EntreContos

Detox Literário.

A Cela de Ferro (Fast Fingers Dwight)

Ela lançou-se novamente contra as grades da cela onde se encontrava, mas apenas conseguiu machucar o ombro. Sentou-se no chão de ferro oxidado, e esfregou a parte de cima do braço, tentando reduzir a dor.

Não sabia como chegara ali. Também não se lembrava de onde estava antes disso. Não fazia ideia de como se chamava, nem no que trabalhava. Estava nua e não se recordava de nenhum amigo ou de passatempo que gostasse. Toda a sua existência era uma página em branco. Tudo o que conhecia era aquela pequena cela de dois metros quadrados.

Abaixou a cabeça e chorou sem nem mesmo compreender porquê. Deixou que as lágrimas saíssem porque precisava, e sentiu-se melhor à medida que escorriam pelo seu queixo, descendo por entre os seios.

Limpou os olhos com as mãos e levantou-se. Pela primeira vez tomou consciência que havia outras celas nas proximidades. Percebeu então que não eram bem celas, estavam mais para gaiolas, feitas do mesmo metal enferrujado. Estavam organizadas umas em cimas das outras, formando duas enormes paredes, uma à sua direita e outra à sua esquerda. A exceção era a sua própria, que parecia estar sozinha a não ser por duas outras gaiolas, uma à sua frente e outra atrás, separadas, talvez, por uns vinte metros.

Se bem que à frente e atrás fossem relativos. Onde quer que estivesse, não tinha a menor noção de tempo ou de espaço. Não vira céu nem teto, apenas uma cor arroxeada difusa que parecia adensar-se até se transformar na mais profunda escuridão.

Continuou com o seu exame e viu que cada gaiola tinha outro ser humano, tão nu quanto ela própria estava. Olhavam-na com a mesma curiosidade com que ela os olhava e, ao sentir-se observada, compreendeu que não tinha vergonha da sua nudez.

Gritou para os outros, tentando perguntar-lhes que lugar era aquele e como é que haviam chegado ali, mas as suas palavras saíram disformes e sem sentido, com se ela fosse um mudo tentando falar. Em choque, levou a mão à boca. «Deus, o que fizeram comigo?» Compreendeu que, embora fosse capaz de pensar, esquecera-se de como pronunciá-las.

E não fora só ela. Das outras gaiolas era capaz de ouvir os mesmos gritos desafinados que acabara de emitir, e teve a certeza de que os seus companheiros de infortúnio também estavam a tentar comunicar-se. Teriam eles as respostas às suas perguntas, ou estariam tão perdidos quanto ela? Será que todos ali eram tábulas rasas, desprovidos de lembranças ou de histórias? Teriam eles vivido de todo?

Estavam distantes demais para que conseguisse ver-lhes as expressões dos rostos, mas a maneira como se movimentavam denotava confusão. Teria ela morrido e ido parar ao inferno dos desmemoriados, significasse aquilo o que significasse? Não era provável. Mesmo na morte tinha que haver a memória da vida. Sem a lembrança, deixa-se de existir.

Também não acreditava em reencarnação. Não sabia explicar o porquê, mas tinha a certeza  que só se vive uma vez, indo-se depois para onde quer que se vá. Mas então onde é que estava e como havia chegado ali?

Naquele momento foi jogada no chão. Tanto a sua cela quanto as outras que estavam perto de si moveram-se ao mesmo tempo, numa simetria perfeita. Moveram o suficiente para que a sua gaiola passasse a ocupar o lugar da que estava à sua frente, como se estivessem na linha de montagem de uma fábrica de automóveis.

Mais dores. A queda magoara-lhe as costas. O pior é que já tinha quase esquecido da dor no ombro. Levantou-se e reparou que a sua cela estava em cima de uma esteira feita do que parecia ser um couro muito grosso e resistente.

O chão ao seu redor estava completamente repleto de rodas dentadas presas umas às outras, num enorme mecanismo que parecia controlar a esteira. Tentou compreender a lógica do que via, mas era tudo surreal demais. Sentou-se, agarrou as grades e ficou à espera de novo movimento.

Uma eternidade mais tarde, ouviu um barulho. As engrenagens moveram-se e, tal como ela esperava, a esteira também. Segurou-se às grades com mais força, mas, mesmo assim, sentiu a aceleração puxando-a para trás. Reparou que havia percorrido a mesma distância que percorrera com o último movimento.

Não conseguia compreender o que estava a acontecer, mas continuou à espera. O que mais podia fazer? Sempre com os mesmos intervalos, a esteira voltou a mover-se por mais quatro vezes, até que ela viu uma enorme grua com três pás na extremidade do seu braço.

A grua girou e desceu sobre a gaiola à sua frente. Ouviu o grito de desespero do seu ocupante quando as pás se fecharam sobre ela — duas prendendo as laterais, e a terceira a parte de baixo —, elevando-a do solo a dezenas de metros de altura e levando-a para algum lugar que não conseguiu descortinar.

Foi assaltada por um barulho muito intenso que lhe fez doer a cabeça. Era um som ritmado, quase como o ribombar de diversos trovões. Percebeu finalmente que estava a ouvir o seu próprio coração a bater violentamente em resposta ao nervosismo. Obrigou-se a acalmar, mas só pensava que, muito em breve, a sua cela estaria dentro do alcance daquele monstro metálico. Voltou a chorar.

Foi pega desprevenida pelo movimento e, mais uma vez, arremessada ao chão. Gritou quando as pás se fecharam sobre as grades da sua cela. Pensou que seria esmagada, mas não. Foi levantada num movimento que inclinou a gaiola, derrubando-a sobre as grades. Urinou-se de medo, enquanto via o chão mover-se lá em baixo.

Finalmente foi pousada com um baque surdo e respirou aliviada ao ver outra gaiola à sua frente, ainda que muito mais afastada da sua. Era impossível ver com clareza quem estava dentro dela, mas estava vivo e bem.

Ali não havia mais as paredes de celas empilhadas, apenas a esteira, as engrenagens do chão e a gaiola à sua frente. Muito distante, via a silhueta de uma montanha envolta em fumo branco.

A cela voltou a mover-se, derrubando-a no chão mais uma vez. Já estava cheia de manchas roxas e o corpo doía muito. Não muito tempo depois, moveu-se uma e depois outra vez. Notou que o intervalo entre as deslocações era menor, e a aceleração maior. Mal conseguia segurar-se. Caiu diversas vezes e estava tomada por hematomas. A dor era tão forte que nem mesmo conseguia ficar em pé.

Também estava muito cansada. A força que fazia para agarrar-se às grades e não cair minara toda a sua resistência. Queria deitar e dormir, mas não era capaz. Toda a vez que fechava os olhos, pensava nas pás da grua a fecharem-se sobre si.

Uns quantos movimentos depois conseguiu distinguir a montanha que, afinal, não era nenhum acidente geográfico, mas um gigantesco ser humanoide com centenas de metros de altura. Tinha quatro asas, que mantinha descansadas junto às costas. A cabeçorra tinha quatro rostos: o da frente era de um homem extremamente bonito; o da esquerda era de um touro, com dois enormes chifres; o da direita, de um leão com uma imponente juba dourada; e o de trás era o de uma águia, com um bico de cobre afiado como uma espada.

À frente da criatura estava uma alavanca de ferro que lhe chegava à cintura. De tempos em tempos o gigante empurrava-a com a mão direita, fazendo girar as engrenagens que movia a esteira. Ao ver o ser e a alavanca, caiu no chão como se estivesse morta e não teve forças para voltar a levantar-se.

Os intervalos agora eram mínimos, e os puxões da aceleração, fortíssimos. O seu corpo era jogado constantemente contra as graves e a dor era excruciante. Sem quase conseguir levantar a cabeça, percebeu que, já muito próximo, estava a origem do fumo branco que subia até à montanha.

Era uma espécie de buraco iluminado, talvez um caldeirão, não conseguia ver bem por causa da cela à sua frente. Dele subia uma fumaça muito quente e húmida, como o vapor que sobe de uma panela a ferver. Naquele momento surgiu outra grua e desceu sobre a gaiola, prendendo-a pelas laterais.

A esteira moveu-se e ela viu, em desespero, que a cela foi impulsionada para dentro do caldeirão. A grua impediu que a gaiola caísse, mas o chão abriu-se, fazendo com que o seu ocupante  desabasse dentro do líquido abrasador e da neblina que dele subia.

Tentou gritar, mas não conseguiu. Já não tinha forças e o seu tempo estava quase a acabar. Chorou as poucas lágrimas que lhe restavam enquanto a grua voltou a descer, selando o seu destino. Era agora. Num movimento rápido, sentiu o corpo rodar e começar a cair. Finalmente veio o choque final e a dor extrema que se seguiu. «Deus, vou morrer?»

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Marina deu um grito e empurrou, sentindo que, finalmente, aquele pequeno corpo passara pelo meio das suas pernas, num jato de sangue e líquido amniótico que salpicou por completo o médico. Chorou de alegria ao ouvir o choro estridente do bebé que sugava o ar pela primeira vez e estendeu os braços, recebendo a criança repleta de sujidade.

«É uma menina.» Ouviu alguém dizer e chorou ainda mais. Sentiu o abraço do seu marido e, de repente, já não era capaz de se lembrar da dor que, até alguns segundos atrás, era excruciante. Num gesto instintivo, aconchegou-a junto ao seu peito, aquecendo-a com o calor do seu corpo.

«Você nasceu, meu bebê.» Disse com a voz cheia de ternura. «Foi difícil, mas agora você está aqui. Minha pequena Júlia, eu te amo tanto! Bem vinda a este mundo.»

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.