EntreContos

Detox Literário.

Belarmino do Depósito (Vizinho do lado)

− Pode dar meia-volta, Belarmino, hoje você não trabalha. Vai descansar a carcaça por um bom tempo. Pode até ficar mais bonito, sabia?

Só de ouvir a voz enfadonha do gerente, Belarmino sente um arrepio. É uma aversão que se avoluma a cada encontro. De repente, vem aquela vontade danada de perder a paciência, mas, talvez por intercessão de todos os santos, desvia o corpo e entra na loja. Se o infeliz imaginasse a angústia que o subalterno enfrenta a cada minuto da vida, se ele vestisse a pele do outro por um dia apenas, não seria tão impiedoso. O sorriso mangador, afetado, há muito tempo está entalado na garganta de Belarmino. Uma hora, isso não vai dar certo.

Empurra a porta do escritório:

− Licença, patrão.

− Entra Belarmino, senta…

− O senhor vai me dispensar?

− Que é isso, homem? Ficou louco? É o seguinte: recebi orientação de que, a partir de hoje, o empregado que tem mais de sessenta anos deve ficar em casa. É exigência trabalhista, essa pandemia traz muito risco. Vamos obedecer, não é meu velho amigo?

− O senhor que sabe.

− Pode ficar tranquilo, você vai receber o pagamento e a cesta básica na sua casa. Não precisa sair. Nada de correr riscos. Vai acompanhando as notícias, não demora muito e tudo isso passa. Confia em mim? 

− Claro que confio, patrão. O senhor é cópia do seu pai, que Deus o tenha… Direito que nem ele.

Segurando a sacola com a marmita ainda morna, e estranhando inverter o percurso àquela hora da manhã, o empregado obedece. Se bem que sente um alívio gigante de saber que poderá ficar em casa, enfurnado. Sem horário, sem compromisso. E, o melhor de tudo, sem exposição. 

Bota fé no patrão, ele tem os mesmos olhos mansos do pai. E o velho Deodato lhe traz saudade. Entrou na vida de Belarmino quando este ainda era moço, num tempo em que ele mais a mãe vendiam ovos com a carrocinha de mão. O velho era cliente. E, quando Belarmino ficou só, já madurão, Deodato ofereceu o trabalho na loja. Na loja, não. No depósito, ao lado. Logo o empregado compreendeu a razão de ser colocado lá. Realmente, não era uma figura agradável de ser vista. Isso não foi falado, foi entendido. Sabia que era extremamente feio. Não só feio, era estranho. Desengonçado, excessivamente alto e magro. As pernas compridas se encontravam apenas nos joelhos voltados para dentro, o que lhe conferia um andar arrastado. Não lento, apenas arrastado. E os olhos eram apavorantes, horrendos. Grandes, desmedidos e saltados das órbitas. Mas Belarmino não era mau, nunca foi. Apenas ressabiado, arisco. Resmungão.

Caminhando em direção de casa, sentia novo ânimo. Teria dias e dias para trabalhar com seus carrinhos de brinquedo. Para estimular a sua intenção, avista ripas de madeira descartadas na lixeira da floricultura, do outro lado da rua. Não pestaneja, cruza o asfalto e junta a quantidade que cabe nos imensos braços. Com isso, o estoque de matéria prima estaria reforçado.

O percurso é relativamente curto, menos de hora. Mérito do velho Deodato. Assim que empregou Belarmino, mediou a venda do terreno deixado pela mãe do empregado e que ficava muito distante, com uma casa de fundos, bem mais centralizada, de quatro cômodos amplos e um quintal acolhedor, sombreado por generosa pitangueira. Esse era o reino de Belarmino, sua guarida. 

No quarteirão seguinte, avista um camburão da polícia quase atravessado na rua, o que traz desassossego a Belarmino. É um mal-estar que o acomete sempre que vê alguém fardado. Jamais foi abordado, mas a fala corretiva da mãe ressoa na cabeça: “se não fizer a coisa certa, a polícia prende!”. Um verdadeiro pavor. Ainda mais desengonçado e sem querer saber a razão do cerco, Belarmino procura sair de cena pela esquina mais próxima. 

Quando abre o portão e caminha pelo corredor, é tomado pelo sentimento de libertação. Como se grilhões dos pés fossem rompidos.  Até pouco tempo, saía de casa ainda escuro, e só retornava quando o sol desaparecia por completo. Era o último a deixar o depósito. Preferia andar na sombra, a escuridão não exigia acanhamento, livrava-o dos olhares de repulsa ou de piedade. Ultimamente, como por milagre, essa preocupação ficou arrefecida. A idade passou a exigir mais tempo de cama, acordava mais tarde, o sono ficara mais esticado. O mudar de calçada ou o horror estampado nos olhos das pessoas que o avistavam não trazia mais o desconforto de antes. Aquele tormento que abalava as ideias sempre que precisava amortecer no peito um gesto de repúdio, a necessidade de assimilar a abominação, tudo isso passou a ser detalhe de somenos importância. Não deixou de machucar, mas a ferida secava instantaneamente.  

Em casa, retira o uniforme, macacão marrom com emblema da loja de material de construção apenas no bolso. Tem vários, três novos e outros bem usados. Cuida deles no final de semana, lavados e passados com desvelo. Agora, ficarão esquecidos por um tempo. Terá início a era do calção. E da montagem de carrinhos de brinquedo. Sua fábrica terá produção acelerada. 

Belarmino trabalha bem com artesanato em madeira. Faz caminhões, carriolas, automóveis, tudo com perfeição. Desde sempre, quando buscava ovos para revenda, no mercadão, recolhia ripas para a sua obra. E, repetidamente, ressoava a voz de reprovação da mãe: “isso é coisa de moleque, não é coisa de homem”. De começo, usava apenas canivete, lixa e tachinhas. Mas, com o fazer constante, especializou-se: faz carrinhos tão caprichados que até as rodinhas giram. Também fazia pandorgas, mas parou. Para que fiquem perfeitas, é necessário usar bambu verde. Bambu seco não dá o mesmo envergamento, o voo não fica apurado. Belarmino já não tem a mesma disposição de buscar bambu pelas beiras das estradas, caminhada que, ida e volta, leva meio dia. Então, deixou de lado.

É morador silencioso, não tem bichos de criação. Coloca o rádio sempre em volume baixo, e a televisão é só para os jogos de futebol. 

Quando se mudou para a nova casa, percebeu que os muros laterais, instantaneamente, foram erguidos. As janelas ganharam grades, a vizinhança reforçou a segurança. Aborrecia-se quando ouvia, em sussurros, opiniões sobre ele. Pela figura, todos o viam como louco, perigoso. Protegiam-se uns aos outros, as crianças o olhavam de esguelha, amedrontadas. Mas acostumou-se. Isso já não importava mais.

Enquanto transforma os paus em brinquedos, pensa em qual árvore irá colocar o próximo carrinho. Sempre assim. Terminado um trabalho, ajeita-o num saco plástico, desses de supermercado, e dependura em árvores perto de escola, creche, parque. Alguém encontra o brinquedo e uma criança ganha o presente. Claro que tem vontade de entregar nas mãos de um garoto, mas teme assustá-lo. Além de constrangedor, a criança poderia recusar o brinquedo. Nem pensar.

E, então, vem a lembrança dos colegas do depósito. São cinco. Alegres, fortes, dispostos. Não fossem as piadas grosseiras, Belarmino até poderia ser mais chegado. Se bem que, há alguns anos, ele trabalha na parte de distribuição e controle de estoque. Os oito anos de estudo serviram para que tivesse bom entendimento da escrita, e aprendesse rápido todo o processo de entrada e saída do material da loja. O serviço pesado, de carregar e descarregar mercadoria, já não lhe cabia. Apenas comandava. Mas, por mais que evitasse ficar aborrecido com as brincadeiras cruéis dos companheiros, brotava aquele incômodo recorrente quando, das conversas cruzadas, escapava o som de palavras como: mal-acabado, zé bonitinho, belzebu, belafera, zumbi…  

Um dia, quis saber da mãe a razão de ser tão estranho. Perguntou: “mãe, por que eu sou tão feio?”. A mãe, sem buscar o olhar dele, respondeu: “você não é feio, só é muito parecido comigo”. Esta resposta selou tudo. Nunca mais questionou, nunca mais perdeu tempo com essa indagação. Se era parecido com a mãe, seria amado. Ele a amava, outras pessoas a amavam. A mãe também não era bonita. Tinha o mesmo rosto comprido, traços estranhos, braços exageradamente compridos, mas os olhos em nada se igualavam aos dele. Os olhos da mãe eram pacíficos, um tanto vazios, mas serenos. As mãos eram imensas. Belarmino, quando criança, ficava assustado quando via a mãe carregando oito ovos na mão. E pensava que aquela mão poderia dar conta de cobrir, por inteiro, a sua cabeça num afago. Mas nunca soube, não conseguiu medir, não havia afagos. Mesmo com toda estranheza e secura no trato, a mãe era retidão, amparo. Ele também seria. 

E Belarmino amava com serenidade, um amar que o tranquilizava. Amava o velho Deodato, e também amava o patrão. Amava a primeira professora, única pessoa, além da mãe, que lhe segurou a mão. Isso quando o ensinou a desenhar as letras. Professora Izabel foi o anjo que procurou minimizar o terror que brotava no peito dos coleguinhas quando estes olhavam para Belarmino. Eles temiam aqueles olhos esbugalhados querendo saltar do rosto, entendiam como olhos de louco. Além do que viam, era o que ouviam: o filho da “oveira” é doido, cuidado com ele! Mas não era. E provar isso foi a luta de toda uma vida. 

O pior acontecia quando, na época de calor inclemente, Belarmino não escapava dos surtos de piolho que se alastravam pelas cabeças da molecada da escola. No sol, as lêndeas prateavam a vasta cabeleira encaracolada do menino. E para a mãe, sem saída, só sobrava o raspar da cabeça. E doía. No couro todo ferido com as constantes picadas dos parasitas, a lâmina discorria feito lixa, deixando a pele quase em carne viva. E, como se fosse possível, Belarmino ficava ainda mais assustador. A cabeça estreita e comprida, totalmente disforme, ficava totalmente exposta, perdia o disfarce da cabeleira. 

O último domingo de maio amanheceu muito mais bonito que de costume. Belarmino completa sessenta e dois anos, acorda disposto. O dia merece um passeio, o sol não está forte.  Olhando no espelho, percebe que o cabelo carece, urgentemente, do cuidado do Lazinho da barbearia. Aliás, em março, quando seria o combinado, declinou do compromisso. Depois disso, a quarentena chegou e a cabeleira só se agigantou. A barba, propositadamente, deixou de aparar desde que não precisou mais ir ao depósito; cuidado desnecessário, não tem compromisso que justifique o sacrifício.  

Ajeita a casa, prepara o arroz e quando ele está ainda secando, desliga o fogo, embala a panela em duas folhas de jornal e guarda no forninho. Aprendeu com a mãe. Fazendo isso, o arroz ficará aquecido e totalmente cozido. Corta os tomates e a cebola, deixa a salada na geladeira. Retira a vasilha de feijão do freezer e coloca sobre a pia. Quando voltar, o almoço será finalizado num instante.

Escolhe a bermuda mais nova, a camiseta tricolor, calça chinelos, ajeita a carteira no bolso com documentos e dinheiro suficiente para, na volta, comprar um frango assado. Se encontrar… Mais uma vez, não era uma figura bonita de se olhar, ainda mais com a profusão de pelos da barba e do cabelo. Sim, era estranho, um quê de assustador. 

Antes de sair, o mais importante: coloca cuidadosamente um carrinho de madeira na sacola plástica, mas não sem antes admirar a beleza do brinquedo. Perfeito!

Confere o fogão desligado, janelas fechadas, passa a chave na porta. 

Hoje quer andar. Caminha em direção contrária daquela que sempre segue. E tem tanta coisa para olhar. Lugares diferentes, casas diferentes, pessoas diferentes.  

Sente-se tão satisfeito, tão absolutamente em paz, que nem percebe o rosto das pessoas com as quais cruza. Se percebe, não revela. Mas nada mudou. O trocar de calçada, os olhares piedosos, os arroubos de aversão, a apreensão no desviar de corpo, o temor por um ataque. Tudo tão visível até para os menos avisados. Mas Belarmino releva. Hoje não vê. Ou não quer ver.

Depois de mais de hora caminhando, chega numa praça enorme, arborizada, entre o colégio e a igreja.

Com a sacola plástica na mão, senta-se num banco mais isolado. Há muita gente na praça, contrariando as orientações das autoridades. As gangorras não sobem e descem, não há o vaivém dos balanços. A área dos brinquedos está toda abraçada por fitas pretas e amarelas, acesso proibido. Apenas os triciclos das crianças se esbarram. Um amontoado de vozes, gargalhadas e gritos alegres das crianças. Nada de pipoca, sorvete, balões coloridos. 

Apenas um menino, infringindo a regra, está na areia. Só ele. Belarmino aperta nas mãos a sacola com o brinquedo. Sente vontade enorme de, pela primeira vez, entregar um brinquedo assim, olhando para a criança. Mas teme que o menino fique assustado, que chore. 

Procura um banco mais próximo dele. Precisa de tempo para tomar coragem. 

Em nenhum momento percebe o olhar enviesado dos adultos. Nem se preocupa com isso. Está maravilhado. Finalmente irá entregar nas mãos de uma criança um brinquedo feito por ele. Deseja ver o sorriso, sem susto. 

Sem que perceba, os adultos começam a se juntar em conversas paralelas. Ele não vê. Aos poucos, as crianças vão sendo levadas pelos pais, pelos avós…  E houve quem acionasse o guarda da praça e, então, uma viatura policial chega.   

Belarmino só percebe algo estranho quando a mãe, bruscamente, retira a criança da areia. 

E então vê, na sua frente, o policial com uma arma apontada para o seu peito.

− Você é louco, homem? Como se atreve a chegar perto da criança? O que quer com ela? 

− Não, eu não sou louco…

− Largue a sacola no chão e ergue os braços, vamos!

Desesperado, Belarmino obedece. Solta a sacola no chão e começa a erguer os braços. O pavor sem medida quase o paralisa, os braços pesam. Sente a cabeça rodar, pensa na mãe, no velho Deodato, no patrão… Quer ajuda, precisa de ajuda. Mas, ali, não tem ninguém. Atormentado, num repente, gira o corpo e tenta correr. Só ouviu um tiro.

18 comentários em “Belarmino do Depósito (Vizinho do lado)

  1. Fheluany Nogueira
    27 de novembro de 2020

    Belarmino é feio demais e discriminado. Idoso é afastado do serviço por conta da pandemia. Quer presentear um garoto com o brinquedo que ele mesmo confeccionou. Ao se aproximar, é confundido com um louco e recebe um tiro do policial.

    Leitura fluida e interessante; texto pungente de ritmo lento, bem estruturado, sem equívocos gramaticais; assunto sensível e forte; personagem cativante. E, um patrão “politicamente correto”.

    O texto é simples, mas criativo, e mantém o carisma, a capacidade de ser verdadeiro, espontâneo e sincero; mas, talvez para mim, previsível, lembrando-me de obras como “O Fantasma da Ópera” ou “O Corcunda de Notre-Dame”. Desde o início, senti que teríamos um monstro sensível e que a loucura não seria do protagonista e, sim, das pessoas que desenvolviam medo pelo estranho, pelo diferente. Final impactante: a inocência e doçura do feio X o preconceito, a violência.

    Bom trabalho. Sorte no desafio! Abraço.

  2. Jefferson Lemos
    26 de novembro de 2020

    Resumo: a história de belarmino e como suas características físicas foram o estopim para o preconceito e a solidão que o perseguiram por toda vida.
    Olá, caro autor.
    Eu adorei o seu conto. É bonito, é bem amarrado, não deixa nada pra trás. Senti uma empatia tremenda por belarmino, que tristeza essa vida. Seu texto me fez no quanto deve ser triste e solitária a vida de pessoas assim, e que se torna ainda mais desolador quando vemos a pessoa que o personagem é, humilde, trabalhador, sonhador, apesar de tudo. Um bom homem fadado ai eterno julgo daqueles que não tem moral nenhuma pra julgar os outros.
    A loucura ficou um pouco longe, não achei que teve muito disso aqui, por mais que exista a menção de que visto de fora ele era um louco, é só um acessório pra história da vida dele. E nessa vida podemos perceber que a questão física causava mais repulsa do que a mental, ainda que uma estivesse atrelada a outra.
    De qualquer forma, é um texto excelente, cara! Parabéns pelo belíssimo trabalho e boa sorte!

  3. Priscila Pereira
    26 de novembro de 2020

    Resumo: Belarmino é tratado como louco e perigoso só por sua aparência, e morre (?), tentando entregar o brinquedo que fez para uma criança.

    Olá, Vizinho!
    Que conto maravilhoso! Me emocionou de verdade! Que tristeza, que realidade horrível a de um homem tão bom e tão pacífico que só queira um pouco de afeição e dignidade, mas o preconceito, a superficialidade das pessoas, excluiu completamente do convívio.
    Está muito bem escrito, ambientado, os personagens profundos e verossímeis, uma história que pode muito bem, infelizmente, ser real. O medo do estranho , do desconhecido, quase sempre faz vítimas inocentes.
    Como já disse, parabéns pelo conto maravilhoso! Espero ver no pódio!
    Boa sorte!
    Até mais!

  4. Ana Maria Monteiro
    25 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: Belarmino é um homem diferente, disforme, feio, uma figura perturbadora e por todos estes motivos é, desde sempre, votado ao ostracismo por toda a sociedade, teve, apesar de tudo, a sorte de conhecer o Sr. Deodato que lhe ofereceu trabalho quando a mãe morreu. Condenado à solidão, Belarmino dedicou-se ao seu trabalho e passatempo, fazer brinquedos de madeira. No dia em que conseguiu tomar coragem para se aproximar de uma criança para lhe oferecer um carrinho feito por si, foi tomado por pedófilo e morto a tiro pela polícia.

    Comentário: Um conto maravilhoso e maravilhosamente escrito e conduzido. Uma história extremamente triste, pintada com traço de artista, um autor que sabe puxar a emoção sem exagero e usando de extrema sensibilidade e segue uma técnica narrativa perfeita e adequada ao que pretende contar e, neste caso, usa de uma lentidão compassada que permite que o leitor se vá aproximando devagarinho, criando uma ligação com Belarmino, com o seu mundo, o seu quotidiano, a sua bonomia, a sua pureza.

    Nada disso impede que a lente do autor denuncie a exclusão a que são votados todos aqueles que não são conformes ao protótipo socialmente aceite, a crueldade da ditadura imposta pelo preconceito que se instala desde a mais tenra infância e que se faz presente logo ao olhar.

    “Somos o que parecemos.” Assim somos criados e cultivados e mais tarde aproveitados por toda uma máquina que nos consome, enquanto a vida passa.

    Achei o final perfeito, consegui imaginar a cena, quase como uma recordação de algo que (ainda bem) nunca assisti, mas acontece cada dia e em toda a parte.

    Obrigada pela leitura.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  5. Fil Felix
    25 de novembro de 2020

    Boa tarde!
    Belarmino é um homem feio e estranho, excluído pela sociedade por estar fora dos padrões. Trabalha, tem seu hobbie e segue sua vida como qualquer um, mas tem seu fim trágico pelo preconceito das pessoas.
    Um conto muito bonito e bem escrito, sendo desenvolvido aos poucos e sem pontas soltas. Somos apresentados ao protagonista, Belarmino, que provavelmente possui alguma doença genética (devido a mãe também ser assim) que ocasionou algumas deformidades no corpo. Ele é tido como feio, desengonçado e estranho. Nesse sentido, o texto utiliza muito do arquétipo (digamos assim) do monstro sensível: apesar de todo o seu exterior, ele é sensível por dentro, cria carrinhos de brinquedos, é um artesão e sonha o dia que poderá entregá-los pessoalmente às crianças. É uma personagem bastante presente no imaginário literário, desde o Quasimodo ao monstro do Frankenstein.
    E o conto também aborda várias questões sociais e que estão em alta. A pandemia e o coronavírus é evidente, mas também tem aí questões como o preconceito social e racial, o medo (e o ataque) ao desconhecido, até mesmo a cena final, que achei emblemática. É uma situação que acontece aos montes pelo nosso país. Quantas pessoas não foram assassinadas simplesmente porque não estão dentro dos padrões? Ou que estavam segurando um guarda-chuva nas mãos? Também é interessante comentar essa associação que fazemos ao feio, ao estranho ou fora do padrão como algo negativo, ruim, que fará algum mal (como Belarmino). Em relação ao tema do desafio, confesso que também não visualizei muito e não quis forçar que o conto entrasse nele, como uma visão da sociedade sobre os loucos excluídos ou algo assim. Apesar disso, o conto é ótimo e ganha pontos por nos permitir essa leitura em camadas e novas interpretações.

  6. opedropaulo
    21 de novembro de 2020

    RESUMO: Belarmino carrega a sina de ter que se explicar como uma pessoa “sã” frente a um conjunto de preconceitos que enfrenta devido à sua aparência. Paralelo a isso, quer presenciar a felicidade que pode resultar do seu hobby. No dia em que finalmente toma coragem para fazer esse belo gesto, esquece-se do quão grotescas podem ser as pessoas. A polícia chega, o tiro ressoa.
    COMENTÁRIO: Mais um conto que trabalha o tema a partir da “não-loucura”, isto é: aquele comportamento que é chamado de loucura pela sociedade, mas que não é de forma alguma um diagnóstico, sendo apenas o duro estigma. Centralizado na perspectiva do personagem, o conto se equilibra bem entre contar a sua estória e nos mostrar o que faz do seu cotidiano em quarentena, nos aproximando do protagonista e nos fazendo realmente sentir a dor de uma existência solitária e estigmatizada. O desfecho é interessante, pois mostra que, ao passar algum tempo sozinho, Belarmino perde a ojeriza de si mesmo, então quando sai para entregar o presente manufaturado, esquece-se que pode até mesmo correr perigo. Ou seja, o contato cotidiano com a sociedade o inibe a um ponto em que se afastar apenas um pouco o faz finalmente ter a coragem para algo que havia evitado durante toda a vida. É um conto bonito, que peca um pouco no ritmo, explorando os pormenores da infância e do cotidiano do personagem, mas que no final consegue entregar uma situação que se amarra a tudo que vinha sendo apresentando antes, entregando um desfecho satisfatório.

  7. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá. Gostei bastante do seu conto que narra a história de um homem solitário, vítima de preconceito por causa do seu aspecto físico, pelo qual ele tenta isolar-se. Durante a pandemia, é enviado para casa pelo patrão. Ali ele pode dedicar-se ao seu hobby, que é a construção de brinquedos de madeira. Este será também o seu fim, num desfecho dramático.
    Aqui a loucura não se centra na personagem principal, mas na sociedade que não aceita aqueles que saem dos padrões. Não duvido que outros comentadores vejam nisso um defeito, eu vejo uma qualidade. Todo o conto é feito de forma elegante, desde a caracterização física à caracterização psicológica. Até a caracterização dos espaços e das personagens secundárias é feita com bastante competência, não prejudicando a fluidez do texto, algo que demonstra a maturidade literária do autor ou autora. Parabéns.

  8. Elisa Ribeiro
    17 de novembro de 2020

    Homem feio e estranho, embora possua um coração generoso, é julgado por sua aparência o que acaba o levando a um final trágico.
    Personagem interessante e narrativa bem tensionada tornaram a leitura agradável.
    O ritmo mais lento combinou bem com a descrição do personagem apresentada de forma fragmentada fazendo com que o leitor o vá arredondando e a ele se afeiçoando aos poucos, ao ritmo da leitura. A estratégia funcionou perfeitamente comigo.
    O texto merece uma revisão atenta sobretudo da harmonização verbal.
    O que não gostei: para o meu gosto, a mão pesou um pouco no sentimentalismo. Mas não se preocupe porque o que me desagradou tem grande chance, creio, de agradar a maioria dos leitores por aqui.
    O que gostei: da forma como abordou o tema. A loucura julgada por quem está de fora. Achei brilhante. Fiquei com uma invejinha
    Um bom conto. Desejo sorte do desafio. Grande abraço.

  9. Leda Spenassatto
    13 de novembro de 2020

    Resumo:
    Um homem discriminado por ser diferente é morto ao tentar entregar um carrinho,feito por ele, a uma criança.

    Comentário:
    Belarmino e um querido, boa gente, trabalhador e, por cima, gosta de fabricar carrinhos de madeira que dependura nas árvores para que as crianças os peguem.
    Seu conto é bem escrito, flui levemente.
    O tema é bom, porém a loucura, para mim, ficou a desejar. Ainda assim, gostei muito e vou torcer para que você tenha uma ótima pontuação.

  10. Giselle F. Bohn
    12 de novembro de 2020

    A trajetória dramática de um homem feio e solitário que tem por hobby a fabricação de brinquedos.
    Adorei este conto. Tem tudo o que eu gosto: o tom melancólico, o personagem que nos comove, o encerramento que vem como uma bomba – ou um tiro. Bem construído, com um ritmo lento, boa ambientação, descrições primorosas. Nada sobra; até mesmo a primeira menção à viatura da polícia, aparentemente só jogada ali, veio explicar sua reação impensada ao final. Maravilhoso.
    Só não vi a loucura em lugar nenhum, mas gostei tanto do resto que isso é o de menos!
    Tecnicamente, só notei a falta na vírgula em alguns vocativos (“− Entra Belarmino, senta…”; “Vamos obedecer, não é meu velho amigo?”). Já o início me pareceu truncado e tive dificuldades em entender o que estava acontecendo: se o patrão se dirigiu a Belarmino assim que ele chegou, por que o funcionário pede licença para entrar no escritório, e o patrão o convida a entrar? Foi uma cena que não consegui visualizar; pareceu haver ali um erro de continuidade. Mas o resto do conto é, na minha opinião, impecável. Ao menos para mim é um grande candidato ao pódio.
    Parabéns pelo lindo texto e boa sorte no desafio!

    • Giselle F. Bohn
      13 de novembro de 2020

      Lendo uma segunda vez, percebi que falei besteira: o gerente é uma pessoa e o patrão é outra, dãã! Olha o perigo da pessoa fazer a leitura quando não dormiu direito! Desculpe, Vizinho, por esta falha besta minha! 🙂
      Queria também complementar que achei curiosa a crítica de alguns sobre a reação da polícia parecer exagerada! A mim foi perfeita: se a polícia atira às vezes até em quem está parado, imagine se não atirariam em quem eles julgam ser pedófilo em fuga!
      Parabéns mais uma vez!

  11. Anna
    11 de novembro de 2020

    Resumo : Belarmino é um idoso que está temporariamente afastado do trabalho por conta da quarentena. Ele é extremamente só porque sua aparência física causa espantamento. No desfecho é morto por um policial que pensa que nosso herói é um pedófilo.
    Comentário : De alguma forma somos todos Belarmino. As pessoas nos julgam pelo que somos por fora sem tentar compreender o que somos por dentro. Belarmino é uma pessoa extraordinária que só busca amor e aceitação. Esse conto é marcante e sempre o levarei comigo em minha memória. Parabéns escritor ou escritora. É comum vermos protagonistas extremamente belos em uma espécie de romantismo moderno mas o feio também pode ser belo e esse conto reflete bem isso.

  12. Thiago de Castro
    10 de novembro de 2020

    Resumo: Belarmino é empregado numa casa de material de construção. Devido a pandemia, toma seu tempo nas atividades domésticas e na feitura de brinquedos, ofício que lhe dá verdadeiro prazer. Convicto a fazer contato com uma criança no intuito de presenteá-la, as consequências de seus atos selam seu destino de maneira trágica.

    Comentário: Ritmo moroso, no tempo do personagem e seus hábitos, resignados e pacíficos. A loucura é inexistente no protagonista, mas está no julgamento que fazem dele, impiedosamente, muito pela sua aparência física. Há uma reclusão em Belarmino, que representa quase uma figura eremítica e incompreendida, sendo que toda benevolência que para ele é destinada deriva-se de pena. Triste e belo na singeleza de fazer brinquedos, mesmo velho. Me lembrou figuras da literatura como o corcunda Quasímodo, entre outros que convivem com a feiura e a sensibilidade, a criatividade artística com a monstruosidade de sua forma.

    O final do conto foi duro para com o leitor, sem redenção. Não duvido do que a polícia possa fazer em seu descontrole, mas achei o tiro exagerado, porém, encerrou o conto com uma nota triste definitiva. Reconheci Belarmino em pessoas da minha infância, assim como no texto da Maria Mulamba.

    Parabéns e boa sorte no desafio!

  13. Lara
    10 de novembro de 2020

    Resumo : Belarmino sofre por ser muito feio, as pessoas se afastam dele. É um homem extremamente solitário mas muito bondoso. Faz brinquedos de madeira para as crianças e deixa perto de escolas e praças para que elas encontrem, seu maior desejo é entregar diretamente para uma criança para ver o sorriso dela. No final do conto se senta perto de uma criança para criar coragem de entregar o brinquedo, mas pensam que ele é um pedófilo e chamam a polícia, assustado Belarmino tenta correr e leva um tiro.
    Comentário : A loucura do texto está no fato de excluir Belarmino da sociedade apenas por ele ser feio. As pessoas não conseguem entender que ele pode ser uma pessoa maravilhosa, nem tentam descobrir, preferem ficar trancadas em seu preconceito e excluir Belarmino.

  14. Bianca Cidreira Cammarota
    9 de novembro de 2020

    Narrativa da vida um homem simples, solitário e bondoso, marginalizado por sua feiura e estranheza desde criança. Já idoso é assassinado pela polícia confundido como um pedófilo.

    Vizinho do lado, seu conto é suave, delicado e sensível. Em uma narrativa sem pressa, detalhista, mostra o protagonista em sua essência e aparência, esta última razão (louca razão) para que a maioria das pessoas o encarem como ameaça.

    Para ler seu conto, é preciso primeiro serenar o coração apressado nosso de cada dia. Geralmente desejamos a situação pronta, a imagem instantânea de uma situação, quando, para ela se mostrar bela, precisa ser lentamente erigida.

    O contraste presente entre o interior e o exterior da personagem, sua beleza de alma e feiura de corpo realça a impressão que boa parte de nós tem: a aparência, se está conforme os padrões estabelecidos, o que é esperado, o que é exigido. Como é fácil marginalizarmos e repudiarmos o estranho a nós, sem ao menos olharmos uma segunda vez para analisar a quintessência.

    O protagonista tinha tudo para ser exatamente o que viam dele, porém ele não negou sua natureza. Isso é impressionante. Acontece, mas geralmente não somos testemunha dessa… beleza!

    Acredito que faltaram mais palavras no limite permitido ao conto para você detalhar melhor o desfecho , mais demorada e gradualmente a situação limite que culminou em um tiro. Óbvio que a aversão da comunidade ao protagonista foi dito ao longo do texto; porém talvez o conto tivesse sido fechado melhor caso a cena final fosse mais descrita.

    A loucura nesse enredo está muito sublinear em virtude que ela é difusa, como um perfume. Está presente sempre… e só as brisas (ou tempestades…) como a presença de alguém diferente do que é desejado pode fazer a fazem visíveis e palpáveis.

    Autor(a), lindo conto! Aquele que dói o coração, aperta, e deixa um engasgo na garganta. Se era essa sua intenção… conseguiu.
    (não faça isso comigo – ainda não fiz o meu check-up).

  15. Angelo Rodrigues
    9 de novembro de 2020

    Resumo:
    Homem peleja com a vida difícil que leva. Mal diagramado, sua feiura espanta, leva-o à solidão. Ao final é punido com a morte. O que é estranho precisa ser exterminado.

    Comentário:
    Conto tocante. Gostei do modo como o personagem foi construído, pouco a pouco, tijolo por tijolo, montando a sua personalidade dócil, sua falta de beleza, no motivo que acabaria por matá-lo.

    O conto fala de muitos males. Um deles, o eterno bullying dando seus resultados ruins, levando à solidão, ao desespero – que foi bem contornado pelo nosso protagonista.

    Há uma frase – na verdade um diálogo – bastante exemplar, que é quando Belarmino pergunta à mãe por que é tão feio e ela diz que ele não é feio, é apenas parecido com ela. Uma linda transferência de amor. Se é como a mãe, não é possível que seja tão feio como imagina. Muito legal.

    Durante todo o tempo de leitura, fiquei imaginando que, em algum momento, a loucura – ou algo parecido – se sublevaria. Interessante saber que a loucura não estava em Belarmino, mas no seu entorno que, de um homem feio, tornou-se um monstro.

    Compreendo que o conto cumpra o requisito pelo viés expresso ao final. Na loucura subjetiva expressa pelos atos de pais e do policial que, tão feio que era Belarmino, lhe pareceu razoável meter nele um tiro, como se fosse um animal.

    Boa sorte no desafio.

  16. Josemar Ferreira
    9 de novembro de 2020

    Parabéns pelo conto, camarada.

    A tentativa de construir um cenário de loucura condizente à proposta do concurso foi meio superficial e um tanto exagerada. A morte do Berlamino reflete uma loucura da parte de quem a comete, mas tal proposta não é desenvolvida previamente, simplemente acontece.

    No mais, faltou dinamismo na narrativa.

  17. Anderson Do Prado Silva
    9 de novembro de 2020

    Resumo:

    Homem estranho é confundido com um pedófilo.

    Comentário:

    Conto escrito com muito domínio da língua! No geral, gostei demais! A descrição do protagonista e sua história ficou bela e comovente. Embora a morte tenha soado abrupta e exagerada, achei que a abordagem na praça, a confusão com a polícia, o choque com o diferente, o outro, o louco, ficou tudo muito bom. Porém, ressalvo que Belarmino ser preso, conduzido para a delegacia, apanhar da polícia ou da comunidade, sofrer processo judicial etc. teria me soado mais natural do que uma morte com um tiro nas costas, sem perseguição nem nada. É que o erro policial acabou tomando uma dimensão muito grande, prejudicando a verossimilhança.

    Não gostei muito da narração no tempo presente, na verdade, normalmente não gosto mesmo. O pouco uso de diálogos e a ocorrência de poucos fatos tornou, na minha opinião, o miolo do texto (com parágrafos, inclusive, relativamente longos) pouco dinâmico.

    Parabéns pelo conto, do qual gostei, e boa sorte no desafio!

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 8 de novembro de 2020 por em Loucura.