EntreContos

Detox Literário.

Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

Os homens naquela roda sabiam que os traços desenhados na terra pelos capitães não passavam de uma orientação dispensável, limitada a dizer por onde começar a atacar. Nenhum deles, mesmo o padre, era iniciante no apresamento do gentio. Na sangrenta tradição que em alguns anos ficaria conhecida como guerra brasílica, a escaramuça era um desenrolar de grito, fumaça, músculos fatiados e ossos esmigalhados. Havia nisso muito pouco da escola militar do além-mar e muito mais do que homens armados e desesperados fariam para sobreviver.

Enquanto passavam as instruções, Martim sentia sobre si o pesar dos olhos desconfiados. Carregava em sua pele as marcas da doença que eles tinham trazido, falava razoavelmente a língua imposta, os guiara mata adentro e dividira das farinhas e caças. Mesmo assim, era um dos que se armava apenas com sabre, a artilharia ficando sob encargo daqueles que julgavam fiáveis. Um nativo como ele não se armaria de fogo.

Os capitães revisaram o planejado, distribuíram doses de aguardente e puseram os homens em marcha. Que aquela fosse uma bandeira de dois chefes era situação que já tinha gerado muito atrito, com sucessivas discordâncias e discussões, o capitão Gomes nunca deixando passar a oportunidade de zombar da religiosidade do capitão Andrade.

O retorno dos batedores confirmou a proximidade dos carijós fugidos que perseguiram nos últimos dias. Apesar de seus atritos e divergências teológicas, os dois capitães desanimaram igualmente com a notícia de que suas presas constituíam um grupo de mulheres e velhos, algumas crianças e poucos guerreiros. Os demais homens da bandeira, entretanto, abriram sorrisos largos e especulativos dos espólios que os aguardavam. Encontraram suas vítimas e montaram cerco.

Era um dia sereno em que nada apontava para carnificina. O que as copas das árvores deixavam transparecer expunha um céu tomado de nuvens claras, de onde escapava uma chuva fina, mas intensa. Alguns micos dourados observavam com cautela o círculo de homens que se fechava sobre as pessoas pardas e desnudas que, pouco a pouco, também pressentiam o começo do fim, os poucos homens do grupo sitiado buscando suas armas. Pássaros coloridos piavam e dançavam em seus poleiros naturais, dando melodia ao gotejar do chuvisco. O cheiro de terra molhada chamou a atenção de tudo isso para Martim, que com um suspiro acolheu aquela que não era a sua primeira calmaria antes da tempestade. Foi quando viu Joana.

Seu coração apertou e, agora um homem atrasado no cerco que formavam os seus companheiros, precisou mudar o peso sobre os pés para não cair. Era ela, seus cachos castanhos emoldurando o rosto ovalado que o encantara tantas vezes. Sempre foi Joana que sem questionar o abrigava em seu colo enquanto ele chorava e amaldiçoava toda a selvageria humana que presenciava nessas incursões. Ela sempre perguntava o impossível: e se ele não fosse? Se os deixasse adentrar a mata sozinhos? E se fugissem e vivessem em uma terra onde homens não põem outros homens em grilhões? Martim a enxergou a apenas alguns metros de si, posicionada entre o apaixonado e a matança a ocorrer.

Um dos homens chiou para que se adiantasse. A primeira das flechas foi certeira, fazendo do chamado desse colega as suas últimas palavras. Martim viu o céu branco reluzir na seta ensanguentada que brotava na garganta do seu companheiro. Joana se fora, agora ele via apenas o gentio que vinha em sua direção correndo e gritando. A essa altura estavam todos se esgoelando, cada um anunciava o seu mantra de morticínio e assim a floresta era preenchida por deus, dom sebastião, portugal, nomes de esposas e putas, além de berros indefinidos que se prolongavam ou cessavam ao ritmo da violência. Seu primeiro oponente era um homem como ele, de pele amarronzada e cabelos negros, olhos puxados e nariz fino. Matou-o com três golpes de sabre. Urrando, Martim avançou e repetiu a dose de homicídio naqueles que o opuseram. Os arcabuzes e escopetas estouraram, substituindo o perfume da chuva pelo odor ácido da pólvora queimada. Os capitães incentivavam os seus homens, Gomes a xingamentos e Andrade com um insensato discurso missionário, ambos iguais, entretanto, no assassinato que orquestravam e do qual participavam. A rendição veio logo, os velhos demais e os muito feridos dos vencidos foram logo postos à espada enquanto os guerreiros derrotados eram acorrentados e as mulheres eram sistematicamente afastadas das crianças, dos maridos e dos cadáveres, levadas para a mata densa pelos colonos mais afobados. Elas choravam o que podia ser pelos mortos, pelos meninos chorosos pelas mães e, certamente, por aquilo que estava prestes a lhes acontecer. E então suas lamúrias não foram mais ouvidas, substituídas por grunhidos e ganidos de outra demoníaca natureza.

Martim se virou para um novo som, de uma língua morta que jamais soaria boa aos seus ouvidos. O padre Diniz escalara uma árvore próxima, apoiando-se no galho mais grosso como se em um púlpito. De costas para o massacre, banhado por um fio d’água que corria entre as folhas, o jesuíta abria os braços e orava como no colégio de padres. Martim conhecia a oração e conhecia ainda mais aquele missionário. Era o homem que o capturara ainda garoto e o “fizera bom cristão”. O jovem brasil, agora um guia das bandeiras e para sempre um assassino dos seus iguais, contemplou aquela imagem e se lembrou das belas histórias que se contavam da primeira ocasião em que caravelas aportaram e um homem de batina levantou uma cruz para pregar aos naturais curiosos e ingênuos. Vendo seu algoz professar as santas palavras, Martim pensou que não poderia ter sido assim. A primeira missa daquele lado da América ferida certamente se pareceu mais com esta chacina em que estava.

Todos os sons de mata tinham cessado. Os pássaros voaram, os macacos saltaram, a chuva parou. O grito, o choro, o tilintar das correntes e o latim moroso do jesuíta era tudo o que havia. A floresta emudeceu.

***

Os dois capitães concordaram que precisavam apurar o ocorrido. Distantes do acampamento, aguardavam o jesuíta e o seu índio. Apesar dessa convergência, Gomes espiava Andrade sem esconder o seu desdém. Desconfiava que o odiava por inveja. Andrade era um sujeito benquisto na vila, figura assídua na igreja e conhecido por todos pelo espírito comunitário, homem procurado quando se precisava de uma liderança. Gomes também tinha fama própria.

Que viera para a América como criminoso era fato conhecido, mas o que variava era seu crime. Ladrão, assassino ou estuprador, a lista de seus possíveis delitos seguia de mal a pior.  Após cruzar o mar acorrentado ao porão de um navio feito negro escravo, forçaram-no de armas na mão contra selvagens canibais até que um ou outro caísse morto. Se alguma vilinha miserável a serviço de Vossa Majestade havia prosperado na costa daquele continente maldito, Gomes se julgava como um dos responsáveis. Preso por roubar, seu castigo foi assassinar e desde então não havia parado. Por isso, enquanto observava seu companheiro de mando, concluía que o sucesso na vila se tornava piada mata adentro.

Avistou os dois que esperavam. Excluída a batina, o jesuíta Diniz poderia muito bem se passar por um sertanista, dada a barba grisalha e desgrenhada que se avolumara sobre o rosto marcado de picadas de insetos. Um exame atento denunciava mais do que um clérigo perdido nas brenhas de um continente amaldiçoado. Gomes percebia naquele homem a astúcia maliciosa dos que sobreviviam e era por isso que, vendo o menino gentio atrás dele, uma cabeça mais alto e perceptivelmente mais forte, conseguia compreender porque o garoto obedecia sem questionar. Gomes distinguia o ódio do índio, mas, quando na presença do sacerdote, era o medo que sobressaía. O capitão se indagava como o padre reduziu um guerreiro a um capacho.

O que promoveu aquele encontro ocorrera algumas horas antes, quando brilhavam as últimas luzes do poente e os homens arrumavam suas redes. Uma das prisioneiras havia tirado uma lâmina tosca de algum lugar e cortado a garganta de uma companheira. Seus captores não tinham se importado em verificar qual era a relação entre as índias e tampouco se surpreenderiam se aquele assassinato se pretendesse como clemência. Não tiveram tempo de pensar em uma punição, pois acabaram tendo que proteger a assassina das outras mulheres, que se lançaram sobre ela gritando suas palavras ininteligíveis.

Os homens pediram uma explicação do índio e depois do choque o rapaz finalmente respondeu que se tratava apenas de xingamentos, o que satisfez a curiosidade supersticiosa dos demais. Mas Gomes viu que o menino mentia e soube que na presença do jesuíta falaria a verdade. Acertou. Diante dos dois capitães e do sacerdote, o garoto explicou que a mulher oferecera sacrifício a um demônio da floresta para que fossem vingadas. As outras sabiam que isso significava condená-los todos.

Essa história não prendeu Andrade por muito tempo, que saiu resmungando sobre barbarismo. O padre aproveitou para reclamar dos abusos contra as mulheres e Gomes o lembrou que aquela era, afinal, uma guerra justa, e que esta era a maneira de fornecer a mão-de-obra para o seu Colégio e para os colonos produzirem o trigo que os alimentava todos. Entre princípio e fim, os meios atravessavam as sombras da floresta e dos corações dos homens, assim era a guerra. Nem o padre e nem o capitão discutiram a legalidade desse artifício. Se precisavam da autorização da Coroa, não esperariam que esta cruzasse o mar.

Os rumos da conversa intrigaram o capitão, então perguntou ao moleque o que achava da guerra justa. Depois de um momento Martim respondeu que era justa se fosse contra infiéis e que os índios sabiam dever lealdade à coroa. Gomes achava que dessa vez o rapaz mentira melhor. Quando os dois saíram, deteve-os com um grito, lembrado de mais uma curiosidade. Recordava-se que, ao espancarem sua companheira homicida, as índias persistiram em gritar uma palavra. Gomes quis saber o que era.

Quase xingou para que o menino se adiantasse em responder, mas enfim teve a resposta. Tratava-se do nome do demônio. A palavra era Kuru’pir.

***

Vinha se firmando um entendimento mais arrazoado de que a natureza não era amaldiçoada ou diabólica e que nem tudo era monstros, mas apenas circunstâncias a serem dominadas por um conhecimento técnico. Apesar disso, a catástrofe da bandeira de Gomes e Andrade ensinaria aos seus homens que, em seu caso, a floresta estava mesmo tentando matá-los.

Os roçados que deixavam pelo caminho foram destruídos, havia pegadas por toda parte, até nas árvores, e segui-las não os levava a lugar algum. Mandavam um batedor em linha reta para oeste e ele aparecia pelo leste. As árvores fecharam um denso dossel acima de suas cabeças, escondendo o céu. Os homens que escalaram aquelas árvores não encontraram o topo e, descendo, não acharam o solo. Os que saltaram encontraram a morte no chão, os ossos espatifados como se tivessem se jogado de um penhasco. Os que ficaram agarrados foram abandonados enquanto pediam socorro. O pio da anhupoca, que anunciava o alvorecer, passou a ser ouvido a todo momento, sem que nunca encontrassem as aves. Não se sabia mais se era dia ou noite.

As doenças vieram ao mesmo tempo em que insetos e aranhas começaram a cair sobre eles como uma chuva. Os gentios prisioneiros ou sumiam ou morriam e a essa altura nenhum homem se importava com nada que não fosse o salve-se quem puder. Quando foi a vez de morrer do capitão Andrade, seu pedido pelo último sacramento não foi concedido, pois ao iniciar as palavras derradeiras o jesuíta Diniz se engasgou com um besouro. Aquele capitão deu seu último suspiro aos delírios, implorando que alguém anotasse seu testamento, mas havia pum ou outro que soubesse escrever e ninguém tinha papel. O maior choque daquele momento foi o choro inconsolável do capitão Gomes, quem pensavam odiar o morto.

Apenas três sobraram. O capitão já desistira de escapar e vingança era tudo o que queria. Perseguia as pistas irascível. As pegadas se iluminavam no solo como se abrasadas, uma a uma. Seguindo aqueles sinais, o capitão Gomes sumiu para sempre na floresta. O jesuíta Diniz gritava para que o capitão desistisse de sua busca, distraído e assustado demais para se defender do golpe com o qual Martim cortou os seus calcanhares.

Para Martim, o Carijó, a libertação era sua última aposta. Pegou pelos cabelos o homenzinho, a batina que o escravizara pela maior parte da vida, e posicionou o gume na sua garganta. Achava que se esquecera, mas seu guarani saiu inconfundível.

Kuru’pir! Uma alma te trouxe aqui. Ofereço outra para me deixar sair!

O jesuíta Diniz em nenhum momento implorou, mas não cessou de amaldiçoar. Aos diabos entregou Martim e Joana, pois algoz e vítima ambos sabiam que esta era a verdadeira razão de estar ali. O padre compreendia que aquela garota e seus olhos sonhadores eram o mais próximo de liberdade que o jovem Carijó experimentara. E o pároco jamais poderia permitir. O que o jesuíta entendia era que aquele índio era seu.

O misterioso piado da anhupoca teve o seu dono revelado. Nas sombras da floresta avistaram um bruxulear, uma chama dançante coroava um par de olhos faiscantes. O que o jesuíta não conseguia distinguir, mas também do que não conseguia desviar o olhar, era para Martim uma figura conhecida, ouvida por ele dos anciões de quem vira a morte pela espada colonial. A fogueira que constituía a cabeleira do Kuru’pir era a coroa que ele crescera temendo. A verdadeira Majestade daquele lugar.

E com aquele rei das florestas Martim desejava negociar.

***

Sem o céu, media o tempo com o seu próprio corpo. Sua pele enrugara, seu corpo estava esquelético, poucos dentes sobravam e as raízes dos cabelos tinham recuado até expor uma cabeça calva. Nunca em sua perdição encontrou comida que não carniça ou águas que não empesteadas. Reduzido a um abutre das matas, comeu e bebeu. Ele sabia que jamais morreria. Uma miséria atrás da outra era tudo o que conhecia e se houve algo antes disso, antes da última bandeira, ele não se lembrava.

Um dia acordou com uma suçuarana o cheirando, o animal fugiu assim que despertou. Como outros predadores, o rejeitou. O abutre deu atenção a algo verdadeiramente inédito: os raios dourados de um sol esquecido. Seguir a luz o levou para fora da mata. Ele, um arremedo do homem, as articulações quebradiças e cobertas de estilhaços de madeira, musgo verde crescendo entre dentes e nos cantos dos olhos… ergueu os bracinhos para se proteger da luminosidade, mas os baixou assim que a viu. Não se lembrou de tudo, mesmo a reconhecendo. Metros adiante, de frente para os limites da floresta e do monstro que acabara de pisar os pés fora dela, estava Joana. Um rapaz parou ao lado dela, acolhendo-a em um abraço protetor. O abutre o reconheceu também, aquele lá era Martim.

E se ele não fosse? E se ficasse para trás, ficasse com ela? Sonho e pesadelo se olharam. Martim olhou para Martim, deu meia volta e foi embora.

9 comentários em “Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

  1. Anderson Prado
    17 de setembro de 2021

    1. o tema do desafio aparece medianamente, já que houve uma associação entre bandeirantes e a ideia de “foras da lei”. Ocorre que apenas é possível considerar os bandeirantes foras da lei se a lei tomada como parâmetro for a lei contemporânea, já que no contexto da colonização os bandeirantes não eram foras da lei, ao contrário, eram bem adequados à sociedade da época, que não só valorizava seus serviços como deles dependia. O erro que o entrecontista cometeu é bastante comum: julgar o passado com os olhos do presente. Dessa maneira, melhor teria saído o entrecontista se não tivesse emitido juízo de valor sobre as atividades e estilo de vida dos bandeirantes, limitando-se a apresentá-los, reservando eventuais juízos de valor aos leitores. Deveria ter narrado fatos ao invés de julgá-los;

    2. a grandiloquência da prosa não foi suficiente para esconder a desorientação do enredo. O entrecontista pareceu querer contar muito mais do que o espaço de duas mil e quinhentas palavras permite. O cerne do conto se tornou um relacionamento amoroso colocado no enredo sem qualquer tipo de preparação: vínhamos acompanhando uma bandeirada quando, na última linha do quinto parágrafo, deparamo-nos com um relacionamento amoroso entre dois indígenas (um integrado e outro não). Tão rápido quando surge, o relacionamento é logo deixado de lado e, já aí, retomamos a bandeirada não sem uma longuíssima viagem até as origens do protagonista, o desentendimento entre cativos, a roga da praga e as consequências dela advindas. O entrecontista tinha muita matéria interessante sobre a qual se debruçar, mas o destaque dado ao relacionamento amoroso (e o consequente desfecho escolhido) obscureceu toda a magia da bandeirada e suas muitas nuances;

    3. o domínio da língua e das técnicas de narração é bom, mas o vocabulário, apesar de riquíssimo, não deixa de ser um tanto hermético. Para além das palavras escolhidas, também contribui para a hermeticidade o excesso de metáforas e de recursos imagéticos. Nota-se que o entrecontista possui veia poética, o que ora se presta a enriquecer o texto, ora se presta a contaminar a prosa;

    4. não compreendi o motivo pelo qual “sebastião”, “portugal” e “brasil” foram grafados com iniciais minúsculas; algo similar ocorre com “deus” e “sol”;

    5. o entrecontista soltou um “pum” em “mas havia pum ou outro que”;

    6. é um texto bom, da mesma forma que “Cem anos de solidão” e “Macunaíma” também são. Ainda assim, prefiro, dos mesmos autores, “O amor nos tempos do cólera” e “Amar, verbo intransitivo”. Nem tudo é pra todos. E nem toda leitura é para todas as horas. Talvez o conto até se revele o melhor do desafio, talvez eu até lhe dê a nota mais alta, mas ele seguirá sendo um conto que ficou me devendo alguma coisa, possivelmente mais foco, objetividade e comedimento.

  2. Marcia Dias
    17 de setembro de 2021

    Até aparecer a palavra Kuru ‘pir o conto seguia uma narrativa muito interessante, de rememorar os tempos em que a igreja católica e a coroa portuguesa impunham a “civilização” aos residentes brasileiros a ferro e fogo. Porém, após a primeira abordagem do demônio, o conto rumou para o lado místico, o que só enriqueceria ainda mais a história, se não fosse a rapidez com que as maldições pululam. Isso trouxe um outro ritmo para a história, mais acelerado, o que me incomodou um pouco. Tive a impressão de ter lido uma história até a primeira metade e outra na segunda.

    Friso aqui uma passagem que gostei muito (dentre outras), a qual descreve as ações dos dois capitães, um missionário e um outro, ladrão, igualmente aprisionando homens para a construção de uma “nação”: “Gomes a xingamentos e Andrade com um insensato discurso missionário, ambos iguais, entretanto, no assassinato que orquestravam e do qual participavam”.

    Dos contos que li até agora este foi, sem dúvida, um dos mais criativos, pelo escritor ter alçado voos mais altos e arriscados, em se tratando do tema foras da lei, tendo em vista que nem lei humana havia na terra brasilis! Havia, entretanto, a lei sobrenatural! E dessa ninguém escapava porque a natureza tudo via e condenava! É o meu segundo conto preferido até o momento! Li 17.

    • Júlio Alves
      17 de setembro de 2021

      Entendo seu entusiasmo, mas existia civilização nas Américas antes da invasão. Havia lei humana – e muito mais humana do que a europeia.

      E concordo, é um dos melhores sim.

      • Marcia Dias
        17 de setembro de 2021

        Aff, você está corretíssimo, Julio! Me perdoe essa palavra “humana” era de outro comentário! hahahaha Claro que existia civilização antes da chegada dos europeus! Não havia lei europeia tal qual se conhecia. kkkkk

  3. Wilson Barros
    17 de setembro de 2021

    O início já prenuncia o que vem: crimes historicamente construídos contra os povos habitantes da América, as pilhagens, a escravidão , o genocídio.
    Entendi também como uma espécie de lamento pelo país ter sido construído por ladrões, assassinos e estupradores. Tudo depois gira em torno desses crimes, e as relações disso com o demônio.
    Algumas imagens de destaque:
    “Alguns micos dourados observavam com cautela o círculo de homens”
    “As pegadas se iluminavam no solo como se abrasadas”
    “Sonho e pesadelo se olharam. Martim olhou para Martim, deu meia volta e foi embora”
    Um conto muito bom, com um toque do “último dos moicanos”.

  4. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Primeiramente: brabo.

    Até agora, o preferido do desafio para mim. Sem comentários para a história, para a narrativa e as personagens: tudo bem costurado, bem narrado, e bem pesquisado. Nota-se que quem escreveu o conto entende a história brasileira e o que se sucedeu de lá até aqui.

    Nem tenho muito o que comentar, na verdade. Tudo muito bem feito.

    De ressalva, apenas o pum que foi solto em lugar indevido e, em poucos momentos, a pesquisa apareceu demais e, como o texto está muito bom, fica mais fácil de reparar.

    Parabéns pelo conto.

  5. Kelly Hatanaka
    17 de setembro de 2021

    Oi Galo.

    Um texto excelente, escrito com linguagem correta, cheia de estilo e domínio. Dá pra ver que o autor conhece muito sobre o período e fez uma boa pesquisa. Também gostei dos personagens, bem definidos e coerentes.

    A história é interessante e conduz muito bem o leitor, embora eu tenha achado a leitura um tanto difícil em alguns pontos, pouco fluida. Não foi um texto que consegui ler de uma vez. Precisei parar, voltar e reler para compreender. Claro que isso não é um defeito da escrita e, sim, da leitora. Mas acho que é uma escolha. Escrever como se falava na época e tornar o texto mais desafiador para o leitor ou usar uma escrita mais contemporânea e trair a correção histórica. Também fui confrontada com esta escolha, é difícil…

    O final me deixou meio perdida, mas de um jeito bom. Fez o título fazer sentido. No começo, achei que fosse Gomes quem tivesse ficado perdido na mata. Mas, na última frase, entendi que foi Martim e que aquele sonho fazia parte de sua maldição. Kur’ upir não aceitou a barganha. Talvez o tivesse considerado um traidor além de qualquer possibilidade de perdão.

    Parabéns.

  6. thiagocastrosouza
    14 de setembro de 2021

    Galo, você propôs, em seu conto, uma abordagem bastante original sobre o tema do desafio. A ideia de que uma série de crimes foram cometidos ao longo da história desse país, geralmente chancelado pela coroa e pela igreja, como bem sabemos, foi o estopim para uma trama que se apresenta muito mais densa e elaborada do que se poderia imaginar. A justiça, pelo menos no conto, acontece apenas pelo apelo ao sobrenatural e místico, na figura do curupira que, de forma igualitária, pune todos aqueles que estão em suas florestas; uma alma por outra alma.

    É preciso destacar também o trabalho de pesquisa que salta aos olhos. Li, durante minha graduação, um capítulo do livro História da Vida Privada no Brasil e até resgatei o título do artigo, pois muita coisa que estava lá, aqui também está. Formas Provisórias de Existência: a vida cotidiana nos caminhos, nas fronteiras e nas fortificações. A autoria é da Laura Mello e Souza.

    Então, tudo o que a autora desdobra no artigo está aqui: as travessias, a plantação de pequenas roças ao longo do caminho, a relação com a religiosidade através de oratórios móveis, o ataque infernal dos insetos, a queda das aranhas (haviam bandeirantes que se enterravam para conseguir ter uma noite possível de sono), enfim, além de uma série de outras coisas que dão muita credibilidade na ambientação do seu conto. O elemento fantástico aparece com um acréscimo bem-vindo e dá coerência ao final que poderia soar um tanto hermético.

    Gostei muito!

    Boa sorte!

  7. Luciana Merley
    8 de setembro de 2021

    Ele não sabia quem era sonho e quem era pesadelo (Galo)

    Olá.
    Uma mistura de histórias num texto bastante rico e denso.

    Quero reconhecer, antes de tudo, a minha admiração por uma construção tão arduamente trabalhada, com um repertório linguístico invejável. Além da disposição em desenvolver um tema tão complexo como essas escolhas terríveis feitas por nossos antepassados e que, indubitavelmente, nos trouxeram até aqui. A partir de agora, gostaria de tecer algumas considerações obedecendo, não meu gosto pessoal apenas, mas, segundo alguns critérios já consagrados na avaliação de contos.

    Coesão – Poderia dizer que o texto é acerca de uma monstruosidade histórica, que sabemos, oprimiu e dizimou grande parte dos nativos da terra e dos que aqui foram trazidos para a continuidade de sua escravidão. Minha ressalva é exatamente a quantidade de focos narrativos e conflitos apresentados e que, considerando tais critérios, dificilmente poderiam coexistir num conto ideal. A saber: o episódio da invasão e a violência envolvida, a relação nada esclarecida entre Martin e Joana (quem era Joana? Era do povo? Era uma escrava?), a relação entre o jesuíta e seu “selvagem de estimação”, a figura do mito Curupira (era uma visão de Martin?). Enfim, muitas pontas soltas, relações não esclarecidas e que, ao que me parece, exigiriam um texto longo, como um romance ou novela, para que fossem mais bem trabalhados.

    Ritmo – É um texto rico em vocabulário, em cenas e em conflitos, como já disse, logo, bastante denso. A leitura segue agarrada, não flui muito facilmente, até mesmo pelo alto nível das construções frasais. Texto difícil não é problema de maneira alguma e o seu segue o ritmo de um bem exigente.

    Impacto – Gosto de textos desafiadores. São difíceis, mas gosto. Não consegui compreender a totalidade, especialmente essa relação sonho e pesadelo. Fiquei perdida nesse ponto e ele parece ser essencial ao seu enredo. Logo, desculpe. Percebi que necessita de alguma revisão, mas nada que tenha interferido no seguimento da leitura.
    Gostei bastante da seguinte construção: “Entre princípio e fim, os meios atravessavam as sombras da floresta e dos corações dos homens, assim era a guerra.” Essa é uma definição perfeita para a maioria dos grandes equívocos históricos e as nossas maiores carnificinas, sejam as de exploração por “uma boa causa religiosa” ou as por “uma boa causa revolucionária”. A receita é a mesma e o resultado é sempre desastroso.

    Por fim, não deixando de observar a foto do Borba Gato sendo incendiada, fico com a opinião de Laurentino Gomes: “Sou contra. Estátuas, prédios, palácios e outros monumentos são parte do patrimônio histórico. Devem ser preservados como objetos de estudo e reflexão”. Ou seja, coisa de uma geração que “pensa” que o mundo começou no dia em que nasceram ou ganharam o primeiro celular. De imbecilóides mesmo.

    Um abraço e parabéns pelo texto.

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Informação

Publicado em 8 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.