EntreContos

Detox Literário.

Caminho do Céu (Battousai)

Faz tanto tempo… mas ainda lembro daquela época . Foi quando o continente de Lastania passou anos sem chuvas e nosso verdejante país havia se tornado um grande e desolado deserto.

Meu pai era um militar aposentado e usou suas economias para comprar umas terras localizadas no sul de Gravanna, onde eu nasci. Ele não estava bem de saúde e tratou de preparar a terra para que nunca nos faltasse alimentos. Minha mãe me deu o nome de Malo, isto significa na língua dos Criadores “aquele que trabalha na terra”, ou seja, “agricultor”. Meu pai me ensinou algumas técnicas de luta, mas não queria me ver seguindo seu passos. A carreira militar foi desgastante para ele, encurtando sua vida.

Uma grande seca assolou o continente. Espécies de animais morreram ou partiram para outras localidades. As plantações foram perdidas, as flores murcharam. Muitas pessoas partiram e somente aqueles com poços ou grandes reservatórios de água conseguiram sobreviver por este tempo. Eram dois poços que nos mantinham, mas nossa colheita pouco vingava. Ao saber de novos tipos de sementes, desenvolvidas por alquimistas da terra, resolvi partir para a capital com a intenção de comprar o suficiente para garantir as próximas colheitas.

Vesti minha capa verde com capuz, passei um creme caseiro para não ressecar no deserto. Minha mãe preparou um pão de viagem e uma bebida verde que supririam todas as minhas necessidades ao longo do trajeto. Ajeitei o punhal de meu pai na cintura; ainda existem ladrões por aí. E parti por um longo caminho, através dos campos desertificados e descansando durante o dia nas vilas vazias, continuando o percurso durante a madrugada.

Era de madrugada quando avistei Tarsa, capital de Gravanna. As partículas do ar seco machucavam minhas narinas, mas eu não queria mais parar para descansar. Cheguei pela manhã e via uma grande e decadente cidade. Praticamente vazia, ocupada por vagabundos.

Enquanto eu caminhava para o mercado da cidade três sujeitos esquisitos, vestindo trajes largos e compridos — onde escondiam suas facas — se aproximaram, tentando me cercar. Andei mais rápido e eles puxaram suas armas, na frente de outros cidadãos.

— Ei, viajante. Sabemos o que tem nessa trouxa que carrega — disse um deles, com um sorriso maldoso.

— Por favor, me deixem. O pouco que tenho é para alimentar minha família. Estou exausto, não façam isso comigo.

Um dos homens riu, mas os outros fecharam a cara. Parece que eu os tinha irritado mesmo. Então vieram simultaneamente para cima de mim.

— Por favor, não me mate! — gritou um dos homens, caído no chão após ter a coxa perfurada pelo meu punhal. Justamente o mais corajoso e debochado do grupo.

Eles fugiram feridos e com marcas para lembrá-los a nunca mais tentar roubar um viajante cansado e faminto. Fui ao mercado da cidade, local pouco movimentado. Acredito que naquele momento eu estava sendo observado e que eu não era visado apenas para roubo, mas para algo mais perverso.

Comprei minhas sementes e procurei uma estalagem para repousar, antes de partir à noite. A estalajadeira foi gentil em me oferecer um chá sem me cobrar nada. Tomei a bebida rapidamente e caí na cama.

Quando acordei, me dei conta de que havia sido sequestrado. Estava deitado, com tornozelos e pulsos amarrados em uma pedra fria.

— O que está acontecendo aqui? Me soltem! — gritei, ainda sonolento e sem entender o que estava acontecendo.

De repente, um homem usando túnica branca e com a cabeça raspada se aproximou:

— Sou sacerdote-mestre do templo de Iksio, o mantenedor das águas continentais de Lastania. Vamos te oferecer em sacrifício para trazer as chuvas novamente.

— Ei! Quem disse que isso vai funcionar? Você vai me matar por nada!? Me solta, por favor! — eu estava quase rasgando meus pulsos tentando sair dali.
Mas o sacerdote-mestre continuou frio e se afastou. Eu não sabia onde estava naquele momento. Ali era o pátio externo do templo, em cima de um antigo altar para sacrifícios humanos, abolidos séculos atrás. Eu seria somente mais uma vida desperdiçada. Que água esperavam, jorrando sangue em troca?

Chegou o sacerdote-mestre e seus auxiliares. Seguraram-me com força e o mestre se aproximou com sua faca meia lua para me degolar.

Ouvi gritos de dor e desespero. Abri meus olhos e todos os sacerdotes foram esmagados e engolidos vivos por imensas jiboias. Ao tentar me soltar, as cordas estavam frouxas. Levantei e corri para fora do templo, quando uma adocicada voz falou em minha mente:

— Meu nome é Álbia, mantenedora dos animais terrestres de Lastania. Vi em seu coração a coragem e bondade para cumprir uma grande missão e salvar sua terra da morte iminente.

Sua voz me trouxe tanta paz e confiança que me tornou capaz de aceitar qualquer missão imposta. Eu não tinha dúvidas de que se tratasse de uma entidade superior.

— O que preciso fazer? — perguntei um pouco incrédulo na minha capacidade de realizar o solicitado.
Houve um breve silêncio. Então, algo muito rápido começou a se aproximar. Parecia estar voando. Nada que andasse sobre a terra poderia ser tão rápido… então ele  desacelerou ao se aproximar e parou bem na minha frente. A longa e esvoaçante crina negra caiu sobre seus olhos, mas ele jogou a cabeça para trás e depois voltou seus profundos olhos para mim.— Ele se chama Trevo e será seu novo companheiro de viagens. Mas, cuidado: seu gênio forte pode te deixar em apuros. Portanto, trate-o com respeito, então poderão ser amigos pelo resto da vida.

Trevo tinha amarrada à sua cela uma bolsa de fios reforçados, mas com uma delicadeza e técnicas sem igual. E ainda tinha uma espada embainhada. Tomei em minhas mãos e puxei com cuidado, o reflexo da lua cheia quase me cegou. Por fim, uma pequena caixa, contendo algumas folhas verdes.

— Espero que tenha apreciado os presentes. A bolsa foi confeccionada por mim e a espada forjada pelo meu pai, Saustério, o grande mantenedor das ferramentas e armas. Use-a sempre para a justiça.

— Obrigado, senhora. Pode confiar em mim, honrarei teu nome sempre. — saltei no cavalo e partimos.

Álbia me instruiu mentalmente ao longo da viagem. Seguimos para o norte, a grande floresta do Meio Norte. Apesar dos anos de seca, a floresta ainda existia, com as devidas mudanças por causa da seca continental. A primeira tarefa seria coletar coco negro e encher a bolsa que enviou. Mas a árvore era muito rara e ficava em local de difícil acesso, mas eu conseguiria chegar lá com o Trevo. Após descer por um perigoso desfiladeiro, cheio de galhos retorcidos, alcancei uma árvore baixa, no fundo de um vale. O local era incrivelmente agradável, úmido, fresco e com água correndo por um riacho. Sem perda de tempo, coletamos o fruto e voltamos pelo mesmo caminho.

Ainda por dentro da mata, percebi que estávamos sendo observados. Trevo hesitava em seguir meus comandos, deixei-o escolher a melhor rota. Mas não deu tempo, flechas saíram de trás de árvores e passavam rente às nossas cabeças. Trevo correu de um lado para outro, tentando se esquivar, enquanto ficávamos cada vez mais perdidos na mata. Por fim, ele se desequilibrou e caiu, fui arremessado para perto de um barranco; por pouco despencaria vinte metros. Corri para ver meu cavalo e havia um ferimento de raspão na coxa esquerda. Desembainhei minha espada e esperei o bando se aproximar.

— Vão embora! — gritei. — Não entregarei nada a vocês.

Flechas voaram em nossa direção, consegui repelir com a espada. Algumas foram na direção de Trevo.
— Estou avisando, vão embora! Se continuarem atirando contra mim e ao meu cavalo, não terei piedade.

E novos ataques a flecha vieram. Identifiquei a direção dos tiros, corri e cortei algumas árvores que, ao cair, derrubaram os arqueiros, que desmaiaram. Um homem apareceu com um machado tentando acertar minha cabeça. Eu esquivei e montei guarda com a espada. Sem dizer uma única palavra ele veio pra cima de mim. Em um erro de ataque, uma brecha se abriu para que eu pudesse atravessá-lo com minha espada. Ao retirar a lâmina do corpo dele, vi que havia outro homem armado com uma espada, mas este se acovardou e fugiu. Corri até ao cavalo e o vi ao lado do corpo de um arqueiro, com o pescoço quebrado.

— Boa, Trevo! Você nos salvou. Vamos!

O destino agora era a região dos moinhos de Oniran, região serrana na parte oeste do país. Não perderei muito tempo com detalhes, encontramos um vilarejo onde fomos recebidos, a princípio, com desconfiança. O ancião da vila reconheceu Trevo e a espada que eu carregava.

— Somente homens valorosos podem empunhar uma espada forjada pelo próprio mantenedor das armas, o Grande Saustério. — disse o ancião, diante de toda a vila. Senti-me honrado, mas um tanto envergonhado.

Utilizamos o moinho para esmagar os frutos raros e obter um óleo que enchesse uma grossa garrafa de vidro. Havendo sobrado muito cocos negros, dei alguns para que o ancião decidisse o que fazer. Descansamos naquela noite e partimos ao amanhecer.
Atravessamos o país em grande velocidade. Cruzamos a fronteira de Gravanna com Debisco, um pequeno reino ao sul. Depois da fronteira, iniciam-se os domínios das Terras Neutras. Não se trata de um país, mas um território sem dono ou senhor — território inconquistável —, onde se localiza a Cordilheira das Almas e o pico mais alto de todo o continente: o Caminho do Céu.

Coloquei uma folha na boca e fui mastigando ao longo da subida. O sabor era amargo, mas deixava meu organismo resistente aos efeitos da altitude; mas só até certo ponto. Ultrapassando o nível das nuvens, passei a sentir mais os efeitos da altitude, só que mais leves do que sem mascar a folha. Trevo não precisava; ele era inabalável. E quando parecia que nunca mais eu pararia de subir, avisto uma caverna, por onde entro e as tochas se acendem.

— Você chegou, Malo. Parabéns. — a voz de Álbia me trouxe o vigor perdido durante a subida

Caminhei mais à frente e vi uma grande máquina, com longos cabos e encanamentos. Enfim, entendi o que haveria de fazer lá. Tirei da bolsa a garrafa com…
— Não faça isso! — fiquei surpreso como tom assustado de Álbia. — Não vai precisar. Você pode resolver com suas próprias mãos. Só você pode.

Ao subir no grande motor, vi que uma engrenagem que estava emperrada. Não saberia dizer que material estava causando a obstrução, mas bastava puxar com cuidado, até mesmo para que eu não caísse ali. Foi mais fácil do que imaginei e o motor voltou a funcionar. Um som que foi ficando cada vez mais alto conforme as rodas giravam, então ouvi a água sendo bombeada. Ela vinha do oceano e a máquina a convertia em nuvens. Saí da caverna e vi abaixo de mim o céu tornar-se nebuloso. Aquilo encheu meu coração de alegria. Foi o momento mais feliz da minha vida, até então.

— Bom trabalho, Malo. Seu feito jamais será esquecido; nem por eles e nem por nós. Suba a rampa ao lado da caverna.

Montei no corcel e subimos. Encontrei a entrada para a morada dos mantenedores de Lastania. O grande portão dourado estava aberto e a voz de Álbia nos convidava. Atravessei, saltei do cavalo — que ficou para comer a rica grama do jardim — e continuei caminhando. Não estava mais sob os efeitos da altitude. À minha frente estava a mais bela mulher que vi na vida.

— Seja muito bem-vindo, Malo. Enfim, estou frente a frente com o mortal mais corajoso que conheci. — quando ela sorriu, eu esqueci o que iria dizer.
Eu só tinha dezenove anos.

— Trouxe o óleo que te pedi?

— Ah, sim! — prontamente tirei a garrafa da bolsa e entreguei um suas mãos.

— Este óleo é incrível. Obrigada.

— Pensei que fosse para as máquinas.

— É para temperar uma salada especial, que só eu sei fazer. Como poderia recebê-lo da melhor forma, após tudo que você fez pelo seu mundo?

Entramos e ceamos. Naquela noite, minha mãe dormiu tranquila. Dias prósperos vieram para todos nós.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.