EntreContos

Detox Literário.

Sonhos lúcidos não saem da sombra (Thomas Edison)

Chegou do hospital gritando por Alice, mas lembrou que sua filha não estava em casa. Deveria estar brincando com alguma boneca idiota na casa da amiga.

 “Drª Marion, troca de cabeças sala 4” “Drª Marion, reposição de olho, sala 7” “Drª Marion, Drª Marion…”

As palavras ouvidas no hospital ainda ecoavam em sua cabeça. Fez um chá. Mal tocou o plástico da xícara na boca e acordou em um sonho estranho, coberto pelo breu cheirando a carpete.

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Tentou se levantar, mas bateu em um teto baixo, vibrando a batida pela peça.

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Uma fresta de luz entrava rastejando entre um tecido e o carpete.

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Se arrastou por baixo do tecido e ficou em pé. Antes de entender onde estava, vozes saindo de uma caixa semifechada chamaram sua atenção.

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— Dot, volte! O que vo…

— Você surtou, está com a pilh…

— Rápido, rápido, peguem ela ant…

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As vozes falavam ao mesmo tempo, sendo difícil entender. Sabia que mesmo sendo só um pesadelo, não queria permanecer ali.

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Uma porta se abriu, era tão alta que parecia absurda a sua existência.

A silhueta de um enorme felino passou pela grande porta e saltou sobre Marion, que em reflexo, se jogou no chão, passando por baixo da fera.

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Correu pela porta. Precisaria acordar o quanto antes, deveria haver uma saída. Colocava suas forças em acreditar nisso.

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Buscando escapar iniciou uma escalada em uma parede colossal de madeira. De cima, teve uma visão clara da situação. Era sua casa, mas absurdamente maior e a fera que a perseguia era o velho e acabado gato. Olhou para as mãos e seus dedos agora davam lugar a mãos de boneca.

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Que pesadelo horrível, enlouqueceria se não acordasse de uma vez.

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Tentou correr mas sentiu sua perna prender em algo. Prego? Talvez. Em um movimento brusco de pura agonia e medo jogou todo seu peso para frente buscando escapar.

Sentiu a perna se desprender do corpo. Tentando não cair agarrou em algo que pareceu um espelho de grande moldura, mas não foi o suficiente para evitar a queda.

Em uma fração de segundo, o som oco do corpo tocando o chão se espalhou pela casa.

Não entendia por que não acordava daquele pesadelo. Era tudo tão estranho e tão natural ao mesmo tempo. Tentou lembrar de algo mas as lembranças não se montavam em cores e imagens, era como se tudo fosse uma simples história contada a alguém.         

No chão percebeu o corpo todo quebrado. Seus olhos se moviam para todos os lados, tão desesperados por ajuda, quanto os pulmões se afogando estão por oxigênio.

Notou que não era um espelho que havia segurando, mas um porta-retrato. Nele estava Alice segurando sua boneca e Drª Marion abraçando ambas. No reflexo daquele vidro trincado, seu rosto, confuso, encontrando a saída daquela loucura. Pois no reflexo viu seu rosto e viu a foto. Compreendeu a simplicidade do querer se transformar em ilusão, pois não era uma mulher sonhando ser uma boneca, era uma boneca que sonhara ser uma mulher.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Pinscher.