EntreContos

Detox Literário.

As Cores do Colônia (Franco Basaglia)

Sabe o que define a loucura? Não, não se perca entre definições filosóficas ou científicas, elas pouco importam. Tampouco perscrute a própria alma ou implore por uma iluminação divina. Não há resposta concreta ou metafísica para a questão. Entenda: quem define a loucura são os outros. Se você vê um muro verde e os outros o dizem azul, você é louco. Ponto. É uma sentença definitiva, sem direito a instâncias ou apelações. Pouco importa você clamar que o muro já está meio desbotado ou que o verde que você viu era até meio azulado. Nem mesmo um problema de visão pode servir de álibi. Um veredito de loucura é peremptório. A verdadeira cor do muro torna-se até irrelevante: a sanidade é definida pela maioria.

No meu caso, eu sempre soube que era louca. Ou assim me convenceram muito cedo, o que dá no mesmo. Eu poderia ver todas as cores no muro ou cor nenhuma. Às vezes sequer enxergava o muro. E foi assim que fui parar numa ala feminina do Colônia, transportada no “trem de doido” com outros tantos que também alegavam que o muro não era azul.

O Colônia era, em tese, um manicômio construído na quietude e no clima ameno de Barbacena, onde os insanos poderiam recuperar-se das mazelas que acossavam suas mentes. Na prática, era um campo de concentração superlotado onde milhares se amontoavam em condições sub-humanas. Construído no início do século com intenções hospitalares, logo tornara-se um instrumento higienista. Nos anos em que lá estive, vi e vivi o que livros de história e dramáticas fotografias em preto e branco jamais poderiam precisar. Só entende o Colônia quem esteve no Colônia. Mas não é sobre mim que quero contar. Essa é uma história sobre alguém que, ao contrário de mim, não se resignou aos grilhões da insanidade. Alguém que suportou todo tipo de agressão, física e moral, e jamais desistiu de acreditar nas cores que seus olhos viam. Essa história é sobre Clara.

Uma coisa que se percebia muito facilmente no Colônia era que a maioria dos pacientes não eram menos sãos do que aqueles que os sentenciaram ao umbral dos loucos. Bêbados, homossexuais, prostitutas, mendigos, opositores do governo – todos eram jogados na mesma vala para que apodrecessem e desaparecessem. Trancafiados sem sequer um diagnóstico, eram ali mantidos sob a justificativa de preservar a sanidade da sociedade, não a deles. Porque são os outros que decidem se você é louco. Ainda que de forma arbitrária.

Eu sempre preferi estar entre as realmente doentes. Gostava de observá-las, conversar com elas, ouvir suas desventuras. Identificação talvez. Algumas tinham se perdido completamente em suas mentes, outras alternavam entre momentos de surto e lucidez. Era curioso observar o contraste desses momentos, como se vários espíritos habitassem o mesmo corpo. Talvez fizessem o mesmo comigo. Talvez eu fosse intrigante. Mas essa não é uma história sobre mim.

Clara atravessou os portões do Colônia em novembro de sessenta e oito, aos dezenove anos de idade, embora aparentasse muito menos. Era uma moça bonita, de pele morena e grossos cachos que emolduravam seu rosto ainda infantil como aqueles porta-retratos cheios de rococós. Clara parecia uma fotografia presa num tempo passado, num tempo de inocência e calmaria que não poderiam existir dentro dos muros do Colônia.

De início ela não parecia se encaixar nem entre as loucas, nem entre as sãs. Alegava que havia sido enclausurada porque se envolvera com um homem casado, figura importante na política de uma cidade próxima, e tornara-se um problema após engravidar – ainda que não apresentasse sinal algum de gravidez. A história era tão plausível quanto dubitável. Talvez contasse a verdade, talvez estivesse presa numa fantasia de cruel ironia. Mas com o tempo você aprende que a verdade também é decidida pelos outros. E haviam decidido que Clara era louca e mentirosa.

Clara ainda era jovem demais para entender que era impossível vencer o martelo do jugo popular. Acreditava que sua voz tinha que ser ouvida e o fazia em alto e bom som, embora nunca estivesse conversando com ninguém. Era arredia com as internas que tentavam se aproximar e com os funcionários do manicômio. Em poucas semanas já havia experimentado quase todos os sabores do Colônia – fora atravessada por eletrochoques, sentara na temida cadeira do dragão, tivera o corpo massacrado pelas duchas escocesas, fora atada em camisas de força e trancafiada em salas escuras com ratos e baratas como únicas companhias. Mas Clara parecia inquebrantável, agarrava-se à sua história com convicção e voracidade e só parecia arrefecer quando lhe eram aplicadas as grossas injeções que nos impregnavam e nos faziam marionetes, cujas cordas eles podiam controlar. Porém, mesmo nesses momentos, mantinha uma fagulha no olhar de quem escolheria a morte à rendição – e ninguém apostava que o resultado de batalha tão desigual tardasse a acontecer.

Particularmente, Clara me assustava. Lutar contra um veredito de insanidade parecia o mais insano a se fazer. Aceitasse o seu destino e os castigos seriam menos frequentes e severos. Todavia ela preferia clamar lucidez e lutar contra seus algozes, o que a fazia parecer mais doida do que todas nós juntas.

Foi só no começo de dezembro que trocamos as primeiras palavras. O dia amanhecera e Clara já estava no pátio, nua, abraçada aos joelhos, sentada numa pequena poça de seu próprio sangue. Não era difícil imaginar o que havia acontecido – os funcionários do Colônia podiam adicionar algum entretenimento próprio às torturas e eu mentiria se dissesse que já não estivera naquela posição.

Sentei-me ao lado dela, também abraçando meus joelhos. Não disse palavra, apenas a observei fitando o céu. Seu olhar parecia alquebrado, sem o vigor costumeiro. Por mais que se suporte as dores físicas, as feridas contra a alma deixam cicatrizes profundas e perenes.

 – Gosto desse céu – Clara quebrou o silêncio que eu jamais ousaria – o início do dia pintado de dourado. Faz você ter um pouco de esperança não?

Não fazia.

 – Gosto ainda mais do pôr do sol – continuou – onde todas as cores se misturam. O azul fica esbranquiçado, depois rosado, violeta, amarelo. Você pode ver o que quiser, o que significa que pode ser o que quiser.

Não entendia o que Clara queria dizer, nunca prestara muita atenção ao céu, tampouco achava que ele tivesse algum significado, mas era prazeroso ouvi-la falar. Então apenas anuí com a cabeça e permaneci calada.

– Você acha que o céu que nós vemos é o céu de verdade? Pra onde nós vamos depois de tudo?

– Não, nunca pensei sobre isso, mas acho que não.

– Também penso que não – Clara prosseguiu, a voz estranhamente animada – vejo o céu como um grande cobertor que nos acalenta.

– Gosto do céu azul, sem nuvens, só azul – respondi mais para manter a conversa do que por qualquer convicção.

– Sim, esses são dias tranquilos. Quando chove e o céu fica roxo é ruim. Mau presságio. Mas o pior é o céu todo branco. Quando você olha pra cima em busca de uma fresta azul e se vê imersa numa branquidão infinita, mergulhada num copo de leite.

– Por que é tão ruim?

– Porque é um dia vazio. Alguns dizem que é uma tela em branco e você pode fazer o que quiser, mas não há nada pior que uma tela em branco. Não tem beleza, não tem direções. Um céu todo branco significa que Deus nos abandonou naquele dia.

Eu fazia o meu melhor olhando para o céu, mas não entendia nada do que Clara queria dizer.

– Você acredita em Deus?

– Também nunca pensei muito nisso, mas acho que sim. Todos dizem que Ele existe.

– Existe – ela sentenciou, indubitável – e nos manda recados através do céu. Um céu negro e estrelado significa que Ele quer que pensemos em nossos mortos. Um céu cheio de nuvens nos mostra que não estamos sozinhos e que tem coisas maiores lá em cima. Você precisa sempre olhar para o céu para entender as mensagens de Deus.

– Acho que faz sentido. – Não sabia se realmente fazia, mas ela era persuasiva o suficiente.

Clara sorriu, aproveitando os últimos momentos do amanhecer. Eu observei o céu em busca de algo pra dizer, mas não era tão boa quanto ela em ler sinais. Então ficamos as duas caladas, vendo o azul apagar o dourado, enquanto o vermelho ao redor de Clara aumentava.

Nos tornamos amigas, ou algo próximo a isso. Clara apreciava o som da própria voz e contava com entusiasmo histórias que a faziam parecer ter mais de um século de existência. Já havia ouvido toda sorte de histórias no Colônia, mas as de Clara eram sempre mais elaboradas, saíam de sua boca como páginas de um livro, quase como se eu pudesse ver as palavras sendo rabiscadas defronte meus olhos. Eu era ótima ouvinte e nunca questionava suas aventuras, então ela se sentia confortável ao meu lado. 

Clara insistia em olhar para o céu em busca dos sinais que só ela conseguia decifrar. Mas não creio que eles fossem muito precisos. Seu humor oscilava diversa e bruscamente durante o dia. Mais rápido que as cores do céu poderiam acompanhar. Da euforia à depressão, da ternura à ira, da melancolia à esperança, seus sentimentos pareciam misturados e confusos, como se chacoalhassem constantemente em sua mente, trombando uns com os outros, até que, repentinamente, um deles poderia escapar e libertava-se em toda a sua plenitude. Por vezes tornava-se agressiva, quebrava qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, noutras sentia-se perseguida, paranoica, como se todas nós estivéssemos contra ela. Eu era o alvo mais constante de seus rompantes de fúria. Mas não me importava, assim como ela parecia não se importar com minha dificuldade de compreensão, com minhas palavras mal colocadas, então ficávamos em bons termos.

Com o tempo percebi que as cicatrizes no corpo de Clara não vinham apenas dos abusos sofridos no Colônia. Por vezes ela se flagelava com algum caco de vidro ou pedaço de tijolo. Fazia cortes nos antebraços e nas coxas. Os ferimentos nunca eram graves e eu jamais entendi sua intenção. Talvez sentir que ainda estava viva, talvez tomar controle do próprio sofrimento. Não sei. Mas nesses momentos receava que minha amiga perdesse totalmente o juízo. 

Ver alguém perdendo a mente é como ver um quebra cabeça sendo desmontado, peça por peça. De início você consegue reconhecer a imagem inicial, mas sente que algo falta, há um vazio quase imperceptível. Com o tempo as lacunas vão ficando maiores e você já consegue percebê-las até mesmo nas feições. Às vezes as peças parecem voltar quase magicamente e você se enche de esperança de rever a imagem original. Noutras, elas retornam em lugares errados, não se encaixam e criam uma quimera irreconhecível. Mas, no fim, elas sempre se vão por completo e tudo o que resta é uma caixa vazia. Você ainda vê a imagem desbotada do modelo na caixa, chacoalha para ouvir o tamborilar das peças, mas nada resta. Apenas o corpo de alguém que se foi sem a gentileza da morte. Esses eram os fantasmas do Colônia.

Mas Clara tinha ímpeto maior que qualquer um para manter suas partes juntas e, no raiar dos primeiros dias de sessenta e nove, seu ventre começara a crescer. Se a razão era o amante que ela alegava ter ou os estupros entre as paredes do manicômio, era impossível precisar. O certo é que a gravidez definitivamente revigorou seu espírito. Para Clara, aquela criança era prova de seu testemunho, justificava de sua resiliência e razão para seguir perseverando. Ela tinha convicção de que escaparia do Colônia, fugiria para a capital e começaria vida nova com sua filha – que, com ou sem ajuda do céu, ela já determinara o sexo.

Eu não tinha a mesma certeza. No Colônia, mal tínhamos o que comer. Caçávamos ratos e nos alimentávamos com sobras. Matávamos a sede e nos banhávamos em um esgoto a céu aberto. Sequer tínhamos camas – que o governo decidira substituir por capim – nos amontoávamos uns sobre os outros para nos resguardar do frio noturno da serra mineira. Pela manhã, era comum encontrar corpos que não resistiram à temperatura ou mesmo que foram sufocados sob a égide humana que ansiava por calor.

Àquela altura, o corpo de Clara já estava esquálido pela fome e corroído pelos castigos. Era difícil imaginar que um ser humano naquelas condições pudesse carregar outro por nove longos meses. E mesmo que passasse pela provação, havia uma verdade indelével que ela ainda desconhecia: os filhos do Colônia pertenciam ao Colônia. As gestantes do manicômio besuntavam seus ventres com fezes, na esperança de provocar ojeriza naqueles que tomariam de seus braços a única virtude que ainda eram capazes de gerar.

Clara não chegou a tanto. A altivez de seu espírito parecia crescer na mesma proporção da deterioração de seu corpo. Sua pele fora consumida pelas surras e flagelos, o rosto murchara e envelhecera, os cachos já não existiam. Sua fotografia agora se confundia com a imundície dos pátios do Colônia. Mas enquanto carregasse Rubi – nome que fora a ela inspirado pela aurora de um entardecer escarlate – Clara seria maior que o mundo.

Os céus não haviam mentido e Rubi veio ao mundo antes que sua mãe completasse um ano no Colônia. Durante alguns dias nossos rostos redescobriram o formato de um sorriso. Gosto de guardar essas memórias. Não quero descrever o assombro do dia em que Clara foi separada de sua joia. Basta dizer que ela lutou com força e ferocidade como jamais testemunhei igual. Resistiu por uma eternidade condensada em minutos, mas no fim mãe e filha foram carregadas em caminhos opostos, o choro confuso de uma se misturando aos urros atormentados da outra. 

Rubi jamais retornou. Passaram-se dias para uma Clara esfacelada voltar ao nosso convívio. O corpo denunciava a intensidade do massacre, mas o que dobrou sua alma é algo que nem cogito imaginar.

 

Acabaram-se as histórias. A fala ligeira e a voz decidida foram substituídas por escassos murmúrios. Nossas conversas rarearam e ela passou ao papel de ouvinte. Mas eu não era boa em falar. Não tinha peripécias para contar e nem sabia ler o céu. Demorou pouco para nos esgotarmos. Voltei a buscar consolo em outras dementes e Clara apenas existia, marchando vagarosamente pelos pátios ou apenas imóvel deixando as horas passarem. Mas eu ainda a via olhando para o céu, vasculhando respostas. Eu sabia que podiam espedaçá-la o quanto quisessem, podiam arruinar seu físico, deturpar sua mente, incinerar seu espírito, mas jamais derrotá-la. Sempre haveria uma nova cor no céu e Clara sempre estaria com os olhos atentos.

Em abril de setenta e dois deixei o Colônia. Parentes de uma parte abastada de minha família vieram ao meu resgate e decidiram que eu não era mais louca. Eu era, mas não a ponto de preferir viver naquele eterno purgatório. Meus pecados, sejam quais fossem, já haviam sido expiados. Sabia que o Colônia era perpétuo mesmo fora de seus muros, mas viver com ele dentro de si ainda era melhor que viver dentro dele. E assim parti para uma fazenda ao sul do estado.

Apenas no final da década os olhos da imprensa finalmente chegaram ao Colônia e os horrores do manicômio chocaram a mesma sociedade que regozijava em livrar-se de seus marginais lançando-os à instituição. No decorrer dos anos oitenta, o Colônia foi sendo desmantelado, até que nada restasse além das frias paredes assombradas pelos terrores do passado.

Foi lendo manchetes de jornais que encerrei minha história com o Colônia. Mas essa não é uma história sobre mim.

Na primavera de noventa e um, quando um céu carmesim denunciava o fim do dia, recebi duas correspondências vindas de São Paulo. A primeira era uma carta de Clara para mim. Como ela sobrevivera por tanto tempo no Colônia, chegara à capital paulista ou me rastreara, até hoje são mistérios para mim. Na longa missiva ela me cumprimentava com alegria, fazia os dias no Colônia parecerem saudosas lembranças e contava que o céu não lhe enganara, ela que falhara em interpretar seu sinais: Rubi realmente fora encaminhada para Belo Horizonte, adotada por uma rica família local e crescera numa vida de regalias, longe das atrocidades que experimentaria no manicômio. Agora já era moça feita, mais velha que a mãe à época da internação. Clara disse que passou todos esses anos a rastreá-la e que finalmente descobrira seu paradeiro – Rubi vivia num bairro nobre da capital, alheia às suas origens, e chegara o momento de saber a verdade. A segunda correspondência era uma carta para a filha, que só ela deveria abrir. Clara ainda explicara, sem entrar em detalhes, que em suas atuais circunstâncias não podia deixar São Paulo, talvez jamais pudesse, então caberia a mim fazer a mensagem chegar à Rubi.

Nada daquilo fazia sentido para mim. O que fazia bastante sentido vindo de Clara. Eu nunca a entendia muito bem durante nossas conversas, apesar de ela falar com clareza e convicção. Assim como na carta. Eu quase podia ouvir sua voz enquanto passava os olhos pela caligrafia fina e arredondada.

São os outros que decidem se você é louco. Eu decidi que Clara não seria. Assim me tornei Rubi. E Rubi fui por mais de dez anos, quando a última carta remetida de São Paulo não continha uma resposta para a filha, mas um comunicado do falecimento de Clara.

Sempre vi o mundo em cores diferentes. Sempre soube que era louca. Nunca entendi as pessoas, nunca entendi o Colônia, nunca entendi as histórias que me contavam e nem sei se conto essa com clareza. Mas sempre sei de quem lembrar nas noites escuras, quando o manto negro do céu nos envolve e as estrelas brilham com mais força.

29 comentários em “As Cores do Colônia (Franco Basaglia)

  1. Andre Brizola
    25 de novembro de 2020

    Olá, Franco
    Conto sobre a relação entre a narradora e Clara, duas internas no manicômio mineiro Colônia, no final dos anos 60. Clara, grávida, enfrenta a imposição da loucura e se rebela, mas tem sua força de vontade quebrada quando é separada, após o parto, da filha.
    Li esse conto logo que foi publicado e hoje reli para poder fazer o comentário. E a impressão daquele primeiro dia é a mesma de hoje, um texto fortíssimo, com reflexões bonitas, ótimo uso da narrativa e uma demonstração muito segura de como contar uma história. Não vou dizer que é uma boa história, pois isso seria mentir. O que conhecemos pelas palavras da narradora está longe de ser bonito. Mas é contado de forma muito, muito competente.
    Até o início dos diálogos e, consequentemente, das reflexões e pensamentos de Clara, o conto tem um aspecto meio de reportagem, com uma descrição bem didática do Colônia. A partir daí o texto já começa a tomar uma forma mais poética, com mais cara de literatura. Achei que essa passagem entre os dois “climas” foi muito importante para que possamos tomar conhecimento da realidade do Colônia sem o apelo emotivo.
    Acho que tecnicamente o conto está muito bem ajustado, se há algum erro gramatical acabou sendo sublimado pela competência narrativa. O único ponto em que senti um pouco de ruído durante a leitura foi em “Nada daquilo fazia sentido para mim. O que fazia bastante sentido vindo de Clara”, com a repetição de “sentido” em situações de negação e afirmação tão próximas.
    No geral é um dos melhores contos do desafio. Tem um enredo muito bom, é contado de forma competente e atende ao tema de forma precisa. Muito bom mesmo.
    É isso. Boa sorte no desafio!

  2. jeff. (@JeeffLemos)
    23 de novembro de 2020

    Resumo: a narradora conta a história de Clara, uma amiga que fez no anos infernais que viveu presa no Colônia, uma sanatório que não tratava os pacientes como humanos. A história se desenrola de forma triste e bela, até um desfecho que condiz com tudo que foi descrito no decorrer da trama.
    Olá, caro autor.
    O início do seu conto é muito bom, mas eu discordo da afirmação. Se você vê um muro azul e os outros o dizem verde, não necessariamente quer dizer que você seja louco. Pode ser apenas uma questão de relativismo linguístico. hahaha
    Brincadeiras à parte, que conto! Belo, poético, triste e tocante. Você consegue nos conduzir pela leitura de uma forma que não cansa, não desanima, não tira a atenção. Personagens bem construídos, momentos terríveis descritos de uma forma até bela e banal, como a conversa das duas após Clara sofrer um estupro. Essa maneira descontraída da escrita mostra que você a domina muito bem. Esse trecho em específico “Clara parecia uma fotografia presa num tempo passado, num tempo de inocência e calmaria que não poderiam existir dentro dos muros do Colônia.”… achei isso extremamente bonito. É tão poético que parece que foi escrito como uma pintura. E a citação ao quebra-cabeça… aquilo foi triste, profundo e cirúrgico. Extremamente preciso.
    Parabéns pelo seu excelente texto, eu nem tenho muito o que dizer a não ser te parabenizar pelo excelente trabalho!
    Boa sorte!

  3. Fernanda Caleffi Barbetta
    23 de novembro de 2020

    Resumo
    Interna do manicômio Colônia conta sobre outra interna Clara que, anos após deixarem o local, a encontra e a envia cartas a serem enviadas à sua filha Rubi. A interna resolve responder as cartas como se fosse Rubi.
    Comentário
    Muto bonito e sensível o seu conto. Legal ter ambientado a sua trama em um local real que carrega uma história triste que precisa ser contada e recontada. Gostei da forma como falou da parte desumana do local sem torna-lo um texto pesado.
    Várias construções podem ser citadas como belas joias dentro do conto: “Por mais que se suporte as dores físicas, as feridas contra a alma deixam cicatrizes profundas e perenes” e “Sabia que o Colônia era perpétuo mesmo fora de seus muros, mas viver com ele dentro de si ainda era melhor que viver dentro dele” são algumas delas.
    Gostei dos diálogos. Bem construídos. Só tiraria a pergunta “Pra onde nós vamos depois de tudo?” porque não foi respondida, não ajudou na narrativa, criando uma expectativa que não foi cumprida.
    “– Gosto desse céu (ponto) – Clara quebrou o silêncio que eu jamais ousaria – o início do dia pintado de dourado. Faz você ter um pouco de esperança (vírgula) não?”
    Muito bom o parágrafo que você faz uma analogia com o quebra-cabeça, muito interessante e bem desenvolvida a ideia.
    Gostei do final, um desfecho delicado para o seu conto que fala de tanta tristeza.
    Em alguns momentos o texto ficou um pouco jornalístico demais, explicativo demais.
    Talvez a linguagem muito polida, certinha tenha nos afastado um pouco da protagonista narradora.

  4. Ana Maria Monteiro
    22 de novembro de 2020

    Resumo: através da narração de uma internada sobre a vida de outra internada, Clara, o autor dá-nos um retrato de como os loucos (e os inconvenientes) eram tratados em hospícios na década de 60; a história de Clara, por sua vez, apresenta toda uma crítica social a aspetos mais vastos da sociedade da época.

    Comentário: Temos neste conto várias histórias várias histórias e, francamente, não saberia dizer qual delas a melhor. O autor tem uma elegância descritiva que permite abordar o horrendo com delicadeza e sem ferir o leitor com palavras duras.

    A história é passada no Brasil, num hospital psiquiátrico que efetivamente existiu, mas poderia ter sido em qualquer outro país, em Portugal também os havia assim e as pessoas (mais mulheres que homens, claro) eram internadas muitas vezes sem qualquer patologia e apenas por conveniência familiar – por não corresponderem às expectativas criadas por terceiros que se sentiam com autoridade de posse sobre elas, ou por os seus comportamentos não serem conformes às regras ditadas pelos mesmos.

    Muito se poderia dizer sobre este tema, mas você resume-o bem quando a narradora explica a sua saída em 1972: “Parentes de uma parte abastada de minha família vieram ao meu resgate e decidiram que eu não era mais louca.” Está tudo dito, era assim.

    Mas você foi muito além e trouxe até nós uma história maravilhosa, de amizade, de dádiva, de altruísmo e é impossível não nos rendermos quando a narradora toma a decisão que conduz ao final: “São os outros que decidem se você é louco. Eu decidi que Clara não seria.”

    Parabéns, autor, globalmente e dentro de todos os parâmetros do desafio, o seu conto é para mim, o vencedor (falta-me ler 12 ou 13, mas não creio que vá encontrar melhor).

    Obrigada pela leitura. Quero dar-lhe os parabéns no final do desafio. Até lá.

  5. Giselle F. Bohn
    22 de novembro de 2020

    A história de Clara contada por uma colega que a conheceu no manicômio.
    Meu Deus, que conto lindo! Tudo muito bem feito: a narração em primeira pessoa, as personagens tão bem desenvolvidas, a ambientação. Para mim ficou claro que houve ampla pesquisa para que você, autor, falasse com tanta propriedade de um lugar que realmente existiu na nossa história – infelizmente! Há ainda tantas passagens magistrais neste texto que fica até difícil destacar. Realmente maravilhoso, parabéns!
    Quanto à parte técnica, é um texto muitíssimo bem escrito. Percebi pouquíssimas falhas que em nada afetaram o brilhantismo do conto, mas destaco duas aqui para que você analise com carinho, já que ambas se referem ao uso do pronome relativo “que”:
    – Clara quebrou o silêncio que eu jamais ousaria: o “que” aqui se refere ao silêncio, logo, não funciona: se inverter a frase, diria “eu jamais ousaria o silêncio”? Não, certo? Então melhor seria “Clara quebrou o silêncio, o que eu jamais ousaria fazer.”
    – Ela tinha convicção de que escaparia do Colônia, fugiria para a capital e começaria vida nova com sua filha – que, com ou sem ajuda do céu, ela já determinara o sexo. – aqui o “que” não cabe, pois ela já determinara o sexo DE sua filha, logo, é necessário “cujo”: Ela tinha convicção de que escaparia do Colônia, fugiria para a capital e começaria vida nova com sua filha – cujo sexo, com ou sem ajuda do céu, ela já determinara.
    Perdoe-me as correções; reclamei dos Grammar Nazi antes, e agora estou aqui dando uma de chata também! É que o seu conto é tão maravilhoso que achei um crime esses errinhos bobos permanecerem ali! Desculpe se fui inconveniente!
    Parabéns mais uma vez e boa sorte no desafio! Vai estar na final, com certeza! 🙂

  6. Fabio Monteiro
    22 de novembro de 2020

    Resumo: Clara é uma mulher que fora internada injustamente num manicômio chamado de colônia. Sua historia é contada através da narradora (outra internada) que vai descrevendo os fatos da vida de Clara.
    Tem muita informação e uma inimaginável quantidade de pontos a serem trabalhados com seu texto.
    Ele não só aborda o tema loucura de modo geral como parece tentar descrever como nossa sociedade é cega para a verdade.
    Eu não consigo imaginar os horrores vividos pela personagem narrada na angustiante situação de vida. Se entendi bem ela foi internada apenas por que saiu com um homem importante e casado. Evidentemente a este homem nada aconteceu.
    É um texto maravilhoso.
    Gosto muito da forma como a personagem da narração vai contando a historia. Uma forma diferente de escrita na minha opinião. Quase sempre vemos um eu gigantesco nas narrações. Essa foge bem dos padrões.
    Boa Sorte autor(a)

  7. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá. Creio que o seu conto foi o mais impactante que li até agora, e um sério concorrente a ganhar o desafio. Narra a história de Clara, internada compulsivamente num hospital psiquiátrico. Ela tem uma filha que lhe é retirada e entregue para adopção. É contada na primeira pessoa por outra mulher que está internada.
    Gostei bastante da forma elegante como foi escrito, sem qualquer erro aparente e denotando uma grande experiência por parte do autor. Fala de temas complexos como a ténue e subjectiva distinção entre a loucura e a sanidade. O conto é forte, impactante, usando um realismo que nos é atirado à cara e que tem elementos reais. Vai ter nota 10 porque mestre Gustavo não permite dar 11.

  8. opedropaulo
    21 de novembro de 2020

    RESUMO: É a história de Clara, vítima de uma internação sem escrúpulos em um verdadeiro campo de concentração, onde é submetida a torturas de todas as formas. Após engravidar, ser separada da filha recém-nascida é a gota d’água para, após tanta violência, quebrar por inteiro. Ou assim a protagonista achava. Pois anos depois, superado o inferno, passou a receber correspondências da mesma Clara, animada e empolgada com a possibilidade de rever contato com a filha. E nossa narradora fez esse papel. Cumpriu até que soubesse da morte de Clara.

    COMENTÁRIO: Este é um conto impactante que trabalha bem uma triste realidade vivida na História brasileira. Há trechos que são muito bonitos e trabalham bem a ideia de loucura, o parágrafo inicial sendo um bom exemplo desse primor literário. Por outro lado, o trecho em que se dedicou a caracterizar o hospital me pareceu despropositado, por demais jornalístico. Acredito que comparar o espaço a um campo de concentração e dizê-lo higienista não tem o mesmo valor do que seria deixar o leitor apreender por si mesmo. Afinal, a estória segue para nos mostrar exatamente um lugar cruel e desumano. A narrativa também não me agradou pela forma como foi desenvolvida, como se a colocar a personagem Clara numa escala de sofrimento, o leitor sendo convidado a especular quando vai ser o ponto de ruptura. Tratando-se ainda de vários tipos de violência, torna-se desgastante e, paradoxalmente, também um pouco impessoal, talvez porque o recurso narrativo fique evidente e Clara pareça concentrar todo o terror do lugar em si, como se estivesse sendo usada pelo autor para reafirmar a brutalidade do lugar – apesar de que isso corresponde bem à perseverança sonhadora da personagem. Como a narrativa é esparsa, desdobrando os eventos ao longo do tempo, dificilmente detida em pontos específicos, isso diluiu um pouco a aproximação que eu poderia ter com as personagens. O fato de ter sido uma realidade que integra a nossa História torna o drama mais tangível e doloroso e, como já apontado, há trechos com analogias muito interessantes sobre o que faz a loucura. E devo complementar que o desfecho foi bem escolhido e dá uma redenção agridoce à personagem, o que casa bem com o tom de todo o texto.

    Boa sorte.

  9. Leda Spenassatto
    20 de novembro de 2020

    Clara é internada como louca, no Colônia , hospital psiquiátrico de Barbacena. Sua loucura, ter engravidado de um homem casado, figura importante na política.

    Me encontrei relendo o livro Holocausto Brasileiro da Daniela Arbex.
    Viajei no seu conto, seus relatos , ou os relatos do personagem que descreve as aflições de Clara são muitos parecidos com os descritos no Livro da Daniela Arbex.
    Só me perdi junto com a Rubi. Fiquei na dúvida, Rubi seria a pessoa que descreve o sofrimento de Clara, ou eu sou mais louca do que o narrador?
    Acho que sou mais louca!
    Gostei muito do seu Conto, embora me pareceu pouco original. Talvez , pela memória marcante que tenho do Livro Holocausto Brasileiro.
    Me perdoe se interpretei errado.
    Sua narrativa , para mim, fluiu muito bem, não encontrei erros que pudessem justificar a leitura.

    Parabéns pelo conto e por trazer a luz as atrocidades do Colônia.

    Te desejo muita sorte, Franco Bataglia.

  10. Elisa Ribeiro
    19 de novembro de 2020

    Ancorada em fatos e ambientação reais, o conto narra, pela voz de outra interna, a história de Clara uma jovem internada no famoso hospital colônia de Barbacena.
    A narrativa compassada, entremeada em boa medida de suaves e inspiradas metáforas, soa, talvez, conservadora, mas a considerei bem adequada ao enredo sentimental e em tom de memória.
    A narradora observadora foi uma saída interessante do autor para falar sobre a loucura de Clara, descrevendo-a sob a perspectiva de seus comportamentos e não da desordem de seus pensamentos. Sua escolha narrativa dialoga com ideias expressas no texto (“Os outros é que decidem se você é louco”, “A verdade também é decidida pelos outros”) e isso ficou bem bacana. Também gostei de sua escolha em não se deter muito nos horrores do hospital, mostrando-o apenas como pano de fundo, focalizando em primeiro plano o drama vivido por Clara.
    O desfecho que você deu à trama, achei-o delicado e inspirado. E o arremate final, retomando ao céu de Clara, também ficou bem bacana.
    O texto está muito bem revisado. Aponto apenas o trecho: “Clara disse que passou todos esses anos a rastreá-la”. Pareceu-me que “passara”, no mais que perfeito, soaria melhor.
    O que não gostei: sua narradora me soou, talvez, demasiadamente literária, sobretudo para uma ex-interna de um hospital psiquiátrico o que para mim compromete um pouco a verossimilhança do relato. É certamente uma idiossincrasia minha, mas só aceito sem torcer o nariz narradores literários em 3ª pessoa ou em 1ª. pessoa se forem narradores/personagens escritores ou aspirantes a tal.
    O que gostei: a ambientação em um contexto histórico foi uma singularidade aqui no desafio. Também gostei bastante do enredo novelesco. Uma opção que sempre agrada.
    Parabéns pelo ótimo texto.
    Desejo sorte no desafio. Um abraço.

  11. Amanda Gomez
    18 de novembro de 2020

    Resumo📝 Um interna de um local de tortura para ‘’loucos’’ narra a história de clara, uma jovem que apesar do sofrimento não deixava de ver beleza nas cores e nos significados dela.
    Gostei 😃👍 Olá, Achei um texto bastante profundo com uma sensibilidade ímpar. O autor apesar de retratar um local infernal conseguiu pincelar as cenas com cores vibrantes tornado-as cativantes pra quem ler, sem deixar aquele aperto no coração de fora. Locais como esse existiram, e , talvez ainda existam em algum canto escuro do mundo. O autor deixa claro que ali, estão as pessoas sentenciadas por terceiros, por julgamento de uma maioria que decide o que é ser louco ou não, a ‘’ escória’’ da sociedade, os indivíduos cujo quais elas não sabiam lidar. Isso fica claro com o relato da narradora, lúcida, capaz de visualizar todo o cenário do qual vivia e o porquê de está lá. O final me surpreendeu, tanto por elas terem conseguido sair de lá, algo que parecia impossível diante de tanta violência, quanto pela escolha do autor em si. De fazer as duas se encontrarem através de cartas e da escolha dela de ser Rubi, de dar algum conforto para a pobre Clara até o final dos seus dias.
    Destaco a escrita inspirada com belas passagens. Ótimo texto, parabéns!
    Não gostei 😐👎A estranheza do lugar soar inverossímil isso aumentou quando a Colônia se desfez, o fato de Clara a encontrar. A imagem não faz jus ao texto, e ‘’o’’ ao invés de ‘’ A’’ colônia me fez questionar se ta correto também. Está vendo que estou buscando pelo em ovo né? rs
    O conto em um emoji : 🌅🌈 👥

    • Franco Basaglia
      21 de novembro de 2020

      Amanda!
      Obrigado pelas impressões, os pontos que você destacou como positivos eram os mais importantes pra mim, então fico mais do que feliz com suas observações. “Sensibilidade ímpar” é um elogio muito maior do que mereço, mas eu o aceito, me ajuda a fingir que tenho algum talento literário real, rs.
      Não entendi bem o que você achou inverossímil em relação ao Colônia. Só posso dizer que ele realmente existiu, realmente foi marcado por atrocidades e realmente se desfez. Então se algo soou inverossímil foi por inabilidade narrativa minha mesmo. Clara ter encontrado a narradora não parece tão crível, de fato. O melhor que pude fazer aqui foi deixar como mistério, passar rapidamente e contar com a boa vontade do leitor. Você está certa.
      Quanto à imagem você foi por demais generosa – ela não apenas não faz jus ao conto, mas é quase uma antítese a ele. Eu pensei em usar uma fachada do Colônia como imagem, digitei no Google e acabei me deparando com essa foto que, num instante de mais genuína burrice, achei que ficaria adequada. Não tenho desculpas pra essa burrada.
      Sobre o uso do artigo, é “o” Colônia mesmo, por se referir ao hospital, mas entendo a estranheza.
      Achei divertida sua definição do conto por emojis. Pena que não tenho emojês o suficiente para tentar fazer igual. Envelhecer é um saco.
      Ah, e tenho que dizer que você falar em buscar pelo em ovo num conto em que a protagonista chama Clara, ativou uma quinta série violenta em mim.
      Envelhecer nem sempre significa amadurecer.
      Valeu pela leitura e comentário.

  12. Fheluany Nogueira
    18 de novembro de 2020

    Narradora-testemunha conta a história de outra interna no manicômio Colônia e do relacionamento, mantido até a morte dela.
    Cidade dos Loucos era como Barbacena era chamada. A ambientação do conto é bem real: época e hospital. Se Clara não era louca, ficou, naquele lugar.

    O conto traz emotividade e revolta. A trama é crível. A escrita é competente. Apenas, achei a narradora com um nível de conhecimento, consciência e linguagem acima de uma doente interna no Colônia. O ritmo é bem dosado, com trechos mais arrastados devido a longos parágrafos e o tom explicativo.

    Bom trabalho. Sorte no desafio. Abraço.

    • Franco Basaglia
      21 de novembro de 2020

      Obrigado pelas impressões, Fheluany.
      Eu não achava que os parágrafos longos fossem incomodar, mas tem sido uma crítica recorrente, então é algo que tenho que repensar. Quanto ao tom explicativo, você está correta. Eu queria passar muita informação em pouco espaço, então não consegui fugir dessa armadilha. 😦
      Mas se a trama e a escrita te agradaram, já fico contente. Espero que os aspectos positivos tenham superado os negativos e tenha sido uma boa leitura.
      Abraço.

  13. Anna
    14 de novembro de 2020

    Resumo : Uma mulher internada em um manicômio de condições indignas e maldosas conta a história de Clara, uma moça que diz ter sido internada por ter engravidado de um político importante.
    Comentário : O conto é lindo e triste.É horripilante como as pessoas que eram consideradas loucas sofriam abusos e mal tratos.
    Achei essa passagem extremamente linda,mostra que ela achava no céu motivos para viver e um salvador para crer :
    ” – Você acredita em Deus?
    – Também nunca pensei muito nisso, mas acho que sim. Todos dizem que Ele existe.
    – Existe – ela sentenciou, indubitável – e nos manda recados através do céu. Um céu negro e estrelado significa que Ele quer que pensemos em nossos mortos. Um céu cheio de nuvens nos mostra que não estamos sozinhos e que tem coisas maiores lá em cima. Você precisa sempre olhar para o céu para entender as mensagens de Deus.”

    • Franco Basaglia
      21 de novembro de 2020

      Oi Anna.
      Que bom que você encontrou beleza no conto. Essa questão de saúde mental me toca em particular e eu quis mostrar algo de belo através do olhar “diferente” da narradora e da personalidade de Clara. Feliz que tenha funcionado com você.
      E obrigado por destacar essa passagem do texto, fico curioso imaginando o que cada leitor vai achar de cada trechinho que escrevo, então é muito legal receber esse tipo de retorno. E é ainda mais legal que sua parte favorita tenha sido o único diálogo do conto, diálogos são sempre especiais pra mim.
      Obrigado por comentário tão gentil.

  14. Priscila Pereira
    12 de novembro de 2020

    Resumo: A história de Clara é contada por uma de suas colegas no tempo em que ambas eram internas no Colônia.

    Olá, Franco!
    Ótimo conto! Gostei muito! Gostei da personagem narradora, mesmo a história não sendo sobre ela, queria saber mais sobre a personagem, a vida que levava antes, por que foi para o Colônia, como viveu depois que saiu de lá. Mesmo contando a história de outra, ela foi uma ótima personagem!
    Clara também é muito instigante e interessante de acompanhar. Pelo que a protagonista narra, parece que Clara realmente tem algum problema mental, mas essa dúvida é ótima para o conto. A linguagem está impecável, tudo narrado com delicadeza e poesia. Uma história triste contada de maneira tão bela. Parabéns! Boa sorte!
    Até mais!

    • Franco Basaglia
      21 de novembro de 2020

      Olá, Priscila!
      Seu comentário me deixou muito feliz. 🙂
      Eu não queria que a narradora se tornasse uma personagem pálida, mesmo se deixando de fora da história, a voz dela é muito importante. Fico contente que ela tenha despertado seu interesse.
      Você ter encontrado delicadeza e poesia na história é um pequeno prêmio pra mim. Essa era a intenção, mas não sou nem um pouco bom nisso, estava inseguro em ter pesado demais a mão na parte negativa do Colônia e sufocado o lirismo do texto. Ver comentários como o seu me deixam aliviado em não ter falhado tanto assim.
      Muito obrigado por suas impressões.

  15. Bianca Cidreira Cammarota
    12 de novembro de 2020

    Recordações na protagonista/narradora de seus anos no Colônia (sanatório paulista dos finais dos anos 1960), especificamente sobre outra interna Clara.

    Franco, oi!

    Lindo texto! Muito lindo! Existe um ar dos tempos idos ao lado da narradora, ela como observadora externa de si mesma naquela época e sua experiência com Clara.

    É um conto dramático, mas não cai no exagero e sim navega nos fatos terríveis acontecidos, sem escorregar no sentimentalismo exagerado. A escrita é segura, conduzindo-nos com precisão naqueles tempos horríveis que guardaram esse tipo de lugar sombrio, onde insanos ou não, quem não se enquadrava naqueles anos de ferro, existiam como fantasmas de si mesmos.

    Existe espaço nas entrelinhas para viajarmos, porém a narrativa nos mantém em uma direção, sem que nos percamos. A linguagem é agradável, o estilo é leve e, paradoxalmente, relatando vivências pesadas.

    A sensibilidade do texto é enorme representado na ligação das duas mulheres consideradas marginais aos moldes sociais da época. O carinho e respeito são discretos e delicados. A humanidade é apresentada nos pequeninos grandes gestos e silêncios. E cores. Cores do céu, cores de esperanças, cores de futuros.

    Adorei seu texto. Adorei mesmo! Ele é maravilhoso. Parabéns pelo conto e obrigada por tê-lo compartilhado aqui.

    • Franco Basaglia
      12 de novembro de 2020

      Poxa Bianca, nem sei como agradecer a esse comentário. Você captou com precisão o sentimento que tentei passar no conto. Lógico que todo tipo de reação é válida: cada um tem sua interpretação e sua jornada própria durante uma leitura. E essa variedade é muito rica. Mas confesso que fico muito feliz quando um leitor fica tão em sintonia com meus próprios sentimentos acerca de um texto meu. Vaidade? Talvez. Mas adorei que você tenha adorado pelas razões que adorou. 🙂
      Muitíssimo obrigado pelo comentário. Indiferente ao resultado da competição, ele já vale como um prêmio pra mim.

  16. Angelo Rodrigues
    11 de novembro de 2020

    Resumo:
    No Colônia, Clara e amiga tecem considerações sobre a loucura, sobre o local em que vivem, sobre os fatos futuros de suas vidas.

    Comentário:
    Conto extremamente bem construído, reto e firme no desejo de contar uma história dramática, real, senão como conto, como uma realidade caçada no ar, transcrita. Quantas Claras?

    Gostei muito do conto. Tem um propósito lúcido, um desejo de contar um drama, e o autor, com maestria, conseguiu. Além de uma bela narrativa, lembra-nos de alguns pontos: somos o que querem de nós?, resistir é definitivamente o caminho?, quão cruel podemos ser com aquilo que não entendemos?, ou quando bem entendemos e fechamos os olhos levados por conveniências?

    Há passagens muito legais, como esta em que Clara se autoflagela com cacos de louça. Diz-se que não podemos sentir duas dores simultaneamente. Normalmente a autoflagelação tem o dom de apagar uma outra dor, certamente maior que cortes no corpo.

    Confesso que durante algum tempo fiquei desconfortado pela lucidez da interlocutora de Clara, que, lúcida demais, não podia estar ali, no meio de loucos. A tempo isso foi ajustado, com “Rubi” sendo resgatada pela família abastada.

    Algo bom e acolhedor foi o fato de a ouvinte de Clara se deixar transformar em Rubi, e viver com a mãe uma existência fugaz num ato de doação – espero que não de loucura – à amiga que conseguiu sobreviver a tantos horrores.

    Bem legal o conto. Parabéns, tanto pelo desenvolvimento de tema tão espinhoso quanto pela escrita em si, que está bem afinada.

    Boa sorte no desafio.

    • Franco Basaglia
      12 de novembro de 2020

      Obrigado por comentário tão atento e generoso, Angelo.
      Fiquei feliz que o texto tenha te feito levantar esses questionamentos. Foi bem em cima deles que o construí.
      A narradora, de fato, é bastante lúcida em seu relato. Mas eu quis deixar seu “grau” de insanidade um pouco a cargo da interpretação do leitor. No início ela abre a possibilidade de ter sido convencida de sua loucura. No Colônia ela fica entre as loucas por opção. No fim, diz que nunca entendeu o mundo e que o vê em “cores diferentes”. Acho que fica claro que ela tem algum distúrbio, mas não o quão grave é ou o quanto isso a afeta. Eu tenho cá meu “diagnóstico” – para ambas as personagens, aliás – mas a dúvida pode ser mais divertida.
      Quanto ao seu envio ao Colônia a razão podia ser diversa: cerca de 70% dos “pacientes” do manicômio sequer diagnóstico tinham. Eram pessoas marginalizadas ou simplesmente inconvenientes para a família ou para alguém em posição de poder. Ou ela podia ser louca, afinal. 🙂
      Mais uma vez agradeço pela leitura e elogios.

  17. Thiago de Castro
    9 de novembro de 2020

    Resumo: Interna do Hospital Colônia de Barbacena relata o relacionamento com Clara, outra interna que conheceu no local. Compartilhando reflexões sobre a loucura, visões de mundo e relatando as inúmeras atrocidades cometidas durante os anos de chumbo da ditadura militar, somos levados pelo tempo até o desligamento da instituição e o paradeiro das personagens.

    Comentário: Franco, seu texto é pesaroso, no sentido de nos remeter à um ambiente hostil, desumano e que, de fato, acometeu muitas pessoas nesse país: o Hospital Colônia de Barbacena. Uma de nossas muitas vergonhas. No entanto, a forma como você inseriu a relação entre as personagens suavizou o horror, numa busca metafórica por um outro destino, melhor, ainda que marcado pelas atrocidades do confinamento. Aliás, gostei das metáforas, não se excedem nem levam o leitor para longe, é o céu, suas estrelas e joias. Clara é uma personagem forte (mais uma!) no certame e a sua narrativa, aliada às reflexões introdutórias sobre a loucura, constroem muito bem a máquina de triturar gente que foi a Colônia, no definhamento da personagem.

    Achei a resolução um pouco corrida, mas crível dentro do que eram os hospícios no Brasil: para ser taxado como louco e internado, bastava um estalar de dedos de quem detinha o poder; homens; políticos; autoridades; a sociedade e seus bons costumes de modo geral. Porém, apesar da pressa no final, a conclusão é tão honesta e bonita que valeu a pena, as incertezas sobre o paradeiro de Clara e o desejo de alimentar a alegria da personagem através de cartas “falsas” foi genial, e trouxe mais empatia pela narradora também, que até então, se ausentara da história para contar a de Clara.

    Lindo texto!

    • Franco Basaglia
      12 de novembro de 2020

      Agradeço pelos elogios Thiago. Você está correto quanto ao final um tanto apressado. Em parte, a razão é que eu queria deixar o destino das personagens um tanto aberto: a narradora deixa claro desde o início que a história não é sobre ela, e eu não quis explicar como Clara foi parar em São Paulo, o que fazia por lá, ou por quais motivos ela não poderia sair. Existem várias possibilidades e eu quis que assim fosse.

      A outra parte que explica o final corrido é a limitação de palavras do desafio. De início havia planejado que a narradora fosse até o endereço indicado por Clara e lá encontraria uma garota, mas não perguntaria seu nome, escolheria a dúvida e se tornaria Rubi de qualquer forma, talvez apenas deixando para a garota uma mensagem de que não permitisse que um dia escolhessem se ela era louca. Porém, uns parágrafos a mais e eu excederia o limite de 3000 palavras. Sou muito prolixo, como meus comentários aqui não permitem esconder. Mas sei lá, vai ver que eu pioraria o texto também.

      Tentei colocar um tantinho de poesia nessa história, no que normalmente sou muito ruim, então me alivia que você tenha visto beleza nas metáforas e na conclusão.

      Valeu pela leitura e comentário.

  18. Anderson Do Prado Silva
    8 de novembro de 2020

    Resumo:

    Interna de um hospício narra a história de outra.

    Comentário:

    É um bom conto! Está entre os melhores do desafio! O domínio (da língua e da narração) é pleno! Algumas passagens são belíssimas (foram colacionados em tópico próprio do grupo de Facebook)! A escolha do enredo (baseado em fatos reais) foi muito feliz!

    O início do texto me pareceu um pouco didático (o que foi resultado da necessidade de ambientar o leitor no fato real inspirador do conto). Os parágrafos extensos e desprovidos de diálogos, que iniciam e findam o conto, fizeram, na minha opinião, com que o texto tivesse pouco dinamismo nesses trechos. No meio do texto, alguns poucos diálogos soaram eu-pergunto-você-responde. Nas indicações de tempo e lugar, eu teria usado mais vírgulas.

    Parabéns pelo conto, do qual gostei muito, e boa sorte no desafio!

    • Franco Basaglia
      12 de novembro de 2020

      Oi Anderson. Obrigado pelos elogios, fico feliz que tenha gostado da leitura em geral e apreciado ainda mais passagens específicas. Fiquei até curioso pra saber quais são. Não sei se entendi muito bem o lance do Facebook, até porque não tenho uma conta por lá, mas pareceu elogioso, então fico grato. 🙂
      De fato os parágrafos mais longos – e, acredite, eram ainda maiores antes da revisão – tiram um pouco o dinamismo da leitura. Mas permita-me me defender só um pouquinho: acho que nem toda leitura tem que ser leve, rápida. Cada texto tem seu ritmo, dentro de seu contexto, e alguns pedem mais cadência, mais “pesar” na leitura. Mas você está correto na observação.
      O diálogo um tanto engessado foi proposital, por conta da dificuldade de compreensão e comunicação da narradora. Mas creio que falhei em deixar isso mais claro.
      Quanto às vírgulas nas indicações de tempo e lugar, confesso que sequer havia me passado pela cabeça. Agora você me deu algo a pensar.
      Mais uma vez obrigado pelo comentário generoso e pelas observações pontuais. Certamente as levarei em conta no meu próximo escrito.

      • Anderson Do Prado Silva
        21 de novembro de 2020

        Você não tem mesmo Facebook? Bem, então os trechos de que gostei e transcrevi lá foram os seguintes:

        – “quem define a loucura são os outros” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “a sanidade é definida pela maioria.” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “Só entende o Colônia quem esteve no Colônia” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “com o tempo você aprende que a verdade também é decidida pelos outros” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “mantinha uma fagulha no olhar de quem escolheria a morte à rendição – e ninguém apostava que o resultado de batalha tão desigual tardasse a acontecer” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “Por mais que se suporte as dores físicas, as feridas contra a alma deixam cicatrizes profundas e perenes” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “Gosto ainda mais do pôr do sol, onde todas as cores se misturam. O azul fica esbranquiçado, depois rosado, violeta, amarelo. Você pode ver o que quiser, o que significa que pode ser o que quiser.” As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “Ver alguém perdendo a mente é como ver um quebra cabeça sendo desmontado, peça por peça. De início você consegue reconhecer a imagem inicial, mas sente que algo falta, há um vazio quase imperceptível. Com o tempo as lacunas vão ficando maiores e você já consegue percebê-las até mesmo nas feições. Às vezes as peças parecem voltar quase magicamente e você se enche de esperança de rever a imagem original. Noutras, elas retornam em lugares errados , não se encaixam e criam uma quimera irreconhecível. Mas, no fim, elas sempre se vão por completo e tudo o que resta é uma caixa vazia. Você ainda vê a imagem desbotada do modelo na caixa, chacoalha para ouvir o tamborilar das peças, mas nada resta. Apenas o corpo de alguém que se foi sem a gentileza da morte. Esses eram os fantasmas do Colônia.” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia);

        – “Sabia que o Colônia era perpétuo mesmo fora de seus muros, mas viver com ele dentro de si ainda era melhor que viver dentro dele.” – As Cores do Colônia (Franco Basaglia).

  19. Lara
    8 de novembro de 2020

    Resumo : Uma mulher que foi internada em um manicômio de condições desumanas conta a história de Clara : Uma mulher que afirma ter sido internada por conta de ter engravidado de um politico importante. Clara engravida no manicômio e tem a filha roubada de si. A mulher que conta a história é tirada do manicomio por parentes ricos e e levada para viver em uma fazenda. Após muito tempo recebe uma carta de Clara pedindo que envie a sua filha a mesma carta. Depois se anuncia a morte de Clara mas a mulher que conta a história sempre se lembra de Clara ao olhar o céu, pois Clara sempre olhava o céu no manicômio como forma de achar esperança na vida.
    Comentário : O conto é realmente tocante. A condição sub humana que os “loucos” eram submetidos antigamente é repugnante. O mais triste é saber que muitos “loucos” ainda sofrem abusos em clínicas de recuperação. A história de Clara é a história de muitas moças que foram consideradas ‘loucas’ porque era mais conveniente para a sociedade lhe darem tal título.

    • Franco Basaglia
      8 de novembro de 2020

      Obrigado pelo comentário. Que bom que o conto te tocou de alguma forma. A título de curiosidade, caso não saiba, o Colônia realmente existiu e as condições desumanas descritas no texto são verídicas. Eram muito piores na verdade, mas o conto não daria conta de abarcar tantos horrores. No decorrer de quase um século o Colônia tirou 60.000 vidas, mais do que muitas guerras ou ditaduras. É uma tragédia que deveria estar em todos nossos livros de história, mas infelizmente hoje poucos a conhecem.

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Informação

Publicado em 8 de novembro de 2020 por em Loucura.