EntreContos

Detox Literário.

Teoria ou verdade da Criação (Ceuci Gaia Darwin)

“Neste dia, os meios de comunicação noticiam a morte do maior ícone da ciência moderna e descobridora da verdadeira Teoria da Criação. Aquilo que para nossos estudantes é captável em qualquer de nossos elmos científicos com extrema facilidade, não o era antes que Dagmar Buono Trama nos trouxesse luz sobre o que conhecemos agora como Teoria da Criação pela deusa.

As questões de ordem e gênero foram melhoradas desde que ela observou melhor o que parecia ser apenas ficção na ideia da destruição dos sabinos e aprisionamento das sabinas apontadas por um escritor hoje esquecido.  Vale lembrar que os sabinos desse escritor não parecem ser os mesmos das lendas da antiga Roma.

Antes, o mundo divergia em diversas teorias da evolução, tendo aquela que Darwin defendia como a maior delas, em contrapartida da versão mítica da gênese bíblica. Oh, desculpem-me, esqueço que alguns realmente ainda acreditam na Bíblia como livro de fé. Perdoem-nos, amigos espectadores e menta-ouvintes do nosso fórum. Mas voltemos à Dagmar. Nascida em 2122 da era passada, este ano ela completaria 121 anos. Jovem ainda, sua luz se apaga no momento em que há o surgimento de certo obscurantismo e que algumas vozes tentam calar a nova ciência, dando voz ao velho jeito de praticar ciência, o que aqui para nós, pessoas mais cultas são apenas crenças populares.

Dagmar nasceu exatamente no ano em que a ideia de casamento, como os antepassados conheciam, deixou de existir e passamos a ter relações matrimoniais com pessoas que pensam  como nós. E, por isso, convidamos alguém especial para falar sobre Dagmar, sua esposa, Salma Junqueira. Salma foi contratada, como vocês sabem, através do programa de distribuição internacional e competiu com outras trinta pessoas. Foi a escolhida. E o foi com treze milhões de votos dos espectadores! – ou melhor, menta-espectadores, como ela prefere – do canal oficial.

− Como é para você perder uma pessoa com quem conviveu nos últimos quarenta anos? Você não foi sua primeira esposa, por certo?

− Olá! Saudações científicas e boas vibrações para todos os ouvintes e menta-espectadores. Começo pela segunda resposta. Não sou sua primeira esposa, antes de mim veio Arlete Souza, que iniciou a catalogação de todo o material de pesquisa da Dagmar. E a primeira pergunta: Está sendo difícil. Até porque agora terei que conhecer outra pessoa e reiniciar todo o protocolo de conhecimento e junção de vida. E, infelizmente, ainda tenho pouco reconhecimento para ir direto trabalhar, ou melhor, casar com alguém do porte de Dagmar.

− Não acreditamos! Para nós você jamais precisará passar por um programa de observação mundial para ser esposa de algum de nossos cientistas. Este ano, alguns perderam seus parceiros de vida.

− Sim. Mas desde que a minha folha acadêmica foi liberada, pela madrugada, tive poucas visitas.

− Verdade! Agora a liberação de folha acadêmica é automatizada! Assim que um parceiro se apaga, os dados curriculares são liberados para acesso. Bem, mas falemos de Ciência… Com o ‘decesso’ de Dagmar, fica aberto o posto de reitoria da Universidade Mundial, correto? Já há apostas para a nova contratação? Quero dizer, além das que já esperávamos?”

***

A entrevista seguiu nesses parâmetros, nada novo desde que alguém resolveu misturar jornalismo com conversa fiada. Os jornalistas de alguns semanários se acham tão superiores aos menta-espectadores que acreditam que perguntar quem substitui quem na hierarquia universitária é falar de ciência. Não sabem ou não querem entabular uma conversação mais centrada no tema que eles mesmo acreditam defender.

Neste momento de perda científico não ficaria feio pontuar as conquistas da grande mulher que é entubada por decesso hoje. Não lembram que ela conseguiu com sua teoria colocar a mulher não mais no centro do debate, mas no comando do mundo, uma vez que descobriu a verdade escondida na Teoria da Evolução de Ceuci, que veio substituir a de Gaia, ultrapassada e misógina, apesar do apelo aparentemente feminino, trazia em si todas as marcas do poderio masculino.

Também não falam de sua importância para toda a reforma da comunicação que eliminou os aparelhos de abotoaduras e substituiu por elmos científicos e de entretenimento, além de ampliar o uso das lentes de captação onírica e de ondas mentais tão necessárias para a evolução do homem  hodierno e a manutenção da ordem e segurança mundial. Não vemos em nenhum canal distribuidor de menta-programação dados sobre a importância de seu trabalho de linguagem que enxugou a língua mundial dos ruídos idiomáticos que nos fazia diferentes e fracos.

A colaboração de Dagmar Buono Trama nos deixou muitíssimos mais ricos e eliminou de vez todo o mal da pobreza com seu programa de ordenamento embrionário. A vida dela se apaga, mas deixa-nos iluminados por seus saberes.

***

A divagação do auxiliar de câmera do menta-canal mundial e a entrevista continuaram no mundo dos animados. Mas ambas não servem mais ao nosso propósito, afinal, com o decesso,  Dagmar segue para outra realidade.

Nada de entrevista com jornalistas de pensamentos abióticos.Voltemos nossos olhos para a extinta. No mundo desconhecido desses seres pós-evoluídos aconteceria outra. Era o que os primatas da criação chamariam de juízo final.

Dagmar olhava absorta à sua volta. O lugar desconhecido, cheio de seres etéreos a olhar-lhe com misericórdia e complacência, como se ela fosse o ser raro, já a perturbava. Estava acostumada a ser olhada de baixo para cima e, quando muito, de igual para igual. Mas, ali, apesar de fixarem-na à mesma altura, ela se sentia inferior. Se ela aceitasse a ideia de pecado, sentir-se-ia imunda, herege. Mas seu caráter era humano e sua postura, apesar de ser para os outros um arremedo de igualdade, era apenas reflexo de um complexo de inferioridade recém-adquirido e mal resolvido.

Não reconhecia ninguém e por isso sabia que não estava em um sonho, Também tinha lembrança de não ter colocado as lentes de captação mental antes de se deitar. Havia algo estranho, principalmente em seu corpo, sem dor nenhuma e sem necessidade de tomar todas as “drágeas de vida” que a mantinham ativa e consciente.

De repente, um ser materializou-se à sua frente. Um homem comum, como os outros, e que despertou nos outros seres uma espécie de respeito diferenciado, algo que ela desconhecia. O homem lhe sorriu como um bom pai sorriria, embora ela nunca tivesse visto um pai em ação, sua geração desconhecia a paternidade e a maternidade, e o “esposamento” era apenas um contrato de trabalho, que poderia ou não ter benefícios físicos, que a maioria dos seus consideravam inconvenientes e que ela mantinha a  mesmíssima opinião.

O homem a olhou e ela soube que ele a conhecia, totalmente, sem mentalizadores e sem aplicativos de menta-visão. De novo aquela sensação de não estar no lugar correto, passou por sua mente muito acesa. E ele sorriu.

O sorriso era uma informação! E ela captava. Entretanto informava que preferia a fala. Ela assentiu, acanhada como nunca fora.

− Então você é a doutora Ciência?

Ela assentiu, sem palavras.

− E acredita que eu não existo, que sou uma mentalização humana?

A curiosidade da cientista floresceu.

− Então és Deus!

− Pode me “tutear’, Dagmar. Não sou dado a estas coisas de hierarquia. Pode perguntar o que quiser.

As pessoas sentaram-se sobre as pernas, atentas aos dois seres que ali se encontravam. Não estavam curiosos, ela percebeu, era apenas assistência. E ela os aceitou, como fazia com os alunos da universidade que a rodeavam ávidos por comer de seu conhecimento. Porém, ali ela sabia que era apenas mais um transeunte da vida futura. Uma vida desconhecida.

− Então o senhor criou todas essas coisas, mesmo? Não é uma Teoria? 

E ele não respondeu, apenas ergueu uma das mãos, enquanto a outra depositou em um menino ali sentado. E, à sua frente, o que ela reconhecia como uma espécie de céu, mas que se diferia do que conhecia enquanto animada, abriu-se algo como uma tela gigante, como as do museu do televisor, e surgiu o início de tudo. A escuridão, o primeiro dia, o segundo e até a criação do homem. E olhando fazia sentido. Ela percebia toda a Ciência que envolveu o processo, todas as estruturas do DNA e suas funções, muitas ainda desconhecidas. Reconhecia todo o mover evolutivo e emaranhado de formação do que se conhece e se determinou evoluído ou criado durante os séculos serem de novo construídos à sua frente, tão fácil para sua compreensão como a como a receita de drágeas da vida.

Na mente de Dagmar só surgia o desespero da cientista; o mundo precisava conhecer toda esta verdade. De repente um velho filósofo fazia sentido, ali diante dela estava a constatação do óbvio “As realidades mais sublimes devem ter outra origem, que lhes seja peculiar”

E o mundo “reacontecia” ali, na sua frente, destruições que a história humana e nem a Bíblia tinham contado. Mudanças na forma da terra, não essa coisa de mundo plano, redondo ou ovo de Colombo. Eram coisas muito mais sérias. O porquê de outros planetas e a explicação dos motivos que tornaram impossível um verdadeiro povoamento de alguns desses espaços. Tudo ali, à sua frente, de fácil entendimento.

A certeza de que sua ciência era só onirismo abalou suas estruturas cognitivas, que por sinal estavam tão ativas de maneira que ela nunca experimentara. E o homem que era Deus, e era como qualquer homem, sorriu com bonomia.

Dagmar implorou por voltar. Faria tudo diferente. O mundo seria melhor. E ele apenas a olhava, e seu olhar somente compreendia seu desespero. Então, ela gritou:

− Eu creio! E todos lhe sorriram como quem não lhe acreditasse e ele respondeu:

− Não crê. Apenas, festá convencida porque viu e entendeu.

− Ora, mas Tomé só creu depois de lhe tocar

Ele sorriu de novo.

− Tomé não me tocou. Tocou no Filho. E ele só duvidou de algo realmente inacreditável, a Criação é crível. Você viu e entendeu.

− Se eu não voltar, Senhor, os homens permanecerão no erro.

− Não permanecerão. Há muito mais que os sete mil do profeta, e eles mantêm acesa a fé, apesar dos pesares.

E Dagmar se perguntava em que lugar estavam. Ela sabia que não seriam ouvidos o que ela e que ela silenciado com o saber.

E ele, sabedor de seu inquietamento, lhe disse:

− Não se preocupe. No tempo certo, Ciência e Fé se ‘reabilitarão’ e todos conhecerão a verdade que agora é uma imagem difusa.

E ela insistia em palavras e pensamentos, desesperada por voltar.

− Dagmar, você não é um novo Elias, é no máximo um Lázaro e merece a resposta que ele receberia se aqui estivesse. – Mesmo se alguém ressuscitar dos mortos, não acreditarão. Os olhos deles estão fechados, Dagmar, como os seus estiveram. Os olhos  estavam fechados pelo orgulho, pois lhe dei em vida todas as respostas, mas você preferia sempre acreditar apenas no que via em sonhos.

E ela precisava acreditar. Lembrava que um dia vira uma frase em uma embalagem antiga, e porque era em francês, havia decorado “du sublime au ridicule il ný aquún pas”. E era assim que ela via, antes, a Criação de tudo. Um passo além do sublime, como erroneamente traduzira da primeira vez. E não era além, era só um passo e agora via o quão belo era, e nada podia fazer para mudar o que estava feito

E, como Lázaro, ela se calou…

Horas depois, já não estava ali e nem conhecia mais seu destino, mas a voz respondia à sua constante ânsia de voltar: “Os olhos deles estão fechados, Dagmar, como os seus estiveram.” E ficou a certeza: Ele não tinha escondido nada, conhecedor do poder destrutivo do homem, não achou necessário dar-lhe a fórmula original da Criação.

Mini Glossário

Decesso – do espanhol, deceso: morrer

“du sublime au ridicule il ný aquún pas”.

Traduzido do francês:
“Do sublime ao ridículo não há mais que um passo.”

Thomas Paine,Citado por Shopenhauer

“As realidades mais sublimes devem ter outra  origem, que lhes seja peculiar”.

 De Cadernos de Nietzsche

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.