EntreContos

Detox Literário.

A mulher de Jó (Horácio Johann)

Prometo ser fiel a ti, amar-te e respeitar-te,
Na alegria e na tristeza, na riqueza e na pobreza, na saúde e na doença,
Por todos os dias da nossa vida, até que a morte nos separe.

 

I

E tu, Jó, te manténs íntegro, digno? Amaldiçoa esse teu Deus e morra!

Falas como uma louca qualquer…

“Corta, corta. Parou”.

O ministro que fazia vezes de diretor não aguentou e começou a rir também. O clima da cena se quebrou. É que durante o ensaio, João ficava mandando beijos e piscadelas para Sofia. Conheciam-se desde sempre, uma vez que as famílias eram amigas de longa data. Fizeram juntos Primeira Comunhão, Crisma. Quando chegou a adolescência, e os trabalhos na paróquia, os gostos em comum e algumas viagens das famílias ensejaram uma faísca antes indiscernível, não houve quem não os incentivasse. Formariam o casal perfeito.

E de fato formaram. João estava com 17, e, desde cedo, fazia brilhar os olhos das senhorinhas que o queriam por genro. Tocava razoavelmente piano e violino, jogava gamão e acumulava algumas honrarias em concursos de pintura. Sofia, 16, era um anjo. Nunca se ouvira qualquer reclamação a seu respeito. Uma garota distinta. Ajudava nos trabalhos sociais, escrevia poesia. Fazia menos coisas que ele, era menos prática, mas tinha uma cabeça mais arguta. Ria o tempo todo, um riso branco, reto, que já havia arrebatado outros jovens corações na paróquia. Era ela ligeiramente mais bonita e inteligente que João, o que ele compensava com o jeito de tratá-la, olhá-la. Com isso, conquistou depressa a garota. Os dois juntos eram quase um insulto. “Benza Deus, que casal lindo!”.

Era a primeira vez que ela, tímida, faria o papel da mulher de Jó na tradicional peça de férias. Ele, desde os 10, interpretava o protagonista sofredor. Foi crescendo como ator – ainda que só na opinião leiga da comunidade. Dessa vez, com duas semanas de namoro, era-lhe difícil concentrar-se em outra coisa que não Sofia. E assim seria pelo resto de sua vida.

 

II

À época dos estudos universitários, aquelas almas dotadas de um dos pecados capitais logo decretaram a derrocada do casal. “Ah, ninguém aguenta essa distância, essa saudade toda”. Aguentaram. “Mas o ciúme, ah, esse é fatal. Não dá para saber o que o outro está fazendo, né”. Os cinco anos do curso de Direito passaram num piscar de olhos, acreditem. Quando ele voltou, nem esperou Sofia terminar a graduação e a pediu em casamento.

Ela sorria feito boba cada dia do noivado. Para desespero de alguns, o casal não brigava nunca. João, já treinado na argumentação jurídica, sempre esperava a poeira baixar quanto tinha assunto sério a tratar. Iam para um canto, e a conversa nunca começava antes de um abraço e um beijo nas costas da mão. Quando a coisa vinha à tona, era menor do que aparentava, e eles saíam com o sorriso ainda mais largo. Acumularam horas de diálogo ao longo daqueles anos. Nunca ergueram a voz. Nunca se desrespeitaram. Estavam prontos.

Nos votos, ele reiterou as promessas do namoro. “Serei tudo o que você precisar que eu seja”. Ela prometeu os risos e o respeito. Ambos cumpriram seus votos. Ao menos até onde possível.

 

III

Passaram-se dezessete anos de um casamento “imaculado”, como ele gostava de dizer. Chegaram, então, àquele fatídico ano de 1991. Foi logo no primeiro mês que as coisas deram a virada decisiva. João se lembraria, tempos depois, da cena na cozinha. Ele chegou cansado e feliz do trabalho. Atravessou a sala e a copa em busca de lavar a alma surrada pela semana com um beijo na esposa. Ao cruzar a copa, viu-a gesticulando. A água jorrava pela torneira, o olhar meio perdido de Sofia atravessava a janela. Ele chegou perto, um tanto surpreso. Ela se virou, mas não o viu. Seus lábios se mexiam mudos.

Meu bem… está falando sozinha?

Ela levou um susto.

Oi?

Tudo bem, amor? Você estava falando sozinha.

Eu?

Sim, você – deu um risinho hesitante.

Ah, nem percebi. Mas… bom, e daí?

Ele arqueou as sobrancelhas.

Não, não… nada… eu… eu só estranhei porque nunca tinha visto você falando sozinha… mas até achei bonitinho. O que vamos comer hoje?

Aos poucos, Sofia foi apresentando sinais de inquietação e ficando irritadiça. O que primeiro se perdeu foi o sorriso, aquele sorriso pelo qual ele mataria um homem. E junto dele, foi-se embora também o de João. Logo desaprenderam a dialogar. Para ser mais exato, João puxava sempre alguma conversa, importante ou trivial. Invariavelmente, ele acabou percebendo que teria de tomar certas decisões sem consultar a esposa. Os momentos de paz foram rareando. Finalmente, vieram as primeiras palavras ríspidas, o primeiro grito. João não respondeu a nenhum deles. Foi aprendendo a contragosto, mas ainda firme, a lidar com a súbita mudança. Advogava para si que os anos de ouro, e foram tantos!, eram mais que suficientes para dar-lhe o vigor necessário ante aquela turbulência. “Vai passar”.

Certa vez, estavam os dois sentados no sofá a uma distância nem tão grande. A janela aberta revelava a noite fresca. A TV, ligada a esmo, passava um comercial qualquer de fraldas. João perscrutava periodicamente sua esposa, de soslaio, com zelo e carinho, na esperança de alguma brusca reviravolta naquele terror que já completava uns sete meses. E de repente:

Você não sabe o que é isso, não é?

Oi… oi, amor, o que você disse?

Você não sabe o que é isso. – Ela dizia tudo enquanto olhava o chão, quase sem expressão no rosto, abraçando a si mesma e jogada sem conforto no canto do sofá.

Isso o quê?

Crianças, bebês. Filhos.

Os olhos de João carregaram. Ele engoliu seco, gaguejou. Tentou dizer algo:

Meu amor, você… nos já…

Sofia esteve imóvel. O pior é que não havia vingança naquelas palavras, acidez ou qualquer tipo de emoção. João fez que ia se levantar do sofá, mas ficou. As pernas semiarqueadas, as ideias em desalinho, os olhos oscilando da esposa para a TV, a parede, o chão, lugar nenhum. A noite, quase toda, atravessou-lhes aquela inércia. Então, Sofia se levantou e foi à cozinha. João quis tanto ir ter com ela. Suas pernas tremiam. Valeria a pena? Arriscou. Ele sempre teve um tato muito exato no relacionamento. Sabia o momento de falar, de ficar quieto, tentar um abraço, adentrar uma questão espinhosa… Dessa vez, ele não tinha certeza, mas precisava abraçá-la, sua esposa, sua Sofia. Chegou devagar, controlando a respiração e tocou-lhe a cintura com ternura. A esposa imediatamente empurrou-lhe as mãos e se virou num ímpeto, bufando, o olhar vermelho e agressivo. Não disse nada. Ele a olhou perplexo, com medo. Sofia foi para o quarto, recolheu algumas roupas e foi deitar-se no quarto de visitas, de onde nunca mais retornaria. 

Como quem foge dum desastre, João se dirigiu ao escritório. Não o limpavam fazia uns três meses. Ficou mexendo nos livros do armário, e nos retratos empoeirados sobre a escrivaninha. Não havia uma foto em que não sorrissem. Em algumas, o olhar era tão vibrante, veemente, que foi quase possível reviver os momentos. Neste ponto, é preciso esclarecer algo sobre João: apesar de um homem outrora feliz e sensível, não era muito afeto às lágrimas. Mal saberia dizer quantas vezes e qual a última em que chorou. Mas naquela sexta-feira úmida de julho, prestes a completar 18 anos de casado, ele se apoiou com uma das mãos sobre aquele altar de memórias, e passou longos minutos num pranto intenso e silencioso. Assustou-se quando pensou que sua esposa o veria naquele estado. Espiou a porta e ninguém. Limpou o rosto na camisa, recompôs-se e saiu do escritório. Na cama, agora sozinho, João chorou de novo toda aquela angústia imiscuída na alma. Não queria chorar. Queria que tudo, enfim, passasse. Dali em diante, João entrou num estado mecânico. Não sentia nada. A alma tornou-se indolente. Ele nunca mais verteria uma lágrima. Na verdade, só voltou a chorar uma única vez na vida, anos depois.

Somente às vésperas das festas de fim de ano é que chegou à cabeça de João que tudo poderia se tratar de algum distúrbio, alguma doença. “Minha Sofia não é assim. Ela não é assim”. Decidiu marcar consultas, avisou-a, mas Sofia não dizia nada. No dia marcado, estava ela pronta, arrumada. Há muito não saíam juntos. No consultório, deu a entender que não queria o esposo por perto. Ele saiu feliz; pensou que enfim a esposa se abriria com alguém e tudo teria explicação. O médico contou depois que Sofia só dissera o suficiente para que pudessem direcionar alguns exames. Nunca descobriram ao certo do que se tratava. “Uma espécie rara, talvez, de esquizofrenia tardia”, disse um dos médicos. “Não, não tem cura”.

 

IV

Sofia piorou significativamente. Agia de fato como o típico estereótipo de uma louca. Não falava praticamente nada; quando falava, não saía coisa com coisa. Passou a, semanalmente, ter surtos e quebrar algum objeto da cozinha, da sala. João sobrevivia, firme aos votos. “Até que a morte os separe”.

No vigésimo quarto ano de casados, ela passou a ter delírios e alucinações. Houve um período em que, sempre à tardinha, corria da varanda para o banheiro aos gritos, e lá permanecia por horas. Isso tudo durou alguns meses, e no ano seguinte ela passou a ouvir vozes. Mais dois anos, e Sofia reverteu a forma habitual dos delírios, passando a se aproximar de João de um modo estranho, uma sensualidade infantil, boba, que o faria rir caso ela o fizesse de caso pensado, como nas brincadeiras da lua de mel. Essa forma irrefletida de tratá-lo o afligiu de modo singular, mais do que qualquer evento daqueles todos, neste alvoroço eterno que já se sobrepunha quase inteiramente às memórias da vida impecável que uma vez tiveram.

João andava depressivo. Já havia quase entregado os pontos quando, num sábado pela manhã, saudoso de boas lembranças, encontrou numa gaveta os tais votos do casamento. “Serei tudo o que você precisar…”. Minutos depois, Sofia teve um surto. No meio das falas disparatadas, ela se ajoelhou no chão da sala e principiou um choro sem fim. João olhava sem saber o que fazer. Ela ergueu a cabeça, olhou o esposo e ergueu os braços, suplicando-o. Ele correu até ela e abraçou-a com a força do mundo. Seria possível? Ambos respiravam profundamente. Com uma das mãos, João apertava forte o rosto da esposa contra seu peito; com a outra, acariciava suas costas, seu cabelo, os braços. Arriscou beijar-lhe a cabeça. Ela não se opôs. Minutos depois ela pregou as mãos no rosto do marido com sofrimento e implorou:

Vamos embora, Jó!

Ele ficou mudo.

Meu amor, meu Jó, vamos embora, por favor!

Tudo bem, tudo bem. Vamos para onde você quiser, meu amor.

No início dos problemas, as famílias de ambos tentaram ajudar. Aos poucos, se distanciaram. João não pensou duas vezes e, em três dias, se mudou para uma cidade distante, mais fria, uma casa de campo. Deixaram para trás os familiares, os amigos, a paróquia, e o último espectro da vida que há décadas haviam construído.

“Jó”, “meu Jó”. Aquilo ficou martelando na sua cabeça por vários dias. Ela teria se esquecido quem ele era? Ou estaria se lembrando dos tempos da juventude? Seria essa sua forma de, numa só frase, trazer um mundo inteiro de boas recordações à tona e dizer que a tempestade estava acabando? Que ia ficar tudo bem! Uma fagulha de esperança reacendeu no coração dilacerado de João. Uma vez mais, ele fez tudo por ela. Consultas, tratamentos, medicação. Foram abençoados com alguns dias de tranquilidade, uns poucos abraços. Medicada, ela parecia um animal domado, inofensivo, mas sem vida. Em dias de surto, ele nem conseguia olhá-la mais.

O terror iniciado num dia qualquer de janeiro se desdobrou e se estendeu por anos a fio. Sofia teve outra crise no inverno de 2009. João lembra com precisão de um grito agudo no hospital horas antes do médico chegar com a notícia. Ele lembra vagamente do diagnóstico. A notícia da morte em nada o atingiu. O enterro de Sofia foi simples, sem nenhum amigo, parente e com um padre que João conhecera na hora. Não mandou avisar ninguém. Após o enterro, apenas foi para casa, deitou na cama, e adormeceu num segundo. No início da noite, acordou pensando ter sido tudo um sonho. As cortinas balançavam e o sino da igrejinha soou. O som era grave, diferente do sino agudo da infância. Ele olhou seus braços, viu as rugas. Não, não era mais uma criança prestes a correr para a paróquia. Não estava sequer em sua terra natal. Lá, nunca mais teriam notícia do alegre e decidido João. Ele virou para o lado e, baixinho, disse para si mesmo. “Quando foi? Quando foi que minha Sofia morreu? E eu nem vi…”.

 

EPÍLOGO

Azuis, cinzas e alaranjados pintavam o céu naquele fim de tarde. Os carros se avolumavam à beira da praça. Uma brisa fresca brindava o início das férias de julho de 2019. As crianças corriam sorridentes, subiam os bancos de pedra e se atiravam ao chão. Um punhado de vira-latas resolveu não ficar de fora; corriam todos, rabo abanando, para o centro da festa. Um deles acompanhava mais lentamente um velho homem, encurvado, barba e cabelos brancos, mal arrumados; um andarilho, ou quase isso. O sino agudo da igreja tocou.

No salão adjunto à paróquia, não havia um lugar vazio. As pessoas se espremiam sem chateação. Alguns estavam eufóricos. Um burburinho constante ajudava a formar a atmosfera aconchegante e familiar na expectativa pela apresentação. Ao pigarrear do ministro no microfone, todos se aquietaram. Na parede ao fundo, o quase andarilho tira o chapéu, olha o chão. O ministro anuncia a tradicional peça. Todos se sentam. O andarilho, de pé.

Tudo se desenrola normalmente. O final do segundo ato era quase sempre o mais aguardado. Há mais de trinta anos os atores eram os mesmos. Jó perdera tudo. Mas ainda tinha sua esposa, com quem era um, que amava e por quem era amado. Ela se aproxima. A plateia aflita. O andarilho ergue o rosto. Jó está prostrado. A mulher chega. Retorce o rosto e tira do fundo da alma seu desespero:

Tu… Tu, Jó, ainda te manténs íntegro, digno? Nem sequer derrama uma lágrima? 

Jó vira o rosto para a mulher, esperando consolo.

Amaldiçoa esse teu Deus, Jó! Amaldiçoa esse teu Deus e morra!

A frase reverbera nas paredes do salão. 

“Amaldiçoa esse teu Deus e morra”. 

“Morra”.

Você fala como uma louca qualquer. Aceitaste o bem de Deus com prazer, e o mal tu rejeitas? Louca!

“Louca”. “Louca”.

O tempo congela.

“Louca”.

Sentado sobre os calcanhares, mãos pesadas sobre a cabeça, o andarilho chora inconsolável.

17 comentários em “A mulher de Jó (Horácio Johann)

  1. Fheluany Nogueira
    27 de novembro de 2020

    João e Sofia amam-se e vivem muito bem até que a esquizofrenia abala o casamento. Ela morre e ele, deprimido, regressa à igreja onde tudo começou.
    Narrativa linear, fluida, comovente e bem escrita. O teatro e as alusões bíblicas enriquecem-na. Personagens bem construídos, simpáticos e verossímeis; são pessoas comuns, do nosso dia-a-dia vivendo situações do cotidiano. Gostei muito, afora de algumas intromissões do narrador. O foco de terceira pessoa, mas se aproximando de João, mostra uma sensibilidade aguçada.
    Parabéns pela forma como figurou o amor e a densidade humana. Sorte no desafio! Abraço.

  2. Amanda Gomez
    25 de novembro de 2020

    Resumo📝 João e Sofia se conhecem desde jovem, se apaixonam, se casam e nada parecia abalar o amor dos dois até que Sofia começa a apresentar sinais de esquisofrenia. Ficaram juntos até que a morte os separou.
    Gostei 😃👍 O autor tem total domínio de sua história, as referências ao conto bíblico transitando pela vida real desses personagens, a peça de teatro que no fim acaba esclarecendo muitas coisas. O título, eu demorei pra sacar a referência bíblica, digo, de cara a gente vê, mas eu achei que era só um detalhe e não uma parte tão importante. A narrativa através de João e não dá louca em questão é um diferencial dos outros contos do desafio, dá uma perspectiva nova e muito atraente. Gostei bastante de João, o leitor sente empatia de imediato por ele, pela sua história, por como ele lida com tudo, parecia tudo perfeito até que não era mais. E o autor sabiamente nós leva a conclusão sem pressa. Gostei da cena em que eles estão vendo TV, da referência aos filhos que eles não tiveram e que pra ela não ter foi o mesmo que perder como acontece na história bíblica. Acredito que essas questões tenham sido o gatilho para loucura…ainda que não tenha sido visível, isso fica claro quando João se pergunta quando foi que Sofia começou a morrer. ( Ótimo trecho) a conclusão nos dá o parecer final com a peça de teatro anos depois, com outros personagens. João sozinho e só, revivendo esse momento. Muito bom! Parabéns.
    Não gostei 😐👎 Nada em específico.
    O conto em emoji : 🙇🏻‍♀️🙇🏻‍♂️

  3. Ana Maria Monteiro
    25 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: a história de amor de João e Sofia, desde que se conhecem, passando pelo casamento até que a morte os separou, mas não completamente, pois João continua ligado ao seu amor até que também a ele a morte leve. Acompanhamos, ao longo da narrativa, o lento progresso da esquizofrenia de Sofia.

    Comentário: Um conto belíssimo, clássico e quase perfeito que está dentro do tema e é seguido por ordem cronológica e com lógica, algo que sempre me agrada ainda que nem sempre pratique uma coisa ou outra.
    Este conto é exatamente aquilo que um conto deve ser: conta uma história. E quem não gosta de uma boa história?

    Quando digo que o conto é quase perfeito refiro-me à cena da morte de Sofia no hospital, não percebi bem, aí ficou mal explicado: há o hospital, há um grito, há o diagnóstico, há a morte (certamente por suicídio, mas suicídio no hospital? Estranho) enfim, esse peque trecho ficou confuso e foi a única mancha que notei em todo o conjunto.

    Você conseguiu um excelente trabalho.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  4. Jefferson Lemos
    24 de novembro de 2020

    Resumo: a história de João e Sofia, e todas as alegrias e tristezas que os acompanharam durante suas vidas.

    Olá, caro autor.

    Gostei muito do seu conto. Sua narrativa é extremamente precisa, limpa, aquelas que não falha por excesso ou falta. Gostei da história, seu personagem é crível, as situações, a forma linda com que ele tentou de todas as formas passar por isso. Dei uma lacrimejada no fim da primeira parte.
    Eu nem tenho muito o que falar sobre, apenas que você é um escritor bem completo e de qualidade inquestionável, e compôs uma narrativa belíssima. Parabéns pelo excelente trabalho, prazer em ler coisas bem escritas.
    Boa sorte no desafio!

  5. opedropaulo
    21 de novembro de 2020

    RESUMO: João e Sofiam ficam juntos, na saúde e na doença.

    COMENTÁRIO: Gostei da abordagem do tema que se vê aqui, pois, fugindo do que veio a se tornar normal nos contos desse desafio, o protagonismo é dado não à pessoa que sofre o transtorno, mas àquela que o acompanha de perto e, à sua maneira, sofre também. A abordagem em si não teria funcionado tão bem se não fosse o enredo bem trabalhado, o início cuidando de consolidar o amor genuíno entre os dois que depois se casam e o restante desenvolvendo uma lenta desagregação desse casal, iniciando por um filete de loucura que pouco a pouco vai abrindo uma verdadeira fissura entre os dois. Nisso, elogio o fato de ter escrito alguns episódios, sobretudo o primeiro. A frase “e Sofia foi lentamente enlouquecendo” poderia resumir o conto, mas o fato de ter separado espaço para mostrar o episódio da cozinha e aquele da sala, entre um e outro pontuando as nuances de mudanças de comportamento dela… isso tudo deu verossimilhança ao quadro da personagem, algo muito importante para podermos sentir com mais força a simbólica separação que os dois estão sofrendo. Pensando sobre o final, percebo e arrisco dizer que o conto tinha alguns possíveis finais tristes, mas mais possibilidade de finais felizes (principalmente aqueles que não são inteiramente jubilosos). Apesar do final ter escolhido a saída pela qual se esperava, a morte, há um fechamento muito bom que é a retomada da situação dos protagonistas com os trechos bíblicos que contam a estória de Jó, relativizando a felicidade e a miséria como presentes do mesmo Criador soberano. É um bom conto, bem redigido e atencioso aos detalhes.

    Boa sorte.

  6. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá, HJ. Este conto narra a história de um homem cuja mulher começa a sofrer de esquizofrenia até que acaba por se suicidar. Sozinho, ele desiste de viver e torna-se um sem-abrigo. No final, ele revive o início do namoro dos dois.
    É um conto hiper-realista, em especial para mim, que passei por um processo em tudo semelhante, excepto no desfecho. O acompanhamento médico é essencial nestes caso. Custe o que custar, o paciente tem de procurar a ajuda certa, caso contrário não consegue contrariar o ciclo nem ter a qualidade mínima de vida.
    Gostei da forma como o conto foi estruturado. Parece um filme, cheio de imagens visuais impactantes. O regresso ao início é especialmente vibrante – o conto não procura um final feliz, a vida não funciona como nos filmes da Disney onde as personagens se casam e vivem felizes para sempre. Este conto é precisamente o contrário: mostra a realidade depois do casamento e a forma como uma doença pode moldar o nosso destino.

  7. Elisa Ribeiro
    17 de novembro de 2020

    A história do amor de João que resiste à loucura de sua esposa Sofia.
    Um conto cujo estilo e temática me remeteu ao século XIX e que caberia perfeitamente em um romance ou uma novela. O enredo é um drama romântico, a narrativa é linear, o narrador onisciente neutro a princípio, quando acompanha a juventude do casal, depois se aproxima de João, o protagonista da trama. O personagem João cativa o leitor por sua integridade, humanidade e amor incondicional pela mulher. O resultado é um conto sóbrio, redondo, bem acabado e de leitura muito agradável.
    A loucura é mostrada pelos olhos de um homem são, o marido, e o autor/narrador se vale de um “truque” para não descrever-lhe os sintomas. Convoca a imaginação/conhecimento do leitor ao narrar que Sofia “agia de fato como o típico estereótipo de uma louca”. Adorei isso. Pena não ter tido a mesma ideia no meu conto.
    Não encontrei nenhuma falha na revisão, apenas o uso pouco comum de algumas palavras causando alguma estranheza, o que não é demérito, muito pelo contrário.
    O que não gostei: só porque me impus esse item como compromisso nos comentários, a voz do narrador em “Neste ponto, é preciso esclarecer algo sobre João” meu soou como um solavanco durante a leitura. Fiquei procurando o motivo de o autor ter optado por essa intrusão, mas não encontrei nenhum efeito porventura pretendido que a justificasse.
    O que gostei: o uso do tempo presente em “João lembra com precisão de um grito agudo no hospital horas antes do médico chegar com a notícia”, momento em que a morte de Sofia é narrada. Achei de uma sutileza notável essa forma de enfatizar o impacto da morte da esposa na vida do marido.
    Parabéns pelo ótimo conto que agradou em cheio a parte de mim que ama e sempre retorna aos clássicos.
    Desejo sorte no desafio. Um abraço.

  8. Leda Spenassatto
    15 de novembro de 2020

    Resumo :
    Um casal, quase perfeito, envolvidos pelo fé, religião, amor e esquizofrenia.

    Comentário:
    João e Sofia, que amor lindo, um casamento quase perfeito, não fosse a esquizofrenia se intromete entre eles.
    Adorei o João ele se propôs ao que prometeu a sua amada no altar.
    Mesmo sem o apoio dos familiares, fez a vontade de Sofia, largou seu trabalho, sua carreira para acompar a esposa em seus últimos dias.
    Um conto lindo e gostoso pra caramba.

    “Quando foi que minha Sofia morreu? E eu nem vi…”
    Quantas vezes somos protagonista da vida de alguém e nem percebemos que esse alguém tem a vida em retroação.

    Te desejo sucesso de montão!

  9. Giselle F. Bohn
    13 de novembro de 2020

    Homem perde a esposa para a loucura.
    Este conto é difícil de comentar. Por um lado, é belíssimo – uma boa trama, personagens bem construídos, escrita primorosa. Não há muito o que criticar nesse aspecto. Você escrever muitíssimo bem e fez um trabalho lindo.
    Mas então, o que me incomodou? Pois é, não sei se vou me fazer entender, mas vou tentar. Uma das coisas foi essa colocação do narrador:
    “Neste ponto, é preciso esclarecer algo sobre João: apesar de um homem outrora feliz e sensível, não era muito AFEITO (um errinho de digitação aqui) às lágrimas. Mal saberia dizer quantas vezes e qual a última em que chorou.” Já comentei em outro conto – não me lembro qual -, que sinto uma “quebra de acordo” quando o narrador ganha voz, é quase como uma trapaça para mim. Mas não se deixe levar por esta leitora aqui – isso é um problema meu apenas. Há livros belíssimos onde isso acontece, e ninguém liga. 🙂
    Outra coisa que acho que fez o conto perder em dramaticidade foi este parágrafo:
    “⎯ Vamos embora, Jó!
    Ele ficou mudo.
    ⎯ Meu amor, meu Jó, vamos embora, por favor!
    ⎯ Tudo bem, tudo bem. Vamos para onde você quiser, meu amor.
    No início dos problemas, as famílias de ambos tentaram ajudar. Aos poucos, se distanciaram. João não pensou duas vezes e, em três dias, se mudou para uma cidade distante, mais fria, uma casa de campo. Deixaram para trás os familiares, os amigos, a paróquia, e o último espectro da vida que há décadas haviam construído.”
    O parágrafo que segue o diálogo foi totalmente anticlimático. Além disso, com este diálogo criou-se uma expectiva imensa, ao menos para mim: agora a história vai tomar outro rumo. Não aconteceu.
    Finalmente, a maneira como a morte de Sofia é descrita foi também, para mim, problemática: “João lembra com precisão de um grito agudo no hospital horas antes do médico chegar com a notícia. Ele lembra vagamente do diagnóstico. A notícia da morte em nada o atingiu.”. Diagnóstico? De algum transtorno mental, como esquizofrenia? Isso não mata a pessoa, então por que a morte súbita? Ela se matou? Talvez tenha me escapado algum detalhe aqui (não duvido; isso acontece sempre comigo!), mas não entendi essa parte. Já peço desculpas se foi falha minha.
    O final é belíssimo, e a interposição da história de Jó foi uma ideia brilhante. Gostei demais disso. No geral é um conto lindo, que nos segura do início ao fim, um dos melhores deste desafio! Parabéns pelo trabalho e boa sorte!

  10. Anna
    12 de novembro de 2020

    Resumo : Uma linda história de amor é ameaçada quando a esposa é diagnosticada com esquizofrenia tardia mas o marido permanece ao seu lado.
    Comentário : Achei lindo o amor que o marido sente pela esposa. O conto nos faz acreditar no romantismo. O amor fez o marido se mesclar com a loucura da esposa, fez ele se tornar o porto seguro em crises, fez ele se tornar tudo que sua mente maltratada pela doença necessitasse. Imagino como esse homem deve ter desejado momentos breves de lucidez para dizer “eu te amo” e ser compreendido. A esposa morre e o marido a continua buscando, tentando reviver memórias.

  11. Victor Belini Polo
    11 de novembro de 2020

    No meu outro comentário aqui falei que o escritor do conto possuí um talento nato como escritor, mas nato não seria a palavra certa por significar de nascença. Acho que brilhante seria melhor, sem querer puxar o saco.

  12. Victor Belini Polo
    11 de novembro de 2020

    Gostei muito do conto. João foi um exemplo de marido resignado, e que colocou em prática o verdadeiro amor que é sólido diante das difículdades, esse é o verdadeiro amor, o amor incondicional, semelhante ao Amor de Cristo por sua amada esposa, sua igreja, na qual ele amou até o fim, de maneira incondicional. O conto foi muito bem escrito, pensado e trabalhado. Que imaginação fértil, que conhecimento da natureza humana, quanto romantismo, quanta doçura envolta nas cinzas da triste realidade. Um conto doce e amargo ao mesmo tempo. O escritor é um escritor nato.

  13. Lara
    10 de novembro de 2020

    Resumo : João e Sofia vivem uma linda história de amor que culmina em casamento. Após muitos anos de casados Sofia é diagnosticada com esquizofrenia mas o marido permanece com ela até a morte da mesma.
    Comentário : O conto tem relação com a história de Jó porque o esposo perde a coisa mais valiosa em sua vida, a esposa amorosa e o lindo relacionamento que possuía. Gostei do conto apesar de ser triste. Achei lindo o marido ter sido o que ela precisava até o fim.

  14. Angelo Rodrigues
    10 de novembro de 2020

    Resumo:
    Menino e menina, João e Sofia, atravessam o tempo com seu amor imaculado. Sofia adoece. João suporta, mantém-se fiel. A mulher acaba falecendo. Ele revive, na igreja que sempre os acolheu, seus dias de juventude.

    Comentário:
    Conto que sobrescreve, até onde pude ver, a história de Jó na terra e no céu. Achei curioso porque, ao contrário do que ocorre a Jó

    “Ah, se pudessem pesar a minha tribulação e depositar na balança junto à minha calamidade!” (Jó 6:2 – King James)

    Bem, a calamidade de João-Jó recaiu sobre a esposa, e não sobre ele, cabendo-lhe, sim, é verdade, lamentar a solidão e a perda de Sofia, que amava.
    Mas não tenho profundidade para seguir adiante, infelizmente.

    Passou-me, isso sim, um fio de sentimento acerca do que ocorreu com a esposa, quando, diante da tevê vendo comerciais de fraldas, ela entra em parafuso. Jó e esposa tiveram sete filhos, eles, o nosso protagonista e sua esposa, não tiveram nenhum.

    Bem, foi isso que senti, o que justificou essa desconexão de Sofia com o mundo. A sua frustração de não poder, diante de tanto amor, não fazer da vida o seu palco de infância e juventude, não constituindo verdadeiramente a família ideal que representou no palco por anos.

    Foi isso que senti quando procurei elucidar o que houve com os rumos da história. Acho importante compreender o que há de subliminar na história, a mensagem que o autor desejou passar ao leitor.

    O conto está bem escrito. Não há dificuldade alguma na leitura, e tem um final bem legal.

    Boa sorte no desafio.

  15. Thiago de Castro
    10 de novembro de 2020

    Resumo: Conto sobre amor conjugal erodido pela esquizofrenia da esposa.
    Comentário: Caro Horácio, seu conto utilizou muito bem a simbologia bíblica para construir a trajetória de um casal em constante tentação. Toda a apresentação dos personagens, desde o início ingênuo e todo o caminho promissor e imaculado até o casamento constroem uma ideia de perfeição que compreendemos, já pelo título e tema do desafio, que irá ruir. A queda é grande, mas você a fez sem exageros, até porque ela acontece ao longo dos anos, ao poucos, e vemos os personagens se distanciando até o ponto de não se reconhecerem mais.
    Quando Sofia morre, fui pego de surpresa, pois estava no meio do parágrafo e, de repente, ela faleceu. Achei esquisito e muito súbito, mas você conseguiu, através da escrita, passar a sensação que o próprio marido teve com a morte da esposa: ela já havia perecido há muito, ali foi apenas o findar físico, burocrático.
    O final é comovente e dialoga com o início do conto, cuja tentação de Jó e o apelo da esposa para amaldiçoar esse Deus é visto como loucura. João termina amargurado e confuso. Valeu a pena suportar?
    Ótimo conto!
    Boa sorte no desafio.

  16. Bianca Cidreira Cammarota
    10 de novembro de 2020

    Casal harmônico no início de seu relacionamento se vê acometido pela insanidade da esposa ao longo dos anos de matrimônio, terminando no triste falecimento desta.
    Horácio, seu texto é redondo, linear e seguro. A ordem cronológica dos fatos (o desenvolvimento da insanidade de Sofia) fornece os parâmetros da decadência do matrimônio em si, mas não do amor de João. O paralelo com a história de Jó, que perdeu tudo (bens, amigos, família e saúde), menos a vida, como prova de fé do ser humano no divino, é interessante. Talvez, por isso, você tenha construído um casal perfeito no começo da história. Comparativamente, podemos refletir que, no universo antigo grego, uma vida humana tão perfeita era invejada pelos deuses e, frequentemente, destruída por esses. Ou seja: a “perfeição” é incompatível com os mortais.
    Mas deixemos de filosofar…rs
    O texto é bom. Na minha percepção, senti falta de uma identificação maior com as personagens, talvez pela o estilo mais exterior da narração. Contudo, ressalto que essa afirmação é fruto de sensação muito subjetiva minha.
    Parabéns por produzir um conto bom!! Boa sorte no desafio

  17. Anderson Do Prado Silva
    9 de novembro de 2020

    Resumo:

    Casamento se corrói depois que a esposa enlouquece.

    Comentário:

    Conto escrito com bastante competência! O domínio da língua e da narração são bons! A divisão de capítulos e os diálogos (ainda que poucos) contribuíram para dar fluidez. A epígrafe e o epílogo ficaram ótimos! O título é bastante sugestivo! Achei o desfecho excelente!

    Na minha opinião, o uso da língua foi conservador, prevalecendo o uso denotativo da palavra. Alguns trechos, com parágrafos longos e desprovidos de diálogos, são pouco dinâmicos. Em alguns momentos, deparei-me com o que me soaram como lugares comuns literários. A relação do casal, perfeita demais no início do conto, pareceu-me inverossímil. Não gostei das intromissões do narrador.

    Parabéns pelo conto, do qual gostei, e boa sorte no desafio!

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Informação

Publicado em 8 de novembro de 2020 por em Loucura.