EntreContos

Detox Literário.

[EM] O Fim da Humanidade (Ezequiel)

1.

O sol estava abrasador, como sempre. A mulher aproximava-se do poço, num passo lento, sofrido. Era extremamente magra, cabelo ralo, os olhos encovados tinham perdido o brilho de outrora.

Tempos de outrora…

Ela evitava pensar no passado, quando havia comida e água. Quando não a tinham deixado ali para morrer. A decisão tinha sido tomada pelo chefe da aldeia e aceite por ela. Havia urgência na partida e Susana estava demasiado fraca para suportar a viagem. Foi deixada para trás, para morrer. Eram tempos difíceis. Continuavam a ser.

Agarrou-se à alavanca que fazia descer o balde. Baixou-o penosamente. Aquele era o único poço das redondezas. Sentiu um baque surdo e percebeu que o poço estava seco. Deixou-se cair, encostada ao murete. Quis chorar, mas há muito que não conseguia. Diziam que era um dos sintomas da doença que tinha levado quase toda a família. Aninhou-se na diminuta sombra que o murete do poço providenciava. Escondeu-se do sol. Sabia que estava a adiar a inevitabilidade da morte. Num delírio febril, cantava uma música da sua infância. A boca seca dificultava, a memória atraiçoava-a e saltava na letra. Onde errara? O que provocara a sua solidão? Olhou para os braços e as pernas. Não passavam de ossos. Susana já tinha sido bonita. Mais do que os espelhos, era o olhar voraz dos homens que lhe dava essa certeza: na sua outra vida, antes da Inversão, fenómeno que os cientistas previram e que logo os políticos, na sua típica e estúpida miopia, minimizaram. Quando finalmente aconteceu, trouxe consequências drásticas para todo o planeta. Na altura ainda havia televisões, rádios e autoridades. Na altura, Susana era feliz, estava prestes a casar-se com Rudolfo. Depois tudo acabou: o escudo magnético que protege a Terra das radiações cósmicas, as colheitas, o gado e o casamento de Susana e Rodolfo. Ela ficou sozinha, na sua pequena aldeia que se ia despovoando: alguns acabavam no cemitério, outros saíam para procurar outras paragens. Susana ficou sozinha, doente. Lembrou-se desse dia, do dia em que foi abandonada para morrer pelos seus amigos e familiares. Com lágrimas nos olhos e vãs promessas de regresso.

A princípio continuou a sua rotina como se nada tivesse acontecido. Passados três dias teve noção da sua solidão e caiu de joelhos, numa reza frenética. Pedia a Deus que a levasse rapidamente, argumentando não ter vivido o suficiente para precisar de expiar tantos pecados. Agora estava ali, encostada ao poço seco, à espera da morte, de braços abertos.

Ele chegou, num passo lento mas decidido. Uma figura de estatura mediana, vestida com um fato de plástico branco que o cobria dos pés à cabeça. Carregava às costas uma caixa e tinha na cara uma janela redonda, como a dos escafandristas que Susana tinha visto num livro quando era menina. Ele aproximou-se e fez-lhe sombra, aliviando-a da luz do sol. “Quem és?”, perguntou ela, mas não obteve resposta. O desconhecido pegou nela como se Susana nada pesasse. Levou-a para uma casa que ficava a cerca de quinhentos metros de distância. A porta estava fechada, mas ele abriu-a com um pontapé da sua pesada bota militar. Lá dentro não havia nada a não ser uma mesa e três cadeiras. Pousou-a na mesa com a delicadeza de quem trata da mais fina das porcelanas. Esticou um tubo branco da caixa que trazia nas costas e, sem dizer uma única palavra, aproximou o extremo do tubo da boca dela. Jorrou um fio de água que ela bebeu com sofreguidão doentia. No final pediu mais, mas ele limitou-se a guardar o tubo.

“Obrigada… Uma boa alma. Pensava que já não existissem.”

O desconhecido manteve-se em silêncio.

“Eu chamo-me Susana… Susana Só. Ainda antes de ficar sozinha. Raio de nome. Agora já não estou sozinha, mas tu não dizes nada. E que falta me faz ouvir uma voz humana.”

O desconhecido falou. Mesmo com o som abafado pelo fato que insistia em não tirar, Susana percebeu que era estrangeiro.

Unë jam Yanuz.”

Ela abanou a cabeça. Não percebia.

“Eu sei por que estás aqui. Não consigo ver a tua cara…”

Ele tirou o capacete. Não devia ter mais de vinte anos, o cabelo negro, a pele queimada pelo sol. Susana olhou demoradamente para ele. Depois sorriu e disse: “Sê gentil.”

Ele tirou as duas luvas. Deu-lhe um beijo na testa. Passou-lhe a mão pela face. Depois tapou o nariz e a boca de Susana com força, enquanto lhe pressionava o peito com a outra mão. Susana estrebuchou e lutou para se libertar, mas rapidamente ficou imóvel. Ele tirou da caixa que tinha nas costas duas facas e um recipiente de plástico. Fechou os intensos olhos azuis de Susana.

2.

            O grupo era composto por dez pessoas e algumas cabras. Dirigiam-se ao sul de Espanha, de onde pensavam arranjar um barco que os levasse a Marrocos. Havia uma certa ironia nessa estratégia: um século antes, a fuga tinha sido ao contrário. E durante a segunda guerra mundial, os Europeus tinham fugido em massa para África para escapar às perseguições da ocupação nazi. Liam Dubois era o líder do grupo. Um pastor neo-protestante que estava convencido de que o mundo eçlstava a atravessar pelo Apocalipse, tal como tinha sido previsto na Bíblia. Aquela era a prova destinada a calar os ateus e infiéis. Era seguido por um conjunto de pessoas que fora recolhendo pelo caminho, cada um com as suas histórias de vida. Para ele, formavam uma família. Em situações normais, dificilmente se conheceriam, tais eram as diferenças que os separavam. Ricos e pobres, gente com estudos, analfabetos. Agora que não tinham nada, eram iguais e seguiam Liam há mais de um ano. Todos tinham perdido tudo menos a fé de que Deus lhes providenciaria um futuro melhor.

            Entraram na pequena povoação deserta. Ao fundo da rua, uma casa com a porta escancarada despertou a atenção do Pastor. Mandou dois batedores armados de espingardas e ficou à espera, à sombra de um edifício.

Quando regressaram, vinham com o rosto abatido. Pelo caminho que tinham feito nos últimos meses, tinham visto coisas terríveis. O desespero mostrava a verdadeira face da humanidade. Um dos batedores segredou algo ao ouvido de Liam, que se dirigiu para a casa. No seu interior descobriu o cadáver de uma mulher nua, a quem alguém retirara a carne das pernas até ao osso. Mira aproximou-se. Ele impediu-a de entrar.

            “Ele esteve aqui. O demónio cujo rasto nós seguimos. Voltou a cometer o pecado mais hediondo de todos, e pagará por isso.”

            Com um gesto, mandou dois homens embrulhar o corpo da mulher. Depois, fizeram um buraco e enterraram-na. No final, ajoelharam-se e pediram perdão a Deus. Todos notaram a alteração na fisionomia do Pastor, que não conseguia tirar da cabeça a visão do cadáver. Havia uma paz imensa que o incomodava ainda mais do que o crime cometido: ela oferecera-se voluntariamente para morrer.

            Três anos antes, Liam era um empregado de escritório, ex-estudante de teologia. Estava de casamento marcado. Júlia estava grávida de três meses. A Inversão era tema habitual nas televisões: as suas consequências devastadoras faziam-se sentir um pouco por todo o lado. Por algum motivo, Liam pensava que Deus o salvaria e que a crise lhe passaria ao lado, mas tudo se desmoronou como se um frágil castelo de cartas se tratasse. Júlia foi aconselhada a abortar, depois dos médicos terem descoberto uma grave má formação no feto. Liam, contra todas as suas convicções, aceitou, e Júlia foi submetida à intervenção cirúrgica. Ele não sabia se a noiva tinha morrido durante a operação ou três meses depois, quando os mesmos médicos lhe confirmaram o óbito. Ela ficara completamente transtornada e tivera uma overdose. Ele despediu-se do emprego, que não iria durar muito, de qualquer forma, e começou a percorrer o mundo, tentando descobrir um sentido para a sua existência. Em poucos meses a Inversão terminou. O que antes era o Norte passou a ser o Sul, e vice-versa. O clima alterou-se, o solo deixou de produzir, as doenças alastravam, cada vez mais mortais. Os governos desintegraram-se. No meio disto tudo, Liam descobriu a sua vocação. Durante meses pregou na rua. Esteve preso diversas vezes, até que deixou de existir polícia na rua. As pessoas que o ouviam viam nele um profeta, a única verdade. Não se apercebeu do momento preciso em que passou a ter seguidores, de tão natural que esse facto foi para ele.

            O caminho até ali tinha sido duro. Tinham perdido duas pessoas. Vira o que não esperava ver. A humanidade perdida, abandonava-se ao seu lado mais perverso. Deixara de haver honestidade, sensibilidade e respeito. Vira crianças mortas por um pedaço de pão, valas comuns, pessoas bem vestidas a procurar comida no lixo.

            Chamou por Lukka e Pablo.

            “Quero que procurem o assassino desta mulher. Deus não permite que ele continue impune e clama por vingança.”

            Os dois rapazes de vinte e poucos anos pegaram nas suas espingardas e puseram-se em marcha, seguindo pela estrada na direcção mais provável: sul.

3.

            Era já noite. O homem tirou da caixa o recipiente de plástico e colocou-o no chão, junto a um muro. Estava numa povoação não muito afastada daquela onde tinha assassinado Susana. Durante o caminho, revira tudo. Tinha derramado algumas lágrimas, mas sabia que voltaria a fazê-lo para sobreviver. Fez uma fogueira com lenha que tinha apanhado pelo caminho.          Deitou metade da água que tinha num recipiente de ferro e depois colocou lá dentro algumas tiras de carne. Esperou que fervesse. Olhou para o recipiente e fechou os olhos. Não conseguia tirar da cabeça os olhos de Susana.

            “Sê gentil”, pedira ela. O homem deu um pontapé no recipiente que estava na fogueira, quase atingindo uma criança que olhava para ele com os olhos esbugalhados. Parecia esfomeada. O homem tirou da caixa um pacote com duas bolachas bolorentas e ofereceu-as à criança. Deu-lhe também num copo de plástico parte da sua água, que estava praticamente esgotada. A criança tirou-lhe das mãos as bolachas e o copo. Tinha o olhar estranhamente parecido com o de um animal, a cara extremamente suja e o cabelo parecia não ver uma escova ou um pente há muito tempo. Encostou-se ao homem e,  após comer e beber, adormeceu profundamente. Ele pensou no seu próximo passo. Depois tirou do saco as duas facas e pousou-as no chão. Voltou a enfiar a mão enluvada no saco e procurou durante algum tempo até sentir o que procurava. Tirou uma boneca de pano quase tão suja como a menina, e pôs o brinquedo em cima do seu peito. Ela abraçou-se à boneca num gesto instintivo e brusco. Ele deixou-se ficar, notando cada vez que a menina respirava. O seu sono era agitado. Assim que o sol nasceu, ele pôs-se de pé. Arrumou tudo e pôs-se a caminho. A menina levantou-se e correu para ele, que se limitou a enxotá-la. Ela deixou-se ficar, a soluçar, agarrada à boneca.

4.

            “Vamos embora, estou com a barriga vazia, Pablo. Dizemos-lhe que não o encontrámos.”, disse Lukka. Tinham dormido numa casa abandonada. Era originário da Holanda. Tinha um palmo a mais de altura em relação a Pablo, que era originário de Espanha mas estava emigrado em Itália. O que lhe faltava em altura recuperava em astúcia e determinação. “O Pastor não vai saber de nada. Por favor.”

            Pablo abanou a cabeça.

            “Continuamos. O Pastor pode não vir a saber, mas Deus está por todo o lado.”

            Lukka explodiu: “Estará? E deixa que o mundo se afunde na merda?”

            “Não podemos questionar os Seus motivos. Para mim, essa é a única verdade, Lukka. Continuemos. Não estará longe.”, disse Pablo, reunindo as suas coisas e pondo-se a caminho. Lukka não teve outro remédio que segui-lo, contrariado e a reclamar a cada passo. Interiormente, Pablo dava-lhe razão, mas não podia dar parte de fraco. Para ele, aquilo era pessoal: havia um assassino à solta no seu país. Para além dele próprio. Assim que conhecera o Pastor, confessara-lhe os seus crimes em privado. Este não lhe deu a absolvição: disse-lhe que eram demasiado graves e que Deus exigiria a sua redenção. Já não havia autoridades terrenas para julgar os outros. O mundo ficara sem lei e o caos tomara conta de tudo, até mesmo das almas.   Por isso Pablo exigia tudo dele próprio, para aplacar o fogo da raiva e da culpa que sentia.

            A meio do caminho encontrou uma criança que se resguardava na sombra de um muro do sol que começava já a torrar. Apertava com força uma boneca de pano.

            “Estás bem? Chamo-me Pablo.”, perguntou, pegando nela ao colo. Lukka aproximou-se do sítio onde tinham feito uma fogueira. Ainda estava quente.    No meio, estavam pedaços de carne queimada. Lukka espetou a sua faca num pedaço e mostrou-o a Pablo, que percebeu o que era.

            “Viste um homem?”, perguntou Pablo à menina, que confirmou com a cabeça.

            “O astronauta…”, disse a menina, apontando um caminho. O Pablo ainda pensou que ela estivesse a brincar, mas a menina mostrou-se séria. 

            “Os teus pais?”

            Ela abanou a cabeça.

            “Eu também não. Há muito tempo. Nós cuidamos de ti.”

            O rosto da menina iluminou-se e abraçou-se com força a Pablo.

            “Estás a prometer o que não podes cumprir. O Pastor tem a última palavra a dizer sobre quem aceitamos no nosso grupo.”, disse Lukka em Francês.

            “Eu sei, mas a esperança nunca fez mal a ninguém. A falta dela, sim.”, rematou Pablo.

            Pegou na menina pela mão e seguiram os três pelo caminho que ela tinha indicado.

5.

            Yanuz pressentiu que estava a ser caçado ainda antes de ver Pablo e Lukka a correr na sua direcção. A menina assistia de longe. O astronauta, como ela lhe chamara, era lento e estava armado com duas facas. Embora tivesse treino militar, não estava à altura dos dois oponentes. Três tiros bastaram para demonstrar a pontaria de Lukka. Yanuz sabia que o próximo tiro seria a matar. Deixou cair as facas e levantou as mãos.

            Pablo e Lukka aproximaram-se. Obrigaram-no a tirar a máscara. Era apenas um rapaz, ainda mais novo do que eles.

            “Mos qëlloni! Unë dorëzohem!”, disse ele.

            “Não percebo um coño do que dizes, cabrão! Só sei que vais pagar pelo que fizeste!”, gritou Pablo, dando uma coronhada em cheio no nariz do astronauta. O sangue espirrou-lhe para a cara. Começaram o caminho de regresso sob o sol abrasador. A menina fez o caminho em silêncio, nunca deixando transparecer qualquer dor. A meio do caminho pararam para descansar. Yanuz esticou o tubo do seu reservatório de água e apontou para a menina, que se aproximou dele sob o olhar vigilante de Pablo e Lukka, Yanuz deu à menina o que restava da sua água. O rosto dele parecia uma bola. Tinha dificuldade em respirar. Os olhos estavam vermelhos pelo sol.      Com o longo cabelo negro e a barba, por momentos pareceu a Pablo que estava perante Jesus. Decidiu que seria o Pastor a fazer esse julgamento e não pensar mais no assunto. O ser divino não o isentava da culpa.

6.

            Assim que os viu aparecer no caminho, o Pastor ficou apreensivo. Não duvidava que fossem capazes de encontrar o assassino, mas terem trazido uma criança para o grupo era contra as regras. Já tinham deixado muitas crianças para trás, e Liam tinha o rosto de cada uma gravado a fogo na memória. Bastou um olhar mais severo para que Pablo soubesse do seu veredicto. Mesmo assim, a menina, que se chamava Yara, foi acolhida pelas mulheres do grupo, que trataram de a alimentar e limpar com o pouco que tinham.

            Enquanto isso, Lukka, Pablo e o Pastor levaram Yanuz para uma casa vazia, cuja porta já estava arrombada. Sentaram-no numa cadeira. O olhar dele era estranhamente calmo.

            “Como te chamas?”, perguntou o Pastor.

            “Unë jam Yanuz.

            “Não sei que língua é essa. Vais ter de confessar directamente a Deus os teus pecados. Nós somos os juízes, nesta terra sem lei nem ordem. Declaramos-te culpado do crime de canibalismo, dos pecados capitais o mais grave de todos. Na minha qualidade de emissário do Altíssimo, condeno-te à morte. Que       Deus tenha piedade da tua alma.”

            De seguida, dois homens entraram e despiram Yanuz do seu fato de astronauta, deixando-o apenas de calções. Levaram-no para o exterior e, à frente de todos, cravaram quatro estacas na terra. Deitaram Yanuz no meio das estacas e usando cordas ataram as suas mãos e pés, deixando-o a secar ao sol. Pablo pegou depois na sua faca e escreveu CANIBAL na barriga exposta ao sol de Yanuz. O sangue começou a escorrer rapidamente. Yanuz começou a berrar.

            “Podes berrar à vontade. Se o sol não der cabo de ti, vão ser os animais. Eles costumam vir depois do sol se pôr. Amanhã não vai restar nada do teu corpo.”, disse Pablo.

            Depois, afastaram-se. A menina ficou a olhar muito séria para Yanuz.

            O Pastor chamou Pablo para uma conversa em privado.

            “Já nos conhecemos há bastante tempo, Pablo.”

            Ele confirmou.

            “Tempo suficiente para saberes que a nossa sobrevivência depende do equilíbrio. Só conseguimos arranjar comida e água suficientes para as pessoas que temos. Já deixámos para trás duas pessoas. Uma delas era teu amigo.”

            “Eu cuido da menina, Mestre”.

            O Pastor abanou a cabeça.

            “Disse-te um dia que o Senhor iria pedir o seu preço pela absolvição dos teus pecados. A menina não pode ir connosco. Já falei com os outros. Ninguém gostou, mas reconheceram que é a única forma. Não podemos ter crianças no grupo.”

            Pablo sentiu uma raiva imensa.

            “Mas isso torna-nos igualmente assassinos e pecadores!”

            “A decisão está tomada, Pablo. Mas tens de ser tu a tratar dela.”

            Pablo saiu de casa e dirigiu-se à menina, que estava a brincar com a boneca. Já parecia outra.

            “Queres ver uma coisa bonita, Yara? Descobri ontem.”

            Ela disse que sim, com os olhos brilhantes. Enquanto Pablo subia com ela o monte, o grupo punha-se em marcha. Alguns deitaram um último olhar à menina. Passado algum tempo, o mesmo Pabro regressou sozinho, a limpar a sua faca e com a boneca da menina debaixo do braço. Trazia no rosto uma paz imensa, inexplicável. Aproximou-se de Yanuz e pôs a boneca no chão, próximo do braço direito dele. Depois foi ter com o grupo, que já se tinha posto em marcha, deixando Yanuz aos berros enraivecidos.

7.

            Yanuz não conseguia abrir os olhos com a luz. O corpo doía-lhe. Sentia os insectos a percorrer-lhe o corpo e a provocar-lhe uma dor intensa. Resignara-se à sua sorte quando ouviu vozes. Pensou estar a alucinar, mas percebeu que estavam a tocar no seu corpo.

            “Me ndihmo…”, disse, numa voz enfraquecida. Tentou abrir os olhos. Viu dois vultos, um homem e uma mulher.

            “Olha, querido… é Albanês como eu…”, disse ela. 

            “Ju jeni mbeturina. Estás um lixo.”, disse-lhe ela. Depois fixou-se no que dizia a sua barriga.

            “Ajudem-me”, disse novamente Yanuz em Albanês.

            Ela aproximou-se a boca do ouvido de Yanuz e disse-lhe: “Já ninguém ajuda ninguém neste mundo, muito menos gente como tu”.

            E cuspiu na cara de Yanuz, enquanto o marido tirava a faca e escrevia os seus nomes na perna esquerda de Yanuz, que berrou. Depois, sentiu que eles se tinham ido embora. Pelas suas contas, o sol iria pôr-se dentro de pouco tempo. Tentou puxar pelas cordas, na esperança de que estivessem ressequidas pelo sol e se partissem, mas não teve sorte. O esforço deixou-o no limite das suas forças. Resignado, esperou por uma morte rápida.

8.

            Ouviu os cães a ladrar relativamente perto. Não sabia se tinha dormido ou se desmaiara devido à desidratação. Tinha o corpo dormente. Reviu a sua curta vida, desde o momento em que saíra da sua cidade natal na Albânia. A fome e as epidemias grassavam na Europa Central. Yanuz decidira vir para Oeste, mas por todo o lado só encontrava fome e miséria. E, agora, chegara ao fim da linha. Sentiu os cães a entrar na praça. Fechou os olhos. Por um lado, sabia que merecia a morte pelos crimes que tinha cometido. Reviu todos. Uma lágrima caía-lhe pela face. Reviu o profundo olhar azul de Susana. Estava tão compenetrado que não deu pelo facto de alguém ter cortado a corda que lhe prendia o braço esquerdo. Abriu os olhos e viu Yara, que lhe cortava a corda que lhe prendia o braço direito, mostrando a sua inexperiência em manejar aquele utensílio. No final, ajudou Yanuz a levantar-se. O seu corpo estava cheio de chagas. Arrastou-se para o edifício onde fora julgado e encontrou a sua roupa. Saíram os dois em direcção a Oeste. Não se queria voltar a cruzar com o grupo do Pastor.

9.

            Pablo fazia o caminho num silêncio absoluto, pensando no que tinha feito.             Subira o monte com a menina, com o propósito de a matar. Esse era, segundo o Pastor, o desígnio de Deus. Pelo caminho, Pablo questionou-se sobre a natureza de um Deus que obriga ao fim de uma vida inocente. Quando chegou ao topo, levando Yara pela mão, olhou fixamente para ela.

            “Esconde-te, Yara. Ficas com isto. Tens cuidado e libertas o Astronauta. Percebeste?”

            Entregou uma faca pequena à menina. Em troca, tirou-lhe a boneca.         

            “Não faças barulho. Fica aqui até nós sairmos.”

            Pablo fez um corte na mão. Depois desceu o monte sozinho, com a boneca debaixo do braço e com a forte convicção dos reais desígnios que Deus tinha para com ele: matar Liam Dubois, o Pastor.

 FIM

6 comentários em “[EM] O Fim da Humanidade (Ezequiel)

  1. Fheluany Nogueira
    6 de maio de 2021

    AMBIENTAÇÃO –
    Universo pós-apocalíptico, com pessoas vivendo, em condições péssimas, em um deserto hostil acabou gerando canibalismo, perseguição e captura. Ufa! Ficou fácil transportar o leitor para este mundo em crise, onde os personagens ficam desesperadas pela sobrevivência, dispostos a morrer em nome daquilo em que acreditam.

    ENREDO –
    Muita ação e dinamismo. A atitude de cada personagem reflete o funcionamento da sociedade (ou falta dela). O conflito é comum nesse tipo de história: a percepção de que a liderança seguida não é a melhor e a busca de alternativa. A presença da menina é que provoca a reviravolta: não se maltrata uma criança.

    A divisão em partes facilitou a leitura de um texto bem longo, tornando-a mais leve.

    ESCRITA –
    Certo sotaque luso, algumas vírgulas mal colocadas, muitas ênclises pronominais não prejudicaram a fluidez da leitura ou a compreensão do texto. As idas e vindas da narrativa atrapalharam um pouco a percepção do todo. No geral, posso dizer que os prós superam os contras, e apesar de não ter me impressionado muito com o terror latente, ainda considero o conto um dos mais sólidos e tecnicamente ajustados no desafio.

    CONSIDERAÇÕES GERAIS:

    Trama envolvente, lembrou filmes do gênero. Mas… um pouco por causa das trocas do ponto-de-vista e mais um outro tanto pela forma como os personagens foram apresentados, não senti emoção. Faltou entrar mais na cabeça de um protagonista, mostrar mais suas dores, o ódio, o quanto é difícil sobreviver… não senti nada disso, para mim foi só uma sucessão de cenas.

    Parabéns pelo trabalho e boa sorte no desafio. Abraço.

  2. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Quente, muito quente. Você criou um clima de western italiano pós apocalíptico. Quando abriu o texto com “Sol abrasador”, achei que cairia no uso comum das descrições de lugares quentes e desérticos, mas, após essa primeira introdução, seguimos com os personagens já inseridos nesse mundo.

    Enredo: O que mais gostei no conto! Não acho fácil abordar tantos personagens assim num conto, mas você o fez de forma excelente. Nos insere no mundo com a morte de Susana, apresenta Yohan, depois o pastor e Pablo, sempre com descrições e capítulos curtos que intercalam as tramas sem gerar confusão. São pequenos arcos bem definidos que nos prendem com eficiência. Poxa vida, parabéns!

    Escrita: Creio que o português praticado no texto seja luso, por uma ou outra expressão e forma utilizada. A escrita é certeira e a construção das frases estão no ponto certo, além do lugar comum e longe de voos líricos que, para mim, não combinam com esse tipo de história. Em síntese, muito bom! Notei apenas um possível erro de digitação em “eçlstava”, não fosse por isso, seria 10 no quesito escrita.

    Considerações gerais: Vou me repetir. Quando o conto é bom, o comentário é curto. Parabéns, parabéns e parabéns. Você fez uma bela proeza aqui, introduzindo bem os personagens, nos guiando pelo mistério e concluindo o texto de maneira satisfatória. Não há preto no breco, todos tem seus motivos e razões para fazer o mal e o bem.

    Grande abraço!

  3. Lucas Julião
    5 de maio de 2021

    Ambientação: Está boa. Mas pela quantidade de origens e personagens demora para sacar se ela se passa na Espanha ou no Marrocos.

    Enredo: Aqui temos alguns problemas. O primeiro é uma quantidade muito grande de personagens: Pablo, Yanus, Susana, Lukka, Liam e a menina. Não dá para trabalhar tudo isso direito em só 4000 palavras. As coisas ficam meio malucas.

    Escrita: Falta construir umas passagens para as falas dos personagens e usar travessões.

    Considerações gerais: Refaz o texto mas como um romance. No processo leia alguns livros a mais, se atente a como o autor escreve. A ideia é ótima, mas a execução é mais ou menos 6,0/10

  4. Ana Lúcia
    4 de maio de 2021

    Ambientação: Boa ambientação realmente me senti nesse mundo

    Enredo: gostei da separação por capítulos, senti que por poder ver o mesmo mundo por perspectivas diferentes, foi bem interessante e ajudou a expandir o universo.

    Escrita: Foi boa. Senti que teve alguns errinhos, mas não foram andas demais e não mudaram muita coisa. Só achei que os diálogos soaram formais demais, pareceu um pouco não-natural como se todos tivessem a mesma voz.

    Considerações finais: foi um bom texto, só senti falta de uma melhor explicação sobre o que causou o fim do mundo, mas pode ser também que eu tenha perdido alguma das dicas no texto.

  5. Anderson Prado
    3 de maio de 2021

    Ambientação: Perfeita. O ambiente aparece em meio à ação, o que torna o texto extremamente fluido e agradável de ler.

    Enredo: O enredo é muito bom. Dividido em capítulos e repleto de ação, surpresas e reviravoltas, o conto se revelou, entre os textos mais extensos que já li neste desafio, o mais prazeroso de ler.

    Escrita: A escrita é excelente, mas algo solene, formal, com uma colocação pronominal exótica (salvo engado, não se trata de erro, mas de português lusitano).

    Considerações gerais: Fiquei verdadeiramente impressionado com este conto. Ele não é meu preferido, mas é, com toda segurança, um dos melhores (melhores mesmo) que li até agora. Não é um conto curto e, por isso, poderia ser cansativo, mas o enredo bem construído, as descrições enxutas, a ação, as reviravoltas, os personagens bem construídos, a fluidez narrativa e tudo mais de bom que o texto tem torna este conto delicioso de ler. É um 10 com muitos louvores.

  6. Kelly Hatanaka
    1 de maio de 2021

    Ezequiel,

    gostei muito de seu conto. Uma pegada meio Mad Max, meio Handsmaid’s Tales, muito envolvente. Abaixo, meus comentários.

    Ambientação:
    Muito bem feita. Dá para sentir o calor abrasador, a secura do ar, o desalento e o abandono. Causam estranheza os relatos da vida que havia antes. Dão a impressão de que aquele cenário se instalou em pouco tempo, o que aumenta a sensação de desamparo e desorientação.

    Enredo:
    Gostei da separação por capítulos e do fato de não haver um único protagonista. São pequenas cenas que, isoladamente, mostram pedaços de humanidade se perdendo. E que, no conjunto, dão uma visão aterradora e extremamente verossímil desse mundo pós apocalíptico.

    Escrita:
    Uma escrita limpa e precisa, ao mesmo tempo crua e poética e muito envolvente. Eu embarquei totalmente na história já nas primeiras linhas.

    Considerações gerais:
    O fato de todos os personagens dividirem o protagonismo me deram a impressão de que, na ausência de autoridades e regras sociais, cada qual acaba se tornando o protagonista de sua própria história, para o bem e para o mal.

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Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.