EntreContos

Detox Literário.

O Mendigo e o Livreiro (Luciana Merley)

O mendigo seguia olhando, na continuação dos anos, o passar do tempo vagaroso e baforento da Rua Misael Cordeiro. Via os saltos descascados, nas sandálias outrora chiques, e que arrastavam as crianças birrentas rumo à escola. De frente, passavam as portas apressadas. Golzinho bola, fiat uno atrás do outro, carroça de madeira atravancando o trânsito e, vez ou nunca, uma hIllux com vidros fechados. Num girar do pescoço, sem muito esforço, via ao longe os executivos, de terno puído, chegando para o labor bancário com as pastas pretas pomposas batendo leves nos joelhos afobados. Uma curva a mais no pescoço e, finalmente, o aproximar solene dos pés bem calçados do Sr. Ricúpero para mais um dia de solidão na livraria.

O mendigo vive por ali. Dorme sob a marquise da Americanas, onde o clarão da avenida cumpre de afugentar os gatunos maus. Depois migra, ainda com o sol escondido, para entremeados do quarteirão entre a Misael e a Peçanha. Prefere não tomar na cara os primeiros calores e assim consegue estender a frescura da noite por um pouco mais de tempo. Já pr’mais de três anos aquela figura inusitada compartilhava o marasmo dos dias entre um café e outro, uma lição de inglês e outra, com o dono da única livraria que restou no centro encardido de Comendador Palhares.

O Sr. Ricúpero, livreiro de uma vida toda, filho e neto de livreiros, achou no mendigo uma companhia proveitosa. Apesar da aparência desalinhada, ele conseguira aprender algumas boas lições do inglês estadunidense com aquele ex imigrante de vida desajustada. Cafés com broinha, água gelada limpa e banho quente no chuveiro dos fundos em troca de algumas frases prontas no dialeto que os reinounidenses abominam.

Pelo intervalo de um dente de cada lado, o mendigo exibe o seu distintivo, a razão do desnível entre ele e aquele povaréu conhecedor de não mais que meia língua. Dos anos glaciais em Massachusetts, dos telhados, pisos, gramas e o mais que fosse, ele trouxera alguns milhares. Dólares gastos, real a real, nas noites de camaradagem bêbada e de mulheres da vida nos inferninhos da periferia. Restou-lhe o enjeito de Claudinéia, os cents nas ruas do centro e a segunda língua, longe de bem aprendida, que concedia-lhe, contudo, uma sensação de existência superiormente interessante. Introduzia pedaços da fala estrangeira em cada sentença quanto podia. Para os garotos do skate e dos fones de rap, que rodopiavam por horas no seu entorno, repetia as gírias e o som cantado dos bairros negros do norte. Para os estudantes dos cursinhos de inglês britânico, exibia frases inteiras da reinvenção linguística norte americana, embaraçando-os por completo.

― Hei, guys! Lá nos States cês não iam conseguir nem um café com essa fala cheia de T pra todo lado. Faz som de RRR, rapaz, som de RRR. Warrrrer. Repete. Warrrer. Assim, that’s it, assim is good ― e divertia-se na calçada cheia.

O mendigo bilíngue ganhou recente notoriedade quando, após uma entrevista requisitada por uma aluna, no que aceitou com júbilo e de pronto, o vídeo gravado por ela espalhou-se pela cidade inteira. De entrevista na TV a participação em palestra motivacional, passando por campanha política, Mike, o mendigo, por autonominação, aceitara de tudo.

O bom amigo Ricúpero também usufruía, não por força de avareza, pois não tinha tal desarranjo de caráter, das benesses da fama do encostado. Por sugestão do próprio mendigo, grato e desejoso pela continuidade recíproca dos laços, concordou que a propaganda da livraria, e como não, a sutil associação da sua imagem às portas do comércio, já seria razão para garantir-lhe algumas vendas a mais. O pouco tempo mostrou que estavam certos. O movimento na livraria, mais por curiosidade e menos por interesse cultural, aumentou um pouco e rendeu ao quase desistente livreiro um respiro extra. Mike, então, tomando para si a boa e justa culpa pelo novo fluxo salvatório, liberou-se do costumeiro trato cheio de reservas com o dono e sugeriu uma reorganização na vitrine da frente.

― Seu Ricú, come here. Dá uma olhada nessa sua loja. O quê que o Sr. vê daqui de fora?

― Ora! Vejo livros, capa de livros, agendas, devocionais. Por qual razão a pergunta?

― Dá outra olhada. Se esforça, please! Não tá faltando cor aí, não? Olha pr’esses livros! Tudo capa grey, brown e white. Seu Ricú. Oh! Seu Ricú, põe alguma coisa red aí. Pink pra´s meninas. A galerinha novinha não interessa por essas seriedades, não. Understood?

A Ricúpero Livraria, apesar do recente acréscimo nas vendagens, abria ainda por pura teimosia. Aterrorizado pela irrevogabilidade dos boletos vencidos e a vencer, o dono já não contava com uma das poucas coisas grátis nessa vida, a saber, o sono, do qual o mendigo se gabava ter sido um só, de pedra, em cada café com broa, a cada nova manhã calorenta do centro de Palhares.

Ainda afetado pelas recentes demonstrações de valor recebidas, o mendigo, no afã de aproveitar a fama decerto passageira, apresentou ao amigo livreiro uma proposta das mais ousadas que o vivido Ricúpero já pudera imaginar.

― Vamos abrir uma English School de inglês prático. Aqui mesmo, seu Ricú, no piso de cima. What you think?

 Corda jogada e bem depressa agarrada por aquele comerciante em queda livre.

― Sim. Por que não? Veja! Ricúpero Livraria e Escola de Inglês ― exclamou o velho como quem lia em uma placa entre as mãos, com entusiasmo, no que foi prontamente interrompido pela cara discordante do quase sócio.

O mendigo argumentara, sem muita chance de réplica ao dono, que a novidade deveria vir primeiro, em letras maiores, garrafais, e só depois aquilo por todos já sabido, afinal, o intuito seria atrair um público diferente do habitual. E quanto ao nome:

― Ah! meu amigo, vai me desculpando, mas penso que o seu nome, eu até gosto dele, é dos bons, das antigas, só que é meio inapropriado pro timing do negócio. Que tal Ricó? É, porque Ricú vai soar meio strange. Aliás, Rico, com dois cês, pra parecer mais americano, que tal? Look! RICCO INGLÊS E LIVRARIA: fale inglês americano em 6 meses. É very nice, não?

Trataram de encontrar uma professora habilitada, o que de modo algum representou dificuldade, pois, atuar ao lado do cidadão bilíngue, àquela altura por todos conhecido, tornara-se uma excelente maneira de dar um tranco em qualquer carreira mediana. O planejado foi que ela daria as aulas obrigatórias e, Mike, o mendigo, faria participações diárias, divertidíssimas, e se encarregaria dos bate papos educacionais. Tudo como se nada planejado. Por sugestão do mendigo, ao menos para os de fora, o dono continuaria o mesmo e Mike nada mais que um convidado permanente. Assim feito. A fachada do estabelecimento, preservada no mesmo estilo desde os tempos do Ricúpero pai, foi então trocada por outra muito mais extravagante, com as sugeridas garrafais sobre um fundo fosco com o desenho da bandeira norte americana.

O início das inscrições, com pagamento adiantado dos dois primeiros meses, surpreendeu aos mais céticos, em especial ao Sr. Ricúpero que, a despeito das suas necessidades urgentes e da euforia inicial, costumava guardar a prudência no trato das suas esperanças. Aulas pela manhã, a tarde e a noite. Vai e vem, casa cheia, alguns poucos livros. Já na segunda semana, o mendigo sugeriu ao sócio encontrar alguém para montar uma pequena lanchonete em atendimento à demanda interna, ali mesmo, num dos cantos menos frequentados, o dos livros mais clássicos, talvez. Aceito e feito, mas só após outra semana de negociações cerradas para que, por exigência do ex único dono, a seção favorita fosse transferida para uma outra área mais ao fundo.

O mendigo, nesse tempo com a rotina bastante alterada, sempre quando indagado pelos alunos, jornalistas e curiosos sobre a permanência nas ruas após a fama, respondia, com ares de serenidade, sobre o valor da liberdade e do desapego pelas coisas perecíveis. Quando convidado para uma palestra muito bem paga na associação comercial, foi muito aplaudido quando, no seu linguajar simples, mas bem enredado, argumentou sobre a necessidade de “sentir as ruas”, de ter o “feeling” necessário e experimentar na pele a falta para dar valor ao que vem depois. Numa conversa prévia com o Sr. Ricúpero, quando este ofereceu-lhe o escritório para servir de quarto improvisado, afirmou em tons professorais que, ele do jeito que era, como foi conhecido, era o segredo do negócio, afinal, sem a rua não existe o mendigo que fala inglês, e sem este, restar-lhes-ia o quê?

Passado o período de experiência muito bem sucedido, com a propaganda eficaz sendo feita de boca em ouvido, o mendigo tratou de queixar-se ao dono sobre a repartição dos lucros advindos da escola de inglês.

― Mas, trinta por cento não está bom pra você? Você quer quanto? A metade por acaso?

― Não, na verdade pensei em setenta, amigo Ricú.

― O quê? Você está maluco, homem? É a livraria quem paga os impostos, a energia, a internet, além de ser o espaço do negócio. Por acaso sabe quanto custa um aluguel aí fora?

― Não. Não faço a mínima. Mas, pensa um pouco. Look! Sem a English School só o que sobra nesse mausoléu é conta pra pagar e livro chato. Então, don’t worry! São business, companheiro, just business. Valor agregado vale mais que negócio parado, all right? ―  Concluiu, batendo nas costas do velho Ricúpero, enquanto iniciava uma outra conversa com um aluno que o esperava.

Passados alguns meses, as estantes foram sendo tomadas por apostilas das classes, games e alguns livros das listas dos mais vendidos. Ricúpero, agora encarregado de renovar inscrições e anotar recados na portaria, tentou com máxima resiliência não deixar empoeirar seu inequívoco talento para as resenhas orais e a sugestão de boas leituras. Numa última, até aqui, tentativa, encomendou uma boa quantidade de novas edições dos clássicos, com linguagem mais modernizada e capas capazes de fazer salivar a boca de tão coloridas e belas. Programou uma noite de festa para que a cidade enferrujada pudesse alegrar-se novamente. Croissants, empadas, bolinhos de chuva, chás quentes e cheirosos para uma noite de sábado, sem alunos de inglês, com os amigos de outrora, jornalistas, doutores, comerciantes, promoters e madames. Tudo devorado antes que ele concluísse a leitura teatral da crônica de agradecimento preparada com o mais devotado esmero. Restaram as bandejas esfareladas, as xícaras marcadas de bafo e batom, e os livros. Pilhas deles. Intocados.

― Mas, e agora? O que eu vou fazer com todos esses livros de capa cheirosa e macia? ― Exclamou em alta voz de dentro da livraria.

― Macio? Cheiroso? ― Perguntou o mendigo o olhando desde o outro lado da soleira. ― Ora! Give-me cá que eu os faço de cama.

O mendigo segue olhando, na satisfação dos anos, o passar do tempo apressado e alvissareiro da Rua Misael Cordeiro. Vê as coxas sob as saias das madames que arrastam as crianças birrentas rumo à escola. De frente, passam carros velhos e novos. Passa golzinho, fiat uno, hillux, todos com vidros arreados acenando para ele. Num girar do pescoço, sem muito esforço, vê ao longe os executivos, que por sua vez contorcem seus pescoços. inclinando para ele a cabeça, de dentro de seus ternos puídos. Uma jogada com canto de olho e, inevitavelmente, o aproximar apressado, dos pés vacilantes e atrasados do Sr. Ricúpero para mais um dia de desolação na livraria.

49 comentários em “O Mendigo e o Livreiro (Luciana Merley)

  1. Andrea Nogueira
    21 de março de 2021

    Este Conto quase arrebenta o limite de elasticidade do tema proposto – “Engrenagens da Criação” – para conseguir incluí-lo no desafio. Haja inventividade!

    O texto que traz e discorre sobre várias questões, que sem amarrar as pontas e concluir pode levar o leitor, atônito e confuso, a se perguntar ao final da narrativa:

    – Afinal, qual é o tema central dessa história? E onde era sua pretensão chegar e nos levar a concluir?

    Lendo o Conto somos conduzidos a refletir sobre fenômenos e valores que permeiam os tempos que correm: da sociedade do efêmero, onde tudo é modismo e nada perdura; da supremacia do TER – sucesso, dinheiro, posição social – sobre o SER; da mitificação de ‘celebs’ instantâneos e exóticos, por uma massa anônima, acrítica, conformada.

    Mas falta linearidade à narrativa, falta foco e uma linha que encaminhe o raciocínio enquanto se lê.

    No conto a Literatura está perdendo, e com ela o prazer, nossos sonhos, o autoconhecimento e a visão ampla de mundo e do outro, para o conhecimento pragmático, imediatista e utilitarista, (o inglês, no caso). A decadência da Livraria é uma metáfora dessas perdas, no mundo atual, onde a cultura é apenas um valor prático, um meio e não um fim em si – trampolim para o sucesso, profissional e material.

    Atração que exerce sobre a sociedade os ‘espertos’, oportunistas, os ‘exóticos’, o diferente da massa e esvaziados de substância.

    A linguagem coloquial, de uma cidade qualquer, dos dias de hoje, facilita a leitura, mas é na trama que se encontra dificuldades: não parece linear, e assim parece repetir fatos, perde-se a noção de cronologia.

    O desfecho não tem um fato marcante e, assim não é conclusivo. Talvez tenha sido essa intenção: deixar em aberto, passar a ideia de continuidade dessa engrenagem que repete, repete, nos massifica e engole. Se essa leitura é acertada, menos pior para o Conto.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Andrea, obrigada por seu comentário. Tentarei olhar com outros olhos (se possível) e encontrar essa falta de coesão que você apontou. Mas, aqui, você captou tão bem a “engrenagem” assoladora do imediatismo, da “sociedade do espetáculo”, da massificação…não seriam essas engrenagens suficientes para alcançar o objetivo do desafio? E quanto ao seu apontamento sobre a “falta de conclusão”, em absoluto, é uma observação sem razão de ser, até mesmo porque você a descreveu no seu comentário. A “moral da história” nem sempre está na última linha, e isso acontece na literatura já há alguns séculos. Obrigada novamente. Apontamentos críticos são modos de evoluir, sempre.

  2. danielreis1973
    19 de março de 2021

    Prezado Entrecontista:
    Para este desafio, resolvi adotar uma metodologia avaliativa do material considerando três quesitos: PREMISSA (ou Ideia), ENREDO (ou Construção) e RESULTADO (ou Efeito). Espero contribuir com meu comentário para o aperfeiçoamento do seu conto, e qualquer crítica é mera sugestão ou opinião. Não estou julgando o AUTOR, mas o produto do seu esforço. É como se estivéssemos num leilão silencioso de obras de arte, só que em vez de oferta, estamos depositando comentários sem saber de quem é a autoria. Portanto, veja também estas observações como anotações de um anônimo diante da sua Obra.

    DR

    Comentários:

    PREMISSA: contraposição de dois personagens marcantes, o mendigo que falava (mais ou menos) inglês e o livreiro que enfrenta a crise nos costumes da leitura, relutante em aceitar os novos tempos. O empreendedorismo de um supera o conservadorismo do outro, tornando-os sócios.

    ENREDO: desde a construção dos dois personagens antagônicos, até suas motivações e atitudes, o conto evolui numa linha que prende o leitor e conduz ao desfecho, ainda que este pareça um pouco irreal (o mendigo permanece na rua para manter a sua “aura”?)

    RESULTADO: no geral, um conto bastante positivo e simpático, ainda que, conforme apontado, eu não tenha entendido perfeitamente o raciocínio do mendigo em empreender tanto, transformar o negócio da livraria em escola de inglês e ficar na mesma, usando os livros novos e não vendidos como cama, simplesmente. Boa sorte no desafio!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Daniel. É que o mendigo assistiu ao Joker. Era uma brincadeira, meu caro, uma metáfora mendiguiana. Um abraço.

  3. Rubem Cabral
    19 de março de 2021

    Olá, João Maria.

    Resumo da história:

    Livreiro com problemas com o negócio pouco rentável dá acolhida a mendigo que já viveu nos EUA e é meio bilíngue. A partir da simpatia do mendigo, capaz de atrair fregueses, passa a dar cada vez mais espaço ao amigo, que cria um curso de inglês e começa a mover os livros clássicos – os preferidos do livreiro – para áreas menos nobres da livraria. Com o passar do tempo, o curso, seus alunos e, principalmente, o mendigo, passam a ser o que há de mais importante no antigo negócio, agora para sempre transformado.

    Análise do conto:

    Conto bem-humorado e bem escrito, com poucos deslizes. Bons diálogos e boa construção de personagens. Adesão meio tênue ao tema do desafio, contudo.

    Boa sorte no desafio!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Rubens. Esperava um comentário mais detalhado, com justificativas mais elaboradas e apontamentos mais justificados. Você preferiu utilizar a maior parte do seu espaço para o resumo do texto. Sua escolha, mas não obrigatório para esse desafio. Quanto à adesão ao tema, é tênue mesmo, digo, essa engrenagem da novidade e do espetáculo que nos assola há alguns anos pode parecer bastante invisível às vezes. Obrigada mais uma vez.

  4. Regina Ruth Rincon Caires
    18 de março de 2021

    O Mendigo e o Livreiro (João Maria)

    Comentário:

    Este conto, muito bem escrito, traz uma profunda reflexão sobre a vida em sociedade, sobre princípios, sobre valores.

    O autor tem uma sensibilidade extrema no narrar. Cada palavra carrega significado profundo, a palavra fala além do sinônimo, exige do leitor a compreensão “ao derredor”. Ou não. Se o leitor passar “rasante”, sem escarafunchar a superfície, fará apenas a leitura linear. Compreenderá. Mas, se perceber nas entrelinhas a mensagem do autor, terá um texto para repensar por horas.

    Há uma adjetivação significativa, sensorial, espalhada ao longo do texto. Descrições encantadoras.

    Observei, em seus respectivos contextos:

    “saltos descascados – portas apressadas – terno puído – joelhos afobados – pés bem calçados – dia de solidão – os primeiros calores – estender a frescura da noite – compartilhava o marasmo dos dias – centro encardido – livreiro de uma vida toda – intervalo de um dente de cada lado – enjeito de Claudinéia – desarranjo de caráter – já não contava com uma das poucas coisas grátis nessa vida, a saber, o sono, – costumava guardar a prudência no trato das suas esperanças” .

    Bom, se eu fosse colocar aqui tudo aquilo em que encontrei mais conteúdo matizado nas palavras, além do sinônimo, teria de “copiar e colar” o texto todo.

    O conto “brinca” com a inversão de papéis na sociedade. Do mendigo invisível, desprezível, passa para gatilho de invenção lucrativa. Converte-se de invisível para celebridade. A candura do velho livreiro mostra aquele valor que é cultivado, independente de toda e qualquer modernidade, tentando preservar os “ seus livros prediletos” , ainda que seja num cantinho qualquer.

    O início e o final do texto usam a mesma estrutura, com visão diferente. Invertida. Do invisível ao notável, do antes e depois, e, tristemente, quando o leitor encerra a leitura, fica aquela sensação de realidade dolorida. Os valores mudam, a luta é para quê? Tudo tão efêmero, mortal.

    João Maria, que texto danado para aporrinhar a ideia do leitor. Menino, fiquei horas matutando sobre a sua história! Mas, vou confessar uma coisa, é um texto soberbo, daqueles que eu gostaria de ter escrito. Você tem uma escrita sagaz, irônica.

    Parabéns, João Maria, seu trabalho é muito bom!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      E seus coments (rsrs) sempre muito cheios de consideração e de cuidado. É possível saber quando alguém leu seu texto dedicando-se a ele. E é o que você sempre faz. Não digo isso por você ter feito um comentário elogioso, até mesmo porque recebo ótimos comentários com grandes advertências, mas porque é sempre gratificante receber o respeito do leitor-avaliador. Obrigada.

  5. Elisabeth Lorena Alves
    16 de março de 2021

    O Mendigo e o Livreiro (João Maria) | EntreContos

    Sobre o mendigo e o livreiro. Comecemos pelo personagem da livraria. Ricúpero é um nome criado a partir do sobrenome homônimo e significa recuperado, remonta a idade antiga em que muitas famílias perdiam o nome por causa dos óbitos de berço. Se foi uma escolha consciente do autor há nela uma total ironia já que para efeito de concisão, termina o texto lembrando o leitor que a livraria segue em processo de deterioração: “(…) o aproximar apressado, dos pés vacilantes e atrasados do Sr. Ricúpero para mais um dia de desolação na livraria.” E, segundo o dicionário, o substantivo feminino tem dois significados relacionados à destruição: 1. destruição arrasadora; ruína, devastação. 2.estado ou condição de um lugar devastado, transformado em deserto; desertificação, despovoamento.
    O texto é contundente. Uma crítica social em berrante, daqueles do Pantanal mesmo. Acaba a leitura e o texto fica ali, soando, irritante, verdadeiro, até sumir. As verdades levantam-se do humor frouxo no texto, irritantes, sem insinuações, apesar da falsa inocência.
    O primeiro parágrafo mostra a pobreza disfarçada e a verdadeira face financeira de um povo que circula próximo à livraria: “saltos descascados, nas sandálias outrora chiques; Golzinho bola, fiat uno atrás do outro, carroça de madeira (…) vez ou nunca, uma Hillux com vidros fechados.(…) executivos, de terno puído, chegando para o labor bancário com as pastas pretas pomposas batendo leves nos joelhos afobados. E é pelos passos, solene, que conhecemos a segunda personagem, Sr. Ricúpero, e somos apresentados à sua posição de livreiro pela frase fatídica: “ para mais um dia de solidão na livraria.”
    Do segundo parágrafo em diante, conhecemos a amizade e as vantagens que o mendigo tem com ela, em troca de aulas frágeis de inglês, consegue um lanche, banho e bom papo. E conhecemos a origem de sua situação de bilingue; seu ex-amor , Claudinéia; sua recente fama; sua ideia de reforma; sua decisão de tornar-se sócio majoritário da livraria – que agora era escola de Inglês; sua nova condição, seu marketing e, sua nova cama. E conhecemos também seu parasitismo, sua atitude que simula minar e corroer devagar a situação que lhe favorece: “Já pr’mais de três anos aquela figura inusitada compartilhava o marasmo dos dias entre um café e outro (…)”. E na teoria do Parasitismo na Literatura “a queda das ideias não é imediatamente seguida da queda das instituições, mas as ideias novas habitam muito tempo na casa de suas antecedentes, casa desolada e incômoda, e até as conservam, por falta de morada” (Eduardo Schmid Andrade etc). E no texto surgem exatamente pontos específicos em que os personagens que circulam próximos de Ricúpero tendem a tirar vantagem e aproveitar-se dele.
    O último parágrafo mostra a situação de humor ainda nos passos do senhor Ricúpero: “Uma jogada com canto de olho e, inevitavelmente, o aproximar apressado, dos pés vacilantes e atrasados do Sr. Ricúpero para mais um dia de desolação na livraria. No primeiro parágrafo o orgulho do livreiro em falência é cerimonioso: “o aproximar solene dos pés bem calçados do Sr. Ricúpero (…)”, agora o contraste: inseguro e atrasado. Só isso já torna o conto rico, porque marcar um universo de possibilidades em dois adjetivos apenas é algo incrível.
    Há antes uma jogada inteligente sobre a descrição do mendigo que também é interessante, o autor usa a noção espacial para falar da saúde bucal: “Pelo intervalo de um dente de cada lado (…)”. A escrita é de cortes. Há uma certa comunicação com outros textos que curti no Entrecontos. A leitura é rápida, mas proveitosa, não se percebe a extensão real do texto. Mais um dos contos dessa safra que é fotográfico.
    Ao colocar um mendigo que fala um inglês paupérrimo – melhor que alguns escolarizados nacionais, o autor cria ou melhor, deixa em aberto para a interpretação do leitor que ao centrar a ideia em um único espaço de globalização a Sociedade abre espaço para ferir a variedade de pensamento, criando uma hegemonia até nociva que impossibilite o pensamento contrário. Se por um lado expõe a situação pobre do Ensino da Língua estrangeira e sua total inutilidade sem a prática oral e, por outro, mostra que essa debilidade é reconhecida por qualquer pessoa com o mínimo de conhecimento do outro idioma.
    E no caso de fechar uma livraria – a única daquele bairro, fere também o espaço da bibliodiversidade e anula as poucas apostas em leitura que o ponto de venda ainda cobria. Além de destruir uma forma de trabalho que era até então familiar. Em tempo, fechar uma livraria, o pior, transformá-la em um espaço que vende conteúdo pronto, é fortalecer a ideia de rompimento social que Gilberto Freyre aponta no seguinte fragmento: “Estas passam a funcionar, agora, como referenciais novos das antigas casas, ou seja, elas passam a incorporar a sua fantasmagoria mercadológica.” Aqui, casas servindo como sinônimo para espaços de Leitura e conhecimento e serve para inserir o conto na ideia de capitalismo industrial que retira da mão de um livreiro o poder de indicar um livro e coloca em seu espaço o mesmo ser como empurrador de conteúdo pronto e igual. vale aqui lembrar que o material biblios estende-se em diversas correntes, o livro didático de consumo rápido desse ensino mastigado, emperra a continuidade da construção do conhecimento e coloca no lugar o conhecimento enlatado, padronizado e intocável. Sai a ação heterogênea em que o “valor-de-uso natural e do trabalho útil particular que lhe deu origem,” é o que conta e entra no lugar a prática homogênea.
    O trabalho bem elaborado do autor nos faz ver que, às vezes, a fama de alguns pode ser nociva para o outro. E no caso do conto, o mendigo estrategista é um ser parasitário, que não cria nada de fato, vai se aproveitando das oportunidades e se estabelecendo não para crescer e ser algo ou alguém, mas para ter um mínimo de conforto fácil e sem gastos. Ele fez dinheiro antes da “brilhante” ideia de se associar à livraria; não quis sair das ruas, com seu discurso duplo de feeling e de não perder o status quo de mendigo bilíngue e, conseguiu se estabelecer exatamente no ambiente do outro. Sem gastos além do prazer que já tinha de arrotar seus conhecimentos rasos da língua alheia. Vale lembrar que ele se via melhor que a maioria, o narrador diz, antes: “Pelo intervalo de um dente de cada lado, o mendigo exibe o seu distintivo, a razão do desnível entre ele e aquele povaréu conhecedor de não mais que meia língua.” Ou seja, para ele, o conhecimento do inglês era o que o distinguia dos demais, o fazia superior, como está posto no fragmento supracitado.
    E de novo vejo como crítica à qualidade do Ensino quando a professora habilitada aceita fazer parte do circo armado pelo mendigo por reconhecer sua fama e vê aí vantagem para o currículo: “… atuar ao lado do cidadão bilíngue, (…) tornara-se uma excelente maneira de dar um tranco em qualquer carreira mediana.” Sim, a tipa nos mostra que o parasita e aproveitador é figura recorrente na vida.
    O narrador não interfere na narrativa mais do que o essencial, o que também é uma qualidade narrativa espetacular. O desenvolvimento do texto é excelente. E o clímax me deu raiva. Transformar os livros em cama desse mendigo!
    Aqui vale destacar que embora o narrador quase se faça de morto, é ele obviamente que leva o texto até o leitor. É dele o humor, as provocações críticas e, como afirma Compagnon, cria o caminho para que gera a “interação do texto com o leitor,” que elabora no discurso ‘um esquema virtual em que o texto instrui e o leitor constrói”.
    Quando digo narrador que não interfere me refiro ao tipo que narra, por exemplo, um romance, que conta a história e mesmo que emita opinião o faz de forma tão silenciosa que não se percebe ser a voz de fora do ambiente do romance e personagem.
    A título de conclusão, vamos à estrutura do texto. É bem elaborada e circular, sem perder a essência da história contada, o que coloca o texto enquanto produção em uma engrenagem, porém o tema é, sem dúvida a criação, pela perspectiva de um parasita, mas ainda assim, criação. Ele pega o que respira e reordena o espaço, ainda se utilizando da estrutura do espaço – no texto o da livraria – e continua a viver neste corpo enquanto ele ainda vive.
    Boa Sorte, João Maria, no Desafio!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Meu Deus! Não preciso de mais nada. Já posso ir dormir. Que me importam as notas que recebi diante desse comentário? É por isso que é preciso estar no EC. Você destrinchou minha alma, querida, até em recônditos que nem eu conhecia. Quanto ao parasita, sim, ele é o cerne do texto. Aquele que se aproveita da “engrenagem” assoladora da novidade, da sociedade espetáculo…e “cria” algo com cara de novo a partir das crostas por onde tem se alimentado. “Um parasita nunca deseja a morte de seu hospedeiro” é uma conclusão histórica tanto para os
      movimentos revolucionários que aproveitaram-se das benesses do capitalismo (e o fazem hoje como nunca) quanto para os capitalistas que sugam os recursos e as vantagens do Estado. Fico especialmente feliz com as suas observações sobre o narrador, pois tenho uma especial preocupação com a não interferência óbvia que permeia a maior parte dos textos panfletários. Muito obrigada por seu grande cuidado e respeito a essa minha tentativa literária.

      • Elisabeth Lorena Alves
        22 de março de 2021

        Olá…
        Se um dia eu for realmente publicar um livro de minhas análises, com certeza publicarei esse. Gosto de ver que temos novos escritores no mundo pensando nessa coisa toda de narcisismo sociopolítico e tal. Seu texto é uma tapa na cara da Sociedade e deveria ser “matracado” pelas portas das cidades como os mensageiros faziam com os editos dos reis!
        Parabéns incessante…

        Em tempo, amo brincar com narrador invisível, mas ainda não consegui algo como o seu. parabéns de novo.
        Elisabeth

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Ahhh! e sobre o nome Ricúpero, não, não o escolhi pelo significado. Nem sabia, aliás. Escolhi por combinar com o personagem.

  6. Catarina Cunha
    15 de março de 2021

    Criação: A trama é forte e o personagem do mendigo tem estrutura belamente trabalhada.

    Seguir o tema é o desafio. Neste conto, embora muito bom, não consegui encontrar as engrenagens da criação nem a criação das engrenagens. Talvez a criatividade do mendigo? Então todos os contos são criações? Ou todos os contos possuem uma engrenagem? Ou vice-versa e muito pelo contrário? Logo o tema não é aberto e sim escancarado. Ok, ok, ok…

    Engrenagem: Ambientação muito boa logo no primeiro parágrafo; o que é fundamental em um conto curto. Humor sutil.

    Destaque: “De frente, passavam as portas apressadas.” Gosto desse tipo de desconstrução sensorial dos objetos.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Catarina. O conto é sobre um parasita que, se aproveitando da “engrenagem” que nos assola, do imediatismo, da novidade, da sociedade espetáculo…decide criar um novo habitat, mais lucrativo para si, sem se desgarrar ou deixar morrer de vez o seu hospedeiro. Um abraço.

  7. Jorge Santos
    14 de março de 2021

    Olá. O seu conto narra a história de um mendigo que ajuda um livreiro a renovar o seu negócio. No final, o livreiro rejeita o valor que o mendigo propõe para a sociedade e tenta voltar ao seu velho modelo de negócio, que resulta mal. É uma fábula onde o tema do desafio se dilui no vazio e que peca por alguma falta de coerência – por muito romântica que seja a ideia do mendigo que do nada se revela empreendedor, falta mostrar o reverso da história, as suas falhas que o levam a viver na rua. Conheci um caso assim, um poeta de Braga que foi viver na rua por opção. Pessoa brilhante, super educada, que tinha o vício da bebida. Faltou, na caracterização do seu mendigo, referir as suas falhas. Porra, até o super-homem tem a Kryptonite, mas o seu super-mendigo é um Steve Jobs em potencial.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Jorge. Penso que você passou um pouco distante da trama mais profunda da história. Contar a trajetória do mendigo não era o objetivo e num conto não temos tanto espaço. O conto é sobre um parasita que, se aproveitando da “engrenagem” que nos assola, do imediatismo, da novidade, da sociedade espetáculo…decide criar um novo habitat, mais lucrativo para si, sem se desgarrar ou deixar morrer de vez o seu hospedeiro. Um abraço.

  8. antoniosbatista
    11 de março de 2021

    O mendigo sai dos EUA, não se sabe o motivo. Talvez seja um assaltante de banco, pois ele chega ao Brasil cheio do dinheiro. Veja que é uma interpretação possível. No entanto, acaba gastando tudo em prostíbulos, jogatina e boates. Gastou o que tinha, ficou na miséria, escolhendo a sombra da marquise de uma livraria para morar.

    Ali, com seu linguajar bilíngue, ele se torna uma figura popular, folclórica. Dá conselhos para os transeuntes, e principalmente para o dono da livraria. Sugere mudanças no local e no final, tudo resulta em nada. Volta à rotina.

    Apesar de ser bem escrito, com frases elaboradas, uma história do cotidiano sem novidades, originalidade, diferente. Um bom conto, precisa causar impacto no leitor.

    A escrita é boa, mas o desenvolvimento, principalmente, o final do conto, foi fraco.
    Não fiquei impressionado e não encontrei nenhum dos temas no texto. O tema precisa ser ressaltado, posto em evidência e não vi nada disso. Por isso, perde pontos na soma final. Boa sorte.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Antonio. Estou aqui pensando no seu comentário sobre a “falta de novidade”….e imaginando quantos mendigos devem falar inglês no Brasil não é mesmo? Aproveitarei os seus apontamentos para refletir sobre minha escrita, apesar de acreditar que você não compreendeu a mensagem contida no conto. É sobre um parasita que, se aproveitando da “engrenagem” que nos assola, do imediatismo, da novidade, da sociedade espetáculo…decide criar um novo habitat, mais lucrativo para si, sem se desgarrar ou deixar morrer de vez o seu hospedeiro. Um abraço.

      • antoniosbatista
        23 de março de 2021

        Pois então, foi-me difícil descobrir sua ideia. Às vezes o autor raciocina uma coisa, o leitor outra coisa, ainda mais quando é uma parábola, ou sentido figurado, como foi a engrenagem inserida no texto. Se não fosse o tema, em vez de 7 eu daria 8 ou 9. Fora isso, gostei bastante de alguma frases. No lugar de falta de novidade, leia, falta de impacto. Mas só sua escrita já impacta rsrs.

  9. Renato Silva
    8 de março de 2021

    Olá, como vai?

    Primeiramente, não serão considerados gosto pessoal e nem adequação ao tema, já que o mesmo passou a ter entendimento extremamente esparso. Para evitar injustiças por não compreender que o autor fez uso dos termos escolhidos, ainda que em sentido figurado, subjetivo, entenderei que todos os contos terão os pontos correspondentes a este quesito.

    A minha avaliação é sob a ótica de um mero leitor, pois não tenho qualquer formação na área. Irei levar em questão aquilo que entendo por “qualidade” da obra como um todo, buscando entender referências, mensagens ocultas e dar algumas sugestões, se achar necessário.

    Agora, meus comentários sobre o seu conto:

    O jeitão de crônica me agradou bastante. Gosto muito do estilo, com linguagem leve, despojada e carregada de ironia. Ao longo do conto (ou da crônica), vê-se uma clara evolução naquela antiga livraria que vai se tornando uma moderna escola de inglês. Os clientes vai se renovando, mas o Sr. Ricúpero parece não acompanhar as transformações e nada daquilo para lhe agradar. O mendigo mostra-se um homem ambicioso, perspicaz e de grande carisma. Por outro lado, não faz sentido algum ele continuar dormindo na rua após passar um dia inteiro trabalhando na livraria/escola de inglês.

    Eu fiz esta observação em outros contos, farei aqui também. Dentro da proposta do conto, do universo abordado, não me pareceu coerente, verossímil, um morado de rua continuar dormindo na calçada do estabelecimento onde ele trabalha durante o dia. Poderia manter alguns hábitos, mas dormir nas ruas, não faz qualquer sentido.

    A meu ver, algo que senti falta no conto foi uma evolução nos protagonistas, que começaram e terminaram o conto quase do mesmo jeito. Não mudaram com a mudança no estabelecimento.

    Numa avaliação geral, a leitura foi divertida e agradável. Boa sorte.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Renato. Com relação ao mendigo continuar na rua, eu deixei isso claro no texto, de que ele nao assumiu oficialmente a função de professor, mas fingiu ser um eterno convidado, porque isso manteria a chama da novidade.

  10. Bruno Raposa
    8 de março de 2021

    Olá, João Maria.

    Tenho que começar dizendo que não faço ideia de como pronunciar um “pr’mais”, rs. Parece uma palavra em alguma língua élfica pra mim. =S

    Bom, eu costumo comentar fazendo textão, mas confesso que tenho pouquíssimo a falar desse conto. E isso, por si só, é um grande elogio. 🙂

    A verdade é que gosto muito da sua forma de narrar e desse climão meio de causo. Gosto demais de textos em que o cotidiano se mistura com o absurdo. E aqui temos um belo exemplo do que essa combinação pode gerar. Num cenário absolutamente comum e modorrento, temos uma figura pitoresca levando uma ideia aparentemente simples ao limite. Aliás, gostei da ideia de abordar a criação de um negócio. Boa sacada.

    Comecei o conto achando que ia odiar o mendigo. Pessoas que misturam línguas me irritam profundamente, rs. Mas ele consegue ser carismático e até surpreendentemente divertido. Até que vemos seu lado cafajeste e fica difícil torcer por ele. Porém, ainda assim, não consegui me voltar totalmente contra o personagem. O pobre Ricúpero, que tem um nome e tanto, é um personagem pálido, mas ainda assim conquista com sua inocência e gera empatia. Dá até dó de ver o coitado lutando pra manter um lugarzinho para os clássicos em sua livraria.

    Mas isso tudo funciona mesmo por causa da narração. Há um humor muito sutil, construído como pano de fundo, sem piadas escancaradas. Há também um respeito pelos personagens, sem julgá-los ou ridicularizá-los. Além de várias construções muitíssimos interessantes no texto. O enredo se desenvolve num ritmo agradável, sem pressa ou marasmo. As falas tem um quê de artificial, mas sevem muito bem à narrativa.

    Porém, como nem tudo são flores, não gostei do final. Mas não gostei mesmo, rs. Fiquei com a impressão de algo sem conclusão. Sequer deu pra entender se o negócio continuou prosperando ou não. Não há um indicativo de que fracassaria, mas o conto termina falando em desolação na livraria. Não entendi se a desolação seria por um fracasso ou apenas por não ser mais, efetivamente, uma livraria. Creio que a segunda opção, mas não dá pra ter certeza. A ideia da cama de livros é legal, mas não é um desfecho para o enredo. Realmente minha sensação foi de que a história foi interrompida antes do fim, sem jamais sabermos qual o destino de Myke ou de Ricúpero, ou mesmo da livraria.

    Não posso dizer que não fiquei frustrado com esse final. Foi pra lá de anticlimático. Não me impediu de curtir o conto, foi uma leitura prazerosa, com muito mais pontos positivos do que negativos. Só ficou um gosto amargo no fim de algo que vinha tão doce até então.

    E eu, bobão que sou, tenho paladar infantil, rs.

    É, acho que no fim eu não tinha tão pouco assim a dizer. 🙂

    Abraço e boa sorte no certame!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Olha a raposa ai…olha ela, olha ela (rsrs) obrigada por seu comentário, querido. O final, caso tenha observado, mostra a evolução do negocio sim. Veja – (O mendigo SEGUE olhando, na SATISFAÇÃO dos anos, o passar do tempo apressado e ALVISSAREIRO da Rua Misael Cordeiro). E o conto nem se destina a tratar sobre a escola de ingles, na realidade, mas sobre a personalidade narcisista, parasitaria do mendigo que se aproveita da engrenagem que atualmente nos afeta (novidade, espectáculo) para criar algo em cima da crosta que o alimentava.

  11. Felipe Lomar
    8 de março de 2021

    Uma história bem interessante. Acho que é um retrato da realidade em que vivemos, onde a cultura muitas vezes é escanteada em favor do lucro, e busca-se essa coisa de status, de falar inglês para ir embora pros states. É interessante tambpem notar a malandragem do mendigo.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Felipe. Senti falta de um comentário mais detalhado e com apontamentos mais trabalhados. Procure fazer isso nos outros desafios, pois ajuda muito na evolução da escrita do autor. Um abraço.

  12. cgls9
    7 de março de 2021

    Um mendigo com um passado rico que lhe deu uma segunda língua; o inglês. Um livreiro com as dificuldades de vender pérolas aos porcos. Dessa relação surge uma sociedade: uma escola de inglês na livraria. Um sucesso inesperado. O tino comercial de Mike, o mendigo, segue transformando o negócio do Sr. Ricúpero; abriram uma lanchonete. Mas, logo essa inclinação comercial falou mais alto e o novo sócio exigiu que os lucros advindos da escola de inglês, se dividissem em porcentagens em que o mendigo, ficaria com a parte do leão. Dos livros restou somente a desolação e a frustração do livreiro.

    É uma história em que o assunto, (sempre frisando), para mim, não ficou claro. O que o autor (a) defende em seu texto? A esperteza, a vocação comercial, o declínio da literatura, a superficialidade daqueles que acreditam que serão melhores se, mesmo clandestinos, souberem pedir um hot dog, com um acento nativo, numa espelunca americana, depois de uma jornada de trabalho, num sub-emprego? Qual é a ideia do texto? Boa sorte!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Olá, é da Cláudia esse pseudônimo? Obrigada, querida, por seu comentário. Na realidade, não sei se quis “defender” algo. Busco uma escrita em que o narrador seja mais discreto e que não faça defesas explícitas. O que procuro fazer é criar personagens e deixar que sigam sua vida. Quanto a esse, trata-se de um parasita narcisista que aproveita-se da engrenagem que move a nova sociedade (a novidade, o espetáculo) e cria uma forma de sugar seu hospedeiro um bocado a mais, sem matá-lo, claro, como é próprio dos parasitas. Um abraço.

      • Luciana Merley
        22 de março de 2021

        Já vi que não é a Cláudia. Foi mal.

      • cgls9
        22 de março de 2021

        Não é a Cláudia. São as iniciais do meu nome. Prazer, Cícero! Obrigado por compartilhar sua visão da obra. Abraço.

  13. Priscila Pereira
    6 de março de 2021

    Olá, João Maria!

    Que triste fim teve os livros macios e cheirosos… 😔
    Gostei do seu cotidiano cheio de sarcasmo… E muitas verdades…

    Está bem escrito e bem ambientado, tudo muito visual e empático. Dói perceber que as livrarias estão fechando e os livros acabando… Que o dinheiro, a novidade, a modinha são muito mais importante do que a cultura e a literatura.

    Não vi o tema… Seria a criação de um novo negócio? De qualquer forma não pretendo acrescentar nem tirar pontos pelo tema.

    Parabéns pela participação e pelo conto tão real.
    Boa sorte 😘

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Olá, querida campeã. Obrigada por seu comentário tão gentil. O tema é exatamente a engrenagem que tem matado muitas das coisas que construímos de bom. Você mesmo relatou com perfeição “Que o dinheiro, a novidade, a modinha são muito mais importante do que a cultura e a literatura.” Obrigada. Um abraço.

  14. Fabio Monteiro
    28 de fevereiro de 2021

    Resumo: Um mendigo pra lá de boa pinta, manjado nos inglês, adepto a fazer bom uso dele, resolve ajudar uma livraria com os seus conhecimentos excepcionais. Conhecedor de marketing e estratégias infalíveis sobre vendas.

    Pontos fortes: Já parei para observar a vida de alguns mendigos da minha cidade. Eles parecem ter um padrão. Dormem nos mesmos lugares. Pedem ajuda nas mesmas estações. Quase nunca mudam suas estratégias para conseguir alguma coisa. Parece um ciclo, uma engrenagem que começa com o despertar, pedir, comer, olhar…despertar, pedir, comer, olhar. Quando fica só nisso é muito bom. O problema é que a maioria se perde (mais perdidos que já estão). Drogas, assaltos, maldades, enfim. Afinal, o que eles têm a perder. No texto senti isso. O que o mendigo tinha a perder? Nada. Ele não tem nada mesmo. Ofereceu o que tinha de conhecimento. E olha que temos muitos mendigos letrados por aí. Isso é mais comum do que imaginamos. O vendedor, livreiro, fez umas apostas arriscadas. Era isso ou, quem sabe, poderia estar ali, se tornando um mendigo após sua falência.

    Ponto fraco: Achei o mendigo avarento, invejoso, cheio de cobiça. Entendo o seu querer mais, mas não me agradou. Talvez, se no final tudo tivesse dado certo para os dois, a narrativa teria feito este ciclo de impressões ser diferente.

    Comentário geral: A narrativa é bem equilibrada, movimentando bem as fases da vida entre um e outro personagem. Sucesso e fracasso são variantes que fazem parte da vida de qualquer pessoa. Isso torna o texto muito interessante. Quem somos se perdermos tudo? O que seremos se recuperarmos tudo? Qual a diferença entre uma e outra fase? Eu confesso que no texto não percebi as diferenças. Notei apenas as semelhanças entre cobiça e ganância.

    Boa Sorte Autor(a)

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Olá, Fábio. Obrigada por seu comentário. Me explica uma coisa: você não gostou da forma como construí o personagem? Porque o que eu quis foi exatamente um mendigo “avarento, invejoso, cheio de cobiça” (rsrs) Um abraço.

  15. Fheluany Nogueira
    27 de fevereiro de 2021

    Livreiro falido consegue reerguer os negócios com a assistência de um mendigo que falava inglês-americano e se fizera conhecido por um vídeo. Mas, ao tentar recuperar o sistema antigo, isto é, vender livros, o livreiro voltou à situação antiga.

    Um texto muito sensível, reflexivo e, ao mesmo tempo, divertido. É coeso ao construir a narrativa em torno do mecanismo da fama, do sucesso comercial, tanto em âmbito psicoemocional e lógico, quanto social. Os americanismos ilustraram bem a trama. O mendigo é um personagem peculiar e carismático, muito bem construído. O personagem do livreiro é crível e passa certa melancolia, talvez a dor por sentir o pouco valor que é dado aos livros.

    Gostei da dualidade do antigo x atual, do clássico / literário x comercial. Enfim, texto bem escrito e fluido. O final circular não surpreendeu muito, quase um anti-impacto, com uma tristeza imensa (ninguém quer ler clássicos, só houve intersse pela comida).

    Parabéns pelo conto. Boa sorte. Abraço.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, querida. Você captou as mensagens.

  16. Fernando Dias Cyrino
    27 de fevereiro de 2021

    Ei, João Maria, você me traz uma história bem interessante. Gosto do seu estilo ao contá-la para mim. O mendigo bilingue por ter morado nos Estados Unidos que faz ponto diante da livraria decadente (como todas o são, infelizmente) e que dorme, gostei muito da sua tirada cheia de ironia, em frente às Americanas. O mendigo que ganha notoriedade, os seus quinze minutos de fama, e que sonha dar uma repaginada no negócio do senhor Ricúpero. E daí, observando o dia a dia constituído de marasmo no negócio do seu amigo, lhe nasce o sonho da sociedade, as aulas de inglês e a venda de livros para o público mais jovem, as estantes com apostilas as vitrines com capas coloridas… e mesmo o café ao fundo da loja… Mas ao fim de tudo lá vem os “pés vacilantes e atrasados do Sr. Ricúpero para mais um dia de desolação na livraria”. João Maria, ficou muito legal o seu conto. Gostei da sua criatividade e dessa inserção do sonho do mendigo louco no meio da história. Ou, pera lá. Sou eu o louco a imaginar isto tudo? Acho que não… Meu abraço de parabéns.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Fernando. Não, não é louco (kkk). Só foi um pouco condescendente com aquele mendigo avarento. Um abraço.

  17. Anderson Prado
    25 de fevereiro de 2021

    Do que li até aqui, é do que mais gostei. Talvez não tenha o refinamento estético ou estilístico de outros textos, mas o enredo é simpático, sobretudo para nós amantes dos livros. Afinal, como não gostar deste homem cujos sonhos se espraiam em literatura? Achei a sacada final (última fala do protagonista), bastante criativa. Ao mesmo tempo, é um pouco desolador ver esses clássicos cobrindo o chão da calçada para servir de cama para o mendigo. Há bastante humor no conto.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, caro Prado.

  18. angst447
    25 de fevereiro de 2021

    Não sei onde exatamente o conto se encaixa ao tema proposto pelo desafio, mas vou supor que seja a CRIAÇÃO de uma inusitada sociedade entre um livreiro e um mendigo.
    A narrativa é cativante porque não esperamos que dois personagens tão dispares encontrem sintonia. Não sei por que, mas o conto me fez lembrar os livros de Carlos Záfon, o que é um imenso elogio da minha parte. O mendigo me fez pensar no personagem Fermin, embora esse não fosse dos Estados Unidos, muito menos acabasse sendo professor de inglês. E também me lembrou um pouco o cenário daquela comédia romântica Mensagem para Você.
    O conto está bem escrito e desenvolve-se com um toque de humor que funciona bem como atrativo ao leitor. Uma leitura leve, sem entraves que atrapalhem a assimilação da trama.
    O final funciona como uma volta ao mesmo cotidiano, um looping, a vida de nenhum dos dois de fato mudou muito. Apesar do êxito do curso de inglês, Mike continua na sua condição de sem teto, embora tenha aceitado ter uma cama feita de livros rejeitados da livraria do sócio. Interessante.
    Boa sorte.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Cláudia. Achei que o seu comentário era o do cgls9 lá em cima (que bola fora eu dei lá). A engrenagem que tem esfacelado tantas coisas boas que construimos, pela loucura da novidade, pela atracão do espetáculo, pela velocidade e desvalor das coisas – é sobre isso. Um abraço.

  19. Kelly Hatanaka
    23 de fevereiro de 2021

    Puxa, mas como foi que esse mendigo tão espertinho foi perder tudo o que tinha? Ficou bem ambígua a relação entre o mendigo e o livreiro. Às vezes parecia uma amizade sincera, por vezes oportunismo de ambas as partes. Muito bom! Só senti falta de engrenagens ou criação. É isso mesmo, ou eu perdi alguma referência?

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Obrigada, Kelly. A trama mais profunda do conto tem a ver com a engrenagem que nos assola, a do desvalor das coisas, do utilitarismo, da sociedade do espetáculo…que leva um parasita a desejar criar algo e renovar a relação com seu conveniente hospedeiro.

  20. thiagocastrosouza
    23 de fevereiro de 2021

    João Maria, belo conto!

    Creio que o tema do desafio foi abordado na mudança inadiável que o esperto Mike consegue imputar na livraria, enquanto Ricúpero tenta, entre vantagens e desvantagens, manter a essência do legado da família. Não há o que fazer, pois a mudança está posta e contínua. A engrenagem não para de girar e diz muito sobre a relação que as cidades tem com suas livrarias, muitas fechando ou tendo de se adaptar para não sucumbir à falência. Hoje há uma tentativa de transformá-las em centros culturais, casas de show, lanchonetes e café. Algumas sobrevivem, mas perde-se também o foco no que deveria ser o principal: os livros. Fiquei pensando bastante nessa figura do vendedor que faz a resenha oral, que sabe indicar, que ama os clássicos. Vejo esses tipos nos sebos paulistanos e em algumas livrarias menores, que dá gosto de visitar e trocar uma ideia.

    Para além do tema, você tem uma escrita leve e bastante palatável, um texto ágil, divertido e que me tranquilamente até o final. Esse antagonismo entre Mike e Ricúpero foi bem construído também, e me remeteu às clássicas duplas de humor da cultura pop, do cinema e da literatura: um arrojado antiquado em contraponto com um despojado visionário.

    Enfim, belo texto!

    Grande abraço!

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Muito obrigada, caro Thiago. Também pensei nos livreiros dos sebos quando escrevi Ricúpero. Um homem além desse nosso tempo enfrentando a fúria utilitarista do seu parasita de conveniência. Gostei muito da forma gentil e dedicada como descreveu meu texto. Grata.

  21. Eduardo Fernandes
    21 de fevereiro de 2021

    Não sei bem o que achar do teu texto. Eu gosto do tema como um todo, mas senti alguma quebra de ideias, principalmente na transição de alguns parágrafos, que acontece um pouco por todo o texto. Isso deixou uma sensação agridoce, daquelas que me faz não saber bem se gostei ou não.

    A escrita em si está boa. Talvez uma ediçãozinha em alguns pontos, mas, nada assim que comprometesse muito o texto.

    Particularmente não entendi bem onde é que criação ou engrenagem entram no texto.

    • Luciana Merley
      22 de março de 2021

      Valeu, Eduardo. Também estou com uma sensação quase agridoce, daquelas que me deixam em dúvida se conseguirei te explicar ou não. Um abraço.

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Publicado às 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação e marcado .
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