EntreContos

Detox Literário.

Gelato (Mila)

Para seguir em frente, é preciso pisar caminhos. Para quem segue, o pé pesa. Para o chão pisado, pesa também.

– Eles são todos assim.

Eles quem? Os homens? Os maridos? Os pais? De observar, concluí: talvez.

No bairro, haviam outros como ele: ausentes. Eram homens, maridos e pais a vagar pelas ruas e encontrar abrigo nos bares. Tinham línguas próprias, pupilas dilatadas e olhos distantes. De copos sempre a meio, dormiam ao relento ou bamboleavam até suas casas.

Mas, depois de muito considerar, revi: não. Papai não era como eles. Não deixava a casa. Não bebia pinga. Suas ausências eram de outra natureza. As pupilas, ainda as mesmas, viam mais longe ou mais dentro apenas.

– Eles quem, mãe? Quem é assim como papai?

– Seu tio e avô…

Estávamos à porta da cozinha. Adiante, o quintal de terra, papai dobrado sobre si e o Sarapuí, rio preto ocupado de tingir a Guanabara.

A distâncias curtas, a terra é sempre plana. Menina de treze, o Sarapuí era então apenas o valão. Conhecia-o como coisa sem nome. De patronímico, fomos apresentados depois. A Guanabara, seu berço, também não compunha o vocabulário.

Morávamos em Belford Roxo, terra de minha infância, que é uma forma de não mentir sem, no entanto, dizer a verdade. É que terra minha, minha mesmo, nem o terreno em que o barraco assentava. A Pasteur, rua de casa, tinha sido antes a Beira-Rio, mas tinha perdido ambos: a beira e o rio. 

O rio se foi primeiro, afogado de dejetos. Assim que o povo pobre, no aproveitamento de espaços, se apercebeu do abandono a insinuar facilidades, foi-se a beira em processo concomitante. Espremidos entre a rua e o rio, dezenas de barracos foram construídos. Em um deles, com portão de tábua pintada de azul, se dobrava papai.

– Por que o pai faz isso?

– Ele não faz.

Papai não se ocupava de fazeres, mas os fazeres ocupavam papai. Empregado, era como qualquer outro: braçal. Acordava cedo e voltava tarde. Durante o labor, capinava, roçava, limpava, auxiliava pintar, servia pedreiros, carregava cargas, tudo de acordo com as funções da vez. Desempregado, cedia às ausências. Não sabia se ocupar, mas aceitava bem que lhe ocupassem.

Mamãe era seu oposto. Nosso barraco, dos mais pobres, era também dos mais cuidados. O quintal em que papai se encolhia não conhecia mato. Tomada de empréstimo dos vizinhos, a enxada, bramida por mamãe, revirava terra e minhocas. Equilibrando-se na margem, desafiava o valão, entregando-lhe de volta o lixo que trazia. Altiva e ativa, cuidava da casa, de nós três e de papai.

– Quim, o Bento tá precisando de alguém pra transportar caixa na feira.

Papai sempre aceitava os empregos que acudiam. Amanhecia e anoitecia no trabalho. Em casa, chegava apagado. Não que estivesse muito aceso antes. Restolho de fogueira, até queimava, mas não dava lume. Adorado pelos patrões, nunca perdeu trabalho algum por incompetência.

– É a crise, Joaquim… a crise…

– Entendo.

Apesar do susto inicial, os primeiros dias de desemprego, nutridos a saldo de salário, eram de festa. Antecipando privações ou gozando abundâncias, papai visitava o mercado e chegava em casa de carona na Kombi da entrega.

– Pra que isso tudo, Quim? – mamãe se exaltava.

Por algum tempo, gozávamos farturas, mas, na primeira semana, acabavam os biscoitos; na segunda, legumes e verduras; na terceira, não tínhamos mais carne; a partir da quarta, mamãe se virava no fogão com arroz, feijão e farinha. Nas semanas seguintes, não precisávamos mais da geladeira ligada e, na mesma razão das prateleiras, papai se esvaziava.

– Pega mais, Quim. – mamãe insistia durante as refeições.

– Não, obrigado.

– E você, quer mais, Mila?

– Não, mãe, obrigada.

As pequenas aceitavam mais uma porção. Há alguns anos, eu teria feito o mesmo. De boca cheia e lambuzada, aceitaria as colheres estendidas: as primeiras vindas da panela grande; as segundas, do prato de papai.

– Não faz isso, Quim. – mamãe intervinha, tentando impedir que papai deixasse de comer; mas era ignorada.

Crescida, percebi que os excessos da infância se alimentavam das muitas faltas dos adultos, e passei a me contentar com a primeira porção. Enquanto as menores avançavam vorazes, entornando na mesa e nos colos, aprendi a comer adiado. Apenas quando todos terminavam, papai se voltava para o próprio prato, quando nele ainda havia o que comer. Certo dia, enquanto as menores se levantavam e iam correr, o mistério se intensificou:

– Vou comer mais um pouco.

Papai se apropriou do tacho, cruzou o quintal e, em frente ao rio, se dobrou. Acomodou a panela entre joelhos e peito, e raspou grossas cascas queimadas. Quando o movimento cessou, mamãe se aproximou:

– Quim, terminou? Posso lavar a panela?

– Ainda estou comendo.

Ele não se virou, não se moveu. Nem sob sol, nem quando choveu. Nos dias seguintes, tornou a se dobrar. Fosse o que fosse, ele permanecia ali encolhido, entrando apenas para dormir. Ousei perguntar:

– Mãe, o pai é louco?

Não era o primeiro encolher, mas era o mais persistente. Da porta da cozinha, eu me admirava daquela entrega, daquela ausência. Não sei se foi a pergunta que fiz, mas logo depois mamãe se pintou e se apertou em roupas que mal lhe cabiam; deixando a casa a seguir.

– Cuide de suas irmãs. – e, como fosse se esquecendo, emendou – E de seu pai.

Essa culpa passei a ter: depois de dobrado, o pai passou a ser meu. Não mais o marido dela, nem o Joaquim, nem o amado Quim, mas meu pai.

Fiquei ao portão observando. No colo, eu tinha a menorzinha; de pé, à altura do peito e segura pelo ombro, a do meio. Mamãe caminhou até o limite da rua e dobrou em direção à estação de trem. Quando voltou, à hora da janta, trazia sacolas cheias de algumas das ausências de papai: juntas, fervemos as águas e aquecemos os óleos, preparando, a destempo, refeição digna.

– Chame seu pai.

Mamãe era imperativa. Mesmo a medo, cruzei o quintal. Ao fundo, papai ainda dobrado e, nos braços, tacho vazio e colher abandonada.

– Pai…

Não atendeu. Eu, filha, apesar de tudo, repeti:

– Pai…

Mas não foi com insistências que o venci. Não foi a mim que veio, mas a ela:

– A comida, pai. Está pronta.

 

***

 

A primeira a partir foi Aline, a menorzinha.

– Vai levar a Line pro trabalho, mãe?

– Vou.

Sem maior importância, acompanhei as duas até o portão. Distraída, Aline, sem saber que partia, não olhou para trás. Tampouco eu ou a do meio olhamos por muito tempo para frente: apenas mais um dia de trabalho. Sem a companheira de brinquedos, a do meio entristeceu.

Havia semanas que mamãe decidira trabalhar à noite, enquanto, de mergulho em mergulho, papai se alternava entre dois fundos: só entrava em casa para dormir. Poupada da algazarra da menorzinha, estendi os colchões para deitarmos mais cedo.

O sol já se insinuava quando mamãe chegou, trazendo, a reboque, pães quentes da primeira fornada da padaria e alguns mantimentos. Depois de acomodar tudo nas prateleiras, entregou um dinheiro trocado e a ordem:

– Quando sair da escola, passa no açougue e traz um quilo de moído de segunda. – e esclareceu – Vou deitar um pouco.

– Cadê a Line, mãe? – atrevi perguntar.

Mamãe não fazia inflexões. Afirmava, exclamava, interrogava e ordenava no mesmo tom. Mulata alta e magra, era mais de cara do que de voz e, de costas, era indevassável.

– A Aline está bem.

Fernanda, a do meio, não demorou a partir e, quando o fez, não foi em silêncio: ainda não tinha esquecido o sumiço da menorzinha. Chorou, gritou e correu aos fundos.

– Pai!… Pai!…

Ao se jogar, acabou derrubando-o. Mudo, papai correu a tempo de salvar o tacho do caldo do valão. Permaneceu no ponto em que alcançou o vasilhame, ainda dobrado sobre si. A partida de Nanda, arrastada ao som de choro incontido, relegou-me o pai e a vez de partir.

Nas noites de céu limpo, da porta e janela da cozinha, via sua sombra escura encolhida onde o terreno começava a descer em direção ao rio. Sozinha com papai pela casa, o coração ribombava contra o travesseiro e alimentava noites insones. Secretamente, passei a ansiar a partida.

– Te arranjei um trabalho com um senhor muito bom.

Mamãe me deu o dinheiro da ida e, anotado no verso de um cupom fiscal, meu destino: Carlos – Av. Cel. Moreira César, 173, apto. 601, Icaraí, Niterói.

Já tinha quatorze anos quando pisei a Pasteur, antiga Beira-Rio, pela última vez. Não me despedi de papai, mas ainda guardo na memória suas costas curvadas desenhadas contra a paisagem dos fundos da casa.

Virei na mesma esquina em que, todas as noites, mamãe dobrava. Margeei o muro encardido da linha de trem até a Estação Coelho da Rocha, enquanto rememorava o trajeto que me fora ditado. 

Gosto de supor que, depois que parti, mamãe chorou. Ela era fortaleza, mas ainda era mãe. A menorzinha estava bem, ela tinha dito. Certamente havia cuidado para que a do meio também estivesse. Agora, era minha vez.

Ao se aproximar do Centro, a linha de trem foi se unindo a outras. Postes, cabos, trilhos, veículos e gente se multiplicavam e entonteciam. Encantada, não sabia para onde olhar. No peito, o coração repetia os pulos das últimas noites insones na companhia de papai.

Quando cheguei a Central do Brasil, eram doze as linhas de trem. Ao pedir informações, meus quatorze anos causavam estranhamento, mas não mais do que as dezenas de crianças dormindo sob marquises, esmolando dinheiro, vendendo balas, lavando vidros, guardando automóveis e fazendo malabarismo nos sinais de trânsito.

Avançando sobre a Guanabara, a Ponte Rio-Niterói me pôs as tripas em revolução. A viagem até Icaraí, curta demais para um tão emocionante primeiro passeio de táxi, acabou em uma rua estreita e arborizada, ladeada de prédios residenciais e repleta de agências bancárias, restaurantes e boutiques nos andares térreos.

No apartamento 601, uma tal de Marly atendeu à porta:

– Carlos, a menina chegou!

Dona Marly era uma velha alta e gorda. Seu Carlos, também alto, mas menos gordo e parecendo menos velho, se aproximou por trás da esposa e mediu meus anos poucos e hígidos.

– Entra, menina! – dona Marly convidou.

Fui alojada em um quartinho de fundos, depois da cozinha e da área de serviço.

– Acomode-se. Amanhã você começa.

No dia seguinte, dona Marly me passou o serviço. O apartamento era grande, mas organizado e limpo. Como dona Marly e seu Carlos não dormiam na mesma cama, os quartos da frente davam um pouco de trabalho, mas o dos fundos permanecia sempre vazio. Ainda assim, pelo menos duas vezes por semana, precisava ser limpo.

– Sabe como é, né, Camila, a gente nunca sabe quando vai chegar uma visita.

– Sim senhora, dona Marly.

– Sim senhora, dona Marly… Sim senhora, dona Marly… Só sabe dizer isso?… Você estuda?

– Sim.

– Está em que ano?

– Nono.

– Nono?! Do fundamental?! Qual sua idade?!

– Quatorze.

– Quatorze?! Com esse tamanhão?!… E você, Carlos, não tem vergonha, não?! Ouviu?! Ela só tem quatorze anos!

– Você não me pediu uma menina nova? Taí!

– Carlos, pelo amor de deus, nova no sentido de outra, não no sentido de trazer uma criança pra casa! Vamos ter que matricular ela na escola! Espero que tenha pegado procuração!

– Vou ver isso.

– Se essa menina abre o bico, estamos ferrados!

Seu Carlos não dormia em casa nas sextas-feiras. Sábado, quando voltava, sempre trazia presentes de mamãe: caixinha de joias, kit de maquiagem, esmaltes, pentes de cabelo e, em um desses finais de semana, voltou com meu histórico escolar e a procuração.

– A escola aqui do bairro é muito boa! – afiançou dona Marly, ao mesmo tempo em que recolhia o mais recente presente de mamãe – Pode deixar que me livro disso… Ela tem tudo aqui em casa, Carlos, não precisa ficar trazendo essas coisas, já falei!

Seguia obedecendo dona Marly, enquanto seu Carlos me evitava. À medida em que eu envelhecia e encorpava ainda mais, menos ele me olhava. Além disso, dona Marly parecia me manter sob constante escrutínio. Apesar do relacionamento amistoso, não costumavam permanecer muito tempo no mesmo cômodo. Desses encontros fortuitos, chegavam-me excertos de conversas:

– Pra essas sem-vergonhices, você já tem as sextas-feiras!

– Não busco nada que você mesma não pudesse oferecer.

– Me poupe! Eu nunca lhe bastei! Nem hoje nem nunca! E, quer saber?!, pra mim, tanto faz, contanto que mantenha isso bem longe!

– Na Baixada está bom pra você?

– Vá à merda, Carlos!

 

***

 

Dona Marly me matriculou em uma escola pública do bairro, bem diferente da que tinha conhecido em Belford Roxo. Depois que concluí o fundamental, com um ano de atraso, troquei de colégio e precisei novamente da procuração para realizar a matrícula e as renovações no ensino médio.

– Vai fazer faculdade?

– Como, dona Marly?! A senhora tem cada uma! E doméstica faz faculdade?!

– A minha faz!… Do que você gosta?

– Ah, não sei… De ensinar, talvez.

– Ensinar o quê? Matemática, português… Te vejo sempre metida com minhas Seleções!… E não pense que não sei de suas visitas à biblioteca do Carlos…

– Pelo amor de deus, dona Marly!

– Acalme-se, seu segredo está bem guardado!… Por que não faz faculdade de letras?

Nos anos seguintes, já não precisei da velha procuração para me matricular na faculdade. Ainda assim, foram os nomes de dona Marly e seu Carlos que figuraram como fiadores no contrato que firmei com a instituição.

Criada entre silêncios, aprendi a cultivar palavras mudas, que vazam assim, à medida que chegam, desordenadas até. E hoje vertem motivadas pela reunião com os pais do menino Allan.

– Meu marido trabalha, professora Camila…

– Entendo, mas, quando for assim, vem só a senhora.

– Não sabia…

– Sem problema. Bem, é o seguinte…

Nos dias anteriores, primeiros do ano letivo, o menino Allan, durante o horário do lanche, não interagia com as demais crianças. Comia calado e, lancheira vazia, encolhia-se num canto ou onde se sentisse mais confortável.

– Ele tem TEA, professora.

– TEA… – não era uma pergunta, tampouco uma afirmação; apenas vasculhava a memória: “Transtorno do Espectro…”.

– Ele é autista. Nós descobrimos não tem nem um ano.

Lembrei de papai, há década e meia soterrado na memória. Silencioso e calado; fazendo muito bem o pouco e o simples que lhe era ensinado; e, no resto do tempo, esquisito e inalcançável. Recordei da pergunta sem resposta:

– Mãe, o pai é louco?

Será que mamãe ao menos cogitou que talvez ele fosse apenas autista? Não, não cogitou. Naqueles rincões, como cogitaria? Mas intuía. Sim, intuía.

– Por que o pai faz isso?

– Ele não faz.

Não fazia. Era. Era simplesmente. Era do único jeito que sabia ser. Sua loucura talvez fosse apenas incompreensão, fruto das oportunidades que nunca tivera: pais atenciosos e estado presente.

Nesses anos todos, devia ter visitado meus pais, mas havia dona Marly e seu Carlos. O que pensariam? Se sentiriam traídos? Por quê, se haviam sido apenas meus patrões? Apenas?

E havia ainda tudo o que eu não era mais: a Mila da Rua Pasteur, Belford Roxo, Baixada Fluminense. A mesma pessoa, mas diferente.

 

***

 

– Camila, posso entrar?

Era a primeira vez que dona Marly batia na porta do quartinho de empregada. Escondi a Seleções.

– Pode.

Antes de falar, dona Marly passou em revista, com olhos ágeis, o cômodo.

– Vai ficar o domingo inteiro enfurnada aqui? – na falta de uma resposta que pudesse agradar, ignorei a pausa que se seguiu à pergunta – Nós vamos à praia… Quer ir com a gente?… Você tem um biquíni?

– Não.

– A gente compra no caminho… Vamos! – já com a porta a meio curso, emendou pergunta – Você viu a Seleções desse mês? – sorriu e encostou a porta sem esperar resposta.

Morava então há sete meses com dona Marly. Na companhia dela e de seu Carlos, tinha acabado de comemorar meus quinze anos com bolo, vela e parabéns a três. Da chegada precipitada e assustada de táxi, não lembrava mais de ter visto a praia. Saímos a pé e, quando dobramos a esquina, escoltado por prédios, o horizonte se abriu. No fim da rua, distante uma quadra, estava a Praia de Icaraí.

No caminho, paramos numa loja de biquinis, onde, horrorizada, assisti à dona Marly pagar por dois pedacinhos de pano a terça parte do meu salário.

– Depois pago a senhora.

– Não se preocupe, é presente.

Quando chegamos, o marulhar me assustou: shuarrr, shuarrr, shuarrr, mas, à medida que me aproximava, a metrópole e seus próprios sons desapareciam, sobrando apenas o mar.

– Camila, tome cuidado! – dona Marly ainda gritou enquanto se acomodava na areia ao lado de seu Carlos.

Temerosa, hesitei, mas as águas quentes logo se revelaram irresistíveis. Quando dei por mim, estava metida além do peito e seu Carlos gesticulava desesperado ao lado de uma bandeirinha vermelha. Tentei voltar, mas o mar puxava mais e mais. Descoordenada, braceei em todas as direções. Seu Carlos já estava com água à altura da barriga mole quando, finalmente, me senti sendo jogada de volta à areia pela corrente contrária.

Dona Marly gritava ensandecida, enquanto seu Carlos fazia parecer que me guiava, mas, trêmulo, escorava o peso no meu ombro. Assim que saímos da água, tombou na areia e dona Marly se achegou.

– Você está bem?

– Estou. Foi só o susto. Só o susto. Me deixe respirar. – mais calmo, voltou-se para mim – Não faz mais isso, ouviu?! Não faz mais isso!

Na volta da praia ao fim da tarde, paramos em uma sorveteria.

– Gelateria! – corrigiu dona Marly.

– O quê?

– É gelateria que chama! É a mesma coisa, mas diferente. 

– Ah…

– Gostou?

– Se gostei?! Amei! Obrigada!

24 comentários em “Gelato (Mila)

  1. Priscila Pereira
    25 de novembro de 2020

    Resumo: Mila descobre que o pai pode ser autista. Foi “adotada” por um casal estranho que acabou ajudando a ser professora.

    Olá, Mila!
    Seu conto é muito bom! Escrito de maneira deliciosa uma história triste. A mãe que tem que se desfazer das filhas para dar um futuro melhor a elas, o pai, possivelmente autista, tratado como louco, a fome, o trabalho, tudo triste, mas narrado de forma quase poética. Não é linear, o que é bem interessante. Temos um recorte de como Mila se transforma na professora Camila, mostrando que sempre há esperança, mesmo nas situações mais Improváveis.
    Ótimo conto! Parabéns e boa sorte!
    Até mais!

  2. Leda Spenassatto
    25 de novembro de 2020

    Resumo:
    Camila, uma menina de apenas quatorze anos foi trabalhar em uma casa de família, cujo casal dormiam em quartos separados.

    Comentário:
    Um conto muito bom , uma narrativa coerrente e alinhada com princípio meio e fim.
    Eu posso estar enganada, mas a presença da loucura que você quis passar para nos leitores, não está só nas questões sociais, na miséria e no descaso com a favelização, né?
    Eu senti nas entrelinhas que a Camila , além de doméstica, também, poderia ter sido mais um caso do patrão.
    Gostei muito do Gelato, é fascinante a maneira que a Mila dá luz aos problemas das famílias marginalizadas , da falta que a junção das letras faz para atentar com o autismo , em particular.
    Ufa! Ganhei a noite lendo o seu conto.
    Parabéns,!
    De montão, te desejo muita sorte!

  3. Elisa Ribeiro
    24 de novembro de 2020

    A história de Mila, seu pai, um provável autista, e sua “adoção” por uma família mais abastada.

    Achei o conto muito bom. O argumento que focaliza enviezadamente questões geracionais e sociais associadas ao enfrentamento da “loucura” foi uma surpresa. Muito inteligente, me pareceu.

    Gostei muito do começo do conto e algumas descrições como a da expansão da favela na beira do rio me empolgaram. A maneira sutil como o amadurecimento de Mila é mostrado, idem.

    A linguagem também me agradou muito. A sintaxe algo truncada, econômica no uso de artigos e conectivos, e escolhas lexicais pouco comuns foram ingredientes que contribuíram para reter minha atenção além de darem um ritmo interessante à leitura. A estratégia narrativa também fez soar, ao menos à minha leitura, verossímil o relato da narradora personagem que a meio do conto sabemos ter se formado em Letras.

    As questões sociais também me pareceram muito bem colocadas no texto, embora possa render comentários quanto a aspectos relacionados ao que seria politicamente correto, uma vez que o texto dá a entender que a “adoção” de Mila foi um evento muito positivo em sua vida.

    Por fim, o fecho que você deu ao conto, reforçando a vida feliz que Mila teve em sua nova morada, achei simplesmente genial, tanto por sair do óbvio final feliz optando pelo meio feliz, como por reafirmar ideias controversas que o texto propõe.

    O que gostei: de tudo
    O que não gostei: de não ter sido eu a autora do texto.

    Parabéns pelo excelente trabalho. Desejo sorte no desafio. Um abraço.

  4. Marco Aurélio Saraiva
    23 de novembro de 2020

    Resumo: Mila é filha de pai possivelmente autista, cuja mãe, pensando no melhor para suas filhas, deixou-a com um casal em Icaraí com o qual passou a viver. Muito tempo depois foi entender a condição do pai.

    A melancolia do conto foi muito bem trabalhada. O leitor acompanha a história de Mila com a espécie de neutralidade que ela parece expressar – como se não ligasse muito para coisas sobre as quais não tem controle. Mila é menina muito forte e adaptativa. Cresceu mesmo sob condições difíceis, formou-se e conseguiu depois de algum tempo andar com as próprias pernas. O conto, visto pelos olhos dela, foi muito bem trabalhado.
    A loucura abordada no conto é interessante por não se tratar extamente de loucura – ou, ainda melhor: o conto pergunta ao leitor se é possível definir loucura. Era o pai de Mila louco? Era austista, com a ausência de atenção correta? Por ser daquela forma, afetou toda a família e os rumos de Mila e suas irmãs foram traçados longe de seus pais. É um conto que não só traz uma boa leitura como também traz boas questões para reflexão.

    A sequêcia final, apesar de bonita, pareceu-me fora de lugar. Para mim o conto teria sido melhor fechado caso terminasse com a sua epifania: a de que o pai era possivelmente a vitima da negligência dos pais, e que poderia ser um autista inserido na sociedade de forma muito melhor caso tivesse a atenção necessária. Quando o conto volta aos quinze anos de Mila, fazendo uma viagem no tempo, e termina com quase afogamento na praia de Icaraí e uma barraca de gelato, o texto acaba ficando solto. Novamente: é um trecho bonito, mas julgo desnecessário. Na verdade, o título pouco diz sobre a obra e não adiciona muita coisa. A barraca de gelato nem é importante.

    NOTA: não sei se alguém toma banho na praia de Icaraí hoje em dia… rs rs rs.

  5. Paula Giannini
    22 de novembro de 2020

    Olá, Contista,
    Tudo bem?
    Resumo – A vida de uma brasileira, como tantas outras, em sua sina de miséria e superação.
    Minhas impressões:
    O conto parte de uma premissa real e triste de nossa sociedade. A miséria levando muitos pais a “dar” seus filhos para que famílias “as criem”. Em tais famílias, não raro, ou melhor, quase via de regra, estas crianças são tratadas com empregadas domésticas, como se este fosse o único lugar que a elas coubesse neste mundo. Interessante notar, entretanto, o olhar que o(a) autor(a), ainda que tratando de um tema tão duro, opta por lançar sobre o destino de sua protagonista. Um enfoque cheio de esperança, quase utópico. Aqui, a “patroa” é também amiga e ajuda a menina colocando-a rumo ao caminho dos estudos, da superação, e até do direito ao amor. Assim, o gelato como símbolo, é um título perfeito para o conto. Cena final da narrativa, o sorvete funciona como ícone daquilo que deveria ser direito de todos, de toda criança ao menos: a dignidade, a alegria em desfrutar pequenas coisas, momentos de felicidade na vida.
    Dividindo a narrativa em duas partes, a primeira mostrando a origem da personagem com seu pai e família, e a segunda, na casa da “patroa”, o(a) escritor(a) consegue ilustrar universos quase opostos entre si, tendo como fio condutor a personagem protagonista que, ainda que longe de suas mazelas de infância, não será jamais capaz de se dissociar delas.
    Outro ponto a se notar é a sutileza da crítica ao tratamento dado em outros tempos (e ainda hoje, dependendo do contexto) aos pertencentes ao espectro do autismo. Uma crítica séria e pertinente, ao tratamento do transtorno como “loucura”.
    Um lindo trabalho.
    Como digo a todos, se minhas impressões destoam de seu trabalho, desconsidere-as. Aqui estamos todos para aprender.
    Beijos e sucesso no desafio.
    Paula Giannini

  6. Jorge Santos
    21 de novembro de 2020

    Olá Mila. Achei o seu conto instigante. A forma como manteve o interesse e a linguagem usada denota bastante experiência. O seu conto narra a história de uma família onde o pai sofre de um transtorno psíquico que faz com que a mãe afaste as filhas de casa. Camila narra a sua história, de como foi trabalhar aos 14 anos para casa de desconhecidos que, por mero acaso, a ajudaram a estabilizar a vida.
    A forma elegante como a história é contada esconde a moral que em outros contos deste desafio é quase que atirada aos olhos do leitor: as pessoas fazem a diferença. Camila sai da miséria por uma decisão difícil da mãe e pela sorte de encontrar alguém compreensivo que a ajuda. Muitos não têm essa sorte e enterram-se num ciclo de saída extremamente difícil.

  7. antoniosbatista
    18 de novembro de 2020

    Resumo: A história de uma menina chamada Camila que tem um pai autista e uma mãe guerreira, batalhadora. Eles vivem na pobreza. Para que os filhos não passem fome, ela doa os pequenos e arranja trabalho para a mais velha na casa de um casal.
    Comentário: A primeira parte do conto me fez lembrar de, A Terceira Margem do Rio, de Guimarães Rosa: “ Nosso pai era homem cumpridor, ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam as diversas e sensatas pessoas quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros, conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava com a gente, minha irmã, meu irmão e eu. (…)”
    Gostei do argumento, da escrita, principalmente da primeira parte, antes da menina sair de casa. Tem uma escrita interessante, a lógica e o sentido figurado fazendo uma conexão de perfeita plasticidade: “ Nas semanas seguintes, não precisávamos mais de geladeira ligada e, na mesma razão das prateleiras, papai se esvaziava”.
    Embora resvale pelo tema Loucura, gostei bastante do texto,

  8. angst447
    18 de novembro de 2020

    RESUMO
    Camila vê a família de origem ser desmembrada aos poucos devido à “loucura” do pai. Ela acaba indo morar com um casal, passando a trabalhar como doméstica. Os patrões são bons e a incentivam a estudar. Camila forma-se professora e ao lidar com um caso de TEA, questiona-se sobre o estado mental do pai. Seria ele também um autista?

    AVALIAÇÃO
    O conto desenvolve-se de forma muito envolvente, resvalando em pura poesia. Achei alguns jogos de palavras lindíssimos. O autor sabe conduzir a narrativa sem perder de vista a valorização da forma. Cada frase parece possuir uma alma.
    Notei apenas a questão do verbo HAVER ser empregado no plural. Quando esse verbo é usado no sentido de EXISTIR deve permanecer no singular. Assim, o correto seria: HAVIA outros.
    O desfecho escolhido para o conto me pegou de surpresa. É como se a trama tivesse se desfeito ou “derretido”. Perdeu o potencial poético até então maravilhosamente trabalhado. Mas o conto é lindo.
    Boa sorte e me convida para tomar um gelato.

  9. Leandro Rodrigues dos Santos
    17 de novembro de 2020

    Entendimento das sutis diferenças do mundo, donde uma garota reconhece o autismo do pai, a medida que é instruída.
    Tecnicamente, se interessada, dê uma olhada nas repetições de mas e como, há muitas. E pequenos erros na colocação pronominal (uso de ênclise: infinitivo e oração coordenada). Do mais, segue muito bem escrito.
    É um texto maduro, limpo, em que tudo poderia acontecer, porém deixa a expectativa de lado e não cai em clichês. É um ponto positivo.

  10. Andre Brizola
    16 de novembro de 2020

    Olá, Mila

    Conto sobre Camila, uma das três filhas de uma família pobre, que é entregue a uma outra família para trabalhar como empregada. Nessa nova vida ela tem acesso aos estudos e, depois de adulta, reflete sobre as reais condições de seus pais e sua incapacidade, na época, de enxergá-las.

    Esse é um daqueles contos que tenho uma dificuldade muito grande em comentar. Ele é tecnicamente perfeito, tem ótimo ritmo, tem equilíbrio exato entre a poesia e a praticidade do texto, e atende ao tema do desafio. Acho que os diálogos foram muito bem pensados e convencem pela proximidade com a realidade. Achei que é tudo muito palpável e crível.

    A parte difícil de comentar é com relação ao enredo. Mesmo com o texto tecnicamente perfeito, achei que, sinceramente, faltou algo. Passei o conto esperando um desenrolar mais próximo à loucura. Ou um desenvolvimento mais amplo da “loucura” do pai. Mas acabamos assistindo a um aprofundamento da vida da garota, deixando o pai cada vez mais para trás, sendo resgatado para a história de Camila apenas no final. Pode-se dizer que não importa muito para a história dela se o pai é louco, autista, deficiente físico ou simplesmente folgado. Achei que faltou uma relação mais próxima, mais forte para o conto. Não sei se estou conseguindo me expressar corretamente.

    Novamente, é um bom conto, muito bem escrito, mas sem muita sustância, digamos.

    É isso. Boa sorte no desafio!

  11. opedropaulo
    16 de novembro de 2020

    RESUMO: De uma família pobre, isolada como a primogênita, das filhas a mais consciente de sua situação, Camila só se encontra anos mais tarde, quando é abrigada pelos patrões, para quem trabalha como empregada. Abrigada, não sequestrada. Apesar de trabalhar, é o único espaço em que realmente ascende, crescendo ao ponto de realmente entender aquilo que apenas achava ter compreendido. Seu pai, seu lar, ela mesma.

    COMENTÁRIO: Conto muito bem escrito, delicado ao nos colocar na perspectiva dessa jovem garota enquanto não nos diz exatamente qual estória nos quer contar. A julgar pelo tema do desafio, lê-se o texto pensando como será a abordagem do tema e, por isso, o texto é polissêmico, pois de início não se sabe exatamente como pretende abranger o tema. A princípio, parece mirar nos efeitos da extrema pobreza sobre a sanidade das pessoas, depois se distancia um pouco do tema para mais tarde retomá-lo sobre uma nova visão, que é, na verdade, a partir da “não-loucura”. Quer dizer: chamar de louco aquilo que não se compreende. Essas possibilidades múltiplas enriquecem o texto, dinamizando o tema de uma forma original. A minha única reclamação se dirige ao final, pois me pareceu não corresponder ao que a narrativa vinha construindo. Confesso que eu esperava um reencontro de Camila com a família, mas, mesmo que não fosse isso, pareceu-me um desperdício não ter levado a personagem, dotada do seu novo entendimento ao encontrar o rapaz autista, a alguma outra situação, não necessariamente no tocante à família. Optar pela memória da visita à praia me pareceu optar pela insinuação – ao nos dar um dia despretensioso da vida da personagem – perdendo um pouco da força que o conto poderia ter trazido em seu fim. Ainda assim, é um ótimo texto.

    Boa sorte.

  12. Ana Maria Monteiro
    16 de novembro de 2020

    Olá, Autor.

    Resumo: Camila é uma de três irmãs, nascida numa família pobre em que o pai é autista e a mãe é quem tem de tomar em mãos a tarefa de sustentar a família. Camila, a mais velha, é entregue a um casal da cidade que a toma como empregada, mas lhe dedica grande afeição, permitindo-lhe que estude e venha a ascender socialmente. Já é na condição de professora que se apercebe da real condição do pai e sente algum remorso por nunca ter regressado, mas ela não é mais a mesma que um dia saiu.

    Comentário: parabéns pelo excelente conto. Mila. Camila, apesar da sua infância pobre e triste acaba por ser uma menina de muita sorte, que encontra um casal que quase a adota.
    O conto é muito bom, está muito bem ambientado e os personagens igualmente bem construídos – particularmente a própria, o seu pai e D. Marly.

    Não encontrei deslizes, não tropecei na leitura em momento algum, não precisei de ler duas vezes uma frase para compreender o que pretendia dizer com ela. Ganha o troféu “fluidez” e é um sério candidato a vários outros.

    Você é um contador de histórias, um bom cantador. Além disso, esta é uma boa história.
    A reviravolta dá-se a meio, quando se espera que Camila siga o caminho da mãe, primeiro e que seja abusada pelo patrão, depois. Nada disso. Resultado redentor: ela encontra um lar.
    Pergunto-me o que terá sucedido às irmãs e a única estranheza do conto para mim é que, anos depois, Camila se interrogue quanto aos pais, mas não haja qualquer interesse por elas. Falta de espaço? Tentativa de não desviar o foco do leitor? Esquecimento? Tudo são opções possíveis, sendo esta última a menos válida.

    Gostei muito do seu conto, você escreve muito bem.

    Parabéns e boa sorte no desafio.

  13. Jefferson Lemos
    14 de novembro de 2020

    Resumo: a história de vida de Camila, os duros anos de infância, uma nova oportunidade e reflexões da vida que voltam no ciclo do eterno retorno.
    Olá, cara autora!
    Que conto bom, o seu. Pareceu tanta coisa em um espaço tão curto, mas funcionou muito bem. Gostei de como a loucura foi retradada, de como você é capaz de dar personalidade para os seus personagens. Parece alguém com domínio excelente da narrativa.
    A história é muito triste, mas feliz no fim das contas pelo menos para a Camila. Gostaria de saber o que aconteceu com os pais dela, mas acho que ficar na imaginação é bem melhor.
    Não tenho pontos negativos a ressaltar na sua obra, é realmente um trabalho memorável.
    Parabéns e boa sorte!

  14. Anna
    13 de novembro de 2020

    Resumo : Camila é uma adolescente que é levada para ser empregada de uma família rica, porque seu pai enlouqueceu e sua mãe não consegue sustentar a família sozinha.
    Comentário : O conto é bom. Pensei que Camila iria ser abusada sexualmente pelo marido da mulher rica mas tudo correu bem e eles até ajudaram Camila a se formar.É triste a parte que Camila descobre que seu pai podia ser autista mas não tinha oportunidade de descobrir a doença e se tratar na condição que eles viviam.

  15. Fabio Monteiro
    12 de novembro de 2020

    Resumo: Da pobreza a uma reviravolta tocante. Sofrimento familiar e desilusões paternais.

    Quando a vida da uma volta como a citada no conto, ouso dizer que algum tipo de justiça divina foi feita.
    Não é sempre que isso acontece por que não existem muitas Camilas por ai. A protagonista manteve sua sanidade em meio a insanidade. Muitos se perdem neste processo.
    Em algumas situações a vida não da margem para mudanças.

    Eu diria que a protagonista teve sorte.

    O conto em si é excelente, leitura fluida, de fácil interpretação. Me entristeci ao ver o comportamento da mãe. geralmente as mães mantem o controle e dão bons exemplos. Nesta narrativa este não foi o caso.

    Boa Sorte Autor(a)

  16. Fheluany Nogueira
    11 de novembro de 2020

    A infância da protagonista-narradora é marcada pela pobreza, a mãe tomando decisões, porque o pai parecia doente. As irmãs saem de casa na adolescência, encaminhadas pela mãe. Na vez dela, é acolhida por um casal que lhe dá uma vida digna e a faz estudar. No desfecho, na Faculdade, ela pensa ter descoberto a causa da “loucura” do pai.

    Uma história crível, e até comum em alguns meios nacionais, apresentada em narrativa linear, sem reviravoltas chocantes, com contexto bem estruturado para o encadeamento de ideias. O flashback inserido no desfecho, através da lembrança da protagonista, veio para justificar o título e ficou interessante. Gostei, também, da expectativa criada quando se falou na idade da garota. Fiquei esperando algo ruim, que não se realizou.

    A linguagem é lírica, descrições objetivas e metáforas inteligentes. Um texto que encanta o leitor, pelo tom de intimidade no desabafo sobre as dificuldades do cotidiano e uma pitada de crítica social.

    Bom trabalho. Sorte no desafio. Um abraço.

  17. Misael Pulhes
    8 de novembro de 2020

    Olá, “Mila”.

    Resumo: Camila sai da vila onde morava, numa casa pobre, deixando mãe, irmãs e pai doente pra trabalhar num bairro bom do Rio, sob os cuidados de dois patrões que a tratarão como filha.

    Comentários: que estilo! Que forma de escrever! Invejável!

    Textos assim fluem bem demais, têm cadência, são lidos com gosto e rapidez. Sua prosa é muito bem articulada, tem frases muito bonitas, e construções bastante eficientes.

    A personagem principal é muito bem construída e os personagens secundários também.

    A única pequena ressalva seria a falta de um ponto alto – seja no meio ou no fim do conto. A condução é tão bonita que fiquei na expectativa de algo mais “impactante” em algum momento. Mas contos lineares não são necessariamente um problema. E, de fato, é das prosas mais belas deste concurso. Parabéns e boa sorte!!

  18. Giselle F. Bohn
    8 de novembro de 2020

    A narradora Camila conta fatos de sua vida: a “loucura” do pai, a determinação da mãe, a transição para a vida adulta.
    Maravilhoso conto! A narrativa bem construída mantém a atenção do leitor. Tudo funciona bem aqui: personagens carismáticos, boa ambientação, descrições enxutas. Vários trechos são belíssimos neste texto. Parabéns!
    Mas – sempre tem um “mas”, né? – o final foi, pra mim, decepcionante, e os saltos para o futuro e então de volta ao passado acho que poderiam ter sido melhor delineados; houve uma ruptura ali que me causou estranheza. Acho também que a epifania da narradora sobre um possível autismo do pai poderia ser mais sutil. Não sei ainda se foi impressão minha, mas o tom do conto mudou do meio pro final: começou extremamente lírico e poético, e então o lirismo se foi, assim, do nada! Soou como se o autor ou a autora tivesse tido tempo no início para aprimorar a escrita, mas em um determinado momento o tempo acabou e ele ou ela precisasse encerrar logo. Tive essa sensação, mas pode ser viagem minha…
    De qualquer maneira, um conto muito, muito bom – grande concorrente ao pódio!
    Boa sorte no desafio!

  19. Fernanda Caleffi Barbetta
    6 de novembro de 2020

    Resumo
    Camila, uma das três filhas de um casal humilde, é enviada para trabalhar como faxineira e morar na casa de um casal que a ajuda com os estudos. O pai de Camila tem uma estranha mania de manter o corpo curvado durante dia parte do dia. Ao tornar-se professora, ela descobre que talvez o pai fosse autista.

    Comentário
    Muito bonito o seu texto. Com construções belíssimas e inteligentes. Um conto gostoso de ler. Seu conto tocou em vários assuntos relevantes e interessantes. Parabéns.
    Pena que o final foi decepcionante a meu ver.
    Gostei de ter escolhido abranger passado, presente e futuro, só achei um pouquinho confusa a transição entre os parágrafos sobre os estudos e a reunião com os pais de Allan, já professora.

    “Em um deles, com portão de tábua pintada de azul, se dobrava papai.” – aqui dá a entender que ele se mantinha curvado em casa, mas o texto todo deixa claro que era no quintal.
    “na mesma razão das prateleiras, papai se esvaziava.” – uau, muito bom isso.
    “As pequenas aceitavam mais uma porção. Há alguns anos, eu teria feito o mesmo. De boca cheia e lambuzada, aceitaria as colheres estendidas: as primeiras vindas da panela grande; as segundas, do prato de papai.” – tão lindo quanto triste.
    “ o mistério se intensificou:” – achei o uso da palavra mistério equivocada. Demorei a perceber que se referia ao fato do pai se dobrar.
    “Essa culpa passei a ter: depois de dobrado, o pai passou a ser meu. Não mais o marido dela, nem o Joaquim, nem o amado Quim, mas meu pai.” – muito interessante esta sacada. Gostei.
    “No colo, eu tinha a menorzinha; de pé, à altura do peito e segura pelo ombro, a do meio. “ – não consegui fazer a imagem desta cena na minha cabeça…

    haviam (havia) outros como ele
    Quando cheguei a (à)Central do Brasil
    Por quê (Por que), se haviam sido apenas meus patrões?
    Na minha opinião, o título não me pareceu sido uma boa escolha, não fez juz ao texto.

  20. Angelo Rodrigues
    5 de novembro de 2020

    Resumo:
    A partir de uma vida de pobreza, com pai problemático e mãe resoluta, Camila tem o curso da vida mudado quando vai morar na casa de um casal, que cuida para que ela tenha uma vida digna.

    Comentários:
    Ótimo conto. Tem um tom confessional, de trajetória de vida. Uma vida difícil que foi amparada por terceiros.

    A construção do texto me prendeu. Fiquei realmente feliz com a leitura, particularmente pela condução das soluções que a mãe encontrava para salvar a família de suas dificuldades: na impossibilidade de salvá-las em casa, distribuía as filhas por lares com mais recursos. Certamente algo muito comum em tempos não tão remotos.

    Difícil não gostar da condução do autor. Locais, curvas, muros, rios, valões, tudo atendendo à perfeita formação dos cenários necessários ao desenvolvimentos do enredo. Uma história dura bem contada. Uma história que também é de sorte.

    Relativamente aos personagens, acho que ficaram bastante realistas, com seu tamanho e modos. A mãe, o pai, os irmãos, Marly e Carlos.

    De modo geral, acho temerário o flashback, que podem causar distração no leitor. No caso deste conto, um pouco assustado em princípio, achei que o retorno teve um bom tamanho, dando um fechamento ameno ao conto.

    Parabéns pelo conto e boa sorte no desafio.

  21. Bianca Cidreira Cammarota
    5 de novembro de 2020

    O conto versa sobre a vida de Mila, de sua meninice até o começo de sua juventude, onde a mostra no núcleo familiar, antes ordenado, depois diluído e uma nova existência na casa dos patrões.

    Mila, sua linguagem é tão linda! Sinceramente, para mim, foi uma aula de escrita. O enredo, porém, me confundiu um pouco, não na sua premissa maravilhosa, mas nas partes finais. A impressão que tive é que foram dois contos condensados em um e com um final muito aberto, na minha opinião.

    Posso não ter compreendido sua intenção. Se puder, gostaria que viesse e a explanasse, para eu ver o que me escapou.

    O que está profundamente dentro do meu peito é o que nomeei como “primeiro conto”, onde está a família original de Mila, sua ordenação e depois decadência. Nossa… me apaixonei, sério! Ali vi a história tocante, fantasticamente contada em prosa poética, na cadência lírica e pensei que ficasse naquele propósito. O surto do pai, a mãe se prostituindo (se me enganei, me corrija, por favor) para sustentar a casa, a doação das filhas mais novas (destinos esses desconhecidos para nós) e, finalmente, a vez de Mila.

    Nesse ponto, quando Mila estava na estação, traçando o mesmo caminho que a mãe, segundo relato da protagonista, me deu a impressão que ela teria sido encaminhada também para o mesmo sustento da mãe. Então, há uma virada – e creio aí que começa o que chamo de “segundo conto”, o qual prendi a respiração, aguardando o desfeche, unindo a primeira e segunda histórias. No entanto, não vi essa consolidação e também algo que ficou solto, na minha opinião.
    Por isso, teus esclarecimentos podem me mostrar a tua motivação que talvez eu não tenha percebido.

    A tua pena é fantástica. Junto a um e outro conto aqui no Desafio, está servindo de modelo para eu aprimorar minha escrita.

    Abraços!

  22. Thiago de Castro
    5 de novembro de 2020

    Resumo: Camila conta sobre a infância cheia de dificuldades, a loucura do pai e o caminho que tomou na vida adulta. O conto está permeado de personagens que acompanham a trajetória da protagonista, influenciando seu futuro e a forma como percebe o mundo.

    Comentário: Mila, conto bem construído, com uma morosidade gostosa de acompanhar, onde a loucura é tratada num contexto mais amplo, da percepção do que é ser louco, da pobreza e da memória. Camila é uma baita personagem, ela exemplifica a trajetória de muitas brasileiras que reinventaram seus caminhos, procurando possibilidades de futuro, entre um lado e outro das camadas sociais, transitando entre a experiência do passado e as escolhas do presente. Há um comentário social no texto, também colocado com leveza, sem panfletarismo ou alarde, além da importância do ato de ler. Tudo é sútil, da loucura do pai até a prostituição da mãe, os despudores da família rica, Camila só observa, absorve e conta.

    O final, longe de reviravoltas ou grandes revelações, é cotidiano, episódico, a protagonista indo por um outro caminho, que não se sabe ao certo se será contraditório com suas origens ou um reforço das mesmas, “a mesma coisa, mais diferente!”.

    Quando o conto é muito bom, o comentário é curto, e o seu é incrível.

    Parabéns!

  23. Anderson Do Prado Silva
    5 de novembro de 2020

    Resumo:

    Jovem da periferia ascende socioeconomicamente enquanto tem de lidar com a loucura paterna.

    Comentário:

    O texto traz obviedades sem descuidar de algumas originalidades. Está bem escrito e revisado, com diálogos que impulsionam o enredo. Os capítulos se encerram bem e despertam curiosidade pelo que virá.

    O título inicialmente me soou despropositado, mas, depois, encontrou explicação.

    Como inveterado romântico, expectei um final em que a protagonista tornava à casa dos pais e, de alguma maneira, ajudava-os com a miséria.

    Não me deparei com erros gramaticais que pudessem ser percebidos por um leigo como eu, apenas fiquei na dúvida se “seu” e “dona” não deveriam ser grafados com inicial maiúscula e, consequente, se estaria correta a crase aposta em “assisti à dona Marly”.

    Parabéns pelo texto, do qual gostei muito, e boa sorte no desafio!

  24. Lara
    5 de novembro de 2020

    Resumo : Camila é uma garota muito pobre, sofre com a loucura repentina do pai e a mãe lhe manda para trabalhar em casa de família. A família se mostra muito bondosa e até faculdade de letras a protagonista faz.
    Comentário : Simplesmente amei o conto. Achei tocante. Me comovi com a parte que Camila percebe que o pai podia ser autista mas claro que não poderia ter recebido cuidados na situação em que viviam.

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Informação

Publicado em 5 de novembro de 2020 por em Loucura.