EntreContos

Detox Literário.

Gênese (Duk)

Naquele ponto, bastou-lhe um escorregão. Uma casca de banana deixada à toa no caminho do trabalho e ali estava ele, a epítome do patético: o homem no auge da evolução, trajando sua roupa de sucesso, caído desarticulado como uma marionete privada de suas cordas, exposto publicamente ao ridículo de sua condição de bípede caído.

Já passara por todas as agruras e prazeres que a vida podia lhe oferecer, concluindo que a pouca satisfação das delícias não compensava o muito dano das dores. O mundo, concluíra, não valia o esforço de habitá-lo, mas, na falta de outra alternativa, precisava seguir em frente.

Até que seguiu para baixo. Entre o pé na casca da fruta e a cara esborrachada no chão, seu destino se fez claro. Não conseguir se equilibrar sobre suas patas era a humilhação derradeira.

Precisava deixar o planeta.

Recompôs-se e seguiu em passos firmes tentando conciliar o óbvio de sua constatação com o óbvio de sua impossibilidade. Morrer seria submeter-se ao escárnio final da desistência, estava fora de questão. Isolar-se em lugar ermo tampouco seria escapatória — o mundo é mundo em qualquer lugar do mundo, e os ecos da humanidade ressoam em todos eles.

Precisava, então, criar um novo planeta.

E assim o fez. Se não era possível sair do chão, faria do chão embaixo de si seu próprio mundo. Ao avistar um enorme terreno baldio no caminho, dirigiu-se até o centro do lugar, sentou-se e decretou que de lá não arredaria mais pé. A terra embaixo de si seria seu novo planeta. Não pensou em como supriria suas necessidades, a maior de todas já estava suprida. Escapara. Renascera. Era senhor do seu universo. Sua nova vida começava ali.

***

Com o tempo, aquela figura despertou atenção. Sujeito bem apessoado, saudável, vestindo terno e gravata, parado no meio do nada. O terreno há muito estava ali, sequer sabiam a quem pertencia, há anos acumulava lixo e capim. Os vizinhos, intrigados, se aproximaram, fazendo perguntas, oferecendo ajuda. O homem se mantinha impassível, olhar fixo no vazio, não dizia palavra. Alguns até o sacudiram tentando lhe trazer de volta à realidade, sem sucesso. O homem era insensível a qualquer estímulo.

Os mais caridosos lhe deixavam comida. Ele não agradecia, mas aceitava, com uma curiosa exceção com as bananas, sempre as arremessando longe. Os mais cruéis o provocavam, zombavam, o fustigavam com empurrões e objetos arremessados. Mas, diante sua indiferença, as agressões rapidamente perderam a graça.

Não demorou para sua fama se expandir. A história se espalhou pelas redes sociais, ganhou matéria na televisão e logo curiosos aparecerem de toda parte para vê-lo, tirar selfies com ele — que não posava, mas tampouco reagia –, dar-lhe presentes e questionar se algo de maior havia em sua obstinação. Nunca conseguiam extrair-lhe uma palavra, o que só aumentava o mistério, a admiração e até certo temor ao redor daquela figura fascinante.

***

Bastaram algumas semanas para aparecer o primeiro. Sem nome ou justificativa, igualmente engravatado, sentou-se no terreno, não tão próximo a ponto de incomodar seu guia, mas perto o suficiente para admirá-lo em toda a sua transcendência. Dias depois, a segunda, mal saída da adolescência, trajando terno masculino e se fixando no terreno. Os próximos não tardaram; mesmas vestes e comportamento. Em poucos meses já passavam de dezenas. Os vizinhos primeiro acharam graça, depois acharam estranho, demoraram até perceberem que era assustador: ali, à luz de seus olhos, estava se formando um culto silencioso.

Que silencioso deixou de ser com a chegada de Pedro. Com traje e sorriso impecáveis, carismático e comunicativo, chegou ao terreno — que já ganhara a alcunha de Templo dos Engravatados — tentando estabelecer diálogo entre os participantes. Encontrou resistência, mas sabia construir argumentos convincentes.

Contou que fora ao Templo após receber, em sonho, a visita do Gravata — nome que lhe fora anunciado durante o encontro onírico. Nele, o mestre lhe revelara que sua mensagem estava sendo mal interpretada: não era silêncio que ele queria, e, sim, uma melhor comunicação. O mundo estava beirando o apocalipse por conta das palavras que todos gritavam e ninguém entendia, pelo veneno das redes sociais, das notícias falsas, das agressões verbais, dos discursos de ódio. Esse era o mal da sociedade moderna. E o Gravata — um profeta! — teve a iluminação de perceber que não se podia combater palavras com palavras. Fez, então, o grande sacrifício. Poupou todas as suas palavras para que os outros entendessem que estavam desperdiçando as deles. Ele silenciou por nós, repetia Pedro.

Aos poucos os engravatados foram sendo convencidos pelo novato. Sua ideia fazia sentido e, embora não admitissem, estavam ansiosos para falar. Tanto que não mais calaram: debatiam sobre as ideias não ditas do Gravata, reuniam-se em círculos à sua volta para louvá-lo, entoavam canções sobre sua sabedoria e abnegação.

Esse novo padrão tornou o culto ainda mais atrativo para as almas perdidas que para lá migravam e ainda menos suportável para os vizinhos. Passaram a hostilizar os engravatados e a chamar a polícia frequentemente. Mas não havia crime sendo cometido e as tentativas de negociação eram sumariamente ignoradas.

Eles pareciam frágeis, mas eram imbatíveis.

***

Quando o número de engravatados atingiu o terceiro dígito, e o terreno já parecia pequeno para a expansão habitacional, Pedro teve outra revelação: dali a alguns dias, aniversário de silêncio do Gravata, ele diria suas primeiras palavras. Talvez uma única frase, mas que serviria de pedra fundamental para o renascimento da civilização.

A ansiedade fez o tempo acelerar e prontamente estavam todos prostrados perante o Gravata, esperando seu direcionamento divino, mas o homem permanecia mudo e indiferente. O que queres de nós, oh, mestre, clamou Pedro, sendo imediatamente ecoado pelos demais, criando um coro contínuo da indagação.

Durante horas o homem manteve-se estático, mas aos poucos a insistência da pergunta entoada foi desmanchando sua inércia. Os olhos fitaram sua multidão de seguidores, o rosto enrubesceu intensamente, as veias do pescoço dilataram e ele finalmente liberou sua voz, respondendo à questão com a força que apenas um ano de silêncio permite resguardar.

— Quero que vocês vão para a casa do caralho!

O som do vociferar reverberou por todo o terreno, pela vizinhança, pelos arredores e atravessou cada um dos que ouviram seu brado ensandecido. E seguiu reverberando pelo tempo.

Porque foi ali a gênese do Caralhismo.

***

Alguns engravatados ficaram atônitos diante do berro do Gravata, que, de pronto, voltou à sua quietude habitual. Mas Pedro não titubeou em sua função de intérprete da Palavra.

Caralho! Sim! A mensagem estava clara. Nos dias de hoje, o profeta não viria com palavras doces. Porque era isso que estava faltando à sociedade: virilidade. Chegara a hora dos homens assumirem o poder com ordem e autoridade. Moralizar o mundo. E o pênis — o tão relegado pênis — assumiria de vez o seu protagonismo. Afinal, não é ele quem jorra o leite da vida? Não foram sempre os homens o vetor de mudança da humanidade? O mundo se desvirtuou e era preciso voltar ao centro de tudo: o pênis. Por isso as bananas não eram comidas. Tal fruto fálico havia de ser sagrado.

A ala masculina do grupo se encantou com a ideia. As mulheres, a princípio, relutaram. Mas depois viram que não estavam em posição diferente da qual sempre estiveram em qualquer outro culto. E nesse, ao menos, tinham direito à igualdade de vestimenta.

***

A palavra do Caralhismo se expandiu rapidamente. O interesse daqueles que detinham o poder foi súbito. Não tardou para que se construíssem templos, as grandes Casas do Caralho, onde os caralhistas se reuniam para celebrar o poder do Pênis.

Curiosamente, a população homossexual, temerosa pela ascensão de um ideário de masculinidade conservador, foi a primeira beneficiada. O conceito de homossexualidade simplesmente deixou de existir. Sendo o pênis o centro do universo, não havia incômodo que outros homens se interessassem por ele — a virilidade e a força haviam de ser admiradas também pelos viris e fortes. Para muitos, essa foi a resposta para os sentimentos que sempre resguardaram dentro de si. Até líderes religiosos largaram seus cultos e se juntaram à causa caralhista.

 Já relações entre mulheres pararam de ser vistas como sexo. O que, mais uma vez, mostrou que o Caralhismo não mudava muito a vida feminina.

A penetração na política também foi rápida. Brasília foi tomada de assalto por uma esmagadora maioria de homens rústicos em ternos mal ajambrados. As mulheres tinham pouca representatividade, e só eram bem quistas aquelas que se apresentavam submissas. A engendrada estratégia fez com que poucos notassem a diferença.

Pedro, o grande guardião da Palavra, encaixou-se perfeitamente na vida pública. Logo tornou-se presidente. Com sua retórica infalível, seduzia com o discurso do Pênis acima de tudo e de todos e estava sempre pronto para posar com seu famoso gesto fazendo pequenos falos com os dedos.

O povo caiu de amores por figura tão imponente.

Também houve ruídos. A subida caralhista deixou cicatrizes. O momento de maior tensão foi a Revolta das Bananas, quando uma emenda constitucional proibiu o consumo da fruta, considerando-o escárnio de objeto de culto religioso. Os que argumentavam que a banana era apenas um fruto comum, consumido até por animais na natureza, eram taxados pejorativamente de bucetistas e atacados ferozmente pelos engravatados que se multiplicavam por todos os lugares.

Ficou claro que o Caralhismo venceria: a maioria dos homens estava realmente disposta a colocar o pênis acima de tudo. E de todos.

***

Hoje, a expansão caralhista rompe fronteiras rapidamente. Tem se espalhado por todos os continentes, angariando seguidores em cada um deles. O mundo tem se tornado uma grande Casa do Caralho, e o planeta, segundo o revisionismo caralhista, um enorme falo: criou-se a ideia de que o universo se formou através da Ejaculada Divina e que a Terra tem formato peniano. Polos Norte e Sul são a base escrotal do planeta, responsáveis por resfriar o grande magma terreno que um dia explodirá numa onda a conduzir a humanidade ao paraíso. Mas é preciso aceitar a Palavra do Pênis para ascender no dia do Gozo Final.

O meio científico é agora o último bastião de resistência ao avanço do Caralhismo. Historiadores se recusam a acreditar que as pirâmides ao redor do mundo, ícones de diferentes civilizações, sejam afiadas pontas fálicas apontando para o céu; biólogos se opõem à ideia de que os primeiros seres humanos foram gerados espontaneamente de uma poça do sêmen primordial; astrônomos lutam contra a tese de que a Via Láctea recebeu esse nome por uma impublicável inspiração divina.

Porém, os ataques caralhistas contra seus opositores são cada vez mais virulentos. A imprensa é posta em descrédito e outras religiões são vistas como amaldiçoadas. Ganha força o movimento dos Nacionalistas Austeros Zeladores Imaculados — ou simplesmente NAZI — formado por caralhistas extremistas, que pregam um confuso ideal de eugenia masculina. Seu brasão, formado por duas bananas cruzadas, mais conhecido como Cruz de Aço, causa pânico em parte da população. Os adeptos justificam o uso dizendo se tratar apenas de um antigo símbolo religioso.

Os que ainda lutam contra o Domínio do Pênis estão cada vez mais desanimados.

O futuro, ao que parece, já foi pro Caralho.

***

Décadas se passaram e o homem continuava ali, sentado em meio ao nada, imerso em seu próprio universo. No começo recebia muitas oferendas. Tinha o suficiente para começar uma vida de riqueza. Mas permanecia quieto, imóvel, calado.

Com o passar do tempo, foram lhe dando menos atenção. Alguns até se aproximavam e tentavam comunicação. Mas ele nada dizia. Muitos já questionavam se em algum momento ele realmente falara algo e, nesse caso, se fora compreendido. Tudo nele parecia contrário à filosofia criada após sua única frase.

Demorou, mas o mundo do qual ele desistira eventualmente desistiu dele. Jamais o removeram do lugar; sua figura ainda causava algum temor. Mas os presentes espalhados pelo terreno foram saqueados, esculturas feitas em sua homenagem quebraram e viraram pó, tudo voltou a ser lixo e capim.  Até mesmo a comida começou a rarear; poucos ainda se importavam em alimentá-lo.

Por fim, seu corpo velho e esquelético quedou inerte. Tão quieto em morte quanto fora em vida.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.