EntreContos

Detox Literário.

A Cela de Ferro (Eduardo Fernandes)

Ela lançou-se novamente contra as grades da cela onde se encontrava, mas apenas conseguiu machucar o ombro. Sentou-se no chão de ferro oxidado, e esfregou a parte de cima do braço, tentando reduzir a dor.

Não sabia como chegara ali. Também não se lembrava de onde estava antes disso. Não fazia ideia de como se chamava, nem no que trabalhava. Estava nua e não se recordava de nenhum amigo ou de passatempo que gostasse. Toda a sua existência era uma página em branco. Tudo o que conhecia era aquela pequena cela de dois metros quadrados.

Abaixou a cabeça e chorou sem nem mesmo compreender porquê. Deixou que as lágrimas saíssem porque precisava, e sentiu-se melhor à medida que escorriam pelo seu queixo, descendo por entre os seios.

Limpou os olhos com as mãos e levantou-se. Pela primeira vez tomou consciência que havia outras celas nas proximidades. Percebeu então que não eram bem celas, estavam mais para gaiolas, feitas do mesmo metal enferrujado. Estavam organizadas umas em cimas das outras, formando duas enormes paredes, uma à sua direita e outra à sua esquerda. A exceção era a sua própria, que parecia estar sozinha a não ser por duas outras gaiolas, uma à sua frente e outra atrás, separadas, talvez, por uns vinte metros.

Se bem que à frente e atrás fossem relativos. Onde quer que estivesse, não tinha a menor noção de tempo ou de espaço. Não vira céu nem teto, apenas uma cor arroxeada difusa que parecia adensar-se até se transformar na mais profunda escuridão.

Continuou com o seu exame e viu que cada gaiola tinha outro ser humano, tão nu quanto ela própria estava. Olhavam-na com a mesma curiosidade com que ela os olhava e, ao sentir-se observada, compreendeu que não tinha vergonha da sua nudez.

Gritou para os outros, tentando perguntar-lhes que lugar era aquele e como é que haviam chegado ali, mas as suas palavras saíram disformes e sem sentido, com se ela fosse um mudo tentando falar. Em choque, levou a mão à boca. «Deus, o que fizeram comigo?» Compreendeu que, embora fosse capaz de pensar, esquecera-se de como pronunciá-las.

E não fora só ela. Das outras gaiolas era capaz de ouvir os mesmos gritos desafinados que acabara de emitir, e teve a certeza de que os seus companheiros de infortúnio também estavam a tentar comunicar-se. Teriam eles as respostas às suas perguntas, ou estariam tão perdidos quanto ela? Será que todos ali eram tábulas rasas, desprovidos de lembranças ou de histórias? Teriam eles vivido de todo?

Estavam distantes demais para que conseguisse ver-lhes as expressões dos rostos, mas a maneira como se movimentavam denotava confusão. Teria ela morrido e ido parar ao inferno dos desmemoriados, significasse aquilo o que significasse? Não era provável. Mesmo na morte tinha que haver a memória da vida. Sem a lembrança, deixa-se de existir.

Também não acreditava em reencarnação. Não sabia explicar o porquê, mas tinha a certeza  que só se vive uma vez, indo-se depois para onde quer que se vá. Mas então onde é que estava e como havia chegado ali?

Naquele momento foi jogada no chão. Tanto a sua cela quanto as outras que estavam perto de si moveram-se ao mesmo tempo, numa simetria perfeita. Moveram o suficiente para que a sua gaiola passasse a ocupar o lugar da que estava à sua frente, como se estivessem na linha de montagem de uma fábrica de automóveis.

Mais dores. A queda magoara-lhe as costas. O pior é que já tinha quase esquecido da dor no ombro. Levantou-se e reparou que a sua cela estava em cima de uma esteira feita do que parecia ser um couro muito grosso e resistente.

O chão ao seu redor estava completamente repleto de rodas dentadas presas umas às outras, num enorme mecanismo que parecia controlar a esteira. Tentou compreender a lógica do que via, mas era tudo surreal demais. Sentou-se, agarrou as grades e ficou à espera de novo movimento.

Uma eternidade mais tarde, ouviu um barulho. As engrenagens moveram-se e, tal como ela esperava, a esteira também. Segurou-se às grades com mais força, mas, mesmo assim, sentiu a aceleração puxando-a para trás. Reparou que havia percorrido a mesma distância que percorrera com o último movimento.

Não conseguia compreender o que estava a acontecer, mas continuou à espera. O que mais podia fazer? Sempre com os mesmos intervalos, a esteira voltou a mover-se por mais quatro vezes, até que ela viu uma enorme grua com três pás na extremidade do seu braço.

A grua girou e desceu sobre a gaiola à sua frente. Ouviu o grito de desespero do seu ocupante quando as pás se fecharam sobre ela — duas prendendo as laterais, e a terceira a parte de baixo —, elevando-a do solo a dezenas de metros de altura e levando-a para algum lugar que não conseguiu descortinar.

Foi assaltada por um barulho muito intenso que lhe fez doer a cabeça. Era um som ritmado, quase como o ribombar de diversos trovões. Percebeu finalmente que estava a ouvir o seu próprio coração a bater violentamente em resposta ao nervosismo. Obrigou-se a acalmar, mas só pensava que, muito em breve, a sua cela estaria dentro do alcance daquele monstro metálico. Voltou a chorar.

Foi pega desprevenida pelo movimento e, mais uma vez, arremessada ao chão. Gritou quando as pás se fecharam sobre as grades da sua cela. Pensou que seria esmagada, mas não. Foi levantada num movimento que inclinou a gaiola, derrubando-a sobre as grades. Urinou-se de medo, enquanto via o chão mover-se lá em baixo.

Finalmente foi pousada com um baque surdo e respirou aliviada ao ver outra gaiola à sua frente, ainda que muito mais afastada da sua. Era impossível ver com clareza quem estava dentro dela, mas estava vivo e bem.

Ali não havia mais as paredes de celas empilhadas, apenas a esteira, as engrenagens do chão e a gaiola à sua frente. Muito distante, via a silhueta de uma montanha envolta em fumo branco.

A cela voltou a mover-se, derrubando-a no chão mais uma vez. Já estava cheia de manchas roxas e o corpo doía muito. Não muito tempo depois, moveu-se uma e depois outra vez. Notou que o intervalo entre as deslocações era menor, e a aceleração maior. Mal conseguia segurar-se. Caiu diversas vezes e estava tomada por hematomas. A dor era tão forte que nem mesmo conseguia ficar em pé.

Também estava muito cansada. A força que fazia para agarrar-se às grades e não cair minara toda a sua resistência. Queria deitar e dormir, mas não era capaz. Toda a vez que fechava os olhos, pensava nas pás da grua a fecharem-se sobre si.

Uns quantos movimentos depois conseguiu distinguir a montanha que, afinal, não era nenhum acidente geográfico, mas um gigantesco ser humanoide com centenas de metros de altura. Tinha quatro asas, que mantinha descansadas junto às costas. A cabeçorra tinha quatro rostos: o da frente era de um homem extremamente bonito; o da esquerda era de um touro, com dois enormes chifres; o da direita, de um leão com uma imponente juba dourada; e o de trás era o de uma águia, com um bico de cobre afiado como uma espada.

À frente da criatura estava uma alavanca de ferro que lhe chegava à cintura. De tempos em tempos o gigante empurrava-a com a mão direita, fazendo girar as engrenagens que movia a esteira. Ao ver o ser e a alavanca, caiu no chão como se estivesse morta e não teve forças para voltar a levantar-se.

Os intervalos agora eram mínimos, e os puxões da aceleração, fortíssimos. O seu corpo era jogado constantemente contra as graves e a dor era excruciante. Sem quase conseguir levantar a cabeça, percebeu que, já muito próximo, estava a origem do fumo branco que subia até à montanha.

Era uma espécie de buraco iluminado, talvez um caldeirão, não conseguia ver bem por causa da cela à sua frente. Dele subia uma fumaça muito quente e húmida, como o vapor que sobe de uma panela a ferver. Naquele momento surgiu outra grua e desceu sobre a gaiola, prendendo-a pelas laterais.

A esteira moveu-se e ela viu, em desespero, que a cela foi impulsionada para dentro do caldeirão. A grua impediu que a gaiola caísse, mas o chão abriu-se, fazendo com que o seu ocupante  desabasse dentro do líquido abrasador e da neblina que dele subia.

Tentou gritar, mas não conseguiu. Já não tinha forças e o seu tempo estava quase a acabar. Chorou as poucas lágrimas que lhe restavam enquanto a grua voltou a descer, selando o seu destino. Era agora. Num movimento rápido, sentiu o corpo rodar e começar a cair. Finalmente veio o choque final e a dor extrema que se seguiu. «Deus, vou morrer?»

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Marina deu um grito e empurrou, sentindo que, finalmente, aquele pequeno corpo passara pelo meio das suas pernas, num jato de sangue e líquido amniótico que salpicou por completo o médico. Chorou de alegria ao ouvir o choro estridente do bebé que sugava o ar pela primeira vez e estendeu os braços, recebendo a criança repleta de sujidade.

«É uma menina.» Ouviu alguém dizer e chorou ainda mais. Sentiu o abraço do seu marido e, de repente, já não era capaz de se lembrar da dor que, até alguns segundos atrás, era excruciante. Num gesto instintivo, aconchegou-a junto ao seu peito, aquecendo-a com o calor do seu corpo.

«Você nasceu, meu bebê.» Disse com a voz cheia de ternura. «Foi difícil, mas agora você está aqui. Minha pequena Júlia, eu te amo tanto! Bem vinda a este mundo.»

21 comentários em “A Cela de Ferro (Eduardo Fernandes)

  1. Andrea Nogueira
    20 de março de 2021

    Atende ao desafio proposto. O conto é o relato de um processo de parto ‘natural’, que se vale da figura de ‘engrenagem’ como metáfora.

    A narrativa descreve esse processo com cores fortes, imagens indefinidas, sempre acompanhado por um torvelinho de sentimentos e sensações desagradáveis, de medo e de dor.

    A forma de contar é instigante o suficiente para manter o leitor preso ao forte suspense e ao mistério que envolve a protagonista. A força do Conto está no narrador, uma vez que a personagem central, e única, tem atuação passiva-reativa.

    A linguagem do texto é clara e direta, deixando a trama fluir e a atenção fixar-se no conteúdo, sem quebra do clima de tensão e suspense. Há poucos reparos gramaticais a se fazer.

    No desfecho, quando a narrativa revela a natureza do processo e, que se trata de um parto, confirma-se a adequação da forma de contar e a pertinência do uso de uma linguagem metafórica para descrever o que continuará sendo um mistério na prática, mesmo que a Ciência nos explique.

  2. Elisabeth Lorena Alves
    20 de março de 2021

    A Cela de Ferro (Fast Fingers Dwight) | EntreContos

    Bem, vamos ao conto “A Cela de Ferro”. Para analisá-lo vou separar de imediato as duas partes que compõem o mesmo. A primeira parte é uma grande sacada de terror. A segunda parte, uma das melhores reviravoltas do Desafio, mas que eu odiei. E talvez seja uma das melhores exatamente por isso, por ser odiosamente inesperada. O leitor está lá, arrepiado, esperando um clímax alucinante e aí, a esquizofrenia imagética se faz ou se desfaz e bum: Não é terror! É a descrição de um parto.
    A Linguagem é indestrutível no plano dos significados – não vou analisar o texto pela Gramática, não é meu interesse. Vou focar apenas no uso da linguagem como instrumento de convencimento. A narrativa se usa de um campo semântico bem acachapante, levando o leitor para um ambiente abissal, plantando uma angústia com cada frase e cada farsa elencada para levá-lo a concluir que sendo favorável ou não, o desfecho do conto é sim algo preso no âmbito do terror, da fantasia.
    No tópico da linguagem ainda dá para fazer associação de ideias. O “chão de ferro oxidado” é a sensação ocre que o ambiente de parto – e de cirurgia – costumam ter durante o processo. O desconhecer-se proposto em “ Não fazia ideia de como se chamava, nem no que trabalhava.” é normal para quem tem uma dor dilacerante de deslocamento ósseo e quebradura.
    Aqui vale lembrar que para algumas teorias literárias personagens e enredo estão sincronizados, sendo quase impossível dissociá-los, no conto presente posso juntar a essa ideia o ambiente. A forma em que o narrador conta é típica de um conto de terror, alucinante e junta tudo, cenário, enredo e personagem no mesmo foco, sem separar. Toda a ambientação é visível – na primeira parte, pelos olhos da vítima desse pesadelo. Na segunda parte, a separação é óbvia principalmente pela liberação de outros sentimentos que não o de terror da fase anterior.
    O ser de quatro cabeças é digno de nota. Que monstro! Clarividência da águia, a fecundidade do touro, a nobreza e a força imorredoura do leão e a beleza do homem. E as asas? Que coisa mais uma pessoa quer no auge da dor? Liberdade, com certeza! Em algumas culturas as asas simbolizam o desapego da vida terrestre, tanto que, se me lembro bem, Hermes, o mensageiro que também guiava as almas dos mortos as tem nos pés…
    Em uma primeira focada não há como suportar o final. Descobri, no primeiro minuto do puerpério da personagem, que era só uma experiência alucinante de uma parturiente faz com que pareça algo solto do contexto, porém, e aí está o segredo do discurso, pois quando relê o texto, então passa a fazer sentido. Não total, pois se fizesse seria descoberto o final antes. E isso foi muito bem construído. Digno de nota – e de ódio desta leitora!

    Boa sorte no Desafio.

  3. Rubem Cabral
    19 de março de 2021

    Olá, Fast Fingers.

    Resumo da história:

    Mulher descobre-se presa numa cela, nua e desmemoriada. Ao observar ao seu redor descobre que é apenas uma de uma multitude de outras pessoas nuas e presas, que correm sobre uma esteira, como numa linha de produção. Mais tarde, observa uma grua que iça as gaiolas até outro nível, onde há uma montanha que em verdade é como o anjo que apareceu para Ezequiel. Ao cair no que aparentemente seria um poço de lava ou algo assim, somos transportados para uma maternidade, onde há um parto de uma menina, possivelmente a mulher da gaiola.

    Análise do conto.

    Texto bem escrito, com bom world building e bastante tenso. Lembra um pouco Silent Hill, pelas engrenagens, névoa e criaturas estranhas. O tema do desafio teve boa adesão, apenas o final resvala um tanto no velho Deus ex machina, embora não a pouco de comprometer o conto.

    Abraços e boa sorte no desafio.

  4. Regina Ruth Rincon Caires
    17 de março de 2021

    A Cela de Ferro (Fast Fingers Dwight)

    Comentário:

    Misericórdia! Que descrição de parto! De trabalho de parto?!

    Quero acreditar que a criação (formação) e o parimento não sejam assim tão traumáticos. Penso que, desde a concepção, tudo seja bem confortável para o serzinho que se desenvolve. Agora, depois que nasce, o bicho pega. Mas, muito bem narrado ao final do conto, a dor do parto é secundária (quase inexistente) quando a cria é colocada nos braços. Não há encantamento maior.

    Texto primoroso, de uma limpeza ortográfica que impressiona. A leitura flui feito o ar que o leitor respira. “Dedos ligeiros”, cá pra nós, você não tem nada de iniciante. Sendo um escritor tarimbado, soube construir uma narrativa totalmente concatenada, fez descrições tão perfeitas que é possível, ao leitor, visualizar o galpão, as gaiolas, a esteira rolante, o caldeirão de boca aberta. É um contar concreto, trabalho competente.

    A temática do desafio está limpidamente retratada em todo o texto. Houve a junção das ENGRENAGENS com a CRIAÇÃO. Coisa de gente grande.

    Fast Fingers Dwight, parabéns pelo trabalho! Espero que eu não tenha “viajado”!

    Boa sorte no desafio!

    Abraços…

  5. Felipe Lomar
    15 de março de 2021

    Gostei do texto. Um dos poucos que conseguiu juntar os temas de engrenagens e criação em uma coisa só. Gostei da metáfora surrealista em relação ao nascimento. Gosto de coomo você escreve. Sua descrição e o seu ritmo conseguem transmitir uma tensão, de forma a transportar o leitor para dentro da cena.

  6. Luciana Merley
    15 de março de 2021

    A cela de ferro

    Olá, autor.
    O seu texto me pareceu tentar estabelecer um paralelo entre o nascer e o morrer com foco na dor.

    Critério de avaliação CRI (Coesão, Ritmo e Impacto)

    Coesão – Você optou por mesclar uma narrativa de Ficção Científica com um outro mais cotidiano, o que obriga o leitor tentar achar uma conexão entre eles. Me pareceu que o centro da história é o processo dolorido do nascer e do morrer. Pensei também que pudesse ter feito uma espécie de crítica à criação e uma possível manipulação da vida por um ser controlador. De modo que, apesar da diferença entre o estilo literário (e não sei se um texto tão curto é um meio apropriado para essa variação de estilo), identifiquei tal ligação.

    Ritmo – Bom em geral, fluido pela linguagem bem empregada. Incomodou-me um pouco algumas repetições e explicações dos sentimentos, sem que isso fosse demonstrado por cenas. Essas perguntas que você fez para esclarecer os sentimentos da personagem como “…será que eram todos tábulas rasas?” me parecem bastante explicativas e interrompem a imaginação do leitor, na minha opinião. O ambiente da primeira história não foi muito bem apresentado, com certa confusão entre as gaiolas, o espaço entre elas…enfim, o que gerou certo entrave na leitura.

    Impacto – Eu particularmente não aprecio tanto textos que não deixem claro a história que estão contando, especialmente textos curtíssimos. É claro que isso é uma opção do autor, mas refiro-me aqui principalmente à utilização do espaço. E nesse caso, você tenta descrever dois mundos e conectá-los, o que é impossível fazer com tão poucas palavras.

    Apesar das minhas considerações, (e peço desculpas se não compreendi adequadamente) parabenizo pelo texto escrito em linguagem agradável e desejo sorte no desafio.

  7. Fheluany Nogueira
    10 de março de 2021

    As dores do parto através da metáfora de uma engrenagem com celas de ferro.

    Palavras bem tecidas, narrativa e construções competentes. A premissa é boa, e a narrativa funcionou como um apanhado do momento mais desejado e mais temido pela gestante que é o parto. Ficaram bem retratados os incômodos físicos e as várias sensações emocionais da parturiente.

    Texto coeso, bem trabalhado, Gostei da sugestão trazida pelo título e pseudônimo. Achei a introdução um pouco alongada, mas com uma boa dose de suspense. O desfecho é poético, delicado e cria um clímax emotivo. Enfim, a leitura é prazerosa e o/a autor/a mostra experiência no trato da escrita.

    Parabéns pelo trabalho! Sorte. Abraço.

  8. Bruno Raposa
    8 de março de 2021

    Olá, Fast Fingers Dwight.

    Bom nome para um pistoleiro, rs.

    De forma geral, gostei do seu conto. Achei inventivo e utiliza muito bem ambos os temas, sobretudo Engrenagens. Gosto desse tipo de ambientação inusitada, onde personagem e leitor estão perdidos, tentando entender o mundo à sua volta. A angústia da personagem é palpável. O cenário que você criou é realmente bastante assustador – escuro, metálico, frio, desolador. O final foi inesperado, estava bastante curioso para entender qual seria a consequência do mergulho do caldeirão, e não tinha imaginado a possibilidade de ser um nascimento. A imagem da mulher sendo atirada nas grades da cela ser uma analogia para o bebê atingindo as paredes uterinas foi bastante singular, curiosa. A figura do gigante remete a um ser mitológico, mas se foi uma alusão direta a algum, confesso que não peguei, rs. Enfim, é um texto interessante, com imagens fortes e um final inesperado.

    Alguns pontos me incomodaram um pouco na leitura, vou listá-los abaixo.

    – “Se bem que à frente e atrás fossem relativos” – Particularmente, não gosto quando um narrador onisciente usa termos como “se bem que”, “ou melhor”, coisas do gênero. Afinal, ele é onisciente, sabe tudo o que acontece em cena. Quando aparece um termo assim, parece que ele está repensando, se corrigindo. Não me parece um recurso dos mais orgânicos.

    – “Percebeu então que não eram bem celas, estavam mais para gaiolas” – Não vejo muita diferença entre uma cela e uma gaiola que comporte um ser humano. Uma gaiola é uma espécie de cela, afinal. Talvez você quisesse se referir ao formato, não sei. Se for o caso, acho que falar diretamente do formato soaria mais natural. Essa diferenciação foi um tanto estranha para mim.

    – “compreendeu que não tinha vergonha da sua nudez.” – Nada realmente errado, apenas achei estranho que alguém completamente sem memória, que não sabia sequer a identidade, fosse lembrar que deveria ter vergonha da nudez. Também me pareceu esquisito que ela lembrasse da ideia de Deus. Meio confuso entender até onde vai a amnésia dela, o que entra ou não. Mas isso sou eu sendo muito chato, rs.

    – “mas as suas palavras saíram disformes e sem sentido, com se ela fosse um mudo tentando falar” – Não vou implicar com passagens possivelmente politicamente incorretas, rs. Mas, de qualquer forma, achei a analogia meio feia. Não me soou legal. Talvez eu esteja sendo chato de novo, o que não seria incomum, mas creio que havia formas mais elegantes de descrever o som. Ou mesmo mais assustadoras.

    – “«Deus, o que fizeram comigo?»” – eu só não consigo entender essa pontuação no lugar das aspas. Não sei se gramaticalmente faz sentido. Enfim, só não sei mesmo, rs. Mas como me chamou a atenção, decidi comentar. Pode me corrigir se eu estiver falando bobagem. Também não seria incomum.

    – Chegou um momento em que a insistência nas descrições da mulher sendo arremessada pra lá e pra cá e se machucando começou a me incomodar. Entendo o valor da analogia, mas acho que passou um pouco do ponto. Começou a ficar meio torture porn, parecia que acompanhá-la nessa situação era mais um exercício sádico do que qualquer outra coisa. Mas já sabe, né? Sou chato pra burro, rs.

    Bom, chatices à parte, reitero que gostei do texto. Gosto das imagens criadas, da analogia que certamente ficará na minha mente. Foi tudo muito visual para mim, como se realmente estivesse assistindo o conto passar na minha frente. Esse é um grande mérito. Não é um texto livre de falhas, mas é muito criativo e bem executado. Belo conto. 🙂

    Um abraço e boa sorte no certame.

  9. antoniosbatista
    8 de março de 2021

    No final do conto, uma mulher dá à luz a uma menina. Descobrimos então, que a gaiola é uma analogia ao útero da gestante. Toda criança em gestação, recebe estímulos sensoriais, até memórias da mãe. Isso responde as questões cima.
    O ser humanoide é um tetramorfo, que representa um conjunto de quatro elementos. Tive que pesquisar na internet o significado do homem e dos animais. Ao final e por fim, entendi o mote do conto e achei bom. Boas descrições, boa narração. Boa sorte no Desafio.

  10. Renato Silva
    8 de março de 2021

    Olá, como vai?

    Primeiramente, não serão considerados gosto pessoal e nem adequação ao tema, já que o mesmo passou a ter entendimento extremamente esparso. Para evitar injustiças por não compreender que o autor fez uso dos termos escolhidos, ainda que em sentido figurado, subjetivo, entenderei que todos os contos terão os pontos correspondentes a este quesito.

    A minha avaliação é sob a ótica de um mero leitor, pois não tenho qualquer formação na área. Irei levar em questão aquilo que entendo por “qualidade” da obra como um todo, buscando entender referências, mensagens ocultas e dar algumas sugestões, se achar necessário.

    Agora, meus comentários sobre o seu conto:

    Olha, gostei bastante da analogia que você faz entre estar numa esteira indo para uma morte iminente e o início de uma nova vida terrena. Eu sempre tive comigo que muitos não pedem para nascer e que vir ao mundo é a escolha de um sacrifício. A analogia nos passa a ideia de que o bebê também sofre naqueles últimos instantes entre o início das contrações e sua saída do corpo materno. Imagino que seja um bocado incômodo, talvez um pouco doloroso; mas compensado com grande alívio quando tudo termina. A criança sai com incrível fome e depois “desaba” em sono profundo.

    Texto bem escrito, correto. Explorou bem o tema. Conseguiu manter um mistério e despertou uma sensação de perigo, que se tornava mais intenso a cada momento. Apesar da obviedade ao terminar a leitura, o importante foi que o texto conseguiu me prender até lá.

    Boa sorte.

  11. cgls9
    7 de março de 2021

    Uma mulher está prisioneira numa gaiola de ferro, sem consciência de quem é ou de onde está, percebe outros na mesma situação e fica muito aflita quando uma engrenagem faz movimentar as gaiolas que se dirigem a um destino desesperador de fogo vulcânico e fumaça. Mas é só um parto.

    Acho que alguém já disse que nascer é uma violência… O conto mostra isso de uma maneira que eu, jamais imaginaria. Não sei. Talvez com mais tempo e sem a urgência da leitura e do prazo, eu descubra mais sobre ele. Por enquanto, fico com o bizarro – que não é ruim! Não me entenda mal. Eu gostei muito, mas preciso reler, para talvez, emitir uma opinião mais clara e objetiva. Boa sorte.

  12. Priscila Pereira
    4 de março de 2021

    Olá, Dedos velozes!

    Caraca, que conto angustiante! É muito perturbador, mas de um jeito bom 😁

    Ei não imaginava aquele final… Credo… Certeza que não é assim 🤭

    O ser que maneja a alvanca é um Querubim, como descrito na bíblia, mas confesso que nunca imaginaria esse ser nesse contexto. Muito original!

    Agora, o final, tudo isso ser um nascimento, não é de todo original, mas me pegou, não esperava.

    O conto é muito fluído, leitura rápida e fácil, muito interessante de acompanhar. Isso é difícil de produzir.

    Parabéns pela participação e pelo conto perturbador 😵
    Boa sorte 😘

  13. danielreis1973
    4 de março de 2021

    Prezado Entrecontista:

    Para este desafio, resolvi adotar uma metodologia avaliativa do material considerando três quesitos: PREMISSA (ou Ideia), ENREDO (ou Construção) e RESULTADO (ou Efeito). Espero contribuir com meu comentário para o aperfeiçoamento do seu conto, e qualquer crítica é mera sugestão ou opinião. Não estou julgando o AUTOR, mas o produto do seu esforço. É como se estivéssemos num leilão silencioso de obras de arte, só que em vez de oferta, estamos depositando comentários sem saber de quem é a autoria. Portanto, veja também estas observações como anotações de um anônimo diante da sua Obra.

    DR

    Comentários:

    PREMISSA: belíssima alegoria entre um pássaro aprisionado em uma gaiola, indo em direção ao matadouro, como se fosse a vinda ao mundo pelo nascimento.

    ENREDO: o autor soube criar um crescendo de desconforto ao conduzir sua personagem principal pelo desespero e angústia do nascimento. A princípio, me pareceu uma inversão entre o que os humanos fazem nas grandes fazendas de animais, mas o trecho final foi um twist muito bem escolhido.

    RESULTADO: um texto angustiante, que traz reflexões sobre como estamos levando as nossas vidas. O principal destaque foi inverter o senso comum de que antes de existirmos estamos num estado de pureza e tranquilidade. Parabéns!

  14. Jorge Santos
    1 de março de 2021

    Olá. Este seu texto funde os dois temas deste desafio, num conto que narra a história de uma mulher que acorda numa numa jaula. Ela é atirada para dentro de um caldeirão com líquido fervente por um querubim e ela reencarna numa criança a nascer. As engrenagens fazem parte da máquina que o anjo usa para manipular as jaulas.
    É um texto bastante esotérico, que reinventa o tema da reencarnação e da imortalidade da alma – parto do princípio que ela é uma alma. Não encontrei erros de maior e gostei da fluidez do texto, que é perceptível, mesmo com a complexidade da narrativa.

  15. Fabio Monteiro
    28 de fevereiro de 2021

    Resumo: A trajetória do nascimento de um bebe narrada de forma a idealizar o processo visto através de um sistema de engrenagens.

    Pontos fortes: Inicialmente achei que seria uma narrativa meio ao estilo ficção cientifica, SCI-FI ou algo parecido. Não consegui visualizar o processo da gestação por meio de uma logica robótica. Essa surpresa deu ao conto um ar de suspense, característica que gosto muito.

    Ponto fraco: O conto é bom. É bem escrito. Tem pouquíssimos erros, quase imperceptíveis. Uma palavra ou outra apenas. O problema é que achei a narrativa simples, sem impacto. Diria que faltou aquele Q do momento para dar aquele clima de “puta merda”.

    Comentário geral: Autor(a) texto muito bem encaixado na temática, oque para mim conta muito. A forma como descreveu as cenas me fizeram imaginar algo completamente diferente. Outro detalhe que me chamou a atenção é a leitura fluida, fácil de ser desenvolvida. Creio que o único aspecto negativo seja faltar o toque final diferenciado. Mas tem meus préstimos pela boa escrita.

    Boa sorte no desafio!

  16. Anderson Prado
    28 de fevereiro de 2021

    O primeiro capítulo do conto é bastante angustiante e, pela curiosidade que desperta, prende a atenção. Quanto ao capítulo final, não foi suficiente para me esclarecer o primeiro capítulo. Fiquei sem saber se o primeiro capítulo era um sonho/devaneio ou uma metáfora do processo gestacional. De toda sorte, independente do significado preciso do enredo, foi um conto do qual gostei, sentindo apreço pela leitura. O domínio da língua é bom e o da narração/criação está bem encaminhado.

  17. angst447
    28 de fevereiro de 2021

    O que parecia ser um verdadeiro inferno, uma prisão cheia de passagens torturantes com a angústia que precede uma morte dolorosa, nada mais era do que o processo de nascimento. Ideia bem construída, pois o leitor não tem a mínima ideia de que se trata da luta para nascer e não para escapar da morte. Ou talvez seja isso mesmo, nascer seja morrer para o outro lado.
    O enredo é todo construído com imagens fortes que trazem suspense à trama, sem deixar claro o que realmente acontece com a personagem. Isso instiga a curiosidade do leitor e traz um tom de terror às passagens. Eu pelo menos fiquei aflita com a situação da personagem.
    Bem escrito, o conto desenvolve-se com cuidado de não estragar a surpresa final.
    O desfecho é um alívio, um clímax às avessas, que traz um derradeiro e inesperado toque de ternura ao texto.
    Não sei se foi impressão minha, mas percebi um leve sotaque lusitano nesse conto.
    Boa sorte.

  18. Fernando Dias Cyrino
    27 de fevereiro de 2021

    Olá, Fast fingers. Caramba, você me traz a história da criação a partir do nascimento de um bebê. A mãe que tem um terrível pesadelo, quem sabe seja pela anestesia tomada, né? Apesar de que ela sente uma dor excruciante, você até repete. A imagem das gaiolas de ferro oxidado, quer dizer descuidadas, das engrenagens que se movem com violência, lançando ao chão as pessoas ficou realmente muito intensa. Cá com os meus botões fico me perguntando, Fast, se todas as gaiolas na imagem ilusória de Marina seriam todas de grávidas? A cabeça do ser imenso remete à Bíblia, os 4 redatores do Evangelho, bem sacada a simbologia, eis que Evangelho significa boa nova. A grande novidade da vida, a sua história nos trás. E quando Marina acorda do seu terrível pesadelo, eis que ela está trazendo mais uma vida no mundo, uma linda menina. Que final bonito você encontrou, Fast Fingers. Gostei da forma como você narra a história. Um conto criativo e inteligente. As pás da grua seriam como que o instrumento do médico para forçar a saída do bebê, o famoso fórceps, né? Ou viajo na maionese? Bem, a obra depois de publicada se torna aberta, não é mesmo? O leitor se faz todo livre para dar asas à imaginação. Um conto realmente muito bem escrito, um excelente domínio do idioma e uma bela abordagem do medo que toma a mãe quando desse momento tão sublime. Parabéns pela sua bela história, gostei dela.

  19. Catarina Cunha
    23 de fevereiro de 2021

    Criação: Uma mulher se vê engaiolada e arrastada em uma esteira rumo ao caldeirão do Capeta; só que não. Visão impactante do desespero que deve ser o trabalho de parto para o bebê. Ainda bem que a gente não se lembra de nada, do contrário faríamos terapia a partir do berço.

    Engrenagem: O texto prende a atenção por sua intensidade e suspense. Conto sem gordura, do jeito que eu gosto. Final inteligente. Colega, cabe uma revisão ortográfica; coisa pouca.

    Destaque: “Não sabia explicar o porquê, mas tinha a certeza que só se vive uma vez, indo-se depois para onde quer que se vá.” Aqui uma brilhante síntese do conto com uma pegada filosófica quanto às certezas da vida.

  20. thiagocastrosouza
    23 de fevereiro de 2021

    Olha, confesso que não esperava por esse final.

    O conto, no seu todo, cria uma expectativa aterrorizante no leitor. Uma figura humana aprisionada sofre um martírio numa espécie de submundo industrial até cair em um caldeirão fumegante. Referências bíblicas dão a pista do que virá à seguir, mas infelizmente não captei num primeiro momento e tive de ir pesquisar, o que enriqueceu minha interpretação. Boa parte da narrativa parte desse pré-nascimento, orquestrado pelo Criador, como no filme Soul, só que para maiores de idade. O curioso é que, enquanto não nasce, a personagem segue aprisionada: a liberdade é parte da vida, cujo passaporte é a dor.

    Os temas do desafio foram contemplados: no maquinário que a protagonista atravessa antes de nascer, e na própria figura do criador a conduzir as passagem para o mundo material, no nascimento de uma nova vida, na criação de uma filha.

    Surpreendente.
    Grande abraço!

  21. Kelly Hatanaka
    21 de fevereiro de 2021

    Nossa, que aflição! Gostei muito da maneira como você desenvolveu a história. A estranheza do começo prende a atenção e faz a gente ficar bem desconfortável e torcendo pela personagem. A descrição do ser gigantesco me pareceu algo mítico, ou bíblico, muito simbólico. O final foi totalmente inesperado para mim. Pensei que seria algo horrível, quebrou completamente a expectativa e deu um toque doce. Muito bom

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Informação

Publicado às 21 de fevereiro de 2021 por em Engrenagens da Criação e marcado .