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Detox Literário.

Um javali por dia (Bob)

“Haviam um mundo em que um javali gigante habitava densas florestas de pinheiros e sequoias”.

— De que tamanho era o javali, papai? – Indagou a menina curiosa.

— Bem, digamos que do tamanho de uma montanha. – Exagerou.

— Grandão! Então, ninguém podia segurar ele? – Sua filha era bastante esperta.

— Não.

— Podia ter um coelho gigante também… Robô. – Disse a filha, coçando o braço com soro.

Nina tinha uma doença congênita difícil de tratar. Permanecer no hospital por cinco dias do mês exigia de seu pai muita criatividade e paciência. Sem a mãe por perto, Gabriel era seu único refúgio.

— Muito bem… – Disse ele, refazendo a introdução.

“Haviam um mundo em que um javali gigante habitava densas florestas de pinheiros e sequoias. Dia após dia pisoteava a mata nativa em busca de alimento e arrasava o que estivesse no caminho, incluindo outros animais. Sabendo disso, o bando de coelhos se reuniu e exigiu uma solução ao seu líder. A resposta viria por meio da tecnologia antiga, enterrada há séculos nas profundezas do solo fértil”.

— Qual é o nome do líder coelho? – Indagou ela.

— Hum… Sansão. – Respondeu ele.

— Não! Muito comum. Que tal “Perninha”? – Seu pai riu.

“Então… Perninha… Trabalhou no projeto em segredo durante muitas luas. Até que, certo dia, quando o javali se aproximou de Coelhópolis, algo o impediu. A mão de um coelho-robô-gigante segurou o focinho alheio”.

— O javali tem nome? – Perguntou ela, tossindo.

— Que nome você quer dar? – Disse ele, ajeitando a coberta.

— Tem que ser nome de vilão. Que tal “Raivoso”?

“Raivoso não podia acreditar no que via. Só ele podia governar aquela terra de seres minúsculos. Lá embaixo, o povo aplaudia a invenção de seu líder. Perninha, o inventor, o destemido, enfrentava de igual para igual seu maior inimigo. Descontente, o javali bufou e desferiu uma investida violenta no corpo metálico. O coelho-robô-gigante resistiu”.

“Só que o inimigo possuía uma carta na manga. Raivoso sorriu ao se desmanchar em pequenos javalis. Já não era gigante, mas continha a mesma força distribuída pela alcateia. Perninha desligou a máquina e desceu rapidamente pela escada traseira. Precisava avisar o bando”.

Naquele instante, a enfermeira entrou.

— Desculpe atrapalhar, mas ela precisa tomar a injeção agora. – Disse ela.

— Eu preciso mesmo, papai?

— Filha… Lembra da história? Seu corpo está sendo atacado por minúsculos javalizinhos. Eles arrasam o que está no caminho e te deixam doente. A injeção vai colocar pequeninos coelhos-robôs dentro do seu corpo, que vão ajudar a combatê-los. Desse tamanhinho. – Tentou acalmá-la.

Um pouco contrariada, Nina aceitou que mexessem em seu braço – aquilo a faria dormir por horas – mas não sem antes perguntar qual era o final da história.

— E como os coelhos ganharam? – Indagou, segurando o choro.

Seu pai pensou bem no que ia dizer, respirou fundo e afagou sua testa.

— Contendo um javali por dia, filha… – Encerrou.

Ela adormeceu. E ao ver o laudo com a melhora dos sintomas, comparou-o com as folhas de cobrança do hospital, que já se acumulavam sobre a mesa.

“Um javali por dia”, repetiu mentalmente.

E Então? O que achou?

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