EntreContos

Detox Literário.

O Salto (Israel Trindade)

Apenas por vivenciar a morte, um entende a vida.

— Desconhecido

 

O vento corria livre pela lateral do penhasco; atingia a pedra, dobrava as folhas, ajudava as aves a manterem-se no ar. Descia a montanha e corria pela superfície da baía, ou subia e encontrava uma plataforma muito próxima ao topo, na pedra onde sentava uma mulher, então decidia dar a volta e refazer o caminho pelo qual viera. Os cabelos da mulher, mesmo presos, açoitavam seu rosto. Ela, os olhos fixos em nada em particular, ignorava a dança da natureza ao redor.

— Aline – a voz de Márcio veio aliada ao som de pedra e grama esmigalhadas sob seus pés – desistiu?

— Não.

A resposta soou arrastada. Márcio aprumou-se e olhou para trás, onde os amigos já entravam no clima para o salto. Alguns iniciavam o antigo ritual de rezas e pedidos aos santos de praxe.

— Geral tá pronto. Quer dizer, quase. Quer ajuda com o equipamento?

Aline dirigiu os olhos para o único wingsuit largado em um canto, à sombra de uma árvore no final da trilha que haviam levado quatro horas para percorrer. Então, como se ignorasse a pergunta de Márcio, falou, meio para si mesma, meio esperando uma resposta.

— O que você acha que aconteceu com ela?

Era uma pergunta cujo contexto vinha de meses atrás, mas que ainda afligia a todos eles. Márcio deixou escapar um suspiro triste. Sentou-se ao lado da amiga, o equipamento de base jumping atrapalhando os movimentos.

— É difícil, eu sei. Você não precisa pular hoje, se não estiver bem. Desce com a Maria e o Matheus.

— Você não respondeu a minha pergunta.

Outro suspiro. 

— Você sabe que sou espírita.

— E?

— Eu acho que sua irmã era uma excelente pessoa, que só fez o bem enquanto viveu, e que agora está esperando para o momento de voltar e viver uma nova vida ainda melhor. Ela está em paz, e não está sofrendo.

O vento foi a única coisa que uivou em resposta. Aline fitava o chão pedregoso, a expressão entre a aflição e a indecisão.

— Isso não está ajudando, está? – Márcio perguntou, massageando gentilmente o ombro da amiga.

— O quê?

— O base jumping. Costumava te ajudar a esquecer das coisas.

— Sempre ajudou, eu acho. Mas agora é diferente.

Havia dois motivos para que tudo estivesse diferente: um, o óbvio, era que sua irmã não estava mais lá. Aline e Andressa eram uma só; haviam nascido juntas e, por isso, andavam quase sempre juntas. Gostavam das mesmas coisas, tinham as mesmas feições e, vez ou outra, até o mesmo namorado. Descobriram o base jumping juntas e, agora, Vanessa não estava mais lá para segurar sua mão quando saltassem rumo ao abismo.

Então havia o segundo motivo.

— Fazer isso aqui é gatilho? Traz muitas memórias?

— Não. Quer dizer, traz memórias sim, mas eu gosto disso. Dessinha vive aqui agora, sabe? Na minha mente.

— Quer falar sobre isso?

Aline olhou para trás. Os amigos conversavam, todos prontos, esperando com a máxima educação que ela decidisse logo se pularia com eles ou não. Ela queria conversar. As palavras vieram à garganta – lutaram para sair – mas Aline as engoliu. Márcio era seu melhor amigo, mas ele jamais entenderia o que ela tinha para falar. Ensaiara aquele discurso mil vezes diante do espelho; as palavras nunca encontraram os ouvidos de ninguém senão os dela:

Quando Andressa morreu em meus braços, eu senti algo que nunca senti antes. Foi como se eu pudesse enxergar cada parte dela voltando ao todo; como se cada partícula dela fosse reutilizada no mundo, e eu a visse fugir de mim, para sempre, fora daqui; muito longe daqui. Eu ainda sinto isso hoje; ainda vejo o que forma as coisas; vejo o fluxo das coisas, entendo mais do que deveria entender e sei de coisas que posso fazer, mas que não quero acreditar ser capaz.

Ele diria algo sobre espíritos, reencarnação e iluminação, e ela fingiria aceitar por ser educada e por estar vivendo uma mentira há muito tempo. Por isso, apesar de o discurso percorrer cada fibra de seu corpo até sua língua, a resposta que ela articulou foi outra:

— Não quero falar, não. Hoje vou agir.

Ela se levantou, e as conversas entre os amigos cessaram. Alguns mantiveram olhares solidários em sua direção; outros voltaram aos seus últimos preparativos, tentando passar uma sensação de rotina para que ela não se sentisse o centro das atenções. Aline tentou manter a naturalidade andando até seu equipamento, então alterou a direção em um rompante e correu até a beirada do precipício. Ouviu gritos; ouviu seu nome em bocas desesperadas. Então, saltou, os braços abertos, as pernas juntas, como fizera dezenas de vezes.

Antes, base jumping era uma fuga. Os minutos que permanecia no ar eram minutos de mente vazia e foco total. As preocupações do mundo se desfaziam; só havia ela e a natureza, o instinto de sobrevivência e a injeção de adrenalina. Desde a morte de sua irmã, porém, base jumping era senão mais um daqueles momentos estranhos onde ela via tudo sob uma lente diferente. Ela via a natureza; não só a experienciava. Enxergava cada nuance, cada ângulo, como viu sua irmã se desfazer em partículas cujo significado fugia de seu entendimento. A natureza, em retribuição, sugeria cursos de ação impossíveis. Ela não falou com o terapeuta; não falou com Márcio, nem com seus pais. Não estava louca, sabia daquilo, e aquela era a prova.

Enquanto sentia o corpo cair e o ar fazer sua roupa drapejar contra a pele, Aline ouviu outro grito atrás dela, e soube que Márcio vinha em seu encalço. Ele alteraria o ângulo do próprio corpo e cruzaria o ar em sua direção em uma tentativa de resgatá-la; mas o peso dos dois provavelmente seria a sentença de morte de ambos. Antes que isso acontecesse, ela fez o que sua mente nunca quis acreditar, e o que a natureza que agora enxergava sugeria que fizesse: focou seus pensamentos no voo, viu as partículas do ar e as de seu próprio corpo – eram como pequenas letras pertencentes a um idioma antigo demais para que entendesse – e começou a voar.

Era impossível e ela sabia disso. Aline voou de braços abertos e, agora seguindo para frente a uma velocidade estonteante, fechou os olhos diante da ventania. Não precisava abri-los: via tudo agora, mesmo de olhos fechados. As partículas – o código – estavam por todo lugar. Era um sentimento único, mas não novo: sentia como se já estivesse lá, em seus sonhos, em uma parte inalcançável de sua mente.

Márcio demorou para alcançá-la. Quando o fez, fitou-a em perplexidade.

— COMO??

Ela riu, ainda de olhos fechados, e ambos voaram juntos; ela pela primeira vez, ele sem entender se via um milagre ou se enlouquecia.

Como tudo o que existia, porém, o voo terminou em uma planície próxima à praia. Pousaram ao som das ondas do mar e do vento uivante. Aline gritou, saltitou e abriu os olhos com um sorriso de criança.

— Você viu isso, Márcio? Você viu?

Márcio não estava lá. Em seu lugar havia um homem robusto, de terno e gravata e sapatos sociais; uma antítese ao cenário. Não tinha olhos; antes, óculos escuros que pareciam parte dele mesmo. Na orelha direita, um aparelho de comunicação cuspia informações em seu ouvido. Quando Aline o avistou, soube de apenas uma coisa: tinha que correr.

Ela correu o máximo que seus músculos permitiam e ainda mais. Enquanto corria lembrou-se que sabia voar, então alçou voo. Antes de se afastar muito do chão, porém, sentiu a mão do homem evolver-lhe o tornozelo. Aline não teve tempo para ponderar como ele a havia alcançado. O homem jogou-a ao chão com violência. O impacto seria fatal, mas agora ela via o código e entendia muito do que antes era invisível. Seu corpo, apesar de ter aberto uma cratera, pouco se machucara. O homem já quase a alcançava novamente quando ela saltou mais rápida do que antes e voou para longe dali.

Seguiu-se uma perseguição aérea – o homem de terno também sabia voar, apesar da indumentária desafiar as leis da física: não drapejavam, não se sujavam. O homem a seguia como uma estátua endurecida e sem expressão, singrando as nuvens com a mesma facilidade que uma águia. O sentimento de vislumbre e alegria que o voo trouxera minutos atrás deu lugar à desesperança e ao desespero. Por mais que tentasse, o homem não saía de seu encalço; na verdade, conforme sobrevoavam prédios e avenidas, ele se aproximava cada vez mais. Até que, em um momento de distração, quando ela olhava para trás, outro como ele surgiu adiante, segurou-a pelos braços e jogou-a novamente ao chão. Aline despencou sobre o teto de um prédio comercial. Surpresa e cansada, a dor agora era real. Sentiu ossos quebrarem, tendões romperem, e um ou dois dentes saltarem para fora da boca.

Em um segundo ambos os homens de terno estavam sobre ela, um deles erguendo-a pelo pescoço. Ali, tão perto do rosto simétrico e irreal, ela pôde ouvir as informações que fluíam pelo ponto no seu ouvido. Eram de um idioma irreconhecível. Um deles – o que a segurava – falou, mas quando abriu a boca não havia hálito.

— Resolva o resto das coisas, eu cuido dela.

O outro anuiu e, ajeitando o paletó, retirou-se do lugar pela saída de emergências; os passos calmos, como que em um dia rotineiro. A mão ao redor do pescoço de Aline se fechou e ela perdeu o ar. Era o fim.

Até que o homem não estava mais lá e ela caiu de joelhos, a mão massageando a garganta e a boca sugando o ar perdido de volta aos pulmões. Ao lado uma batalha acontecia. Alguém a havia salvado. Seu herói vestia sobretudo preto e os óculos escuros em seu rosto eram diferentes de seu algoz: eram como um acessório, não como parte integrante de seu corpo. O homem de terno tentava atingi-lo com socos e pontapés mais rápidos do que alguém era capaz de enxergar, mas seu salvador desviava de cada ataque como se soubesse das coisas antes que elas ocorressem. Com uma calma sobrenatural, aparou os golpes, quebrou-lhe os braços e derrubou-o ao chão, finalizando o trabalho girando seu pescoço até alcançar um estalido mortal. O corpo do homem de terno se contorceu, tornou-se um borrão e, no segundo seguinte, lá estava Márcio, caído aos pés de seu salvador, inerte.

Aline tentou gritar pelo amigo, mas tudo o que conseguiu fazer foi balbuciar algo inaudível. Tentou se levantar, mas os ossos quebrados não a permitiram. O homem de sobretudo andou até ela e estendeu-lhe a mão. 

— Este não é seu amigo. Seu amigo está em outro lugar, aprisionado, escravizado sem nem mesmo saber; sem nem mesmo poder lutar. 

A mão permaneceu e ela não a segurou. Olhava-o confusa; indecisa. De perto, ele não era tão diferente assim do homem que a atacara.

— Meu nome é Neo. Eu vou te mostrar a verdade. Você já vê parte dela; acordou sem ajuda. Olhe com atenção. Você sabe que pode confiar em mim.

Ela sabia, pois os códigos que via nele eram diferentes e, mesmo que não entendesse os símbolos, sentiu que era de confiança. Segurou sua mão e ele a levou embora sobre os ombros; embora para muito longe, fora dali. Para um mundo destruído onde a morte de sua irmã, apesar de ainda irreversível, ganhou um significado muito diferente. Para um mundo onde Márcio, seus pais e bilhões de outros esperavam serem resgatados.

Aline encontrou o que havia perdido, e lutaria por isso até o fim.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.