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Detox Literário.

Liberdade – Conto (Elisabeth Lorena Alves)

Naquela manhã o dia estava parecendo mais a um entardecer de fim de outono, porém nada muito Antônio Firmino Monteiro e nem poderia, porque ele não estava no Rio de Janeiro… Mesmo assim, levantou-se, estendeu o corpo como se fosse um corredor de São Silvestre e uma vez alongada, colocou em sua cesta de vime uma toalha de convescote, quadriculada em branco e verde, sua preferida, uma garrafa de vinho, pães, queijos, geleias, uma garrafa de suco e um pote de abacaxi recém-fatiado. Tudo a seu gosto. Talvez aquela era a primeira vez que pensava em si.

Saiu para encontrar-se, pensava. Seguiu o caminho arenoso, sem calçados, levando, a tiracolo, seu porta-livro e a cesta devidamente guarnecida. A água, que circundava seu caminho, fazia um barulho leve em seu encontro com o vento matutino, um casal de aves esvoaçava livre no céu, a mata ao fundo e na lateral ressoava seus gritos sutis na diversidade animal que lhe era própria.

Os pés descalços brincavam com o terreno morno e nenhuma sombra encobria seu caminho. Era tudo beleza e ousadia. Ao longe, muito longe, sinos invisíveis aos seus olhos badalavam.  A Natureza farfalhava indiferente, porém feliz. Sentou-se muito perto da água e estendeu ali sua toalha escolhida, depositou sobre ela o cesto e, retirando o livro que desejava ler naquele dia, recostou-se, não sem antes servir-se de uma taça de vinho.

Ler ali, enquanto curtia aquele recorte de natureza, era uma experiência libertadora. Entre as páginas do livro, encontrava a paz desejada mesmo quando o antagonista avançava em sua vingança. Na ficção, diferente da vida, o mal sempre perde. E, se antes preferia a realidade, agora a arte era o caminho escolhido para se estabelecer e de onde não desejava sair.

Ali, olhando a natureza, não lembrava de advogados, juízes, promotores e testemunhas falsas. Sequer pensava em julgamentos comprometidos e prisões clandestinas. Não era senhor da verdade, escritor de denúncias inúteis e nem mesmo vítima de uma investigação clandestina. Era livre para sentir e até sonhar…

De repente, o cheiro das folhas úmidas misturou-se com o odor acre de urina envelhecida. Sua urina…

De onde estava,  tudo o que via era uma tela, não sabia se era óleo ou guache. A distância e a miopia impediam que percebesse qual o tipo de pintura. O restinho de ironia que  fazia viver dizia que não era sumiê e o nome que ela só entendia do meio para o final lhe dizia que o artista não era um japonês. Era algo como Stegues Batista… Sabia também que era uma cópia. Seu parco conhecimento de arte pictórica lhe dizia que, naquela proporção quase a cobrir a parede, não deveria realmente ser uma tela original. Talvez fora instalado ali para perturbar quem esteve ali antes dele, talvez pelo mesmo motivo…

E ele sabia quem tinha estado ali antes. E, antes deles, ali tinha vivido outros que denunciavam a mediocridade e a degradação do que para ele era Cultura. Aquele quadro, que o fizera sonhar, era sua última visão de beleza. A realidade voltava brusca com a lembrança das últimas palavras ouvidas: “Amanhã você morrerá”. E, diferente do romance, o amanhã não é para sempre, é hoje. E ele sabe que, os passos que ouve agora é sua última sinfonia… Depois seria o fim.    

18 comentários em “Liberdade – Conto (Elisabeth Lorena Alves)

  1. angst447
    8 de fevereiro de 2021

    Narrativa curta e envolvente. Uma ótima criação baseada em outra arte, letras e pinceladas se misturam em harmonia. Parabéns.

    • Elisabeth Lorena Alves
      9 de fevereiro de 2021

      Grata! Vindo de ti é um excelente elogio.

  2. Fernanda Caleffi Barbetta
    8 de fevereiro de 2021

    Que dupla, hein?!. Muito belo o quadro, bela ideia e desenvolvimento do texto baseado nele. Parabéns aos dois.

  3. Anderson Prado
    7 de fevereiro de 2021

    Um excelente exercício de criação literária! Parabéns aos envolvidos, Antônio e Lorena! 👏👏👏

    • Elisabeth Lorena Alves
      7 de fevereiro de 2021

      Agradecida, Anderson Prado.

  4. Fabio Monteiro
    7 de fevereiro de 2021

    Que conto maravilhoso. Me senti fazendo parte da narrativa…Parabéns..Linda escrita.

    • Elisabeth Lorena Alves
      7 de fevereiro de 2021

      Agradecida, Fabio.

  5. ARIMACELE LEAL DA TRINDADE
    6 de fevereiro de 2021

    Parabéns Elisabete
    Lindo me fez viajar o seu conto 💕

    • Elisabeth Lorena Alves
      7 de fevereiro de 2021

      Agradeço sua leitura, Arimacele.

  6. Jucineide Rocha Carreira
    6 de fevereiro de 2021

    Delicia de conto, que mente fértil vc tem.

    • Elisabeth Lorena Alves
      7 de fevereiro de 2021

      Amiga, Juh! Agradeço sua leitura.

  7. Maria de Fátima Medeiros Machado
    6 de fevereiro de 2021

    Parabéns!!! Para os amantes da literatura, este conto está perfeito! Nos leva a viajar com o personagem!!! Amei

    • Elisabeth Lorena Alves
      7 de fevereiro de 2021

      Mestre! Que honra ter sua leitura em meu Conto. Obrigada!

  8. Elói
    6 de fevereiro de 2021

    Parabéns, Elisabeth, pela bela narrativa; bacana ver essa sensação de completude do ser humano com a natureza, sentir a vida livre de interferências negativas.

    • Elisabeth Lorena Alves
      6 de fevereiro de 2021

      Grata por sua leitura.

  9. antoniosbatista
    6 de fevereiro de 2021

    Muito bom. Até parece que sou um pintor famoso! Obrigado Lorena pelas referencias em teu conto, muito bem escrito, Você também pintou um quadro muito bonito.

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Publicado às 6 de fevereiro de 2021 por em Contos colaborativos e marcado .