EntreContos

Detox Literário.

Olê mulher rendeira (Felipe Lomar)

Mal subiu o sol para castigar o sertão por mais um dia e os pássaros de Angicos já saíam em revoada, assustados pelo barulho das metrancas. Também uma revoada de homens e mulheres correu por entre os arbustos secos da Caatinga, em igual pavor. Seu líder, Virgulino Ferreira da Silva, o famoso Lampião, acabara de ser morto. Sorrateiramente, os homens da força Volante chegaram e abriram fogo enquanto os cangaceiros ainda dormiam.

Não muito longe do local do ataque, sob o barranco de um córrego seco, quatro cangaceiros se escondiam. Tremendo igual vara verde e brancos como a cal que cobria a parede das igrejas das vilas, ostentavam seus chapéus de couro, mas não com tanto orgulho como antes. Durante a loucura do tiroteio, Somente conseguiram pegar as peixeiras e algumas pistolas.

Maria era a que mais chorava, gemia e lamuriava que não queria morrer. Zé Afonso e Jacinta tentavam acalmá-la com medo de que o choro chamasse a atenção da volante e o esconderijo fosse descoberto. No fundo, todos sabiam que era quase inevitável serem achados pelos muitos soldados que os caçavam como animas na mata. Porém, não queriam facilitar.

Ela, afinal, era a que mais tinha motivos para se preocupar. Era justificado o medo de que os soldados achassem as mulheres vivas. Já havia experimentado muitas vezes tal dor, ao ser casada à força pelo  pai com um bêbado, que a espancava e violentava quando ébrio. Certo dia, cansada disso tudo, entrou em surto e matou o sujeito, fugindo da cidade e procurando refúgio no cangaço. Assim, pôde continuar descarregando seu ódio, como quem descarrega um revólver. Nas invasões às vilas, focava principalmente os homens, mutilando-os antes de matá-los. A castradora louca do sertão seria um troféu para os soldados.

Jacinta também corria do mesmo risco, por ser mulher. Mas sua história era diferente: sua família havia sido dizimada em uma disputa de terras. Quando os Castros atearam fogo na casa dos Nogueiras, ela teve que fugir entre brasas e ripas caindo do telhado. Vagou pelo sertão por dias, caçando calangos e bebendo água de poças, até ser encontrada por lampião. Ele a ensinou a atirar, a brigar com faca, e a namorar. Em troca, ela ensinou a arte da renda e do bordado para o bando. Virgulino foi para ela como um pai. Foi doída a vista do seu corpo morto, crivado de balas. Perder um pai é difícil, quanto mais perder dois na mesma vida.

Zé afonso era o menos tenso e tentava acalmar os companheiros. Sua vida havia sido de sofrimento desde sempre, e talvez o fim fosse a parte menos dolorosa. Nascido em uma família muito pobre, os pais faziam pequenos serviços na cidade para não morrer de fome. Às vezes não conseguiam trabalho, ou não eram pagos, e nessas vezes, a fome os castigava. E como doía. O menino também teve que trabalhar cedo, após o pai ser morto dentro de casa pela polícia, acusado injustamente de roubo. Cuidou da mãe, até ela morrer de tuberculose, e foi morar na rua, onde sofreu as piores agressões e preconceitos, o que alimentou seu ódio por aquele povo. Foi lindo ver o bando invadindo a cidade e fazendo com aquela gente dita de bem o que eles faziam com seus excluídos. Não pensou duas vezes e os seguiu. Seu único ressentimento era dar o prazer da sua morte para aquela gente, o que ele sabia que sempre desejaram no fundo do coração desde o início. Mas não tinha muito jeito.

O último era Zé grandão, o maior e mais forte do grupo. Mas agora todo aquele tamanho não escondia seu medo. Também havia se envolvido em uma disputa de terras entre famílias. Com o tempo, a coisa escalou de matar bois para matar membros da família rival, até que um dia ele e os irmãos deram cabo de todos. A partir daí, começaram a oferecer serviços de jagunço para outros fazendeiros maiores, o que eventualmente ficou mais lucrativo que cuidar de bois e cabritos. Por causa da fama e dos desafetos, entraram para o bando para juntar forças. Não era em si uma pessoa violenta, mas o dinheiro e a oportunidade de ter uma vida menos difícil o atraíram, e o tamanho ajudava a amedrontar os inimigos. Os irmãos já haviam morrido há muito tempo, a maioria de tiro. Ele era o último. E agora não ia ter mais nenhum.

Os minutos foram se passando, e uma coisa estranha aconteceu: aquele medo foi aos poucos se dissipando, como um céu nublado que vai abrindo, todos foram ficando menos tensos. Era como se eles se conformassem com o destino.

– Mas que vergonha, a gente se escondendo aqui… coisa de covarde. – Zé afonso reclamou.

– Cê tá doido, cabra? Não tem como enfrentar isso tudo de soldado, não! – Retrucou Jacinta.

– É verdade, mas mais cedo ou mais tarde eles chegam aqui. Não tem jeito… sabe, na seca, quando as vacas morriam de sede e a horta não dava nada, meu pai dizia que nunca ia mudar quem ele era por causa da adversidade. – Zé grandão falou após recompor-se um pouco.

Por um momento, os quatro ficaram pensando naquelas palavras. Afinal, eles também não haviam de mudar. Eram gente violenta, matadora e saqueadora, mas eram gente. Gente que o mundo odiava e buscava exterminar, gente que nunca teve uma chance e que tiveram que se desdobrar para sobreviver, e que lutavam contra esse mundo hipócrita e injusto.

Havia então o combustível, mas faltava a fagulha para começar a queimar. Foi aí que Maria abriu a boca, não para chorar mais, mas em uma tentativa de se acalmar e conter o nervosismo, começou a cantar uma canção que para eles era como um hino, composto pelo próprio líder do bando:

Olê mulher rendeira

Olê mulher rendá

Me ensina a fazer renda

Que eu te ensino a namorar

O grupo parou para observar a cena. Um a um, foram repetindo os versos, até cantarem em uníssono, Gradualmente, a música foi ganhando mais força. O Medo se transformou todo em euforia. Eles sabiam o que queriam: iriam ver o Padiçiço, mas não iriam sozinhos. Iriam levar junto o máximo que conseguissem. Agora, já gritando os versos, se levantaram, subiram o pequeno barranco e correram, empunhando as facas e os revólveres.

No local onde haviam dado os tiros, os soldados da Volante tratavam de degolar os cangaceiros capturados, mesmo os que estavam vivos. Foi quando ouviram um burburinho vindo do matagal. Prestaram atenção no som, que julgavam ser de algum animal. Porém, após um grito de “arriégua” dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo. Logo, quatro vultos saíram do mato, quase como fantasmas. Tinham uma expressão de ódio no rosto e sangue nos olhos, atirando a esmo com as armas de seis tiros e obcecados em encontrar o pescoço e o bucho deles com os facões. As caras eram vermelhas como o diabo, tamanha a euforia e a raiva. Em poucos minutos, porém, haviam tombado, mas não antes de levar uma meia duzia para o inferno. Sua história não seria contada, para não servir de munição para o moral do cangaço, e seriam aos poucos esquecidos, perdidos no tempo, como lágrimas na chuva, a chuva tão esperada no sertão, tão castigado.

20 comentários em “Olê mulher rendeira (Felipe Lomar)

  1. misapulhes
    9 de outubro de 2021

    Olá, Severino.

    Resumo: Os últimos momentos da vida de 4 cangaceiros, que, movidos por uma vida de desgraça e um desejo de vingança, não arredarão no último minuto.

    Comentários: Eu gostei do conto, no geral. Gosto desses “spin offs” que se aproveitam da História. Também me fez lembrar trechos do Auto da Compadecida. A narração é bem capaz. Diferente da maioria dos comentários acima, eu gostei do trecho que descreve a vida dos 4 cangaceiros. Mas também achei nisso indícios de que o texto pedia um tamanho maior. Uma noveleta, talvez.

    A ideia e a imagem do desfecho são bem bonitas.

    Há uns errinhos de revisão, como letras maiúsculas pintando no meio do texto, após vírgulas (que talvez devessem ser pontos finais), e trechos incompletos como esse: “Porém, após um grito de “arriégua” dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo”.

    É um bom conto, que talvez fosse melhor aproveitado num espaço maior.

    Boa sorte!

  2. Priscila Pereira
    9 de outubro de 2021

    Olá, Severino!

    Ambientação: genérica. Se a história não fosse conhecida, não ia dar pra saber direito onde estavam e o porque de tudo. Claro que pros brasileiros dá certo, mas acredito que os portugueses do grupo ficaram boiando…

    Enredo: últimas horas de vida de alguns cangaceiros. O conto tem o tamanho errado, devia ou ser menor e focado só na ação e descrever os mínimos detalhes, ou ser bem maior e contar mais da vida dos personagens dando maior profundidade a eles e com isso gerar mais empatia no leitor. Do jeito que está ficou enfraquecida tanto a trama quanto a profundidade.

    Escrita: muito boa. Nenhum erro, que eu pudesse observar. Cenas bonitas, alguma tensão, e a descrição da cena que os cangaceiros vão pra cima dos volantes foi muito boa mesmo.

    Considerações gerais: É um conto bom que podia ser bem melhor. Parabéns!

    Boa sorte!
    Até mais!

  3. Bruno Raposa
    9 de outubro de 2021

    Olá, Severino de Aracaju.

    Numa vã tentativa de ser mais objetivo, resolvi, para este desafio, pegar emprestado o modelo de comentários do EntreMundos. Então vou dividir meu comentário em ambientação, enredo, escrita e considerações gerais.

    A eles.

    Ambientação: Deixa um pouco a desejar. Como a ação transcorre em cenário e contexto histórico muito conhecidos, o leitor consegue se situar. Mas o conto pouco os utiliza em seu favor, o que é uma pena, já que são elementos tão ricos. As histórias dos integrantes do bando passam um pouco da realidade que o texto quis trazer à tona e a situação tensa em que os protagonistas se encontram dá o tom. Não é uma ambientação ruim, mas entendo que esse tipo de história pede um pouco mais.

    Enredo: Gasta muito tempo contando as “histórias de origem” de seus protagonistas, deixando a ação presente de lado por boa parte da narrativa. Assim, torna-se um pouco cansativo, sobretudo porque as histórias não variam muito, são todas rosários de desgraças. Aqui o conto assume um tom algo panfletário, parece haver uma defesa de que todos que entraram no cangaço o fizeram por falta de opção, após terem uma vida assolada por mazelas. É uma visão determinista, unilateral, que, confesso, me aborreceu um tanto. Além disso, quando o conto diz que os cangaceiros “lutavam contra esse mundo hipócrita e injusto”, acaba os elevando a uma condição heroica, que simplesmente não condiz com a realidade e é até um tanto perigosa, já que parece justificar as atrocidades que o bando fazia. A cena em que a música funciona tanto para reacender o ânimo dos personagens, quanto como uma espécie de grito de guerra, escorrega para um exagero dramático e perde a verossimilhança. Não posso dizer que gostei do enredo, foi o ponto fraco do conto ao meu ver.

    Escrita: Boa, ainda que não livre de falhas. Há uns erros bobos, como nomes próprios grafados com letras minúsculas, mas nada que comprometa a leitura. Um ponto que me desagradou foi a maneira como os termos “padiciço” e “arriégua” foram inseridos na trama. Não pareceram nada naturais, soaram como uma tentativa de colocar algum regionalismo no texto sem muito conhecimento de causa. Talvez por eu ser cearense esse ponto tenha me saltado aos olhos. A citação a Blade Runner no final pareceu completamente deslocada, sem contexto. Mas essas críticas são todas pontuais, o texto como um todo tem uma escrita satisfatória. Só necessita de algum polimento.

    Considerações gerais: O conto não me conquistou, infelizmente. A trama se perde nas descrições das origens dos integrantes do bando e sobra pouco espaço para desenvolver elementos mais importantes, como a ambientação e o conflito. Mas não é um texto ruim e é sempre interessante ver contos que resgatam algo da nossa história. É uma leitura que não encanta, mas flui facilmente. Talvez numa versão sem o limite de palavras, com um maior desenvolvimento, seja possível alçar voos maiores.

    Desejo sorte no certame.

    Abraço.

  4. Luciana Merley
    6 de outubro de 2021

    Olê mulher rendeira

    Olá.

    Coesão – Você acerta em focar em uma cena de fuga e de revide sem debandar para outras muitas cenas, mas peca em mostrar o passado de modo a interromper a ação, ao invés de inseri-lo no enredo de modo mais sutil. Seu primeiro parágrafo é muito bom, instigante. Depois dele, vem as explicação sobre a vida de cada um, e o mais desanimador no seu texto: um narrador absolutamente parcial e amigo dos seus cangaceiros, que não mede esforços para justificar cada ato tenebroso deles.

    Ritmo – Bom no início e quebrado pelas muitas voltas ao passado e por esse seu narrador puxa saco dos personagens.

    Impacto – Aprecio inícios reveladores como esse e amo histórias de matador. O cangaço é sem dúvida pano para muita manga literária. O que não aprecio de modo algum é a tentativa explícita de justificar ações dos personagens através de toques ao leitor tipo “Olha! Ele só é assim porque sofreu muito na infância” (rsrs) São assassinos, com alma, com moral, com arrependimentos, mas assassinos. A seguir, aponto alguns dos trechos problemáticos, na minha visão:

    “ Foi lindo ver o bando invadindo a cidade e fazendo com aquela gente dita de bem o que eles faziam com seus excluídos.” O narrador aqui parece-se mais com um personagem emitindo mais que opiniões, sentimentos, sensações de justificativa.

    “ Com o tempo, a coisa escalou de matar bois para matar membros da família rival, até que um dia ele e os irmãos deram cabo de todos. A partir daí, começaram a oferecer serviços de jagunço para outros fazendeiros maiores, o que eventualmente ficou mais lucrativo que cuidar de bois e cabritos. Por causa da fama e dos desafetos, entraram para o bando para juntar forças. Não era em si uma pessoa violenta, mas o dinheiro e a oportunidade de ter uma vida menos difícil o atraíram, e o tamanho ajudava a amedrontar os inimigos.” Como assim não eram violentos?

    “Gente que o mundo odiava e buscava exterminar, gente que nunca teve uma chance e que tiveram que se desdobrar para sobreviver, e que lutavam contra esse mundo hipócrita e injusto.” Aqui está o cúmulo da tentativa desesperada do seu narrador de defender os personagens.

    Penso que seu texto seria muito melhorado se adotasse um narrador em segunda pessoa, um observador próximo, quem sabe um dos do bando.

    Um abraço. Espero ter contribuído um pouco.

  5. Fabio D'Oliveira
    2 de outubro de 2021

    Buenas, Severino!

    Nesse desafio, irei avaliar três fatores: aparência, essência e considerações pessoais.

    O que ele veste, o que ele comunica e o que eu vejo.

    É uma visão particular, claro, mas procuro ser sincero e objetivo. E o intuito é tentar entender o texto em sua totalidade, mesmo falhando miseravelmente, hahaha.

    Vamos lá!

    APARÊNCIA

    O conto transita entre o brilho e a falta de cuidado.

    Alguns erros de digitação e de continuidade acabam denunciando uma possível inexperiência do autor, ou talvez um momento ruim para o ofício da escrita, mas alguns trechos revelam o potencial do autor.

    Destaco a canção, que, ao invés de impactar, serviu como reforço da união do bando de cangaceiros. Mesmo sem o líder, conseguiram invocar a imagem dele através da canção, que, por sua vez, tinha uma grande relação com Jacinta e sua relação de filha-pai com Lampião. É uma ótima construção.

    Continue escrevendo, caro Severino, que vai continuar melhorando e ampliando ainda mais o seu potencial.

    ESSÊNCIA

    Acabei destacando acima uma das ligações mais importantes do conto, mas reforço, aqui, a beleza desta cena.

    No meu ponto de vista, ela não é impactante, mas revigorante para o leitor, pois remonta a união dos cangaceiros, algo que ultrapassa a liderança. Alguns grupos simplesmente desmoronam depois da morte do líder. No conto, todos continuaram firmes e lutando, unidos pelo ódio em comum, apesar do momento de fraqueza, normal do animal encurralado.

    Falando sobre isso, gostei muito da psicologia dos personagens, dando bons contornos a eles, cada um tendo uma psique própria.

    Não é um conto tão simples assim. E encaro isso como uma qualidade.

    CONSIDERAÇÕES PESSOAIS

    Mesmo com os problemas da escrita, algo mais parecido com um descuido do que com uma limitação, eu gostei deste conto. Ele tem potencial. Guarde na gaveta e, mais tarde e mais experiente, mexa nele. Vai ficar bem melhor, te garanto.

    Parabéns pelo trabalho, Severino!

  6. Wilson Barros
    29 de setembro de 2021

    O início mostra, como se diz por aqui, uma boa ambientação, com pássaros, arbustos, caatinga, etc. A morte de Lampião, inclusive, situa logo o leitor no tempo. É uma grande sacada o choro de Maria, depois de tantas atrocidades que ela cometeu. Chega a ser paradoxal, para usar termos eruditos. Não deixa de ser interessante que cada bandido tenha algo para atribuir a culpa da sua carreira, o que não é de todo verídico, embora bastante verossímil. Muitos contos aqui atribuem o crime ao sofrimento e à sociedade.
    A cena do ataque ao som da música é romântica e fascinante. Um conto curto e muito denso, compacto, que lembra as cenas dos “Canudos” de José Wilker, talvez até mais do que o Lampião.

  7. Jowilton Amaral da Costa
    26 de setembro de 2021

    Ambientação: Boa, mas poderia ser bem melhor, o cangaço e o sertão são ricos em suas características:

    Enredo: O enredo eu achei médio. Acho que poderia ter desenvolvido mais a história, depois da apresentação dos personagens, ficou apenas como um recorte de algo maior, tinha espaço para isso. O final não me impactou muito.

    Técnica: A técnica é boa. A leitura fluiu bem. Acho que deveria ter usado um pouco mais de regionalismo, cabia. .

    Considerações Gerais: Um conto sobre o cangaço de médio para bom.

  8. Anderson Prado
    26 de setembro de 2021

    1. o tema do desafio está presente: o conto retrata uma cena do universo cangaceiro;

    2. o enredo é interessante, tendo como foco o enfrentamento digno da morte;

    3. o domínio da língua e das técnicas de narração é bom: o conto possui poucos erros de revisão e, no geral, a história está contada de uma maneira que é gostosa de ler;

    4. observei em outros contos e, neste, também ocorre um pouco: o entrecontista, em determinado momento, sobrecarrega o leitor com um certo excesso de desgraças nas vidas dos personagens, em especial no capítulo que narra a história de vida do Zé Afonso (sexto parágrafo); não há problema em se ter uma vida desgraçada, não há problema em se ter muitas desgraças acontecendo na vida de um personagem, mas, em ficção, é preciso tomar cuidado para não cansar ou desmotivar o leitor; além disso, o excesso de desgraças na vida de um personagem pode tornar sua história tragicamente inverossímil; não há uma regra definitiva para a matéria, ficando tudo dependendo do bom senso do escritor; neste próprio conto, é possível observar que Maria, Jacinta e Zé Grandão também tiveram vidas difíceis, mas é na história de Zé Afonso que se denota o excesso de desgraças com o intuito de justificar sua vida jagunça (não precisava tanto ou, mesmo que se quisesse tantas desgraças, seria preciso lançá-las com mais vagar no enredo, talvez entremeadas com coisas boas ou cômicas ou não tão pesarosas); na vida, acontecem desgraças; na vida de alguns, acontecem muitas desgraças; mas, na vida de todos, acontecem coisas boas; mesmo àqueles que se encontram em situação de mais absoluta desgraça, a beleza se impõe – o céu maravilhosamente azul e a brisa fresca dos dias amenos alcança aos que sofrem e aos que regozijam, de maneira indistinta, ninguém a eles podendo permanecer indiferentes sempre;

    5. o entrecontista deve ter substituído ponto por vírgulas e se esquecido de retirar as iniciais maiúsculas em “Somente conseguiram” e “Gradualmente, a música”;

    6. há nomes próprios grafados em minúsculo: “Zé afonso”, “Zé grandão”;

    7. “matagal” rima com “animal”, tornando a leitura desagradável em “Foi quando ouviram um burburinho vindo do matagal. Prestaram atenção no som, que julgavam ser de algum animal.”; esse tipo de impressão pode ser evitada lendo-se o texto em voz alta e, a seguir, substituindo palavras que rimam ou cuja leitura cause estranhamento ou mal gosto por sinônimos;

    8. a frase “Porém, após um grito de ‘arriégua’ dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo.” diz uma mistura de nada com coisa alguma; tive a impressão de que esse erro decorreu do fato do entrecontista ter sido tomado pela ansiedade na hora de encerrar sua história, tanto que, antes, tudo no enredo estava se dando de maneira natural, pausada, mas, no último parágrafo, tudo se precipita um pouco;

    9. “duzia” possui acento;

    10. nas últimas linhas, o entrecontista narra que a história dos quatro cangaceiros seria propositalmente esquecida… Pois bem, essa afirmação soou bastante estranha, já que o entrecontista estava, justamente, contando as histórias daqueles cangaceiros… Assim, acho que o entrecontista deveria ter trabalhado melhor essa ideia de história feita para ser esquecida mas que, de alguma maneira, acabou sendo contada. Quando uma história que é feita para ser esquecida acaba por ser contada, é preciso que exista uma espécie de voyeur, alguém que vê sem ser visto, e que depois conta. Sem essa ideia de voyeur, fica bem esquisito encerrar o conto justamente relatando que “Sua história não seria contada, para não servir de munição para o moral do cangaço, e seriam aos poucos esquecidos, perdidos no tempo, como lágrimas na chuva, a chuva tão esperada no sertão, tão castigado.”

  9. opedropaulo
    26 de setembro de 2021

    Quatro cangaceiros remanescentes se encorajam e escolhem morrer lutando a serem encurralados. É uma premissa próspera, mas que aqui não desenrolou com a força que poderia ter obtido. Para mim, o que tolheu o potencial que tinha o texto foi a opção por apresentar cada personagem ao reservar um parágrafo para cada um, ao invés de optar por uma forma mais sucinta de apresenta-los. Essa forma deixou os personagens apresentados de forma demasiadamente superficial, de modo que, quando decidem por lutar, sabe-se o motivo de cada um, mas a interação entre eles não reflete suas origens e o verdadeiro efeito daquela última resistência. Com isso, o texto perde o desejado clímax. Saindo da trama para aspectos mais técnicos e externos, o conto claramente atende ao tema do certame, embora não o “debata”, por assim dizer, e tem alguns deslizes de revisão que não atrapalham muito a leitura.

  10. Elisa Ribeiro
    23 de setembro de 2021

    A história de quatro cangaceiros do bando de lampião após a morte do chefe do cangaço.

    O conto acerta ao apoiar-se numa história real, entretanto, ao fugir da ação e enveredar pelo caminho de contar em flashback a motivação da entrada de cada um dos cangaceiros no bando de Lampião, cai na mesma armadilha que enfraqueceu outros contos do desafio.

    Ao enfocar mais a justifica para a adesão de cada um dos cangaceiros ao bando de Lampião do que a ação propriamente dita do momento focalizado no conto, o impacto da narrativa se arrefece o conto perde o vigor.

    Uma pena, pois a escrita é boa e a escolha dos personagens e da ambientação foram muito acertadas.

    Parabéns pela participação. Desejo sorte no desafio e em tudo mais.

    Um abraço.

  11. Emanuel Maurin
    23 de setembro de 2021

    Severino de Aracaju, tudo de bom pra você.
    O conto está bem escrito e é fluido. Não gostei dos diálogos. A estrutura do conto é boa, porém não gosto de histórias de cangaço. Boa sorte.

  12. Jorge Santos
    22 de setembro de 2021

    Reconstituição histórica perfeita, nota 10. É um daqueles textos que deveriam ser usados como exemplo a seguir. Parabéns e peço desculpa por um comentário tão curto. Terei oportunidade de melhorar e de o felicitar na vitória do desafio…

  13. Júlio Alves
    17 de setembro de 2021

    Um conto interessante, sobre as vésperas da morte de um grupo específico de pessoas que tiveram a vida mitigada por violências. As personagens parecem verdadeiras, e por um bom tempo durante a leitura eu agradeci por não ter regionalismos demais, mas ao fim do conto a mão ficou mais pesada e mostrou (ou pelo menos me pareceu) que a voz narrativa era de alguém nascido em qualquer lugar, menos no nordeste brasileiro, soando um pouco caricato em diversos momentos (como a frase que fecha o texto nos lembrando de que o sertão tem períodos de seca, por exemplo).

    Acredito que com uma narrativa mais fluida o objetivo do conto talvez fosse melhor atendido. Recomendo (assim como fiz no último conto que li aqui do desafio) um estudo em pontuação, principalmente nos diálogos (travessão e afins), pois em alguns momentos estava equivocada.

    No mais, parabéns pelo conto.

  14. claudiaangst
    16 de setembro de 2021

    O conto aborda o tema proposto pelo desafio.
    Narrativa que traz o cangaço para o foco e a expectativa de um grupo diante da própria morte. A inserção da letra da música talvez tenha ficado um tanto dissonante no texto. A delicadeza da renda e contraste com cenário tão árido e desolador não me parece funcionar como hino que incentive os cangaceiros a enfrentar os inimigos. Liberdade poética?
    Quanto à revisão, há pequenas falhas como nomes próprios escrito com minúscula. Na frase: ” Porém, após um grito de “arriégua” dado por um soldado, ao perceber o que era aquilo. ” – ficou faltando algo, o raciocínio não se completa.
    Ritmo mais lento no início por conta da introdução de uma mini biografia do grupo fugitivo. No entanto, a leitura flui bem e o desfecho não destoa do resto do texto.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  15. Kelly Hatanaka
    15 de setembro de 2021

    Oi Severino.

    Muito interessante esta visão dos últimos momentos da vida de quatro cangaceiros. A passagem do medo pela morte iminente até a catarse final.
    Por uma questão de gosto pessoal, achei o flashback da vida dos quatro personagens um tanto arrastada, embora reconheça a necessidade de mostrá-lo.

    Achei muito bonito o final, que reforçou a sensação de insignificancia coletiva de alguns atos que, individualmente, possuem significado e importância gigantescas.

  16. Antonio Stegues Batista
    15 de setembro de 2021

    Um conto baseado na história real de Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião, chefe de um bando de criminosos chamados cangaceiros. Assim como no grupo real, os quatro personagens vieram da margem da sociedade, pobres, morador de rua, abandonados pelo Estado, injustiçados, foragidos da justiça, criminosos. Tinham uma justificativa para entrar no mundo do crime, mas na verdade, no fundo tinham índole de criminosos. Os quatro personagens não viam outro caminho e no final, suas vidas foram inúteis, enfrentaram os soldados para morrer. O conto está bem escrito, mas o enredo não traz grandes novidades em matéria de cangaceiros.

  17. Andre Brizola
    14 de setembro de 2021

    Olá, Severino!

    O conto é escorado em uma determinada cena do combate entre forças oficiais e o bando de Lampião. Com seu líder já morto, os quatro cangaceiros escondidos representam uma parca resistência, e acabam indo em direção à morte por pura vingança e sede de sangue.

    Achei interessante a forma como toda a sequência de ação envolvendo os quatros personagens é algo desprovida de motivo. Nas palavras do próprio autor, eram “gente violenta, matadora e saqueadora”, e isso bastava para o combate frente a frente com os soldados em maior número. Sem glória ou redenção, o desfecho dos cangaceiros é a pura violência vingativa para com aqueles que viam como seus inimigos.

    Pensando desta forma tenho duas críticas a fazer. Achei que os backgrounds dos quatro cangaceiros foram desnecessários. São quatro parágrafos tentando humanizar personagens que, em um instante, jogaram suas humanidades fora em favor da violência. Cada um deles tinha sua própria razão, vindos de experiências de vidas diferentes, e isso não influenciou em nada na mesma decisão de ir em direção à morte.

    Minha segunda crítica é com relação à inserção da música no contexto da batalha. Imagino que a intenção tenha sido a de mostrar que a música, cantada ali, naquele momento de tensão, serviria como um apoio, um incentivo, como os tocadores de bumbos nas antigas guerras medievais. Mas não achei que funcionou. Sinto uma desconexão enorme entre ela e o que é realmente essencial ao texto. Mesmo ela sendo atribuída ao líder do grupo.

    Esse episódio, da morte de Lampião, e todos os eventos macabros que se sucederam a ele (as decapitações, os abandonos dos cadáveres aos urubus, as viagens de exibição das cabeças dos cangaceiros), dão asas à imaginação e podem render boas histórias. A trama que você optou por contar, a cena recortada do todo da batalha, é uma delas e acho que foi uma decisão interessante. Mas eu gostaria de um pouco mais de aprofundamento, para que as mortes das personagens não tivessem sido tão planas.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  18. Marcia Dias
    14 de setembro de 2021

    Versão interessante dos últimos momentos de vida de Maria Bonita. Lampião já estava morto e faltava exterminar o bando, que se escondeu e aguardaria o trágico fim, com medo, se não fosse a reflexão de Zé grandão: “não se muda a própria essência, mesmo diante das adversidades”. Aqui se prova que uma história pra lá de contada ainda pode ter vigor, se a narrativa for boa.

  19. Angelo Rodrigues
    14 de setembro de 2021

    7 – Olê Mulher Rendeira

    Um conto tomado pela simplicidade, tanto construtiva quanto da gente que o habita.
    Como outros contos deste desafio, este conto retorna à vida no cangaço. Confesso que acho um pouco estranho tal recorrência, algo romântica, algo de fábula que lentamente se vai construindo ao tempo em que se vão formando histórias “inventadas” sobre uma época, sobre pessoas das quais tão pouco se sabe.
    Na leitura, depreendi um ato heroico coletivo, uma espécie de fim de linha, um nada a perder. Pessoas que já haviam perdido tudo e optado pela vida bandida – outro elemento romântico construído para uma época.
    Em boa parte do tempo, o conto se constrói na manutenção dos personagens, de sua introdução e explicação para seus atos futuros. Fechada a apresentação dos elementos, o autor se mostrou pronto para apresentar o desfecho do conto num rápido Atacar! Fim do conto.
    Um corte, um recorte de uma ideia que já rendeu grandes obras. Imagino que o texto possa crescer em direção a algo mais rico. A matéria, que embora batida e rebatida ao abordar o romantismo – equivocado? – do cangaço, pode apresentar riquezas futuras.
    Boa sorte no desafio.

  20. thiagocastrosouza
    14 de setembro de 2021

    Fala, Severino!

    A temática do Cangaço, quando para discutir a lei e justiça no Brasil, sempre pode gerar frutos interessantes na literatura, no teatro e cinema. De fato, há essa complexidade do Cangaço como um fenômeno social, de banditismo que teve sim momentos de extrema violência e crueldade, assim como a representação do mesmo na cultura popular e a série de símbolos que gerou no imaginário nacional. Achei que o conto traz em si esses elementos, mas, com um enredo muito simples, cuja resolução já está dada nas primeiras linhas. Ainda assim, o sacrifício desse bando acossado carrega certo romantismo heroico e poético sobre o cangaço. Não à toa, estão aí os versos cuja autoria dizem ser de Lampião.

    Enfim, achei um conto carregado de ricos elementos, mas que não alça voos maiores sobre o tema. As características dos personagens são apresentadas de maneira muito ordeira, assim como suas histórias e os diálogos. Desta forma, o desdobramento do conto vai pelo mesmo caminho.

    O final, que alerta sobre a ausência desses personagens em nossa história oficial, se fragiliza, ao meu ver, pelo clichê das “lágrimas na chuva” como metáfora da insignificância humana diante do tempo. Depois de ser usada em Blade Runner, qualquer autor que a utilizar, independente do contexto, estará amaldiçoado com a comparação do original. Contudo, a contradição da lágrima com a seca no sertão foi um fechamento bonito.

    Boa sorte!

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Publicado às 7 de setembro de 2021 por em Foras da Lei e marcado .
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