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Detox Literário.

Pausa para o lanche (Felipe Lomar)

Às vezes, é necessário parar e refletir no que acabou de acontecer. Não faz nem quinze minutos, com uma fome danada e uma ansiedade que não permitiam concentrar nos processos, saí do escritório e desci até a cantina do seu Manoel. Um bolinho de bacalhau e uma coquinha gelada acalmariam a minha mente e o meu estômago naquele momento.

Ao chegar, percebi que não era o único com a mesma ideia. Trabalhar no centro realmente deve ser uma experiência unanimemente estressante. O português, já com sua certa idade, seu bigode muito bem ajeitado e sua pança saliente, mal conseguia tocar o negócio. Sentei-me e debrucei-me sobre o balcão, esperando ser atendido. Afinal, não havia o que fazer.

Aí que a coisa começou. Entrou lá a pessoa que iria mudar tudo. Não estou falando de alguém de beleza estonteante, que renderia um amor à primeira vista e o meu ‘felizes para sempre’. Não, beleza ali não havia. Apenas uma criança. um menino. Sozinho. Nenhum sinal de mãe, pai ou irmão. Sempre me impressionou como essas crianças se viram no Centro. A pobreza extrema e a crise social são sempre visões desconcertantes. Não dá pra fugir, alguma hora as mazelas da sociedade sempre se mostram, de alguma forma. Mas o que me desconsertou mesmo foi quando me dei conta do que ele estava fazendo: pedindo aos clientes que alguém lhe pagasse um lanche.

Comecei a ficar um pouco ansioso. Sou uma pessoa tímida e com poucas habilidades sociais. Isso piora bastante ao ser aproximado por alguém não requisitado. Pedintes na calçada já me renderam situações hilárias. Enquanto eu esperava que o Manoel me servisse logo para que eu pedisse o lanche para viagem e me livrasse de um constrangimento, o lisboeta apenas olhava rapidamente com indiferença e seguia a servir lentamente os clientes, acostumado com a presença do menino.

Quando a gente está sob pressão, acho que aflora nossa verdadeira face, seja esta boa ou má. Começo a pensar que ele devia estar procurando um trabalho ao invés de pedir, nem que fosse vender bala no sinal, que poderia haver um bando de pivetes esperando para assaltar o local do lado de fora, que ele poderia cheirar cola ou coisa pior… enfim, acho que a gente realmente tem medo de que os excluídos façam com a sociedade o mesmo que a sociedade faz com eles. Enquanto meu chilique mental pequeno-burguês continuava, o menino, descalço, sem camisa e vestindo uma bermuda suja, destoando completamente dos engravatados com sua pele negra, terminava as mesas e chegava no balcão. Então, resolvo colocar tudo para fora, e faço o impensável.

Agora, volto para o escritório com o estômago vazio, mas o coração saciado. Acho que hoje eu aprendi que  a solidariedade pode saciar muito mais que um lanche. Passo a olhar o mundo com outros olhos, os olhos do outro. Vou procurar o menino sempre que voltar na cafeteria. E ao meu amigo lusitano, peço encarecidamente: demore o quanto quiser.

19 comentários em “Pausa para o lanche (Felipe Lomar)

  1. Elisabeth Lorena
    24 de julho de 2021

    Ler sobre a pobreza financeira e humana sempre nos adoece um pouco, seja por nos aproximarmos mais de quem doa ou de quem nega, ou, em situação mais civilizada, do que pede um pedaço de pão.
    E mesmo que o final tenha um corte indecifrável, a crônica em si dá uma chacoalhada e tanto em nossas próprias convicções, porque sim, não há ninguém, por mais “desconstruído” que seja que não pensa vez por outra, antes de abrir o coração,que a pessoa poderia estar em outro lugar. Então, nos lembramos que não há escolha na miséria e abrimos carteira, bolso e coração. Sucesso

  2. Matheus Pacheco
    18 de julho de 2021

    Resumo: A história fala de um homem que trabalhava numa firma e, quando foi sair para comer um lanche, notou a desigualdade e a indiferença gritante no mundo ao ver um garoto procurando emprego, ou algo para comer…

    Coisas que gostei: O texto traz novamente à realidade que nós estamos acostumados e que, infelizmente nos calejamos.

    Coisas que não gostei: O único ponto negativo é que, na minha opinião é mais do mesmo… da mesma maneira que essa mesma história é recontada inúmeras vezes…

  3. Ana Carolina Machado
    18 de julho de 2021

    Oiiii . Um miniconto ambientado em uma ida cotidiana para uma cantina que tem um fim surpreendente. O texto é uma reflexão sobre desigualdade social e mostra um momento em que dois mundos colidem, o mundo do menino de rua pedindo um lanche e do homem que foi fez uma pausa para comer e que acabou dando o seu lanche para o garoto. Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  4. Fabiano Sorbara
    18 de julho de 2021

    O texto mostra uma realidade por muitos esquecida, melhor, ignorada. Certos assuntos a sociedade gosta de varrer pra debaixo do tapete.
    Ao ler senti certa tristeza, isso é bom, quando o texto gera sentimentos no leitor. Acho que o impacto narrativa poderia até ser maior se fosse concentrado um pouco mais no ato do encontro dos dois personagens e a partilha do lanche. Talvez, futuramente, quando o desafio terminar, você possa trabalhar essa parte.

  5. Andre Brizola
    18 de julho de 2021

    Olá, pequeno-burguês

    Texto que aborda uma realidade muito dura, que é a fome convivendo com a indiferença. A sensibilidade do ser humano já não é mais a mesma e a solidariedade é artigo de luxo, pois ou é rara, ou é escada para likes e views.

    Embora em uma cidade do interior de Minas Gerais, reconheci facilmente a situação de sair rapidinho do trabalho, durante a tarde, para matar a fome fora de hora numa lanchonete de esquina, com um pastel de queijo e uma coca cola, ao lado de outros trabalhadores com a mesma intenção. Só faltou o garoto pedindo comida para a situação ficar praticamente idêntica. Achei que o detalhamento do texto, nesse sentido, foi muito bem feito, e me arrancou alguns sentimentos saudosistas.

    O conto em si, sinceramente, me pareceu um tanto piegas. A opção por algumas expressões bem batidas, como “beleza estonteante”, “visões desconcertantes”, “olhar o mundo com outros olhos”, me deixaram com essa impressão. Entendo que o objetivo é ser incisivo sobre o assunto, mas ninguém pensa dessa forma, e o conto foi composto como uma reflexão em primeira pessoa, o que deixa tudo bem artificial, na minha visão.

    Não percebi nenhum deslize técnico mais grave no texto, embora tenha sentido falta de algumas vírgulas, e o excesso de alguns pronomes, aqui e ali. Mas, no geral, está bem escrito.

    Bom, é isso. Boa sorte no desafio!

  6. Regina Ruth Rincon Caires
    17 de julho de 2021

    Pausa para o lanche (pequeno-burguês)

    Comentário:

    Que lindeza, pequeno-burguês! De ti, não poderia esperar outro gesto.

    Escrita perfeita, o enredo é bem construído. Interessante o autor, de um fato tão corriqueiro dentro de uma lanchonete, conseguir criar uma narrativa tão rica. O simples esconde tesouros.

    O conto traz uma linguagem tão competente quanto simples, e, talvez por isso, “se achega” ao leitor. Acho que eu estava no balcão, sei lá…

    Textos que retratam o cotidiano sem floreio, de maneira direta e cuidadosa, despertam interesse. À medida que vamos absorvendo os parágrafos, percebemos que o autor relata cena que ocorre aos montes em todos os lugares. Ah! Que bom seria se todos a visse e nela mergulhasse como você fez, pequeno-burguês. O mundo estaria melhor, muito melhor.

    Parabéns pelo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  7. Catarina Cunha
    17 de julho de 2021

    MINI – É conciso e a prosa flui bem. Tem mais “chilique mental pequeno-burguês” do que, necessariamente, ação. A ilustração entregou o “ouro” da descoberta; pena. Acho que cabe revisão da pontuação.

    CONTO – Eu me incomodei com o julgamento constante da ação sem margem para o leitor, mas isso é questão de estilo. Gostei do final semiaberto.

    DESTAQUE – “Quando a gente está sob pressão, acho que aflora nossa verdadeira face, seja esta boa ou má.” Síntese do conto.

  8. DAYANNE DE LIMA PINHEIRO
    15 de julho de 2021

    Uma tocante análise social, uma cena cotidiana cheia de significados! Eu saúdo sua coragem em abordar o tema tão diretamente, sem medo das críticas dos “conservadores” a sua escrita. Eu, quando o faço, vou sempre para a linguagem figurada, metafórica. Que coisa horrível a gente ter que ter vergonha de falar o que tem que ser falado! Por isso meus parabéns a você, meu caro!!!

  9. Giovani Roehrs Gelati
    13 de julho de 2021

    É um bom conto, reflete sobre um tema sempre atual e necessário.
    A história toda está bacana, mas acredito que o final poderia ser um pouco diferente, pois ficou em um lugar-comum, com o menino alimentado e o bem-feitor contente com a sua ação caridosa.
    Vale destacar a frase interessantíssima que fizeste, em termos medo que os excluídos façam o mesmo com as pessoas que a sociedade faz com eles.

  10. Fernanda Caleffi Barbetta
    13 de julho de 2021

    Olá, Pequeno-burguês, seu texto é bonito, tem uma boa mensagem de amor ao próximo. Gostei do final.
    O que me incomodou é que várias vezes houve a criação de uma expectativa de que algo aconteceria e não aconteceu.

    “uma ansiedade que não permitiam concentrar nos processos” – que não permitiam que eu me concentrasse – talvez ficasse melhor.

    “sem camisa e vestindo uma bermuda suja, destoando completamente dos engravatados com sua pele negra” – aqui há uma confusão se ele destoou pela vestimenta ou pela pele negra.

    “Isso piora bastante ao ser aproximado por alguém não requisitado” – esta frase me soou estranha… talvez – quando alguém não requisitado se aproxima – ficasse melhor.

  11. Paulo Luís Ferreira
    12 de julho de 2021

    Resumo: Uma simples história dos meninos de rua que permeiam as grandes cidades a mendigar um lanche pelas lanchonetes.
    Gramática: Nada a contestar, apenas alguns descuidos de digitação.
    Comentário: O conto passa mais a ideia de uma crônica do dia a dia das cidades, simples e direta. Mostrando a vida cotidiana nas grandes cidades. Sem muito malabarismo, apenas denuncia um pequeno recorte, como um instantâneo fotográfico.

  12. Kelly Hatanaka
    11 de julho de 2021

    Oi pequeno-burguês!

    Muito boa sua história. Identifiquei-me com o narrador, que fica ansioso com a ideia de ser requisitado pelo menino.

    Senti falta, somente, de ver o que aconteceu entre o narrador e o menino. Quando ele diz “faço o impensável”, de cara pensei que ele tivesse saído correndo. No próximo parágrafo, ele diz que voltou com o estômago vazio, o que reforçou minha impressão. Prosseguindo, vejo que não foi isso. Mas, de, qualquer forma, acho que esta cena poderia enriquecer seu texto, que já é muito bom.

    Boa sorte no desafio!

  13. iolandinhapinheiro
    10 de julho de 2021

    Olá, Pequeno Burguês.

    Uma boa ação, um conto bem escrito, sem erros, um personagem com nuances, hesitações, dúvidas. Acho que o único problema é que não existiu um conflito para se resolver. Ao contrário. O narrador resolveu muito rápido que iria fazer o que achava certo e ninguém o contradisse, ninguém se opôs, não houve um clímax que prendesse a minha respiração.

    Não sei como pensam os outros mas para me impressionar é necessário que o conto tenha um ponto de impacto, algo inesperado, surpreendente, algo que eu só enxerguei quando o autor quis, a partir da sua habilidade em trabalhar esta surpresa. Acho que, infelizmente, faltou isso para que o seu conto ficasse perfeito.

    Parabéns pelo texto e boa sorte no desafio.

  14. claudiaangst
    10 de julho de 2021

    Conto que traz uma crítica social quanto à desigualdade de oportunidades. Recorte do cotidiano de uma pessoa comum, com um trabalho comum, que reage a um cenário comum a miséria humana.
    Fiquei confusa com esta passagem > “Então, resolvo colocar tudo para fora, e faço o impensável.” Ele colocou o que para fora? Espero que não tenha vomitado.
    Pelo o que entendi, o moço não comeu o seu lanche, pois voltou para o escritório de barriga vazia, então concluo que tenha pagado o lanche do menino.
    Narrativa sem muita ação, mas que leva a refletir sobre as mazelas da nossa sociedade. Linguagem clara, simples, que talvez precise de alguns poucos ajustes para se tornar ainda mais impactante.
    Parabéns pela participação e boa sorte no desafio.

  15. Júlio Alves
    10 de julho de 2021

    Ai ai a coquinha gelada ❤

    Um bom conto, e que trabalha com sobriedade o que acontece ao redor, sempre em uma narração atenta a detalhes, posições sociais que são comuns em cidades grandes (eu moro no interior e sempre que vou a capital é sempre surreal como certos corpos são literalmente normatizados na invisibilidade a todo o canto). Seu conto, por mais de que se trate de uma pequena bondade feita por um lumpemproletariado (por mais que você o chame de pequeno-burguês, não consigo vê-lo assim), é um conto que traz, de certa forma, um sinal de esperança, por mais que imediatista.

    De ressalva, digo que em alguns momentos me agradaria mais estar dentro da cabeça da personagem em uma narrativa mais fluída do que ele realmente vê e sente diante daquele menino (algo mais voltado para Clarice Lispector em Paixão Segundo GH ou A Hora da Estrela ou a Bela e a Fera (acho que é esse o título), por exemplo), para não ficar num local de argumento-comum sobre desigualdade (não digo que você o tenha, mas algumas frases poderiam evocar mais emoção e menos razão para que não soasse quase panfletário).

    Parabéns pelo conto!

  16. Victor O. de Faria
    9 de julho de 2021

    BOI (Base, Ortografia, Interesse)
    B: De comédias, me deparo com um drama-cotidiano-realidade muito bem escrito. O pessoal daqui adora um dramalhão, mas esse se difere por trazer uma boa mensagem de esperança nas entrelinhas, sem rodeios. Me tirou um sorrisinho de canto ao fim.
    O: Houve uma pequena quebra de tempo verbal perto do último parágrafo, mas não atrapalhou. Também vi um início de frase sem maiúscula. Mas nada que tire o brilho do conteúdo, bem executado.
    I: Tem um ar melancólico e sério. Isso me atrai mais do que eu gostaria de admitir. Mas a cereja do bolo foi tudo terminar “lá em cima”, com ares de melhora e aquece um pouco o coração de quem lê.
    Nota: 9

  17. Priscila Pereira
    9 de julho de 2021

    Olá, Pequeno burguês!
    Que gostosa sua crônica! Parece alguma coisa que realmente aconteceu com vc… Está escrito com a segurança de quem sabe o que faz. O conto dá um pequeno vislumbre da vida de três pessoas, o narrador, o dono da cafeteria e do menino. Um flash, uma fotografia de um momento que foi simples, mas precioso! Gostei bastante!
    Parabéns!
    Boa sorte! Até mais!

  18. Eduardo Fernandes
    7 de julho de 2021

    Futuro do pretérito é um tempo verbal ótimo para afastar os leitores. Dá a ideia de “ia, não foi, então para quê se preocupar”?

    É quase como “comecei a pensar se deveria mudar de roupa”. Porra, muda de roupa ou não. Pensei, comecei, etc… não tem muito efeito prático na estória, só afasta o leitor, na minha opinião.

    Dito isso, eu começaria logo de cara com o o menino a entrar na lanchonete, porque os parágrafos que vêm antes são meio lenga lenga.

    Choca muito mais o leitor já levar com a bomba desde o início ao invés de ficar ouvindo que o cara está com fome, que precisa pensar, que tem ansiedade, que não conseguia se concentrar…

    E acho que muito do que escreves desvia a atenção do leitor. Por exemplo, se queres causar comoção, não podes dizer das situações hilárias com pedintes.
    Não funciona.

    De resto, achei muito “conte, não mostre”.

  19. Anderson Prado
    5 de julho de 2021

    Homem se depara com um menino pedinte e tem uma epifania.

    É um bom conto, mas no qual as coisas mais são contadas do que acontecem, o que torna tudo um tanto monótono. A lentidão desse contar meio que é superada pela pauta política explícita e cativante presença do menino preto pedinte. Sobre a defesa de uma clara ideia de mundo, embora plenamente defensável, me soou um tanto didática demais (faltou sutileza). A mudança de tempo verbal entre a primeira frase (passado) e a segunda (presente) causou estranhamento. Notei um excesso de pronomes de primeira pessoa (minha, meu, me). Há um ponto final mal colocado. “ao ser aproximado” soou estranho, exótico. “seguia a sevir” tem uma sonoridade esquisita e que deveria ser evitada. “mental” em “chilique” era despiciendo, redundante – estava mais do que evidente que era mental. “saciado” e “saciar” não deveriam ter sido usados tão perto.

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Publicado às 5 de julho de 2021 por em Minicontos 2021, Minicontos 2021 - Grupo Pinscher e marcado .