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Detox Literário.

Sonhos lúcidos não saem da sombra (Rafael Carvalho)

Chegou do hospital gritando por Alice, mas lembrou que sua filha não estava em casa. Deveria estar brincando com alguma boneca idiota na casa da amiga.

 “Drª Marion, troca de cabeças sala 4” “Drª Marion, reposição de olho, sala 7” “Drª Marion, Drª Marion…”

As palavras ouvidas no hospital ainda ecoavam em sua cabeça. Fez um chá. Mal tocou o plástico da xícara na boca e acordou em um sonho estranho, coberto pelo breu cheirando a carpete.

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Tentou se levantar, mas bateu em um teto baixo, vibrando a batida pela peça.

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Uma fresta de luz entrava rastejando entre um tecido e o carpete.

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Se arrastou por baixo do tecido e ficou em pé. Antes de entender onde estava, vozes saindo de uma caixa semifechada chamaram sua atenção.

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— Dot, volte! O que vo…

— Você surtou, está com a pilh…

— Rápido, rápido, peguem ela ant…

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As vozes falavam ao mesmo tempo, sendo difícil entender. Sabia que mesmo sendo só um pesadelo, não queria permanecer ali.

.

Uma porta se abriu, era tão alta que parecia absurda a sua existência.

A silhueta de um enorme felino passou pela grande porta e saltou sobre Marion, que em reflexo, se jogou no chão, passando por baixo da fera.

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Correu pela porta. Precisaria acordar o quanto antes, deveria haver uma saída. Colocava suas forças em acreditar nisso.

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Buscando escapar iniciou uma escalada em uma parede colossal de madeira. De cima, teve uma visão clara da situação. Era sua casa, mas absurdamente maior e a fera que a perseguia era o velho e acabado gato. Olhou para as mãos e seus dedos agora davam lugar a mãos de boneca.

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Que pesadelo horrível, enlouqueceria se não acordasse de uma vez.

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Tentou correr mas sentiu sua perna prender em algo. Prego? Talvez. Em um movimento brusco de pura agonia e medo jogou todo seu peso para frente buscando escapar.

Sentiu a perna se desprender do corpo. Tentando não cair agarrou em algo que pareceu um espelho de grande moldura, mas não foi o suficiente para evitar a queda.

Em uma fração de segundo, o som oco do corpo tocando o chão se espalhou pela casa.

Não entendia por que não acordava daquele pesadelo. Era tudo tão estranho e tão natural ao mesmo tempo. Tentou lembrar de algo mas as lembranças não se montavam em cores e imagens, era como se tudo fosse uma simples história contada a alguém.         

No chão percebeu o corpo todo quebrado. Seus olhos se moviam para todos os lados, tão desesperados por ajuda, quanto os pulmões se afogando estão por oxigênio.

Notou que não era um espelho que havia segurando, mas um porta-retrato. Nele estava Alice segurando sua boneca e Drª Marion abraçando ambas. No reflexo daquele vidro trincado, seu rosto, confuso, encontrando a saída daquela loucura. Pois no reflexo viu seu rosto e viu a foto. Compreendeu a simplicidade do querer se transformar em ilusão, pois não era uma mulher sonhando ser uma boneca, era uma boneca que sonhara ser uma mulher.

20 comentários em “Sonhos lúcidos não saem da sombra (Rafael Carvalho)

  1. Elisabeth Lorena
    24 de julho de 2021

    onhos lúcidos não saem da sombra –
    Em um conto assustador sobre uma boneca que sonha que é uma humana que se encontra minimizada/transformada em boneca.
    Um terror quase trash, bem elaborado. Sorte no Desafio.

  2. Matheus Pacheco
    18 de julho de 2021

    Resumo: O texto fala de uma boneca que queria ser mulher, que sobrevivia às aventuras feitas por sua dona, mas, por fim, acabou quebrada pelo gato (?)
    (me lembrou muito o vídeo ‘Dollface’, sobre algo inanimado tentando se tornar animado).

    Coisas que gostei: Gostei muito do desfecho e da conclusão, eu esperava algo super futurista ou até mesmo gore, mas não, é algo muito mais profundo e bonito, é sobre a vontade de ser o que não é.

    Coisas que não gostei: Gostei do texto em sua totalidade.

  3. Ana Carolina Machado
    18 de julho de 2021

    Oiiii. Um miniconto em tom de sonho e com uma atmosfera de mistério em que acompanhamos uma boneca que pensa ser humana e que durante os momentos em que sonha acordada pensa ser a mãe da menina Alice. O final é surpreendente e após o ler vemos que desde o começo tinham dicas de que se tratava de uma boneca, como por exemplo o momento em que diz que o gato parecia gigante ou mesmo naquele outro que diz que a xícara era de plástico,lembrando as xícaras de brinquedo. Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  4. Regina Ruth Rincon Caires
    18 de julho de 2021

    Sonhos lúcidos não saem da sombra (Thomas Edison)

    Comentário:

    Texto fantasioso mesclado com terror. Não sei se foi pesadelo ou surto. Desculpe-me, entendi muito pouco (quase nada). Sou limitada para textos com este teor. A leitura requer muita atenção, e, mesmo com ela, não absorvi a mensagem. Falha minha, desculpe-me.

    Alguns deslizes na escrita, pontuação um pouquinho confusa. Mas isso tudo é facilmente ajeitado com uma leve revisão. O que não é nada fácil é a minha assimilação. Misericórdia…

    Espero que os outros colegas tenham entendido tudinho. Com certeza eles entenderão e eu acompanharei os comentários para observar a minha falha. E torço para que você se saia bem no desafio.

    Boa sorte, Thomas Edison!

    Abraços…

  5. Andre Brizola
    18 de julho de 2021

    Corrigindo meu comentário, meu word estava contando linhas em branco como palavras. Depois de editado o conto se ajustou, sim, ao limite de 500 palavras.

  6. Andre Brizola
    18 de julho de 2021

    Olá, Thomas!

    Esse conto imprime uma urgência, um desespero, em suas descrições e narrações que ele alcança seu objetivo mesmo de forma atropelada e inconstante. Ou seja, tem méritos, mas também tem deméritos.

    Numa primeira leitura achei o texto bastante truncado. Algumas opções de frases, embora corretas, funcionaram para atrapalhar a leitura, deixando tudo muito confuso (exemplo em “olhos se moviam para todos os lados, tão desesperados por ajuda, quanto os pulmões se afogando estão por oxigênio”). Há necessidade, também, de uma revisão mais apurada, pois algumas coisas passaram batido, como em “não era um espelho que havia segurando”.

    Por outro lado, o enredo é muito interessante. Há aquela urgência, que citei no começo, pelo despertar. E a ação da personagem tentando conseguir isso, fugindo da fera, escalando paredes, pinta um cenário bem condizente com o desespero crescente.

    No geral eu acho que é um conto que precisava de mais cuidado. Sobretudo porque ele extrapolou o limite de palavras, o que demonstra que realmente faltou revisão e atenção.

    Bom, é isso. Boa sorte no desafio!

  7. Fabiano Sorbara
    16 de julho de 2021

    Conto que explora o suspense, a tensão e traz uma surpresa surreal no fim. Acredito que o mistério da narrativa foi revelado muito cedo, isso tirou o impacto do suspense. Gostaria de ter sido enganado um pouco mais.
    Estou pontuando uma frase “Era tudo tão estranho e tão natural ao mesmo tempo”, o “tão natural ao mesmo tempo” pode ser retirado, achei que soou incoerente com o sentimento e a dinâmica de terror do pesadelo que você construiu previamente para o personagem.
    A surpresa final é o enigma que fica para o leitor tentar compreender, é o ponto forte da obra.

  8. Catarina Cunha
    16 de julho de 2021

    MINI – Embora a construção seja inteligentemente truncada, o fluxo é lento para os meus parcos padrões.

    CONTO – O título é ótimo. O conto em si só faz sentido com o final.

    DESTAQUE – “Drª Marion, troca de cabeças sala 4” – Aqui foi dada a dica de se tratar de uma boneca, mas como era um pesadelo tudo podia acontecer. Me enganou direitinho.

  9. DAYANNE DE LIMA PINHEIRO
    15 de julho de 2021

    A ideia do homem que sonhou ser borboleta ou borboleta que sonhou ser homem, transportada para um universo infantil. Uma mistura de Toy Story com Twilight Zone. Teve impacto o final, parabéns!

  10. Fernanda Caleffi Barbetta
    13 de julho de 2021

    Olá, Thomas Edison, seu texto é criativo e gostei do fato de ter se inspirado na história da Alice.

    Alguns pontos ficaram confusos, mal explicados, mal colocados. Por exemplo:
    “ coberto pelo breu cheirando a carpete” – breu cheirando a carpete? Se for o personagem cheirando a carpete, deveria haver uma vírgula.
    “vibrando a batida pela peça” – que peça?
    “Uma fresta de luz entrava rastejando entre um tecido e o carpete” – que tecido?

    Não entendi a escolha do título, da imagem e do pseudônimo. Eles levam a uma percepção completamente diferente do que o conto nos apresenta. E este encaminhando do leitor à uma interpretação equivocada não se justifica no texto. Desculpe se sou eu a equivocada, mas foi a minha percepção.

    Gostei bastante da revelação no final de que não era uma menina querendo ser boneca, mas o contrário.

  11. Giovani Roehrs Gelati
    12 de julho de 2021

    Parabéns pelo conto. Ele inicia um pouco confuso, mas vai se esclarecendo no decorrer da história. A história, fantasiosa, é muito interessante e propõe um ponto de vista um tanto inusual, o que a deixa ainda mais peculiar, singular e instigante.
    Poderia pontuar com vírgula após “algo” no antepenúltimo parágrafo.
    Sugiro uma descrição com termos mais consistentes, objetivos que “colossal”, que diz e não diz nada.

  12. Paulo Luís Ferreira
    12 de julho de 2021

    Resumo: Após tomar um chá, o homem entra em um sonho/pesadelo.
    Gramática: A narrativa em si não tem problemas de gramática, apenas esse pequeno problema de digitação, acredito: (havia segurando)
    Comentário: Um conto com a temática surreal dos sonhos, onde mescla uma situação real de um hospital de bonecas com imagens de pesadelos. Mas o desfecho fica um tanto sem sentido, deixando uma sensação de que foi uma solução arrumada de última hora.

  13. Kelly Hatanaka
    11 de julho de 2021

    Oi Thomas!

    Excelente a maneira como você estruturou o seu conto. No começo, a gente fica meio perdida. Como assim, troca de cabeças? O resto da história só vai aumentando a estranheza e por fim, quebrando as expectativas com marreta, a revelação de que a personagem era de fato a boneca.

    Uma história muito bem pensada e conduzida com perfeição.

    Parabéns!

  14. iolandinhapinheiro
    10 de julho de 2021

    Olá, Thomas Edison.

    Que trem doido foi esse, maluco? Lembrei de um filme de terror que o cara não conseguia sair de um ciclo de sonhos dentro de sonhos que jamais parava, sempre que o cara achava que havia acordado, descobria que continuava sonhando.

    Desconfiei que a mulher era uma boneca na parte que vc aludiu a um hospital onde se trocavam cabeças e olhos. Claro que só poderia ser um hospital de bonecas. As outras pistas serviram para confirmar.

    Um conto bem criativo este seu. Não foi o meu preferido porque não consegui ter empatia por ninguém. Aliás isso é muito difícil em textos tão curtos. Também não encontrei erros de digitação ou gramática.

    Parabéns e sorte no desafio.

  15. Júlio Alves
    10 de julho de 2021

    Um pesadelo intenso e sensorial. O conto vai se formando em lugares inesperados, e termina de forma igualmente confusa, digna de uma adaptação de David Lynch kkkk a ambientação em alguns momentos poderia ser mais direta e menos confusa (não na forma que a narrativa é tomada, mas a narrativa em si), ainda mais quando se ia chegando ao fim, mas pareceu também uma escolha consciente, então é aquilo né: dorme com esse barulho kk

  16. claudiaangst
    10 de julho de 2021

    Um conto que dá margem a interpretações mais profundas do que sou capaz de realizar. Pelo o que entendi, a boneca estava acordando do seu sonho de ser uma mulher e teve de lidar com o seu estado de brinquedo. Alice seria sua dona e Dra. Marion a mãe da menina.
    A narrativa é cheia de ação e traz um toque de fantasia/fantástico. Acabei me lembrando de Alice no país das maravilhas ou em outra história qualquer. Afinal, tinha até o gato e a porta.
    O conto está bem escrito e se desenvolve com um toque de suspense que prende a atenção.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  17. Victor O. de Faria
    9 de julho de 2021

    BOI (Base, Ortografia, Interesse)
    B: Gostei do tom de história infantil. Tem uma pegada de conto de fadas muito boa. A escrita é simples, mas convence. Tirando um errinho bobo no final é um texto bem agradável, com um plot-twist esperado, mas bem executado.
    O: O autor(a) economizou nas palavras, mas aqui funciona bem. Se existisse o excesso de lirismos, o texto ficaria incompreensível.
    I: É um conto bastante agradável, com uma mensagem nas entrelinhas bastante “fofa” e traz um ar de novidade em meio a tantos pesadelos e textos super-mega-literários. Esse conto tem a cara da Paula Gianinni.
    Nota: 10

  18. Priscila Pereira
    8 de julho de 2021

    Olá, Thomas!
    Então, no final era uma boneca que pensava ser uma mulher… Engenhoso.. 🤔
    Não estava entendendo nada, aí no final veio a luz, ainda meio, será? Aí fui ler de novo e parece que é isso mesmo… Sempre foi uma boneca… A menina brincava que a boneca era a mãe e a boneca achava mesmo que era uma pessoa.. acho que é isso! Tô certa? Se não estiver, depois me explica tudo 😉
    Se qualquer forma eu achei bem criativo, bem escrito, com um suspense legal. Gostei!
    Parabéns!
    Boa sorte! Até mais!

  19. Eduardo Fernandes
    7 de julho de 2021

    Gosto da ligação que fizeste com o início e com o fim do texto para prevenir um Deus Ex. “Troca de Cabeças” e “Reposição de Olhos” soam muito estranho, mas fazem sentido no final.

    O meio para mim está muito confuso. Não consigo decidir se gostei ou não das três falas que terminam com reticências.

    Em termos de ideia. perfeito. A execução é que ficou um pouco estranha.

  20. Anderson Prado
    6 de julho de 2021

    Boneca sonha em ser humana.

    Há méritos, mas senti que o espaço foi curto para maior clareza no contar. Senti-me desorientado, o que não deixa de ser um mérito, já que a desorientação era também da protagonista boneca. No filme “Meu pai”, por exemplo, a desorientação do protagonista se projeta de maneira extremamente contundente no telespectador. De toda sorte, como leitor deste conto, eu gostaria de ter me sentido menos perdido. A escrita é boa. Apenas notei “bateu” e “batida” usados muito próximos e “rosto” aparecendo duas vezes também muito próximo. Por fim, achei a frase “quanto os pulmões se afogando por oxigênio” um tanto despropositada (fruto de um erro de escrita talvez).

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Publicado às 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Pinscher e marcado .
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