EntreContos

Detox Literário.

Magnum Opus (Dróide)

A menina avançou timidamente pelo trilho da floresta. Vestia um simples vestido branco surrado, tinha o cabelo em desalinho, a cara suja, os olhos lacrimejantes, o coração apertado de quem foge quando não tem sequer idade para sofrer o que já sofrera. Um dia viu na porta aberta para a rua a sua esperança e correu como nunca tinha corrido antes. O pai estava bêbado, como era seu hábito, caído no sofá como um morto na campa. A mãe trabalhava no mercado, só viria à noite, depois de limpar a casa de uma senhora idosa de quem Aline não guardava boa memória.

Quando parou de correr, deu-se conta de que estava perdida no meio do nada. À sua volta só via árvores e arbustos bravos que lhe fustigavam a pele. Estava habituada a andar no mato, mas aquele era diferente. Matara a sede num riacho de águas geladas, mas a fome corroía-a por dentro e forçava-a a continuar. No cimo do monte viu uma casa rodeada por um muro alto. Alisou o cabelo como pôde. Empurrou o pesado portão de ferro e entrou sem um único segundo de hesitação. Sentiu-se uma ladra, mas não era a primeira vez que o fazia. Pressentiu de imediato a presença de um cão que corria para ela e lhe ladrava ameaçadoramente. Ela limitou-se a ficar quieta. O cão, um pastor alemão com uma bocarra imensa que lhe arrancaria a cabeça de uma só dentada, ficou quieto. Rodeou-a, cheirando-a. Aline esticou a mão sem qualquer receio. O cão deixou que lhe acariciasse a cabeça.

– Chama-se Einstein, e é como eu, não costumo gostar de visitas inesperadas. – Anunciou um homem que estava junto à soleira da porta da grande casa. Devia ser mais ou menos da idade do pai de Aline, mas era magro, quase escanzelado. Tinha uns grandes óculos escuros que lhe escondiam o olhar. A voz era fria, com um sotaque estrangeiro. Aline sentiu mais medo dele do que do cão, mas não podia voltar para trás.

– Os teus pais?

Ela abanou a cabeça, mantendo o seu silêncio habitual. Nunca falara na vida. Aline, a muda. Era assim que ouvia as pessoas falarem dela, esquecendo-se de que a pequena Aline podia ser muda, mas não era surda.

– Já percebi. Para além de visita inesperada, não falas.

Aline assentiu com a cabeça.

– Fugiste de casa?

Aline assentiu novamente com a cabeça.

– Percebo. Entra. Podes ficar até amanhã. Tomas banho, lavas esse vestido imundo. Vais à cozinha e preparas um lanche. Amanhã de manhã segues o teu caminho. Eu tenho trabalho a fazer. Não me incomodes. Combinado?

O homem entrou em casa, deixando a porta aberta. Aline entrou atrás dele, notando logo pela desarrumação que ele devia viver sozinho há bastante tempo. Havia livros, caixas, roupas e coisas estranhas que Aline nunca tinha visto na vida. Deu-se conta de que estava sozinha. Encontrou o caminho para a cozinha. Também ali havia a mesma desordem. Pratos sujos, comida estragada pelo chão. Aline encontrou leite, pão e um bom naco de marmelada. Comeu, depois viu uma esfregona. Limpou a cozinha até deixar o chão a brilhar. Fez o mesmo ao corredor e à sala. Só depois foi tomar banho. Encontrou um roupão branco que lhe servia de vestido. Lavou o vestido e foi para a sala (onde estranhou a inexistência de uma televisão), deitou-se no sofá e adormeceu profundamente. Acordou já o dia tinha nascido. Estava coberta com uma manta. O Einstein dormia no chão, a seu lado. Aline levantou-se, decidida a manter a sua promessa. O homem estava na cozinha, a tomar o pequeno-almoço.

– Bom dia. – Disse ele. Ela limitou-se a acenar. O vestido estava seco, num canto da cozinha onde havia duas máquinas, uma de lavar roupa e outra de secar.

– Toma o pequeno-almoço.

Aline olhou para a mesa. Havia pão, doce de laranja e leite. Sentou-se e serviu-se como se não comesse há mais de quinze dias.

– Tem calma. Sabes escrever? – O homem deu-lhe um caderno e uma caneta. Aline assentiu com a cabeça.

– Escreve o teu nome.

Ela escreveu: “Aline”.

– Muito bem, Aline. Tens para onde ir?

Ela abanou a cabeça.

– Que idade tens?

Ela escreveu “13”.

– Muito bem. Se quiseres, podes ficar. Eu chamo-me Lucas, como o evangelho. O Einstein gostou de ti e ele não costuma gostar de desconhecidos. No entanto, Aline, para ficares não podem haver segredos entre nós. Quem é que te fez isso? Eu vi as marcas e também sei do teu segredo.

Aline olhou fixamente para Lucas, atirou para trás a cadeira num estrondo e desapareceu da cozinha numa fúria. Saiu da casa e encarou o grande portão de ferro. Por trás, ela já sabia o que havia, um longo caminho pela floresta. Para além dele, os pais. Fechou os olhos. Uma lágrima caía-lhe pela face. Aquelas memórias que ela tanto queria evitar vieram-lhe à mente como uma tempestade forte. Memórias de dor. Lembrou-se da primeira vez. A mãe saíra para trabalhar. O pai estava desempregado. Ficava em casa a beber. Um dia levou-a para o quarto. Vamos brincar, disse ele. Começou a tirar-lhe a roupa. É uma coisa normal, disse ele, mas no seu íntimo, a aterrorizada Aline sabia que não era. Vais acostumar-te, disse ele. Ela nunca se habituou. Passou a evitar o pai. Por medo ou vergonha, nunca contou à mãe. Um dia, a gravidez tornou-se evidente. A mãe, mais preocupada com os vizinhos do que com a própria filha, arrastou-a para o quarto e bateu-lhe na barriga. Nada aconteceu. No dia seguinte, uma amargurada Aline viu na porta aberta da cozinha o seu único sinal de esperança e fugiu.

Lucas sentou-se a seu lado.

– Se não tens para onde ir, podes ficar. Acho que me vou arrepender desta minha decisão. Vai chegar um dia em que vais precisar de ajuda e eu só percebo de máquinas. Queres ficar?

Aline assentiu.

– Então, vem comigo. Vou mostrar-te o que eu faço.

Aline seguiu-o. Einstein colou-se a ela como uma sombra. Nos fundos da casa, ao lado da cozinha, havia uma passagem para um segundo edifício, o maior onde Aline alguma vez entrara. Só via máquinas e peças e coisas com luzes a piscar e a acender.

– Sou inventor. Trabalho para as maiores empresas do mundo. Refugio-me aqui para conseguir ter calma, excepto nas alturas em que meninas de 13 anos me batem à porta. Agora, vou mostrar-te a minha maior invenção.

Aline seguiu-o, não conseguindo tirar os olhos de tudo o que via. Queria saber o que aquilo fazia. Talvez assim conseguisse esquecer a sua dor. Lucas abriu a porta e acendeu a luz de uma sala que parecia uma sala de estar normal – sendo que aquela, sim, tinha televisão. No sofá estava uma pessoa, que se levantou. O inventor colocou-se a seu lado e Aline teve um dos maiores choques da sua vida: à sua frente estavam dois Lucas. À direita estava o Lucas real. À esquerda estava um segundo Lucas, em tudo parecido, mas com traços visíveis da sua natureza: era uma máquina. Na pele transparente dos braços notavam-se peças metálicas, a face era rude, quase uma caricatura do verdadeiro Lucas. Estendeu a mão para Aline.

– É a minha magnum opus, a minha obra-prima. O Dróide. Fi-lo para mim, com peças que sobraram dos outros projetos. Sabe quase tudo o que eu sei e faria de mim o homem mais rico do Universo se eu o vendesse.

Com algum receio, Aline apertou a mão ao Dróide. Não sentiu dor alguma mas, mesmo assim, ficou duplamente muda de espanto.

– Não está acabado, nem nunca vai estar. Eu não sou Deus, sou um mísero engenheiro, um aprendiz de feiticeiro dos tempos modernos.

Aline sorriu. Sim, agora tinha a certeza de que queria ficar ali. Nos meses que se seguiram, ela fez companhia a Lucas e ajudou-o no que podia. Ele surpreendeu-se pela facilidade com que aprendia, e quando deu por isso já era o seu pequeno braço direito. Quando terminava, ela gostava de ficar na sala a ver televisão com o Dróide. Adormecia com a cabeça encostada ao seu regaço e ele ficava quieto a noite toda, com medo de a magoar. No seu cérebro cibernético definira duas certezas: Lucas era o seu Deus Criador, Aline era o anjo que o ensinava a dançar.

Às terças-feiras de manhã. Lucas pegava no carro e dirigia até à pequena cidade que ficava junto à costa, quase a trinta quilómetros de distância e, pelas contas de Aline, suficientemente afastada de casa dos pais para não ter de se preocupar. Usava roupa larga, pelo que a barriga não criava motivos de curiosidade. Gostava de ir às compras com o inventor, que parecia ser uma pessoa bastante conhecida. A todos ele apresentava Aline como sendo uma sobrinha que perdera os pais num terrível acidente. As pessoas sentiam pena de Aline e davam-lhe presentes que ela recebia de bom grado e com um sorriso aberto. Ao chegar a casa do inventor, gostava de mostrar os seus presentes ao Dróide, que desatava a fazer perguntas às quais ela não conseguia responder.

Um dia, meses depois de Aline ter chegado àquela casa, ela sentiu dores fortes. Queixou-se a Lucas, que bastou ver as calças molhadas de Aline para saber que estava em trabalho de parto. Chegara o momento que ele temera desde que se apercebera da gravidez da menina. Tentou ajudá-la como podia e sabia, mas o corpo dela era demasiado pequeno. Aline iria morrer a menos que ele fizesse aquilo que não queria. Ligou ao médico da cidade, que demorou quase uma hora a chegar. Uma hora de verdadeiro terror para Lucas, que viu espelhado no rosto do médico um esgar de nojo assim que se apercebeu da situação. Improvisou com láudano a anestesia e fez a Aline uma cesariana na mesa da cozinha. Ela, não completamente inconsciente, sentiu enquanto o médico a abria. Ele tirou a criança e entregou-a a Lucas com um ar agastado e sem trocarem uma única palavra – depois de suturar a ferida, foi-se embora sem aceitar pagamento.

Na terça-feira seguinte, na sua habitual ida à cidade, Lucas apercebeu-se da mudança na forma como as pessoas o encaravam. Um silêncio incómodo imperava agora, substituindo a conversa fácil de outrora. Toda a cidade sabia do que tinha acontecido – e pensavam que ele era o pai da criança.

Regressou a casa angustiado. Esperava conseguir explicar o que se tinha passado na realidade, sem conseguir perceber como um ato de misericórdia para com uma menina que um dia lhe batera à porta se transformara no ódio que vira patente nos rostos das pessoas. Não teve tempo: uma semana depois do nascimento de Marcos, Lucas apercebeu-se de diversos carros que subiam a estrada. Foi acordar Aline, que dormia ao lado do filho. Explicou-lhe o que ela deveria fazer. Aline abanou a cabeça, em pânico. Lucas deu-lhe um beijo na face, depois foi buscar a espingarda e ficou à espera.

Ela pegou delicadamente no filho, deitou-o na alcofa, subiu ao quarto de Lucas. “Terceira gaveta da esquerda”, dissera-lhe. Tirou um maço de notas e desceu as escadas, ainda sem conseguir andar bem por causa dos pontos. Pegou na alcofa, passou pelo laboratório às escuras – ela sabia perfeitamente o caminho, mesmo sem ver. Puxou a mão do Dróide, que a seguiu até ao carro. Ouviu três tiros, depois o silêncio. O portão abriu-se. Eles estavam dentro de casa, a partir tudo. Aline meteu a alcofa no banco de trás do carro. O Dróide foi para o lugar do condutor. Uma Aline ofegante e de coração apertado entrou para o lugar de trás. O Marcos começou a berrar. Ela pegou nele. O Dróide ligou o carro e avançou lentamente. Passaram pelo portão traseiro, com Aline a olhar para trás. Viam-se chamas a começar a devorar a casa, as pessoas em delírio, um corpo no chão. Foi ao vê-lo que Aline, desfeita em lágrimas de raiva, soltou o único berro que daria na vida: “Lucas!”

 Depois continuaram a fazer a estrada sem nunca olhar para trás.

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.