim, Carlinha. Estava reluzente como sempre!

Senti que a Taurus G2C me daria sorte como deve ter dado para o Roberto. Usaria a bichinha para seguir o meu cronograma: o plano de assaltar uma mulher solitária e cega, que iria até agradecer a minha companhia, no final! Não tinha como dar errado, ainda que as coisas estivessem um pouco diferentes do planejamento original. Roberto não estava mais comigo, quem estava era a Carlinha… eu só precisava acreditar nela, em mim, na sorte, em qualquer coisa, sei lá!

Neste dia suei por um ano! Senti uma tontura e um sono profundo, típico de quem amarela na hora de agir. Dormi para não encarar minha vergonha, meu medo e, principalmente, minha frustração. Acordei e vi Carlinha brilhando como nunca. Entendi seu recado e suas palavras não me saíram da cabeça dali em diante. Para o resto da vida.

– Delegado, chegou um alvará de soltura!

– Claro que chegou! O cara não tem antecedente criminal e tava vendendo Suflair no trem! Enquanto isso, os cachorrões estão soltos por aí! Putz, que calor infernal! Alguém viu meu lenço? – fingi não reconhecer o menino que o Roberto costumava ajudar. Foi para a escola, mas a vida não lhe deu oportunidade de trabalho formal. No trem, entretanto, era o rei de vendas daqueles chocolatinhos aerados! E não seria eu quem arrancaria a sua majestade de sobreviver, quem lhe roubaria a Sorte.

7 comentários em “Lei da Sorte (Homem Suado)

  1. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    É um texto confuso, que alterna entre as vozes narrativas (ora primeira, ora terceira pessoa) e que se apega em alguns cacoetes que poderiam soar críticos ao governo (a nota de 200; o zap; o vocabulário direitista), mas que não leva a lugar nenhum além de uma moralidade tão dúbia quanto à origem do narrador em primeira pessoa.

    No mais, o conto é interessante e mantém quem lê investido no que é narrado, mesmo com o foco alternando com frequência desnorteante.

    Parabéns pelo conto

  2. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    Segunda vez que vejo uma Taurus compacta aqui no desafio. Dessa vez é uma pistola.
    O conto é um conjunto de várias crônicas. Mostra um dia de trabalho do malandro. Que quer ver os meninos na escola, pra não ficar igual a ele. Eu acho que esse é um dos poucos do desafio que retratou o crime normal, no caso o golpe da nota.
    Ainda tem o caso do menino que mesmo indo à escola não consegue melhorar de vida. E o de alguém que sai daquilo e vira delegado por um insight.
    Tudo bem encaixado e contrapinado. Bom conto sobre o crime.
    OBS: Na frase “os últimos a aparecerem”, não é que o infinitivo pessoal esteja errado. É só um toque, acho que na maioria das vezes o infinitivo pessoal fica mais eufônico: “os últimos a aparecer.”

  3. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    História do cotidiano de dois trambiqueiros com uma pegada mais cômica e leve, o que deu uma refrescada, em meio à leitura de tantos contos trágicos, permeados de muito sangue, estupro e violência, pertinentes ao tema proposto no desafio, claro! Aqui, Jorge e Roberto são pequenos vigaristas (vivem de golpes e jogos de azar) que levam vidas normais: tem família, amores, amizades, inveja e também bondade, enfim, tudo indica que são seres humanos, rs. Em certo ponto, um some e o outro toma outro rumo, por sorte ou escolha, o conto não ficou muito claro quanto a isso. Não condeno o(a) autor(a), sorte e escolhas são definições difíceis e, talvez, faces da mesma moeda.

  4. Angelo Rodrigues
    16 de setembro de 2021

    9 – Lei da Sorte

    Um conto que deseja passar uma ideia malandra, de malandros tentando ganhar a vida com pequenos golpes.
    Um conto estereotipado na linguagem e nos supostos hábitos de gente ligada aos pequenos crimes.
    Implico com isso, sempre, dado que costumeiramente me passa a ideia de um João Antônio Ferreira Filho (Ô, Copacabana; Dedo-duro; Malagueta, Perus e Bacanaço; Leão-de-Chácara; etc), sem a vivência de João Antônio, tornando tudo bastante caricato.
    Se o autor realmente gosta do ritmo que deu ao seu conto, recomendo a leitura de, ao menos, “João Antônio, Contos Reunidos”, saído há alguns anos pela Cosac Naify, particularmente pelo encarte “Vocabulário das Ruas recolhidos por João Antônio”. Um primor.
    Retomando.
    O conto sofre algumas viradas, particularmente com a mudança da voz do narrador, quando Jorge entra no texto, mudando o foco do relato. Achei interessante, embora disjuntivo, provocando um certo desconforto na leitura, deixando o leitor, até certo ponto, um pouco perdido no fluxo da narrativa.
    Tem, adjunto ao que disse, uma apropriação constante de clichês que no texto se fazem presentes para justificar comportamentos. Algo do tipo “bandido age assim, bandido trata moleques da comunidade assim…, bandidos bons incentivam o estudo de meninos perdidos”, engrossando o caldo para fixação da idealização do personagem com se deseja que ele seja.
    Bem, bandido é bandido, polícia é polícia, já dizia Lúcio Flávio, em Lúcio Flávio, Passageiro da Agonia, de José Louzeiro. Aqui o autor busca, como em outros textos que li neste desafio, a romantização da desgraça, da bandidagem. Interessante esta visão, particularmente quando há a “regeneração” do sujeito ao transformá-lo em, quem sabe se de verdade, um Delegado de Polícia.
    Acredito que escrever um conto é uma grande chance de criar, mentir, inventar, onde os clichês têm lugar apenas para passar ideias, outras, que não sejam também elas um clichê.
    O conto é legal de ler, embora acredite que precise ser lapidado para fugir de repetições tão próprias ao gênero.
    Boa sorte no desafio.

  5. Antonio Stegues Batista
    15 de setembro de 2021

    O cotidiano de dois vigaristas, passando notas falsas. A narrativa vagueia por lugares-comuns, sem grandes revelações. Os bandidos parecem perdidos. A situação do pai de um deles, é algo passageiro e perde o motivo de estar ali. O cara suando não traz uma boa imagem verbal. A escrita é boa, os diálogos são bons, mas o enredo é ruim, insosso, as ideias não impressionam. A meu ver, as situações são fracas, sem impacto. Precisa melhorar as ideias, a construção de ações e situações do universo dos personagens além de descrições ambientes sinistros, sujos, limpos, os detalhes do aço frio na mão suada, a madeira que estala, o grito que ecoa na noite sem lua, etc. e tal.

  6. thiagocastrosouza
    14 de setembro de 2021

    Esse conto tem muita personalidade e vontade de contar sua história. Parece que o autor se divertiu um bocado ao escrevê-lo, criando esses personagens e os locais por onde transitam. Há uma linguagem leve e um ritmo bom, além de outras surpresas que agradaram este leitor. Num primeiro momento, estava achando tudo num lugar muito comum, tanto na escrita quanto no enredo, o que é natural após ler uma série de textos com trambiqueiros e assaltantes misantropos ou sociopatas, mas, numa toada mais cotidiana e humorística, a partir da virada do narrador, o conto ganha um fôlego interessante.

    Geralmente, não costumo apreciar quando o narrador para e conversa com o leitor, fazendo perguntas, muitas afirmações, ou se intrometendo para explicar a trama. Contudo, quando percebemos o narrador como um dos personagens do conto e acontece essa virada, a história ganha ares mais burlescos, até de mistério e curiosidade. O final, com o homem se tornando um delegado e poupando o menino injustiçado é no mínimo inusitado.

    Se o texto perde notas comigo, é apenas na condução de algumas frases e deslizes na escrita. Como o trecho seguinte:

    “Roberto não falava quase nada, mas tinha muitas perguntas. Não era muito inteligente, por isso não entendia muito bem as coisas. Não entendia por que o pai esperava por longos quatro anos uma vaga para operar urgentemente os olhos, se o hospital público nem fila tinha. Médico? O hospital tinha. Equipamentos? O hospital tinha também…”

    Algumas repetições e escolhas geram estranheza ao longo da leitura. O mesmo senti no trecho do restaurante. Ali, você tinha ouro bruto nas mãos para gerar a tensão e surpresa necessária. Faltou lapidar um bocadinho mais.

    Ainda assim, está bom. É um conto simpático!

    Boa sorte!

  7. anderson1973
    9 de setembro de 2021

    Bem interessante e realista. Do povo do subúrbio que anda no trem e enfrenta a labuta do dia a dia. As dificuldades, o transporte público lotado e os ambulantes que vendem de tudo no trem. Gostei da narrativa ágil também. Só no encontro do Geraldo e do Roberto que fiquei meio confuso na identificação do personagem.

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Informação

Publicado em 8 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.