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Detox Literário.

Olê mulher rendeira (Severino de Aracaju)

Mal subiu o sol para castigar o sertão por mais um dia e os pássaros de Angicos já saíam em revoada, assustados pelo barulho das metrancas. Também uma revoada de homens e mulheres correu por entre os arbustos secos da Caatinga, em igual pavor. Seu líder, Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, acabara de ser morto. Sorrateiramente, os homens da força Volante chegaram e abriram fogo enquanto os cangaceiros ainda dormiam.

Não muito longe do local do ataque, sob o barranco de um córrego seco, quatro cangaceiros se escondiam. Tremendo igual vara verde e brancos como a cal que cobria a parede das igrejas das vilas, ostentavam seus chapéus de couro, mas não com tanto orgulho como antes. Durante a loucura do tiroteio, Somente conseguiram pegar as peixeiras e algumas pistolas.

Maria era a que mais chorava, gemia e lamuriava que não queria morrer. Zé Afonso e Jacinta tentavam acalmá-la com medo de que o choro chamasse a atenção da volante e o esconderijo fosse descoberto. No fundo, todos sabiam que era quase inevitável serem achados pelos muitos soldados que os caçavam como animas na mata. Porém, não queriam facilitar.

Ela, afinal, era a que mais tinha motivos para se preocupar. Era justificado o medo de que os soldados achassem as mulheres vivas. Já havia experimentado muitas vezes tal dor, ao ser casada à força pelo  pai com um bêbado, que a espancava e violentava quando ébrio. Certo dia, cansada disso tudo, entrou em surto e matou o sujeito, fugindo da cidade e procurando refúgio no cangaço. Assim, pôde continuar descarregando seu ódio, como quem descarrega um revólver. Nas invasões às vilas, focava principalmente os homens, mutilando-os antes de matá-los. A castradora louca do sertão seria um troféu para os soldados.

Jacinta também corria do mesmo risco, por ser mulher. Mas sua história era diferente: sua família havia sido dizimada em uma disputa de terras. Quando os Castros atearam fogo na casa dos Nogueiras, ela teve que fugir entre brasas e ripas caindo do telhado. Vagou pelo sertão por dias, caçando calangos e bebendo água de poças, até ser encontrada por lampião. Ele a ensinou a atirar, a brigar com faca, e a namorar. Em troca, ela ensinou a arte da renda e do bordado para o bando. Virgulino foi para ela como um pai. Foi doída a vista do seu corpo morto, crivado de balas. Perder um pai é difícil, quanto mais perder dois na mesma vida.

Zé afonso era o menos tenso e tentava acalmar os companheiros. Sua vida havia sido de sofrimento desde sempre, e talvez o fim fosse a parte menos dolorosa. Nascido em uma família muito pobre, os pais faziam pequenos serviços na cidade para não morrer de fome. Às vezes não conseguiam trabalho, ou não eram pagos, e nessas vezes, a fome os castigava. E como doía. O menino também teve que trabalhar cedo, após o pai ser morto dentro de casa pela polícia, acusado injustamente de roubo. Cuidou da mãe, até ela morrer de tuberculose, e foi morar na rua, onde sofreu as piores agressões e preconceitos, o que alimentou seu ódio por aquele povo. Foi lindo ver o bando invadindo a cidade e fazendo com aquela gente dita de bem o que eles faziam com seus excluídos. Não pensou duas vezes e os seguiu. Seu único ressentimento era dar o prazer da sua morte para aquela gente, o que ele sabia que sempre desejaram no fundo do coração desde o início. Mas não tinha muito jeito.

O último era Zé grandão, o maior e mais forte do grupo. Mas agora todo aquele tamanho não escondia seu medo. Também havia se envolvido em uma disputa de terras entre famílias. Com o tempo, a coisa escalou de matar bois para matar membros da família rival, até que um dia ele e os irmãos deram cabo de todos. A partir daí, começaram a oferecer serviços de jagunço para outros fazendeiros maiores, o que eventualmente ficou mais lucrativo que cuidar de bois e cabritos. Por causa da fama e dos desafetos, entraram para o bando para juntar forças. Não era em si uma pessoa violenta, mas o dinheiro e a oportunidade de ter uma vida menos difícil o atraíram, e o tamanho ajudava a amedrontar os inimigos. Os irmãos já haviam morrido há muito tempo, a maioria de tiro. Ele era o último. E agora não ia ter mais nenhum.

Os minutos foram se passando, e uma coisa estranha aconteceu: aquele medo foi aos poucos se dissipando, como um céu nublado que vai abrindo, todos foram ficando menos tensos. Era como se eles se conformassem com o destino.

– Mas que vergonha, a gente se escondendo aqui… coisa de covarde. – Zé afonso reclamou.

– Cê tá doido, cabra? Não tem como enfrentar isso tudo de soldado, não! – Retrucou Jacinta.

– É verdade, mas mais cedo ou mais tarde eles chegam aqui. Não tem jeito… sabe, na seca, quando as vacas morriam de sede e a horta não dava nada, meu pai dizia que nunca ia mudar quem ele era por causa da adversidade. – Zé grandão falou após recompor-se um pouco.

Por um momento, os quatro ficaram pensando naquelas palavras. Afinal, eles também não haviam de mudar. Eram gente violenta, matadora e saqueadora, mas eram gente. Gente que o mundo odiava e buscava exterminar, gente que nunca teve uma chance e que tiveram que se desdobrar para sobreviver, e que lutavam contra esse mundo hipócrita e injusto.

Havia então o combustível, mas faltava a fagulha para começar a queimar. Foi aí que Maria abriu a boca, não para chorar mais, mas em uma tentativa de se acalmar e conter o nervosismo, começou a cantar uma canção que para eles era como um hino, composto pelo próprio líder do bando:

Olê mulher rendeira

Olê mulher rendá

Me ensina a fazer renda

Que eu te ensino a namorar

O grupo parou para observar a cena. Um a um, foram repetindo os versos, até cantarem em uníssono, Gradualmente, a música foi ganhando mais força. O Medo se transformou todo em euforia. Eles sabiam o que queriam: iriam ver o Padiçiço, mas não iriam sozinhos. Iriam levar junto o máximo que conseguissem. Agora, já gritando os versos, se levantaram, subiram o pequeno barranco e correram, empunhando as facas e os revólveres.

No local onde haviam dado os tiros, os soldados da Volante tratavam de degolar os cangaceiros capturados, mesmo os que estavam vivos. Foi quando ouviram um burburinho vindo do matagal. Prestaram atenção no som, que julgavam ser de algum animal. Porém, após um grito de “arriégua” dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo. Logo, quatro vultos saíram do mato, quase como fantasmas. Tinham uma expressão de ódio no rosto e sangue nos olhos, atirando a esmo com as armas de seis tiros e obcecados em encontrar o pescoço e o bucho deles com os facões. As caras eram vermelhas como o diabo, tamanha a euforia e a raiva. Em poucos minutos, porém, haviam tombado, mas não antes de levar uma meia duzia para o inferno. Sua história não seria contada, para não servir de munição para o moral do cangaço, e seriam aos poucos esquecidos, perdidos no tempo, como lágrimas na chuva, a chuva tão esperada no sertão, tão castigado.

8 comentários em “Olê mulher rendeira (Severino de Aracaju)

  1. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Um conto interessante, sobre as vésperas da morte de um grupo específico de pessoas que tiveram a vida mitigada por violências. As personagens parecem verdadeiras, e por um bom tempo durante a leitura eu agradeci por não ter regionalismos demais, mas ao fim do conto a mão ficou mais pesada e mostrou (ou pelo menos me pareceu) que a voz narrativa era de alguém nascido em qualquer lugar, menos no nordeste brasileiro, soando um pouco caricato em diversos momentos (como a frase que fecha o texto nos lembrando de que o sertão tem períodos de seca, por exemplo).

    Acredito que com uma narrativa mais fluida o objetivo do conto talvez fosse melhor atendido. Recomendo (assim como fiz no último conto que li aqui do desafio) um estudo em pontuação, principalmente nos diálogos (travessão e afins), pois em alguns momentos estava equivocada.

    No mais, parabéns pelo conto.

  2. claudiaangst
    16 de setembro de 2021

    O conto aborda o tema proposto pelo desafio.
    Narrativa que traz o cangaço para o foco e a expectativa de um grupo diante da própria morte. A inserção da letra da música talvez tenha ficado um tanto dissonante no texto. A delicadeza da renda e contraste com cenário tão árido e desolador não me parece funcionar como hino que incentive os cangaceiros a enfrentar os inimigos. Liberdade poética?
    Quanto à revisão, há pequenas falhas como nomes próprios escrito com minúscula. Na frase: ” Porém, após um grito de “arriégua” dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo. ” – ficou faltando algo, o raciocínio não se completa.
    Ritmo mais lento no início por conta da introdução de uma mini biografia do grupo fugitivo. No entanto, a leitura flui bem e o desfecho não destoa do resto do texto.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  3. Kelly Hatanaka
    15 de setembro de 2021

    Oi Severino.

    Muito interessante esta visão dos últimos momentos da vida de quatro cangaceiros. A passagem do medo pela morte iminente até a catarse final.
    Por uma questão de gosto pessoal, achei o flashback da vida dos quatro personagens um tanto arrastada, embora reconheça a necessidade de mostrá-lo.

    Achei muito bonito o final, que reforçou a sensação de insignificancia coletiva de alguns atos que, individualmente, possuem significado e importância gigantescas.

  4. Antonio Stegues Batista
    15 de setembro de 2021

    Um conto baseado na história real de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, chefe de um bando de criminosos chamados cangaceiros. Assim como no grupo real, os quatro personagens vieram da margem da sociedade, pobres, morador de rua, abandonados pelo Estado, injustiçados, foragidos da justiça, criminosos. Tinham uma justificativa para entrar no mundo do crime, mas na verdade, no fundo tinham índole de criminosos. Os quatro personagens não viam outro caminho e no final, suas vidas foram inúteis, enfrentaram os soldados para morrer. O conto está bem escrito, mas o enredo não traz grandes novidades em matéria de cangaceiros.

  5. Andre Brizola
    14 de setembro de 2021

    Olá, Severino!

    O conto é escorado em uma determinada cena do combate entre forças oficiais e o bando de Lampião. Com seu líder já morto, os quatro cangaceiros escondidos representam uma parca resistência, e acabam indo em direção à morte por pura vingança e sede de sangue.

    Achei interessante a forma como toda a sequência de ação envolvendo os quatros personagens é algo desprovida de motivo. Nas palavras do próprio autor, eram “gente violenta, matadora e saqueadora”, e isso bastava para o combate frente a frente com os soldados em maior número. Sem glória ou redenção, o desfecho dos cangaceiros é a pura violência vingativa para com aqueles que viam como seus inimigos.

    Pensando desta forma tenho duas críticas a fazer. Achei que os backgrounds dos quatro cangaceiros foram desnecessários. São quatro parágrafos tentando humanizar personagens que, em um instante, jogaram suas humanidades fora em favor da violência. Cada um deles tinha sua própria razão, vindos de experiências de vidas diferentes, e isso não influenciou em nada na mesma decisão de ir em direção à morte.

    Minha segunda crítica é com relação à inserção da música no contexto da batalha. Imagino que a intenção tenha sido a de mostrar que a música, cantada ali, naquele momento de tensão, serviria como um apoio, um incentivo, como os tocadores de bumbos nas antigas guerras medievais. Mas não achei que funcionou. Sinto uma desconexão enorme entre ela e o que é realmente essencial ao texto. Mesmo ela sendo atribuída ao líder do grupo.

    Esse episódio, da morte de Lampião, e todos os eventos macabros que se sucederam a ele (as decapitações, os abandonos dos cadáveres aos urubus, as viagens de exibição das cabeças dos cangaceiros), dão asas à imaginação e podem render boas histórias. A trama que você optou por contar, a cena recortada do todo da batalha, é uma delas e acho que foi uma decisão interessante. Mas eu gostaria de um pouco mais de aprofundamento, para que as mortes das personagens não tivessem sido tão planas.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  6. Marcia Dias
    14 de setembro de 2021

    Versão interessante dos últimos momentos de vida de Maria Bonita. Lampião já estava morto e faltava exterminar o bando, que se escondeu e aguardaria o trágico fim, com medo, se não fosse a reflexão de Zé grandão: “não se muda a própria essência, mesmo diante das adversidades”. Aqui se prova que uma história pra lá de contada ainda pode ter vigor, se a narrativa for boa.

  7. Angelo Rodrigues
    14 de setembro de 2021

    7 – Olê Mulher Rendeira

    Um conto tomado pela simplicidade, tanto construtiva quanto da gente que o habita.
    Como outros contos deste desafio, este conto retorna à vida no cangaço. Confesso que acho um pouco estranho tal recorrência, algo romântica, algo de fábula que lentamente se vai construindo ao tempo em que se vão formando histórias “inventadas” sobre uma época, sobre pessoas das quais tão pouco se sabe.
    Na leitura, depreendi um ato heroico coletivo, uma espécie de fim de linha, um nada a perder. Pessoas que já haviam perdido tudo e optado pela vida bandida – outro elemento romântico construído para uma época.
    Em boa parte do tempo, o conto se constrói na manutenção dos personagens, de sua introdução e explicação para seus atos futuros. Fechada a apresentação dos elementos, o autor se mostrou pronto para apresentar o desfecho do conto num rápido Atacar! Fim do conto.
    Um corte, um recorte de uma ideia que já rendeu grandes obras. Imagino que o texto possa crescer em direção a algo mais rico. A matéria, que embora batida e rebatida ao abordar o romantismo – equivocado? – do cangaço, pode apresentar riquezas futuras.
    Boa sorte no desafio.

  8. thiagocastrosouza
    14 de setembro de 2021

    Fala, Severino!

    A temática do Cangaço, quando para discutir a lei e justiça no Brasil, sempre pode gerar frutos interessantes na literatura, no teatro e cinema. De fato, há essa complexidade do Cangaço como um fenômeno social, de banditismo que teve sim momentos de extrema violência e crueldade, assim como a representação do mesmo na cultura popular e a série de símbolos que gerou no imaginário nacional. Achei que o conto traz em si esses elementos, mas, com um enredo muito simples, cuja resolução já está dada nas primeiras linhas. Ainda assim, o sacrifício desse bando acossado carrega certo romantismo heroico e poético sobre o cangaço. Não à toa, estão aí os versos cuja autoria dizem ser de Lampião.

    Enfim, achei um conto carregado de ricos elementos, mas que não alça voos maiores sobre o tema. As características dos personagens são apresentadas de maneira muito ordeira, assim como suas histórias e os diálogos. Desta forma, o desdobramento do conto vai pelo mesmo caminho.

    O final, que alerta sobre a ausência desses personagens em nossa história oficial, se fragiliza, ao meu ver, pelo clichê das “lágrimas na chuva” como metáfora da insignificância humana diante do tempo. Depois de ser usada em Blade Runner, qualquer autor que a utilizar, independente do contexto, estará amaldiçoado com a comparação do original. Contudo, a contradição da lágrima com a seca no sertão foi um fechamento bonito.

    Boa sorte!

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Informação

Publicado em 7 de setembro de 2021 por em Foras da Lei.