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Detox Literário.

[EM] O Fim do Mundo de Alaor (Basílio de Queiroga)

Faltavam cem segundos para o fim do mundo…

Alaor leu a terrível notícia no jornal. É um homem de meia-idade, reservado, sem posição política definida, sem muitos sonhos ainda a realizar, e historicamente apegado às tradições, como gostar de ler o jornal impresso no início da manhã e com o rádio sintonizado em seu programa preferido. Nunca tinha lido que existia o tal “Relógio do Apocalipse”, era assim que o chamavam na matéria. Descobriu que os ponteiros deste relógio estavam há muito tempo estáticos, e que o tempo é relativamente diferente neste relógio, não se marca o fim ou o início do dia e da noite como nós seres humanos estávamos acostumados. Eles marcam o tempo que a humanidade ainda tem como expectativa de vida, e que o avançar ou o retroceder dos ponteiros estavam ligados diretamente à imbecilidade que os humanos tem para acabar com tudo e de só pensar em riquezas. O autor da matéria não havia escrito aquelas palavras, a interpretação de Alaor havia pedido até alguns palavrões para adjetivar o homo sapiens, mas ele se conteve como sempre fez.

Sua esposa o chamou pelo nome, apesar de saber onde ele nestes últimos anos, sempre estaria de manhã. Trouxe-lhe o café preto e sem açúcar por causa do diabetes e uma torrada com manteiga dos dois lados. Ele sorriu e ela depois de segundos intermináveis sorriu de volta, estava embutido na troca de sorrisos quase melancólicos o diálogo da manhã: como passou a noite? Eu muito bem e você? Já tomou os seus remédios? E você, já tomou o seu? Não sei como você agüenta estas musicas! E as notícias do jornal, continuam as mesmas? O seu time ganhou? Me deixe acabar de ler que daqui a pouco lhe conto… Não teve coragem de dizer à mulher que o fim do mundo estava próximo. Esqueceu um pouco a leitura e a fitou voltando para a cozinha, o vestido esgarçado e as pernas com algumas veias salientes. Se contasse a ela, talvez pensasse que tinha embirutado de vez, andava reclamando a ela que ultimamente a memória não andava lá essas coisas. E justamente na hora em que todos os neurônios voltaram para novamente pensar no fim do mundo, o locutor anunciou a música de Cartola, “Preciso me encontrar”.

Sentiu um baque ao escutar o inicio dedilhado da música e depois a marcação dos instrumentos ganhando corpo e volume e a voz de Cartola a lhe chamar para dar o fora dali e aproveitar seus últimos segundos de vida, seus últimos cem segundos. Olhou em volta e sentiu asco. Sentiu como se estivesse fora da curva da vida, tantas coisas a aproveitar e agora aquele mundo ou pelo menos a vida de que todos tinham conhecimento, iria findar-se em tão pouco tempo. As palavras e a melodia entravam em seus ouvidos e também em seus poros e ele ali, a olhar aquele café sem gosto e a torrada com todas as suas restrições. Foi uma retrospectiva bem rápida, exatos os três minutos que durou a música: foi um bom marido na medida do possível, bom pai na educação dos filhos, que agora crescidos tinham seus próprios problemas. Foi um bom funcionário da empresa que trabalhou por mais de trinta anos, mesmo que em alguns momentos um soco bem dado no nariz diminuiria consideravelmente os embates diários. Foi um bom amigo, mesmo que agora a maioria de suas amizades estava morta e os que ainda continuavam vivos, Alaor evitava encontrá-los por não suportar as suas eternas reclamações. Foi um bom cristão, mesmo sabendo que em alguns momentos ele poderia ter feito uma oração e um pedido com mais fervor. Foi um bom irmão, mesmo não suportando na maioria das vezes as imperfeições do seu sangue. Foi um bom filho, mesmo sabendo que poderia ter dito aos pais que os amava mais do que eles pensavam. E então como resultado de suas avaliações, descobriu-se que era apenas bom em tudo e com o fim do mundo mais próximo a cada segundo, a sua chance de ser ótimo em alguma coisa diminuía com um estalar de dedos.

Cartola deu ainda mais ênfase no refrão. “Deixe-me ir, preciso andar” ficou martelando na cabeça de Alaor, os segundos para o fim do mundo andando cada vez mais depressa e ele a ponto de chorar sem saber o que fazer. A mulher o tirou daquele transe, lhe perguntando o que queria de almoço e como ele não lhe respondeu, permanecendo com os olhos esbugalhados e tristes, decidiu ela mesma, já voltando para a cozinha, que seria bife de peito de frango e salada de brócolis e tomate. Foi neste momento que de dentro do peito de Alaor surgiu um rompante que não surgia há vários séculos. Olhou tudo em volta até que os seus olhos encontraram a janela e dentro dela o mundo, mesmo que por uma ironia este fosse de forma quadrada. Esticou a vista o máximo que pôde, mas não conseguiu ir além de algumas quadras, porque os olhos não funcionavam mais direito e os prédios a toda volta limitavam a visão. Mas decidiu que não queria mais aquele limite, queria como na música ultrapassar aquela barreira e aproveitar ao máximo aqueles segundos restantes. O rompante ainda vociferava no peito e já se espalhava por outros tecidos e órgãos: já que os humanos estão acabando com o mundo, que eles vão à merda e me deixem aproveitar tudo o que eu puder.

O programa preferido acabou, várias músicas foram tocadas depois de Cartola, os minutos da manhã já haviam sido quase todos consumidos e nada do fim do mundo iniciar. Coitado de Alaor, levou a interpretação da notícia ao pé da letra, que mesmo sendo este um relógio, o do Apocalipse só movimentaria os ponteiros se os humanos assim o quisessem. A vida continuava da mesma forma, preservando as suas esquisitices e idiossincrasias de cada região do planeta. Não havia risco de asteróides, terremotos, inundações ou qualquer tipo de fim com interpretação religiosa. Pelo menos por enquanto e a não ser nos filmes, o mundo continuava inteiro e funcionando normalmente, com uma indisposição aqui e ali, mas nada que não pudesse ser recuperado. Dona Ivana, a mulher de Alaor, veio contar-lhe sobre uma fofoca e dizer que iria sair para comprar o frango e terminar o almoço. O encontrou estirado sobre o tapete com os mesmos olhos esbugalhados e tristes. Deu um grito de desespero ao perceber que o havia encontrado já sem vida.

Não era rompante e nem um embate contra a vida monótona que havia levado. Alaor teve um infarto fulminante e que levou a sua vida toda de uma vez.

O fim do mundo pode acontecer de várias formas, o de Alaor começou no coração…

6 comentários em “[EM] O Fim do Mundo de Alaor (Basílio de Queiroga)

  1. Fheluany Nogueira
    7 de maio de 2021

    AMBIENTAÇÃO –
    O espaço-temporal do dia-a-dia habitual ao protagonista, interpretado e internalizado subjetivamente como um mundo coerente. O clima é bem construído, apesar de certa discrepância ao relatar a idade do de Alaor: meia-idade; mas já trabalhou trinta anos em uma firma e toda a sua caracterização e da mulher mostra um casal de idosos.

    ENREDO –
    Uma realidade certa que comanda as atitudes do protagonista, quando aparece a notícia de fim-do-mundo. Então, esta realidade é suspensa e traz desorganização mental e a busca de uma nova organização — o mundo quadrado (ótima metáfora).

    O texto fala sobre morte, inevitável, a certeza de que um dia a vida chega ao fim. O foco de interesse, assim, seria como o homem lida com a morte; seus medos, suas angústias, suas defesas, suas atitudes diante da morte.

    ESCRITA –
    Leitura fluente, prazerosa, ágil, que leva o leitor, de idade aproximada ao protagonista, a se identificar com ele.

    CONSIDERAÇÕES GERAIS:
    Um conto reflexivo, meio melancólico. No pequeno mundo de todos os dias está também o tempo e o lugar da eficácia das vontades individuais — abordagem bastante diferenciada dos outros trabalhos; aqui é retratado o senso comum do fim-do-mundo, sem fantasias ou ficção científica, o Realismo de Eça de Queirós.
    A narrativa se fechou muito bem com as múltiplas conotações da palavra “coração”.

    Parabéns pela ideia e boa sorte no desafio. Abraço.

  2. thiagocastrosouza
    5 de maio de 2021

    Ambientação: cotidiana, sem grandes desafios. Um ambiente doméstico e bem descrito.

    Enredo: Carregado de ironia, flertando com a crônica e brincando com a maneira literal do personagem enxergar o mundo, que o levou à ruína. Há também uma reflexão sobre o caminho que percorremos e como as escolhas que fazemos influenciam no estado presente das coisas. Me divertiu, mas não foi muito além.

    Escrita: Como disse, um estilo de crônica, até pela escolha do retrato doméstico que o autor quis desenhar. Marcado pela normalidade do começo ao fim do texto, a frase final tem um impacto positivo.

    Considerações gerais: um conto de fim de tarde ou, como Alaor, para se ler num começo de domingo. Aborda o fim dos tempos fora do gênero FC e Fantasia, o que é um respiro no desafio, indo por um caminho mais interpretativo. O que é o fim, de fato?

    Grande abraço!

  3. Ana Lúcia
    4 de maio de 2021

    Ambientação: Achei interessante e consegui imaginar a cena se desenvolvendo muito bem
    Enredo: Achei uma ideia interessante, consegui praticamente ver o casal
    Escrita: foi bem fluida e achei que mesmo o texto sendo curto conseguiu servir ao que se dispõe. Como alguém disse o fato de ser dinâmico fez muito sentido por a história se passar pela visão de um dos personagens junto de seus pensamentos
    Considerações gerais: uma boa história mesmo curta e extremamente criativa a viradinha no final.

  4. Lucas Julião
    4 de maio de 2021

    Salve, salve Basílio! Pelo jeito deixaram o melhor para o final, se continuar assim eu vou poder morrer feliz antes de acabar essas correções. Mas vamos lá, apontando os problemas do texto, inclusive.

    Ambientação: Boa, coisa simples! Uma tensão dentro de casa de um cara preocupado com o fim da vida e sua pequenez. Como um conto deve ser. Mas tem um erro crasso aqui. Tu começa falando que ele é um homem de meia idade; ou seja, entre 40 e 50 anos, mas logo em seguida ele já tá na maior idade com a maioria dos amigos mortos? Isso é um problema importante para a história, ainda mais por que a idade do personagem é importante para o desenvolvimento da trama e como o conto é curto o problema fica mais evidente.

    Enredo: Somos todos Alaor! O nome não sei se é dos melhores. Mas esse mundo que acaba e não acaba, que a gente quer que acabe logo mas a gente quer viver mais… Não tem coração que aguente.

    Escrita: Achei que poderia ser um pouco mais fluída. Mas teve boas jogadas.

    Considerações gerais: Não é um conto de fim do mundo mas como o fim do mundo é elaborado dentro da cabeça do personagem me faz o ver como um conto sobre o fim do mundo. Foi o único texto aqui que “finge” um fim do mundo que trabalha isso de forma verdadeiramente criativa. Não é um jardim em pânico ou um recomeço; mas as tensões do apocalipse e é isso que eu espero. 8,0/10

    Alias, esse conto daria um excelente curta

  5. Anderson Prado
    2 de maio de 2021

    Ambientação: O conto até está bem ambientado, mas a adequação à literatura de gênero é duvidosa.

    Enredo: O enredo é bom: o mundo de um pode não ser o mundo de todos, então o final do mundo pode ser o fim de apenas uma de suas partes. Assim, o fim do eu o fim do próprio mundo.

    Escrita: A escrita está muito bem encaminhada: as melhoras possíveis são poucas.

    Considerações gerais: Como de regra não gosto da literatura de gênero, acabei por gostar muito desse conto. É um nota 9,9!

  6. Kelly Hatanaka
    2 de maio de 2021

    Olá Basílio.
    Você apresenta um conto muito intimista e cheio de sentimento, de que gostei muito. Abaixo, meus comentários.

    Ambientação:
    Eficiente. Não houve grandes descrições, mas não foi necessário. O desenho da vida doméstica e o apego à rotina foram o suficiente para me levar a uma sala, aos barulhos de uma casa e ao som meio chiado de um radinho.

    Enredo:
    O enredo se desenrola na cabeça de Alaor, que faz um balanço da própria vida, quando crê que o fim do mundo se aproxima. Por fim, ele estava certo, mas não da forma como imaginava.

    Escrita:
    Um texto agradável de ler, fluido e dinâmico, como se fossem mesmo os pensamentos de alguém, correndo, passando para o próximo.

    Considerações gerais:
    Foi uma abordagem diferente do tema, e bastante adequada. A rotina e a monotonia são muito bem retratadas e a história é agradável de ler.

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Informação

Publicado em 1 de maio de 2021 por em EntreMundos - Fim do Mundo.