EntreContos

Detox Literário.

O Mendigo e o Livreiro (João Maria)

O mendigo seguia olhando, na continuação dos anos, o passar do tempo vagaroso e baforento da Rua Misael Cordeiro. Via os saltos descascados, nas sandálias outrora chiques, e que arrastavam as crianças birrentas rumo à escola. De frente, passavam as portas apressadas. Golzinho bola, fiat uno atrás do outro, carroça de madeira atravancando o trânsito e, vez ou nunca, uma hIllux com vidros fechados. Num girar do pescoço, sem muito esforço, via ao longe os executivos, de terno puído, chegando para o labor bancário com as pastas pretas pomposas batendo leves nos joelhos afobados. Uma curva a mais no pescoço e, finalmente, o aproximar solene dos pés bem calçados do Sr. Ricúpero para mais um dia de solidão na livraria.

O mendigo vive por ali. Dorme sob a marquise da Americanas, onde o clarão da avenida cumpre de afugentar os gatunos maus. Depois migra, ainda com o sol escondido, para entremeados do quarteirão entre a Misael e a Peçanha. Prefere não tomar na cara os primeiros calores e assim consegue estender a frescura da noite por um pouco mais de tempo. Já pr’mais de três anos aquela figura inusitada compartilhava o marasmo dos dias entre um café e outro, uma lição de inglês e outra, com o dono da única livraria que restou no centro encardido de Comendador Palhares.

O Sr. Ricúpero, livreiro de uma vida toda, filho e neto de livreiros, achou no mendigo uma companhia proveitosa. Apesar da aparência desalinhada, ele conseguira aprender algumas boas lições do inglês estadunidense com aquele ex imigrante de vida desajustada. Cafés com broinha, água gelada limpa e banho quente no chuveiro dos fundos em troca de algumas frases prontas no dialeto que os reinounidenses abominam.

Pelo intervalo de um dente de cada lado, o mendigo exibe o seu distintivo, a razão do desnível entre ele e aquele povaréu conhecedor de não mais que meia língua. Dos anos glaciais em Massachusetts, dos telhados, pisos, gramas e o mais que fosse, ele trouxera alguns milhares. Dólares gastos, real a real, nas noites de camaradagem bêbada e de mulheres da vida nos inferninhos da periferia. Restou-lhe o enjeito de Claudinéia, os cents nas ruas do centro e a segunda língua, longe de bem aprendida, que concedia-lhe, contudo, uma sensação de existência superiormente interessante. Introduzia pedaços da fala estrangeira em cada sentença quanto podia. Para os garotos do skate e dos fones de rap, que rodopiavam por horas no seu entorno, repetia as gírias e o som cantado dos bairros negros do norte. Para os estudantes dos cursinhos de inglês britânico, exibia frases inteiras da reinvenção linguística norte americana, embaraçando-os por completo.

― Hei, guys! Lá nos States cês não iam conseguir nem um café com essa fala cheia de T pra todo lado. Faz som de RRR, rapaz, som de RRR. Warrrrer. Repete. Warrrer. Assim, that’s it, assim is good ― e divertia-se na calçada cheia.

O mendigo bilíngue ganhou recente notoriedade quando, após uma entrevista requisitada por uma aluna, no que aceitou com júbilo e de pronto, o vídeo gravado por ela espalhou-se pela cidade inteira. De entrevista na TV a participação em palestra motivacional, passando por campanha política, Mike, o mendigo, por autonominação, aceitara de tudo.

O bom amigo Ricúpero também usufruía, não por força de avareza, pois não tinha tal desarranjo de caráter, das benesses da fama do encostado. Por sugestão do próprio mendigo, grato e desejoso pela continuidade recíproca dos laços, concordou que a propaganda da livraria, e como não, a sutil associação da sua imagem às portas do comércio, já seria razão para garantir-lhe algumas vendas a mais. O pouco tempo mostrou que estavam certos. O movimento na livraria, mais por curiosidade e menos por interesse cultural, aumentou um pouco e rendeu ao quase desistente livreiro um respiro extra. Mike, então, tomando para si a boa e justa culpa pelo novo fluxo salvatório, liberou-se do costumeiro trato cheio de reservas com o dono e sugeriu uma reorganização na vitrine da frente.

― Seu Ricú, come here. Dá uma olhada nessa sua loja. O quê que o Sr. vê daqui de fora?

― Ora! Vejo livros, capa de livros, agendas, devocionais. Por qual razão a pergunta?

― Dá outra olhada. Se esforça, please! Não tá faltando cor aí, não? Olha pr’esses livros! Tudo capa grey, brown e white. Seu Ricú. Oh! Seu Ricú, põe alguma coisa red aí. Pink pra´s meninas. A galerinha novinha não interessa por essas seriedades, não. Understood?

A Ricúpero Livraria, apesar do recente acréscimo nas vendagens, abria ainda por pura teimosia. Aterrorizado pela irrevogabilidade dos boletos vencidos e a vencer, o dono já não contava com uma das poucas coisas grátis nessa vida, a saber, o sono, do qual o mendigo se gabava ter sido um só, de pedra, em cada café com broa, a cada nova manhã calorenta do centro de Palhares.

Ainda afetado pelas recentes demonstrações de valor recebidas, o mendigo, no afã de aproveitar a fama decerto passageira, apresentou ao amigo livreiro uma proposta das mais ousadas que o vivido Ricúpero já pudera imaginar.

― Vamos abrir uma English School de inglês prático. Aqui mesmo, seu Ricú, no piso de cima. What you think?

 Corda jogada e bem depressa agarrada por aquele comerciante em queda livre.

― Sim. Por que não? Veja! Ricúpero Livraria e Escola de Inglês ― exclamou o velho como quem lia em uma placa entre as mãos, com entusiasmo, no que foi prontamente interrompido pela cara discordante do quase sócio.

O mendigo argumentara, sem muita chance de réplica ao dono, que a novidade deveria vir primeiro, em letras maiores, garrafais, e só depois aquilo por todos já sabido, afinal, o intuito seria atrair um público diferente do habitual. E quanto ao nome:

― Ah! meu amigo, vai me desculpando, mas penso que o seu nome, eu até gosto dele, é dos bons, das antigas, só que é meio inapropriado pro timing do negócio. Que tal Ricó? É, porque Ricú vai soar meio strange. Aliás, Rico, com dois cês, pra parecer mais americano, que tal? Look! RICCO INGLÊS E LIVRARIA: fale inglês americano em 6 meses. É very nice, não?

Trataram de encontrar uma professora habilitada, o que de modo algum representou dificuldade, pois, atuar ao lado do cidadão bilíngue, àquela altura por todos conhecido, tornara-se uma excelente maneira de dar um tranco em qualquer carreira mediana. O planejado foi que ela daria as aulas obrigatórias e, Mike, o mendigo, faria participações diárias, divertidíssimas, e se encarregaria dos bate papos educacionais. Tudo como se nada planejado. Por sugestão do mendigo, ao menos para os de fora, o dono continuaria o mesmo e Mike nada mais que um convidado permanente. Assim feito. A fachada do estabelecimento, preservada no mesmo estilo desde os tempos do Ricúpero pai, foi então trocada por outra muito mais extravagante, com as sugeridas garrafais sobre um fundo fosco com o desenho da bandeira norte americana.

O início das inscrições, com pagamento adiantado dos dois primeiros meses, surpreendeu aos mais céticos, em especial ao Sr. Ricúpero que, a despeito das suas necessidades urgentes e da euforia inicial, costumava guardar a prudência no trato das suas esperanças. Aulas pela manhã, a tarde e a noite. Vai e vem, casa cheia, alguns poucos livros. Já na segunda semana, o mendigo sugeriu ao sócio encontrar alguém para montar uma pequena lanchonete em atendimento à demanda interna, ali mesmo, num dos cantos menos frequentados, o dos livros mais clássicos, talvez. Aceito e feito, mas só após outra semana de negociações cerradas para que, por exigência do ex único dono, a seção favorita fosse transferida para uma outra área mais ao fundo.

O mendigo, nesse tempo com a rotina bastante alterada, sempre quando indagado pelos alunos, jornalistas e curiosos sobre a permanência nas ruas após a fama, respondia, com ares de serenidade, sobre o valor da liberdade e do desapego pelas coisas perecíveis. Quando convidado para uma palestra muito bem paga na associação comercial, foi muito aplaudido quando, no seu linguajar simples, mas bem enredado, argumentou sobre a necessidade de “sentir as ruas”, de ter o “feeling” necessário e experimentar na pele a falta para dar valor ao que vem depois. Numa conversa prévia com o Sr. Ricúpero, quando este ofereceu-lhe o escritório para servir de quarto improvisado, afirmou em tons professorais que, ele do jeito que era, como foi conhecido, era o segredo do negócio, afinal, sem a rua não existe o mendigo que fala inglês, e sem este, restar-lhes-ia o quê?

Passado o período de experiência muito bem sucedido, com a propaganda eficaz sendo feita de boca em ouvido, o mendigo tratou de queixar-se ao dono sobre a repartição dos lucros advindos da escola de inglês.

― Mas, trinta por cento não está bom pra você? Você quer quanto? A metade por acaso?

― Não, na verdade pensei em setenta, amigo Ricú.

― O quê? Você está maluco, homem? É a livraria quem paga os impostos, a energia, a internet, além de ser o espaço do negócio. Por acaso sabe quanto custa um aluguel aí fora?

― Não. Não faço a mínima. Mas, pensa um pouco. Look! Sem a English School só o que sobra nesse mausoléu é conta pra pagar e livro chato. Então, don’t worry! São business, companheiro, just business. Valor agregado vale mais que negócio parado, all right? ―  Concluiu, batendo nas costas do velho Ricúpero, enquanto iniciava uma outra conversa com um aluno que o esperava.

Passados alguns meses, as estantes foram sendo tomadas por apostilas das classes, games e alguns livros das listas dos mais vendidos. Ricúpero, agora encarregado de renovar inscrições e anotar recados na portaria, tentou com máxima resiliência não deixar empoeirar seu inequívoco talento para as resenhas orais e a sugestão de boas leituras. Numa última, até aqui, tentativa, encomendou uma boa quantidade de novas edições dos clássicos, com linguagem mais modernizada e capas capazes de fazer salivar a boca de tão coloridas e belas. Programou uma noite de festa para que a cidade enferrujada pudesse alegrar-se novamente. Croissants, empadas, bolinhos de chuva, chás quentes e cheirosos para uma noite de sábado, sem alunos de inglês, com os amigos de outrora, jornalistas, doutores, comerciantes, promoters e madames. Tudo devorado antes que ele concluísse a leitura teatral da crônica de agradecimento preparada com o mais devotado esmero. Restaram as bandejas esfareladas, as xícaras marcadas de bafo e batom, e os livros. Pilhas deles. Intocados.

― Mas, e agora? O que eu vou fazer com todos esses livros de capa cheirosa e macia? ― Exclamou em alta voz de dentro da livraria.

― Macio? Cheiroso? ― Perguntou o mendigo o olhando desde o outro lado da soleira. ― Ora! Give-me cá que eu os faço de cama.

O mendigo segue olhando, na satisfação dos anos, o passar do tempo apressado e alvissareiro da Rua Misael Cordeiro. Vê as coxas sob as saias das madames que arrastam as crianças birrentas rumo à escola. De frente, passam carros velhos e novos. Passa golzinho, fiat uno, hillux, todos com vidros arreados acenando para ele. Num girar do pescoço, sem muito esforço, vê ao longe os executivos, que por sua vez contorcem seus pescoços. inclinando para ele a cabeça, de dentro de seus ternos puídos. Uma jogada com canto de olho e, inevitavelmente, o aproximar apressado, dos pés vacilantes e atrasados do Sr. Ricúpero para mais um dia de desolação na livraria.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação.