EntreContos

Detox Literário.

Caminho do Céu (Renato Silva)

Faz tanto tempo… mas ainda lembro daquela época . Foi quando o continente de Lastania passou anos sem chuvas e nosso verdejante país havia se tornado um grande e desolado deserto.

Meu pai era um militar aposentado e usou suas economias para comprar umas terras localizadas no sul de Gravanna, onde eu nasci. Ele não estava bem de saúde e tratou de preparar a terra para que nunca nos faltasse alimentos. Minha mãe me deu o nome de Malo, isto significa na língua dos Criadores “aquele que trabalha na terra”, ou seja, “agricultor”. Meu pai me ensinou algumas técnicas de luta, mas não queria me ver seguindo seu passos. A carreira militar foi desgastante para ele, encurtando sua vida.

Uma grande seca assolou o continente. Espécies de animais morreram ou partiram para outras localidades. As plantações foram perdidas, as flores murcharam. Muitas pessoas partiram e somente aqueles com poços ou grandes reservatórios de água conseguiram sobreviver por este tempo. Eram dois poços que nos mantinham, mas nossa colheita pouco vingava. Ao saber de novos tipos de sementes, desenvolvidas por alquimistas da terra, resolvi partir para a capital com a intenção de comprar o suficiente para garantir as próximas colheitas.

Vesti minha capa verde com capuz, passei um creme caseiro para não ressecar no deserto. Minha mãe preparou um pão de viagem e uma bebida verde que supririam todas as minhas necessidades ao longo do trajeto. Ajeitei o punhal de meu pai na cintura; ainda existem ladrões por aí. E parti por um longo caminho, através dos campos desertificados e descansando durante o dia nas vilas vazias, continuando o percurso durante a madrugada.

Era de madrugada quando avistei Tarsa, capital de Gravanna. As partículas do ar seco machucavam minhas narinas, mas eu não queria mais parar para descansar. Cheguei pela manhã e via uma grande e decadente cidade. Praticamente vazia, ocupada por vagabundos.

Enquanto eu caminhava para o mercado da cidade três sujeitos esquisitos, vestindo trajes largos e compridos — onde escondiam suas facas — se aproximaram, tentando me cercar. Andei mais rápido e eles puxaram suas armas, na frente de outros cidadãos.

— Ei, viajante. Sabemos o que tem nessa trouxa que carrega — disse um deles, com um sorriso maldoso.

— Por favor, me deixem. O pouco que tenho é para alimentar minha família. Estou exausto, não façam isso comigo.

Um dos homens riu, mas os outros fecharam a cara. Parece que eu os tinha irritado mesmo. Então vieram simultaneamente para cima de mim.

— Por favor, não me mate! — gritou um dos homens, caído no chão após ter a coxa perfurada pelo meu punhal. Justamente o mais corajoso e debochado do grupo.

Eles fugiram feridos e com marcas para lembrá-los a nunca mais tentar roubar um viajante cansado e faminto. Fui ao mercado da cidade, local pouco movimentado. Acredito que naquele momento eu estava sendo observado e que eu não era visado apenas para roubo, mas para algo mais perverso.

Comprei minhas sementes e procurei uma estalagem para repousar, antes de partir à noite. A estalajadeira foi gentil em me oferecer um chá sem me cobrar nada. Tomei a bebida rapidamente e caí na cama.

Quando acordei, me dei conta de que havia sido sequestrado. Estava deitado, com tornozelos e pulsos amarrados em uma pedra fria.

— O que está acontecendo aqui? Me soltem! — gritei, ainda sonolento e sem entender o que estava acontecendo.

De repente, um homem usando túnica branca e com a cabeça raspada se aproximou:

— Sou sacerdote-mestre do templo de Iksio, o mantenedor das águas continentais de Lastania. Vamos te oferecer em sacrifício para trazer as chuvas novamente.

— Ei! Quem disse que isso vai funcionar? Você vai me matar por nada!? Me solta, por favor! — eu estava quase rasgando meus pulsos tentando sair dali.
Mas o sacerdote-mestre continuou frio e se afastou. Eu não sabia onde estava naquele momento. Ali era o pátio externo do templo, em cima de um antigo altar para sacrifícios humanos, abolidos séculos atrás. Eu seria somente mais uma vida desperdiçada. Que água esperavam, jorrando sangue em troca?

Chegou o sacerdote-mestre e seus auxiliares. Seguraram-me com força e o mestre se aproximou com sua faca meia lua para me degolar.

Ouvi gritos de dor e desespero. Abri meus olhos e todos os sacerdotes foram esmagados e engolidos vivos por imensas jiboias. Ao tentar me soltar, as cordas estavam frouxas. Levantei e corri para fora do templo, quando uma adocicada voz falou em minha mente:

— Meu nome é Álbia, mantenedora dos animais terrestres de Lastania. Vi em seu coração a coragem e bondade para cumprir uma grande missão e salvar sua terra da morte iminente.

Sua voz me trouxe tanta paz e confiança que me tornou capaz de aceitar qualquer missão imposta. Eu não tinha dúvidas de que se tratasse de uma entidade superior.

— O que preciso fazer? — perguntei um pouco incrédulo na minha capacidade de realizar o solicitado.
Houve um breve silêncio. Então, algo muito rápido começou a se aproximar. Parecia estar voando. Nada que andasse sobre a terra poderia ser tão rápido… então ele  desacelerou ao se aproximar e parou bem na minha frente. A longa e esvoaçante crina negra caiu sobre seus olhos, mas ele jogou a cabeça para trás e depois voltou seus profundos olhos para mim.— Ele se chama Trevo e será seu novo companheiro de viagens. Mas, cuidado: seu gênio forte pode te deixar em apuros. Portanto, trate-o com respeito, então poderão ser amigos pelo resto da vida.

Trevo tinha amarrada à sua cela uma bolsa de fios reforçados, mas com uma delicadeza e técnicas sem igual. E ainda tinha uma espada embainhada. Tomei em minhas mãos e puxei com cuidado, o reflexo da lua cheia quase me cegou. Por fim, uma pequena caixa, contendo algumas folhas verdes.

— Espero que tenha apreciado os presentes. A bolsa foi confeccionada por mim e a espada forjada pelo meu pai, Saustério, o grande mantenedor das ferramentas e armas. Use-a sempre para a justiça.

— Obrigado, senhora. Pode confiar em mim, honrarei teu nome sempre. — saltei no cavalo e partimos.

Álbia me instruiu mentalmente ao longo da viagem. Seguimos para o norte, a grande floresta do Meio Norte. Apesar dos anos de seca, a floresta ainda existia, com as devidas mudanças por causa da seca continental. A primeira tarefa seria coletar coco negro e encher a bolsa que enviou. Mas a árvore era muito rara e ficava em local de difícil acesso, mas eu conseguiria chegar lá com o Trevo. Após descer por um perigoso desfiladeiro, cheio de galhos retorcidos, alcancei uma árvore baixa, no fundo de um vale. O local era incrivelmente agradável, úmido, fresco e com água correndo por um riacho. Sem perda de tempo, coletamos o fruto e voltamos pelo mesmo caminho.

Ainda por dentro da mata, percebi que estávamos sendo observados. Trevo hesitava em seguir meus comandos, deixei-o escolher a melhor rota. Mas não deu tempo, flechas saíram de trás de árvores e passavam rente às nossas cabeças. Trevo correu de um lado para outro, tentando se esquivar, enquanto ficávamos cada vez mais perdidos na mata. Por fim, ele se desequilibrou e caiu, fui arremessado para perto de um barranco; por pouco despencaria vinte metros. Corri para ver meu cavalo e havia um ferimento de raspão na coxa esquerda. Desembainhei minha espada e esperei o bando se aproximar.

— Vão embora! — gritei. — Não entregarei nada a vocês.

Flechas voaram em nossa direção, consegui repelir com a espada. Algumas foram na direção de Trevo.
— Estou avisando, vão embora! Se continuarem atirando contra mim e ao meu cavalo, não terei piedade.

E novos ataques a flecha vieram. Identifiquei a direção dos tiros, corri e cortei algumas árvores que, ao cair, derrubaram os arqueiros, que desmaiaram. Um homem apareceu com um machado tentando acertar minha cabeça. Eu esquivei e montei guarda com a espada. Sem dizer uma única palavra ele veio pra cima de mim. Em um erro de ataque, uma brecha se abriu para que eu pudesse atravessá-lo com minha espada. Ao retirar a lâmina do corpo dele, vi que havia outro homem armado com uma espada, mas este se acovardou e fugiu. Corri até ao cavalo e o vi ao lado do corpo de um arqueiro, com o pescoço quebrado.

— Boa, Trevo! Você nos salvou. Vamos!

O destino agora era a região dos moinhos de Oniran, região serrana na parte oeste do país. Não perderei muito tempo com detalhes, encontramos um vilarejo onde fomos recebidos, a princípio, com desconfiança. O ancião da vila reconheceu Trevo e a espada que eu carregava.

— Somente homens valorosos podem empunhar uma espada forjada pelo próprio mantenedor das armas, o Grande Saustério. — disse o ancião, diante de toda a vila. Senti-me honrado, mas um tanto envergonhado.

Utilizamos o moinho para esmagar os frutos raros e obter um óleo que enchesse uma grossa garrafa de vidro. Havendo sobrado muito cocos negros, dei alguns para que o ancião decidisse o que fazer. Descansamos naquela noite e partimos ao amanhecer.
Atravessamos o país em grande velocidade. Cruzamos a fronteira de Gravanna com Debisco, um pequeno reino ao sul. Depois da fronteira, iniciam-se os domínios das Terras Neutras. Não se trata de um país, mas um território sem dono ou senhor — território inconquistável —, onde se localiza a Cordilheira das Almas e o pico mais alto de todo o continente: o Caminho do Céu.

Coloquei uma folha na boca e fui mastigando ao longo da subida. O sabor era amargo, mas deixava meu organismo resistente aos efeitos da altitude; mas só até certo ponto. Ultrapassando o nível das nuvens, passei a sentir mais os efeitos da altitude, só que mais leves do que sem mascar a folha. Trevo não precisava; ele era inabalável. E quando parecia que nunca mais eu pararia de subir, avisto uma caverna, por onde entro e as tochas se acendem.

— Você chegou, Malo. Parabéns. — a voz de Álbia me trouxe o vigor perdido durante a subida

Caminhei mais à frente e vi uma grande máquina, com longos cabos e encanamentos. Enfim, entendi o que haveria de fazer lá. Tirei da bolsa a garrafa com…
— Não faça isso! — fiquei surpreso como tom assustado de Álbia. — Não vai precisar. Você pode resolver com suas próprias mãos. Só você pode.

Ao subir no grande motor, vi que uma engrenagem que estava emperrada. Não saberia dizer que material estava causando a obstrução, mas bastava puxar com cuidado, até mesmo para que eu não caísse ali. Foi mais fácil do que imaginei e o motor voltou a funcionar. Um som que foi ficando cada vez mais alto conforme as rodas giravam, então ouvi a água sendo bombeada. Ela vinha do oceano e a máquina a convertia em nuvens. Saí da caverna e vi abaixo de mim o céu tornar-se nebuloso. Aquilo encheu meu coração de alegria. Foi o momento mais feliz da minha vida, até então.

— Bom trabalho, Malo. Seu feito jamais será esquecido; nem por eles e nem por nós. Suba a rampa ao lado da caverna.

Montei no corcel e subimos. Encontrei a entrada para a morada dos mantenedores de Lastania. O grande portão dourado estava aberto e a voz de Álbia nos convidava. Atravessei, saltei do cavalo — que ficou para comer a rica grama do jardim — e continuei caminhando. Não estava mais sob os efeitos da altitude. À minha frente estava a mais bela mulher que vi na vida.

— Seja muito bem-vindo, Malo. Enfim, estou frente a frente com o mortal mais corajoso que conheci. — quando ela sorriu, eu esqueci o que iria dizer.
Eu só tinha dezenove anos.

— Trouxe o óleo que te pedi?

— Ah, sim! — prontamente tirei a garrafa da bolsa e entreguei um suas mãos.

— Este óleo é incrível. Obrigada.

— Pensei que fosse para as máquinas.

— É para temperar uma salada especial, que só eu sei fazer. Como poderia recebê-lo da melhor forma, após tudo que você fez pelo seu mundo?

Entramos e ceamos. Naquela noite, minha mãe dormiu tranquila. Dias prósperos vieram para todos nós.

22 comentários em “Caminho do Céu (Renato Silva)

  1. Renato Silva
    22 de março de 2021

    Em primeiro lugar, gostaria de agradecer a todos que tiveram o trabalho de ler, avaliar e comentar o meu conto. Procuro absorver todas as críticas para buscar melhorar minha escrita, tanto na parte criativa como no uso adequado das palavras e da ortografia. Gostaria de responder a alguns comentários, mas o farei de modo geral.

    A ideia para o conto surgiu logo que ficou definido o tema. Para quem não lembra, o tema escolhido envolvia duas palavras: “engrenagens” e “criação”, podendo o autor abordar os dois termos ou apenas um. Tão logo me veio à cabeça a ideia de uma máquina gigante parada porque algo estaria travando suas engrenagens. A ideia do conto girou toda em volta deste conceito.

    Imaginei um mundo devastado por uma seca persistente e inexplicável. Malo era um jovem agricultor que, provavelmente, nunca sairia da sua terra se não houvesse aquela seca. E tudo que se desenrola ao logo do conto é consequência direta disso. O final foi pensado para ser assim mesmo, com Malo desemperrando a engrenagem da máquina de chuvas e entregando o óleo para Álbia. Sobre o meu conto não estar dentro do tema proposto, peço desculpas, mas discordo veemente. Fiz questão de usar a palavra “engrenagem” uma única vez, ainda para evitar estes comentários. E a “engrenagem” na minha estória não foi colocada lá para “justificar”, ela é o cerne de tudo, o que levou Malo a sair de casa, enfrentar todos os perigos, conhecer Álbia, vencer desafios e subir o pico sagrado, onde nenhum mortal tem permissão para acessar. Se o tema é a palavra “engrenagem”, ela está no texto, é parte dele, então meu conto está 100% dentro do tema proposto.

    O conto original ficou com 4100 palavras, mesmo com muitas partes suprimidas, antes mesmo de serem escritas. Estava em 3ª pessoa, então pensei em colocar para 1ª pessoa para contar de forma mais resumida. Fui obrigado a contar mais e mostrar menos, o que funcionou, reduzindo bastante algumas cenas para caber no formato.

    Eu entendo que muitas passagens não fizeram sentido, acabei cortando o que, naquele momento, não fazia sentido. Há um diálogo entre Álbia e seu pai, onde ela clama para que se faça algo pelo povo de Lastania e pelos seus animais que estão morrendo de fome e sede. O pai dá autorização para que ela interceda e lhe entrega uma espada que ele mesmo forjou. Álbia escolheu Malo por ver nele as qualidades necessárias para realizar sua missão, isso também não significa que ele era o único naquele mundo com tais qualidades.

    Malo foi criado para trabalhar no campo, mas recebeu treinamento de seu pai, um ex-militar. É por isso que ele tem habilidades de luta e sabe se defender quando preciso. O fato de estar exausto por dias de viagem e ter vencido a luta contra três bandidos “pés de chinelo” não me parece incoerente, visto que nosso corpo sempre guarda reservas de energias para momentos de tensão.

    Por que Malo foi capturado para ser sacrificado? No conto original, isso ficava mais claro. Malo era um viajante ingênuo e isso o tornou isca fácil para os sacerdotes que precisavam de jovens que seriam sacrificados com a esperança de que Iksio, o mantenedor das águas, enviasse a chuva novamente. O aparecimento das serpentes naquele momento não é um simples “deus ex machina”, porque Álbia estava procurando por Malo, mas não apareceu neste conto porque foi narrado apenas sob a perspectiva do protagonista. Não foi algo que apareceu simplesmente para salvar sua vida. Além do mais, em uma história de aventura é necessário um pouco de tensão. Se eu tivesse colocado Álbia aparecendo para ele no meio da rua e dizendo “Preciso de você para uma missão”, sem nenhum “complicador”, eu também seria criticado.

    Alguns comentários questionaram a “facilidade” com a qual ele venceu o grupo que o atacou na floresta. Como eu disse, Malo tinha treinamento para combate corpo a corpo e manejo de armas brancas. Não era um soldado “formado”, mas tinha habilidade suficiente para enfrentar aqueles “capangas”. Ele tinha em mãos uma espada especial, forjada por uma divindade, então o esperado é que sua lâmina tenha um poder maior do que uma espada comum. O que é um galho ou o tronco de uma árvore pequena?

    Para desemperrar a engrenagem não era preciso ser um “herói”. Por motivo não explicado, os mantenedores não podem se manifestar no nosso mundo. A casa de máquinas fica no topo do pico Caminho do Céu. Mas para um mortal chegar lá também tinha dois problemas: autorização de um mantenedor e um meio de transporte adequado. Eles não tinham tecnologia e nem equipamento para sobreviver à escalada. No conto integral, é mostrado que Malo sofre um bocado com a altitude, mesmo mascando aquelas folhas especiais. Ele só chegou com a ajuda de Álbia, que lhe entregou um cavalo especial. Trevo era criatura terrestre mais rápida daquele tempo, mas ele não voava.

    A ideia do óleo para salada foi apenas uma “tirada” para que o final não fosse tão previsível. Uma pena que alguns não gostaram e implicaram mais do que eu imaginava. Se malo usasse o óleo para desengripar as engrenagens, aí diriam que era o esperado. Ou poderia ter usado como combustível para a máquina, aí sim o tema “engrenagem” seria citado indiretamente.

    No original, tem uma cena em que a mãe de Malo vê a chuva e se emociona, porque também sabe que foi seu filho o responsável por isso. Não tive espaço, então deixei uma tímida frase ao final sobre ela ter ido dormir feliz.

    Como prêmio por seu feito, Malo foi convidado a jantar com os “deuses”. Uma forma de mostrar o quão valorizado foi seu ato.

    O conto postado no desafio foi escrito no último dia. Perdi muito tempo escrevendo a primeira versão. Depois de tentar resumir o conto original, preferi reescrever, só que em 1ª pessoa. Mas ficou com 2800 palavras. Aí entrou muita coisa na faca. Não deu tempo de ficar relendo e corrigindo, evitando, assim, muitos erros bobos, até mesmo de formatação.

    Apesar de ter na cabeça a ideia de um pequeno “épico”, em nenhum momento pensei em uma novela de cavalaria. Não, era somente uma aventura com ares infantojuvenis, algo no estilo “As crônica de Prydain”. Uma aventura despretensiosa, com linguagem mais coloquial. Sinto muito quem se decepcionou com a linguagem “simplista”, mas em nenhum momento eu tive pretensões de escrever uma obra refinada em um único dia para ser postada em uma oficina literária. Também não tenho quaisquer aspirações a ser um novo Cervantes, que levou em torno de 20 anos para concluir sua magnum opus.

    Não escolhi o pseudônimo Battousai por causa do Rurouni Kenshin (apesar de ser fã da obra), mas pelo que precisei fazer com o conto para caber no desafio: foi retalhado. A foto é do Monte Olimpo, morada dos deuses gregos. O topo do Caminho do Céu é muito mais alto.

    Se faltou eu comentar mais alguma coisa, é só perguntar abaixo.

    Agradeço aos que chegaram até aqui.

  2. Andrea Nogueira
    20 de março de 2021

    Atende ao tema proposto, embora a ‘engrenagem’ presentada na história não tenha uma participação fundamental e ação direta sobre o enredo.

    Trata-se de uma fábula nos moldes das histórias de cavalaria, muito populares na Idade Média do continente europeu.

    O protagonista é um jovem agricultor convocado, por sacerdotes mantenedores das águas e das armas, a cumprir a nobre missão de salvar seu continente da seca. A história se passa, pelo que se infere do enredo, num tempo remoto e espaço fictício – na região de Gravanna, no continente da Lascônia. A missão do jovem Malo é conseguir encontrar e levar um óleo, extraído de um tipo raro de côco, até os domínios de Álbia, a mantenedora que o guiará nessa empreitada.

    No que tange às aventuras e combates que Malo, alçado à condição de cavaleiro, enfrenta se revelam pouco desafiadoras e emocionantes. E pode decepcionar o leitor, especialmente os fãs do gênero, ávidos por assistir grandes feitos do nosso ‘herói’.

    Como linguagem o Conto também decepciona: é esperado em textos do gênero uma linguagem mais elaborada e rebuscada, no estilo, ritmo das frases e vocabulário, e não tão coloquial como a realizada.

    Registra-se no texto alguns poucos erros de conjugação e pontuação, mas que não chegam a comprometer.

    O desfecho empresta um tom cômico-burlesco à história e retoma o tema ‘engrenagem’: revela que a provação de Malo (o óleo) não tinha relação direta de extinguir a seca (azeitar a máquina de fazer chuva) e, sim, atender a um capricho de Álbia, a mantenedora das águas (servir de tempero de salada). Mas é, sem dúvida, um final inusitado para uma história de cavalaria.

  3. cgls9
    20 de março de 2021

    É um verdadeiro roteiro de filme, desses que a gente assistia nas antigas matinês. Sim, eu sou desse tempo! O herói sai da sua aldeia vive aventuras épicas: luta com ladrões, é sequestrado, oferecido em sacrifício, salvo por jiboias, conhece uma sacerdotisa, ganha presentes, uma espada, um cavalo fantástico, luta novamente e… tudo para conseguir um óleo para temperar a salada. É isso mesmo? Acho que fugiu um pouco do temas, mas, eu curti a leitura! Muito boa sorte!

  4. Felipe Lomar
    18 de março de 2021

    Eu gostei bastante da construção da narrativa e do worldbuilding. Você me parece ser um escritor experiente de fantasia. Porém, devido às limitações do tamanho do texto, ficou tudo meio corrido e resumido, parecendo uma resenha ou um resumo da história. Mas essa inconveniência não faz com que ela seja ruim. Eu adoraria ler um livro contando a história completa de Lastania e a jornada desse herói!

  5. Fabio Monteiro
    15 de março de 2021

    Resumo: Um grande aventureiro, Malo, resolve desbravar terras para levar a bonança para os seus. Ao longo de seu caminho ele encontra ladroes, mas recebe a ajuda de alguém que lhe presenteia com uma espada magica e um corcel que o ajuda em sua jornada. Munido do óleo que tanto procura, ele se deleita ao lado da mais bela jovem de seu novo reino.

    Pontos Fortes: Fantasia, ilusão ,magia. Ao estilo Senhor dos Anéis e fúria de titãs, só que, com ladrões. Faltou algo titânico.

    Pontos fracos: Acho que alguns pontos parecem não se encaixar. Sinto que a historia se perde em alguns momentos. Magias inesperadas, vozes sem significado, óleo que tempera salada, enfim…

    Comentário Geral: Caro autor (a), espero não desrespeita-lo, mas não vejo uma conexão entre uma fase e outra na historia. Me pareceu um conjunto de cenas pegas, pouco trabalhadas, não dando um encaixe na narrativa.

    Boa Sorte no desafio!

  6. Kelly Hatanaka
    11 de março de 2021

    Algumas coisas ficaram meio sem explicação. Por que queriam oferecer Malo como sacrifício? Havia algo de especial nele? Se a máquina só estava emperrada, por que Albia precisava de alguem de muita coragem? A coragem só foi neceessária para o óleo da salada. Aliás,se fosse comigo eu ia ficar muito brava. Botou o cara num perigo enorme pra ele extrair óleo?! Pra salada?! Oras, dona Albia! Fora isso, é uma história boa, com cara de conto de fadas ou fábula.

  7. Fheluany Nogueira
    11 de março de 2021

    Jovem agricultor vai à cidade fazer compras, é sequestrado e seria sacrificado para que as chuvas retornassem. É salvo, de maneira sobrenatural, para que seguisse orientações e trouxesse as chuvas de volta. Com muita força, coragem e ajuda do cavalo especial, o objetivo é alcançado.

    O pseudônimo, a construção dos personagens e do ambiente, a trama, tudo remete o leitor às séries de anime baseadas em mangá.

    Pareceu-me a criação uma lenda. Não posso avaliar se o conto é criativo ou um fanfic, mas traz uma mensagem muito bonita, algumas reflexões interessantes, curiosidades, bom ritmo, boa escrita, imagens líricas que tornaram a leitura prazerosa.

    O título é sugestivo, já que o protagonista busca a chuva; gostei do desfecho, mas não me encantei com o universo. Gostaria de ter um melhor conhecimento dessa cultura, para apreciar melhor o contexto.

    Parabéns pelo trabalho! Sorte. Abraço.

  8. Eduardo Fernandes
    11 de março de 2021

    Gostei da abertura do texto. Eu tiraria o “Faz tanto tempo…”, mas a abertura já me prende para querer saber porque as chuvas pararam de cair. Depois do primeiro parágrafo, o texto cai num problema que vejo muito: excesso de termos. Lastania, Gravanna, Iksio, Malo, Tarsa, Álbia…

    São tantos termos desconhecidos em tão pouco tempo que o leitor liga o foda-se. O “One Punch Man” resolve bem este problema com a “Cidade A”, a “Cidade B”, a “Cidade C”. O leitor não quer saber desse tipo de informação porque não teve (e nem terá) tempo de se apegar emocionalmente a nenhuma delas, então corta.

    Também achei meio forçada a parte dos sacerdotes. Sem explicação, eles escolhem o Malo; e sem explicação, a deusa vê o coração dele; parece que é só porque sim. Não funciona, as coisas têm que ser explicadas.

    O final foi broxante…

  9. Bruno Raposa
    8 de março de 2021

    Olá, Battousai.

    Creio que, na ânsia de criar uma jornada épica, você tenha escrito muitas cenas e, na hora de decidir o que entrava ou não no conto, preferiu comprimir essas cenas a cortar algumas e deixar apenas as mais relevantes. Não foi uma boa opção. O conto ficou corrido, com diversas passagens que poderiam ser cortadas sem nenhum prejuízo à narrativa e com praticamente nenhum desenvolvimento de personagem ou ambientação.

    Tudo acontece tão rápido que é quase como acompanhar alguém mudando uma televisão de canal o tempo inteiro. As atitudes do herói e dos vilões – que são bastante caricatos – não têm nenhuma consequência e em nenhum momento sentimos Malo em algum real perigo. A cena com as jiboias foi um Deus Ex Machina difícil de engolir. E todo o texto segue nessa toada de problemas que são solucionados de forma pouco crível. Malo cortar as árvores com enorme facilidade enquanto, acredito, as direcionava para caírem sobre as cabeças dos arqueiros foi abusar da suspenção de descrença do leitor.

    Também faltaram explicações muito básicas. Não sabemos como Malo luta tão bem ou de onde vem tanta confiança diante de perigos aparentemente tão ameaçadores. Também não há uma boa razão para ele ser o único que poderia consertar a tal engrenagem, elemento que apareceu aqui de forma gratuita, aparentemente apenas para encaixar o conto no desafio. E a piadinha final com o molho de salada não parece caber na narrativa, embora ela tenha um tom infantojuvenil.

    Em relação à escrita, há variação no tempo verbal, entre passado e presente. Diria para você ficar mais atento a essa questão.

    Sei que meu comentário não foi dos mais agradáveis, mas entenda que ele não tem intenção de destruir, apenas de te fazer pensar. E, obviamente, posso estar errado. Gosto de ver obras de gênero tendo espaço na nossa literatura. Mas não adianta tentar comprimir um romance no espaço de um conto. Não funciona. É possível trabalhar uma história menor dentro de um universo fantástico, mas é preciso entender o formato com que você está trabalhando. Um conto funciona muito melhor com uma única situação se desenrolando – o tal conflito único que tanto se fala – e um maior foco em uma ambientação firme e no desenvolvimento dos personagens. É preciso dominar também o gênero textual em que você vai encaixar sua história. Conto, novela, romance, cada um com sua demanda.

    Espero que tenha entendido minha visão. E, reitero, posso estar errado. Meu comentário é apenas uma opinião, uma tentativa de gerar reflexão. Estamos todos aqui para aprender.

    Um abraço e boa sorte no certame.

  10. Regina Ruth Rincon Caires
    8 de março de 2021

    Caminho do Céu (Battousai)

    Comentário:

    Um texto que trabalha com aventura, epopeia, batalha e que me levou para tempos medievais. Há nuances de conhecimento bíblico, muita coisa de religiosidade entranhada. Criatividade imensa nos nomes de personagens e lugares.

    Na escrita, há uma persistência em pontuação um “cadiquinho” desencontrada, não revisada, e isso compromete a fluidez da leitura. E há alguns deslizes de regência e concordância (quanto aos verbos). Basta só uma correçãozinha mais atenta…

    A construção do conto está perfeita, segue a sequência lógica, e o desfecho é suave, prazeroso.

    Quanto ao atingimento do tema, percebi que há mais engrenagens,o autor descreve a sequência da jornada, a saga de um guerreiro. Mas confesso que não me apego muito a isso, aprecio a narrativa, o contar, o envolvimento.

    Battousai significa retalhador, misericórdia… O pseudônimo, traduzido para o nosso popular, poderia ser “Chico Picadinho do Bem), não é? Brincadeirinha…

    Caro autor, parabéns pelo trabalho!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  11. Priscila Pereira
    4 de março de 2021

    Olá, Battousai!

    Seu conto é a clássica jornada do herói, que , para salvar sua família e todo o seu país, recebe poderes de uma entidade e faz uma jornada, onde encontra perigos e dificuldades, mas no final consegue seu objetivo e salva todo mundo. O ruim é que tem milhares de histórias assim por aí… Veja bem, seu conto não está ruim, só não vi a sua personalidade nele, algo que diferensiasse dos demais.

    A fantasia, é um gênero muito difícil quando se tem um limite tão estreito… O conto ficaria muito melhor se tivesse espaço para se desenvolver mais, focar na mente do personagem, nos sentimentos e emoções e em um aprendizado, mas nesse limite isso se torna impossível e deixa o texto raso.

    De qualquer forma, você está no caminho certo!
    Parabéns pela participação e pelo conto ousado!
    Boa sorte 😘

  12. danielreis1973
    4 de março de 2021

    Prezado Entrecontista:

    Para este desafio, resolvi adotar uma metodologia avaliativa do material considerando três quesitos: PREMISSA (ou Ideia), ENREDO (ou Construção) e RESULTADO (ou Efeito). Espero contribuir com meu comentário para o aperfeiçoamento do seu conto, e qualquer crítica é mera sugestão ou opinião. Não estou julgando o AUTOR, mas o produto do seu esforço. É como se estivéssemos num leilão silencioso de obras de arte, só que em vez de oferta, estamos depositando comentários sem saber de quem é a autoria. Portanto, veja também estas observações como anotações de um anônimo diante da sua Obra.

    DR

    Comentários:

    PREMISSA: antes de mais nada, parabéns pela escolha da imagem da montanha entre nuvens! Sua história é baseada na criação de um mundo próprio, mitológico, na linha de Tolkien e afins. Esse tipo de narrativa exige muita imaginação do autor e uma suspensão de descrença enorme no leitor, para que aceite e entenda as regras desse novo mundo.

    ENREDO: Conta a jornada do heroi Malo, filho de um militar já falecido que fez dele um agricultor, e que precisa semear e cultivar sua propriedade em meio a condições adversas. Para isso, empreende uma viagem em busca do que precisa, e nela enfrenta adversários como ladrões, é sequestrado por sacerdotes como vítima sacrifical e salvo (ex-machina) por uma deidade/feiticeira (Albia), ganha um presente (o cavalo) e continua sua jornada em direção a uma mulher (tesouro/recompensa), a quem entrega o óleo que julgava ser de máquina, mas era pra temperar salada.

    RESULTADO: o conto prova que seguir fielmente a fórmula da Jornada do Heroi pode produzir uma história completa, porém há aspectos nesse e em outras narrativas míticas que são pouco críveis ou mesmo improváveis, como a salvação de última hora. A meu ver, e desculpe ser franco, o texto já existia e parece muito pouco relacionado ao tema do desafio. De qualquer forma, boa sorte!

  13. Elisabeth Lorena Alves
    3 de março de 2021

    Caminho do Céu (Battousai)

    Um Conto mnemônico, que relata o ocorrido na juventude do narrador-personagem que, de forma ardilosa, vai construindo o cenário em que os fatos se deram de forma sutil já que, sendo uma Fantasia, acontece em espaço geográfico próprio. E assim para que saibamos em que circunstâncias se deram os fatos, ele detalha como está a terra e como ela era antes dos fatos narrados: “passou anos sem chuvas e nosso verdejante país havia se tornado um grande e desolado deserto.” E também conta-nos como o pai, que estava doente, se preparou para quando não pudesse mais estar com a família. Infelizmente fica subentendido que a previsão do genitor não contava com a mudança climática apocalíptica que tomou conta do continente e que ocasionou as desolações normais deste tipo de evento: migração desenfreada de animais e pessoas; seca das pequenas fontes e rios; perda de sementes e espécies locais; fome e sede e, aumento da violência resultante do afastamento da ordem.

    É interessante frisar que ao criar uma onomástica própria para o texto, baseado na linguagem dos Criadores, o narrador coloca sobre a mãe a responsabilidade de gerir os aspectos culturais da família e sobre o pai os conhecimentos da guerra – entre esses, provavelmente a habilidade de ambular camuflado, usando a noite a seu favor – e da terra, entretanto, pelo significado do nome a junção entre os pais se completam como entidade protetora. O que fica mais evidente quando aparece a missão inicial – comprar as sementes aperfeiçoadas por alquimistas.
    E o uso do termo alquimista influencia na leitura do texto, uma vez que em nosso tempo e em nosso continente o termo perdeu muito de seu significado e se apequenou a ponto de ser visto com preconceitos por alguns estudiosos até. Entretanto, olhando o passado, a Alquimia, palavra de origem árabe, é uma prática protociantífica e filosófica que utilizava elementos da astrologia, química, misticismos, semiótica, metalurgia, medicina, física, arte e espiritismo. Sendo assim, o tempo do texto pode ser anterior à nossa era ou não. Aqui vale citar os procedimentos provocadores de ambiguidade sugeridos por Todorov: “o imperfeito e a modalização”. Para Todorov o uso do tempo verbal cria a incerteza de um passado possível que pode ser próximo da contemporaneidade ou distante. Assim, personagens e enredo – e Foster e Antonio Candido os vêem como unidade – se cristalizam.
    A Missão consiste em comprar as sementes modificadas e obviamente a crueza do caminho e o encontro com malfeitores testam as habilidades do narrador, entretanto, antes disso vale observar que os elementos elencados para a jornada representam os valores da família dele: proteção e esperança no verde da capa com capuz; o valor da terra no creme caseiro; o cuidado materno no pão e suco verde; o respeito e apego ao pai na arma que a ele pertenceu. Esses elementos todos remetem ao pertencimento, fora que havia nele o desejo de voltar.
    A questão da violência surge na observação “ainda existem ladrões por aí”. O que prova que não importa o tamanho da dor de um povo, ainda haverá homens malignos para tentar tirar o pouco que um pobre possui e se nada acham tiram-lhe a vida. E certos da impunidade, infelizmente: “na frente de outros cidadãos.”. E os assaltantes não são os únicos problemas.
    Há errinhos sanáveis com uma nova edição, uma falta de vírgula em “cidade, local”, um pronome pessoal mais repetido na mesma frase…
    A adesão de novos elementos na narrativa se dá por indicação: antes de ser sequestrado o narrador desconfia que “naquele momento eu estava sendo observado e (…) não era visado apenas para roubo, mas para algo mais perverso.” O sedante ofertado pela estalajadeira me deu arrepios antes mesmo de saber o que era – não é um defeito, fique claro… Foi mesmo meu desconfiômetro trabalhando acelerado.
    Ainda na adesão de elementos, a aparição do sacerdote maligno do deus Iksio foi bem feita. É um item abrupto, mas as impressões já pontuadas antes de ele aparecer, deu sentido. E interessante é que a roupa branca dá a impressão de que está tudo certo, geralmente as cores usadas por feiticeiros ou são douradas ou em tonalidades de vermelho, musgo ou negras. A brancura dá a falsa sensação de leveza que é quebrada pela aparição do discurso e da adaga ritual.
    É arrepiar a seguinte fala: “ Eu seria somente mais uma vida desperdiçada.” Aqui, ao questionar a inutilidade do ritual o herói faz cair a máscara de cidadania e escancara algo muito próximo à realidade histórica da raça humana. A religião e a divindade separa-se nesse ponto porque ao longo dos séculos o poder da fé é usado a favor de alguns, Ou seja o divino é transformado em religiosidade tóxica para de um jeito ou de outro transformar o outro – fiel ou não, em objeto de sacrifício. Ao narrar o pretenso sacrifício sádico o narrador coloca em cheque a religiosidade e questiona, de forma indireta, as posições dos deuses. Tanto que a inserção da divindade acontece com a redenção da cobra – se bem que Rudyard Kipling e seu “Os livros da Selva” já executaram isso maravilhosamente bem com Kaa. Para trazer a chuva prefiro uma dancinha a lá brasileiros originais.
    Álbia, a deusa é introduzida primeiro como espírito, um ser onisciente que tranquiliza e confere ao herói a sua verdadeira missão: “salvar sua terra da morte iminente”. Aqui entra uma incoerência do narrador, primeiro ele alega que o ser lhe dá confiança que o torna “capaz de aceitar qualquer missão imposta.” e instantes depois ele se vê “ incrédulo na minha capacidade de realizar o solicitado.” E como todo herói tem seu ajudante, aparece o cavalo que quase voa ao chegar, não tem problemas com a gravidade – seria redundância de ideia? – mas é ferido por flechas. Aqui o animal, pela divindade, aparece como deve ser: o cuidado e respeito gera a parceria homem-animal. Interessante isso.
    Há uma espada forjada outro ser mantenedor, de novo folhas verdes para juntar homem e natureza. E então começa a segunda e mais importante missão, buscar o óleo de coco negro e preparar o óleo. Depois de colhido, aparece outros inimigos – os que ferem o cavalo – se busca o coco ou as sementes que ele adquiriu na capital isso não importa e não saberemos jamais. Certo é que há a luta, ele enfrenta os inimigos, derruba um com a espada. Aqui há algo interessante: O inimigo não fala, simplesmente se posiciona e tenta o ataque, se bem que o mocinho ameaça e tal, mas o antagonista da vez é meu herói da desconstrução porque cá para nós, não há nada pior – no cinema – que bandido que fala muito. Oh bandido, você está tripudiando por qual motivo? Você vai morrer!
    Outra coisa, há uma espécie de fala inerente no texto. Quer dizer, eu vejo porque quero, vamos combinar antes… Quando o narrador diz: “Não perderei muito tempo com detalhes(…)”, eu leio: “ Leitor, eu sei que você quer saber tudo. Mas se digo você vai dizer que eu sei que estou sendo escrito – e não estou, sou uma entidade real e não criada.” Na verdade é um soco de direita no olho de quem lê e analisa porque realmente há esse perigo em narrativa de fantasia. Lembre-se, esse é um texto mnemônico, mas antes de tudo é uma Fantasia e como tal tem elementos diferentes dos que é de conhecimento do leitor e sim, dependendo de como é colocado na boca das personagens, empobrece a narrativa.
    De novo outro elemento é inserido, o ancião e o reconhecimento arturiano da espada – e do cavalo: “— Somente homens valorosos podem empunhar uma espada forjada pelo próprio mantenedor das armas, o Grande Saustério.” E foram atrás de uma almazara, fizeram o óleo especial e seguiram para arrumar a engrenagem. E como está aparentemente emperrada, vamos azeitar… não, o azeite não é para isso? Usa estes músculos esculpidos na lavoura árida e guarde o líquido sagrado – um novo Thor, Artur?
    Com o detalhamento da busca, colheita, moagem e envasamento do óleo, esse elemento ganha protagonismo, sacada condenável no quesito raiva, porém engenhosa do autor, pois cria um ambiente claro para o engodo ao leitor. Odiosamente genial.
    Com o retorno das águas; o surgimento de um mito: “Bom trabalho, Malo. Seu feito jamais será esquecido; nem por eles e nem por nós. ”Suba a rampa ao lado da caverna.”; o encontro real com a deusa e bingo: O óleo é só um tempero para a salada”. Confesso, também “ Pensei que fosse para as máquinas.”
    Sucesso ao autor.

  14. Jorge Santos
    1 de março de 2021

    Este é um texto no domínio do fantástico, com evidentes preocupações ambientais. Nele, o herói parte numa demanda, tem diversas aventuras e regressa, são e salvo. É o tipo de texto que me empolgaria na minha juventude. O problema é que agora esperava algo diferente, mais empolgante e inesperado. Para além disso, notei a falta de alguma pontuação e incoerência na narrativa. Um exemplo: o nosso herói estava a protestar estar exausto no momento do assalto, na frase seguinte já tinha dominado os ladrões. Falta texto para manter a fluidez. Falta também o sentimento de que algo pode falhar, caso contrário o leitor perde a sua ligação.

  15. angst447
    28 de fevereiro de 2021

    Conto que aborda ligeiramente o tema Engrenagens misturado a todo um enredo mergulhado em fantasia.
    O final traz uma surpresa que quebra a expectativa do leitor. O óleo encomendado era para uma refeição especial? Pois, então… o [a] autor[a] fez uma verdadeira salada.
    O ritmo da narrativa é mais para o lento, pois a saga de Malo não é algo que pudesse ser feito de rompante, mas há também momentos de ação.
    Achei muito boa [e poética] a descrição final com a chegada de Malo às nuvens, ou sobre as nuvens…A mãe de Malo deve ter dormido tranquila mesmo, afinal pareciam estar mesmo no céu. Vou ter que reler mais uma vez essa parte final porque não entendi se a mãe estava no mesmo lugar que Malo.
    Lembrou-me de contos de fadas que lia entre infância e adolescência. Há toques de encantamento e fantasia nas descrições.
    Boa sorte.

  16. Luciana Merley
    28 de fevereiro de 2021

    Caminho do Céu

    Olá, autor.
    Eu não tenho tanta habilidade para avaliar textos de fantasia. O seu me pareceu escrito para um público mais jovem, adolescentes talvez. Tentarei expor algumas das minhas impressões sobre ele no intuito de contribuir com sua escrita.

    Critério de avaliação CRI (Coesão, Ritmo e Impacto):

    Coesão – A narrativa de uma aventura de um jovem numa terra seca e cheia de perigos. Não posso dizer que encontrei um texto fechadinho, com conexões eficientes e relações de causa efeito que gerem a coesão necessária a uma boa narrativa. Na realidade, senti um profundo incômodo com o modo como você apresenta as cenas ao leitor, de um jeito retalhado, parecido com: “agora ele fez isso….e aí ele passou por isso…e depois ele fez aquilo…” como se faltassem conectivos. Outra questão é uma notável inverossimilhança em algumas partes como o “creme de pele” (naquela situação de grande escassez?) Me pareceu uma preocupação despropositada. E como a briga contra três homens e a vitória tão fácil como se tivesse super-poderes não relatados antes. E, o corte da árvore (tão rápido? Com uma espada e em cima de um cavalo?)

    Ritmo – A linguagem é simples, mas não encontrei grandes problemas que gerassem entraves na leitura. Apenas a mesma questão citada acima e que traz o tal desconforto.

    Impacto – Como disse, não tenho tanta habilidade com histórias de fantasia, mas algumas questões que são comuns a todos os textos foram por mim percebidas como não tão bem conduzidas, o que influenciou negativamente a minha visão geral sobre o seu texto. De todo modo, parabenizo pela participação e peço desculpas se não pude ajudar mais.
    Um abraço.

  17. Fernando Dias Cyrino
    27 de fevereiro de 2021

    Ei, amigo, cá estou eu participando com você e Trevo dessa aventura naqueles tempos da grande seca. Uma aventura nos moldes de Tolkien e Lewis, acho que os seus grandes inspiradores. A história é bem encadeada, um jeito gostoso de contar, como o dos seus pretensos ídolos (eu acho pelo menos). Tive dificuldades com o fechamento da narrativa. Puxa, ele fez tanto, passou por mil perigos, quase pereceu para entregar um óleo para salada? Caramba, acho que o seu conto merecia uma finalização mais palpitante, Battousai. Sabe, fiquei com a impressão de que você se deparou com o limite das duas mil palavras e então cortou uma parte lá no fim. De repente, esse corte deveria ter ocorrido no meio. Sei lá. Um outro detalhe é que, no meu modo de ver, você precisa dar uma última olhada no conto. Acho que tem uns pontinhos necessitando acertos. Coisas pequenas, mas que devem ser cuidadas, não é mesmo? Fica com o meu abraço e boa sorte no Desafio.

  18. Anderson Prado
    25 de fevereiro de 2021

    A escrita está bem encaminhada, mas ainda é um pouco imatura. O enredo, por sua vez, é bastante juvenil – pura literatura de entretenimento. O desfecho é engraçado, já que o óleo não era para a engrenagem, mas, sim para uma salada (por essa eu não esperava). O tema do desafio parece ter sido encaixado no enredo de uma maneira um pouco forçada. Não é o tipo de leitura que aprecio, mas não posso negar que, em termos de domínio narrativo e gramatical, há, aqui, uma jovem promessa, um escritor em formação.

  19. Catarina Cunha
    25 de fevereiro de 2021

    Criação: Um cara passa por uma jornada épica para salvar o molho da salada de um mulherão, por acaso salva o mundo de uma perigosa farpa. O personagem tem estrutura simples, mas a criatividade descritiva das cenas é o forte do texto; assim como o poder de virada.

    Engrenagem: Seu texto está no limite das 2 mil palavras, o que pode ser um sinal de que precisou cortar arestas para caber no formato. A “engrenagem” foi inserida no contexto para honrar o tema do desafio, mas que no fim cumpriu sua função social.
    Acredito que em um conto curto, todas as cenas e palavras precisam ter motivo para existir. Por exemplo: se você retirar do conto a parte que vai de “Enquanto eu caminhava para o mercado (…)” até “ (…) viajante cansado e faminto.” , não faria falta nenhuma à trama. Embora uma cena de ação legal, são 144 palavras. Espaço que poderia ter sido aproveitado nas cenas de clímax (da engrenagem ou da salada).

    Destaque: “Abri meus olhos e todos os sacerdotes foram esmagados e engolidos vivos por imensas jiboias.” – Sabe aquela sensação de que se eu piscar, ao reabrir os olhos, o texto vai dar outra guinada fantástica? Truque perigoso para manter o leitor. Comigo funcionou nesta frase.

  20. antoniosbatista
    24 de fevereiro de 2021

    Battousai, teu conto com gênero Fantasia, não é ruim. Gostei do argumento, da missão do herói. Você cometeu algumas pequenas falhas que não são tão graves. Por exemplo, na frase; “ – O que está acontecendo aqui? Me soltem- gritei, ainda sonolento e sem entender o que estava acontecendo”. A segunda frase ( na narração) não precisaria ter escrito, pois ele já disse (no diálogo) que não sabia o que acontecia.

    A frase: “Eu não tinha dúvida que se tratasse…” Fico em dúvida se essa palavra está correta. Eu trocaria o “ se tratasse” por era. “Eu não tinha dúvidas que era…”

    Outra falha é no tempo verbal. O certo é escrever o conto em um só tempo verbal, passado ou presente. Você começou a escrever o conto no tempo verbal passado. Veja quando chega nesse ponto, o tempo é presente: “E quando parecia que nunca mais eu pararia de subir, avisto (tempo verbal presente) uma caverna, por onde entro (presente) e as tochas se acendem (presente). O certo seria “avistei”(passado), “entrei” (passado) “as tochas se acenderam” (passado). Você deve contar uma história que já passou (passado) ou que está acontecendo agora (presente).

    Você tem o mesmo costume que eu tinha de repetir a letra “e” nas frases, o que gera um entrave na leitura. Você repete o e em algumas frases que, sem ele, não mudaria o sentido dela. Em certos casos, é possível suprimir o e, e colocar um . (ponto) começar nova frase. Como por exemplo: “Cheguei pela manhã e vi uma grande e decadente cidade”. Sem o “e”: “Cheguei pela manhã. Vi uma grande cidade arruinada”. Veja que certas palavras tem uma melhor sonoridade que outras, provoca uma leitura fluida e agradável.

    Os colegas provavelmente apontarão outras falhas, isso te ajudará no desenvolvimento de tua escrita. Boa sorte

  21. Rubem Cabral
    22 de fevereiro de 2021

    Olá, Battousai.

    Resumo:

    Malo, um rapaz que habita um mundo mágico, sai em missão de conseguir sementes especiais, que possam ser plantadas apesar da seca que assola sua terra. Escapa de malfeitores na ida, cai numa armadilha de sacerdotes na volta e é salvo miraculosamente. Ganha um cavalo voador e uma missão: obter os ingredientes para produzir um óleo especial. Depois de algumas aventuras,ao conseguir mover engrenagens que trazem a água de volta, descobre que o óleo é um bom tempero de salada.

    Análise do conto:

    Não gostei do conto. Há muito contar e pouco mostrar. É um conto de fantasia espremido e concentrado no formato de contos, o que o deixa sobrecarregado de expressões, nomes de terras, montes, etc. Fantasias assim devem e precisam de muito mais espaço. Há um Deus-ex-machina imenso no conto com o salvamento do Malo pelas mantenedoras. O texto está bem escrito, em linhas gerais, acho que só vi uns 2 erros de concordância.

    Boa sorte no desafio!

  22. thiagocastrosouza
    22 de fevereiro de 2021

    Caro Battousai, ou caso prefira, Kenshin.

    Seu texto é um exemplo da jornada clássica do herói que parte do seu mundo cotidiano para resolver um problema local e se percebe amarrado num problema muito maior do que imaginava. Munido de objetos mágicos, além de conselhos de entidades ou mestres, consegue superar as adversidades e alcançar a glória eterna. A fórmula, confesso, é um pouco batida, e a maneira como conduziu o conto tornou tudo muito previsível. Me explico.

    Houve uma necessidade de apresentar o país, o continente, todo esse mundo mítico e suas características pela boca do personagem, o que soa meio estranho para quem já faz parte dessa realidade, como o protagonista. Acho muito difícil contos em primeira pessoa ambientados em mundos criados, fantásticos e fictícios, pois exige que todo esse universo, suas leis, nomes e características seja apresentado pelo olhar do personagem sem soar didático e explicativo, ou seja, de forma natural. Há uma frase da autora Andrea del Fuego que ilustra muito bem o que digo: “Escrever a personagem como se ela não soubesse que está sendo escrita”.

    Essa naturalidade não está presente no seu conto, pois enquanto caminha o personagem explica a geografia, os nomes, tirando o leitor do enredo. Outro ponto é a forma como a ação é inserida na narrativa: direta, de rápida resolução e extremamente descritiva. Há uma consciência muito clara para alguém que está sendo atacado e em constante perigo, o que tira a veracidade das ações. O personagem, por exemplo, mesmo narrando no tempo presente, sabe das facas escondidas pelos bandidos, distância de penhascos; não há uma tensão criada e os perigos nunca são ameaçadores de fato. Além disso, o fato da ação e da mudança de cenário acontecer de forma apressada e sequencial, banaliza a jornada do protagonista: ele é atacado por bandidos num parágrafo, no outro já está dormindo na estalagem, depois acorda para ser sacrificado, rapidamente é salvo pela entidade, ganha um cavalo, uma espada, é atacado por arqueiros, sobe até a caverna, etc. O desenvolvimento de um simples agricultor para um grande guerreiro não tem impacto ou credibilidade, não há perdas nem sacrifícios para esse personagem, pois tudo é muito fácil e seguido: ele é o escolhido e pronto.

    Sobre os diálogos, também são um pouco óbvios: os bandidos ameaçam, o garoto suplica para que não o façam; quando é atacado pelos arqueiros, alardeia que não terá piedade; quando alcança o pico da montanha, é parabenizado pela entidade.

    Em síntese, é tentadora a ideia de fazer uma jornada clássica do herói, mas é preciso seguir a estrutura narrativa clássica desse tipo de história e, às vezes, subvertê-la. Seu conto tem um quê de narrativas infantojuvenis (isso não é um problema, pelo contrário, são contos em que os perigos são superados pelo protagonista e a conclusão é, quase sempre, reconfortante, como os mitos clássicos ou contos de formação). O clássico tipo de história que inculca valores sobre coragem, determinação e ética na figura de um personagem subestimado.

    Siga escrevendo, experimentando e aprimorando seu texto que tenho certeza que, futuramente, fará contos incríveis naquilo que se propôs.

    Grande abraço!

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Informação

Publicado às 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação e marcado .