EntreContos

Detox Literário.

O anjinho que virou sereia (Claraliz Almodova)

Eis que ele  chegou, o anjinho todo enrolado numa justeza  de vestes, pronto para ser levada para os braços de Nosso Senhor. Não fosse aquele pacotinho  caprichado e gente tão novinho que era ,  passaria  antes pelo portal de  São Pedro, mas sendo assim ,todos  já sabiam que iria direto para  a legião do Grande Pai e que suas asas nunca cairiam de tão inocente que era.Talvez até  fosse incumbido de dar a boa- nova do nascimento do Salvador, se vivêssemos   naqueles tempos em que se esperava o nascimento do Messias.  De tão inocente que era, jamais ousaria brigar com Deus e desfazer a aliança celestial, pois que o anjo era protegido numa proteção inoxidável de quem nunca se feriria por motivo de desobediência.  E como os corpos dos seus ancestrais, enterrados naquele pitoresco cemitério à  beira mar, daquele pitoresco povoado , a cruz pós mortem nem duraria muito e logo seria levada por aquelas águas de marés altas,  quando elas vêm para levá-los a uma  viagem libertadora e interrogativa  que somente eles tem o privilégio de sabê-la.

Caravela vai, caravela vem e aquelas caixas de cabeças vazias agora vão compreendendo o sentido da vida que certa vez pesou o peso das colunas do palácio do algoz, sustentadas por Hércules. Desta feita, já leves  das andanças da lida diária e muitas vezes não pouçás,  cansados da jornada ou retirados antes dela , talvez por terem outro destino, traçado sabe-se lá por quem,  antes  partiram para uma viagem de conhecimento porque sempre estiveram ligados àquela terra , numa capilaridade sináptica aos seus entes queridos nunca queriam outras terras ,nem por desejo ,ou mesmo por necessidade. Sorrisos, amores,  lendas, banhos, mar e as intermináveis pescas seguidas de chegadas ansiosamente esperadas atemporalmente  pelas  esposas. Depois, vinha a  alegria de trazer o peixe fresquinho para casa e ouvir a  terna voz de seus filhos saltitantes festejando a sua chegada.

É que a menina fora entregue para os avós, quando nascera porque a mãe jovenzinha,  fora seduzida pelo peixe boto, numa certa noite em que a lua se derramava em gravidez prata de  lua cheia de  muito amor pelos humanos. Pois era  assim que se diziam e   é assim que reza a lenda, quando não encontram o pai, o  autor da barriga, ou quando este se nega assumir o seu ato de quem joga a semente em terra fértil, mesmo sabendo que dali, pode-se  esperar  o nascimento de um fruto.  Fosse na origem do mundo antigo, dir-se- ia que a menina seria obra de Zeus.  E como estamos falando de terras regionais as gentes mais antigas tem a sua sabedoria  para defender o nome da vergonha  diante de todos do povoado, eles criavam histórias para justificar os feitos dos humanos e até hoje muitas dessas histórias fazem parte do imaginário de alguns povos desse país. O boto largou a moça e sumiu . Ficaram somente as amarguras e o gosto travoso do amor, se é que se pode dizer que este sentimento também traz essas sensações. Mas pode até trazer, visto que muitos atribuem a ele até mesmo a interrupção de vidas, imagine o derramamento de lágrimas! Assim como as outras moças, teve que sair para a cidade grande tocar a vida pra frente e tentar esquecer aquele delicioso arroubo de partilhar a  intimidade do seu corpo com alguém que não a mereceu, porque a sua inocência permitira não  a maturidade para escolher o partícipe do seu primeiro momento ato de amor. E nada soube ou não quisera informar sobre o homem que lhe depositou aquela sementinha, devido à furtividade dos encontros e à proibição que ela mesma se exigia como quer proteger  alguém da ira dos machos do clã. Fugiu o rapaz garboso, deixando a pobrezinha  em uma tristeza inconsolável. E ficou a moça  bolando de casa em  casa de parentes de outras cidades vizinhas. O povo da cidade só sabia que tinha viajado para morar na casa da prima e a  barriga crescia em uma aflição sufocante e ela até causava  dó à tia que a acolheu, quando lhe mostrava: – Olha, tia,  ele se perece com esse daqui. Isso ela dizia, ao apontar para os artistas de revistas ou dos anúncios com rapazes bonitos que fumavam cigarros ou usavam roupas de grife, dirigiam carros caros ou remavam canoas com espáduas atléticas , coitadinhos ou malvados, só Deus é capaz de fazer esse juízo de valor. E a moça seguiu, deu a criança à luz e deixando-a com a tia para que esta a levasse para os cuidados da avó, com quem a jovem mãe tinha a certeza de que a pequenina teria uma vida  de verdade.

E assim aconteceu,  a menina foi cercada de um amor, quiçá muito mais puro e verdadeiro do que aquele amor paterno biológico  que a mãe tanto sonhara para aquela que seria o rebento  de sua prenhez. A avó prometeu e a assim a recebeu com braços de doação, como quem recebe um presente valioso naquela idade. Esta com a vida curtida em lágrimas de sal, na raiz da mandioca e no plantio da cana, viu o seu projeto de sonho se esvair , ao receber desta vez, o corpinho inerte. A matriarca o segurou  e  entre gemidos sofridos, benzederias , mantras e ungüentos, naqueles poucos metros quadrados de areia branca , sombreada por telhado de palha, suspenso sobre  pau a pique, a mulher  viu o anjinho suar um suor morno de quem tinha pressa de ainda ser  útil para  muitas outras  vidas. Não sei qual foi a maior dor, se foi a do dia em que a criança adoecera de uma febre incompreensível , respiração ofegante e deixada sozinha  na frieza do hospital, aos cuidados dos especialistas ou aquela daquele dia em que chegara a ambulância da cidade próxima, pois o lugar deveria logo ser ocupado por outro candidato a anjo. A avó até emagrecera de tão apegada à criança. Deixou de comer em um jejum que lhe acochava o estômago. O terço de contas brancas para as ave-marias e as azuis ,para os Pais nossos, era o objeto mais usado naquele lar . Era o amoleto que transferia a  o desejo da mulher de ver aquele sorriso largo e banguela, que se derretia quando alguém lhe fazia vozinha miúda como aquelas que falamos aos bebês. E como quem quer ser aspirante de mães, num desejo que ninguém sabe compreender e nem explicar, as meninas da vila brincavam e ninavam a pequena numa satisfação maternal que até Nossa senhora desejaria para si.

Mas a ambulância do hospital  da cidade próxima chegou. Os olhares ávidos de notícias baseados em fatos reais se e entreolharam e correram para afagar, para chorar ou simplesmente para matar a fome da curiosidade de saber de como estaria a menina. E naquele mesmo chão de infinito amor, assistida pelos peixes que esperavam a hora do seu cozer e pela tapioca que secava ao pratebanda da porta,   o  ex-anjo – porque dizem por aì que anjo não tem gênero de tão sobrecomum que é – mas sim  a  menina de agora, lançou o olhar de sofreguidão que saíra de febres, agonias e da decretação do último suspiro de vida. A menina nem chegara ainda a  conhecer o cercadinho  de areia feito em buraco no chão que serve de proteção para evitar que as crianças fujam, se percam na imensidão das areias da dunas, sejam levados pelo mar, antes da hora, ou que um bicho feroz as devore , porque saíra do controle dos pais em seus primeiros passinhos de aprendiz de caminhantes de vida.

A mulher não acreditou e cuidou e cuidou que cuidou da menina, em banhos de sol, banhos de mar, a fez conhecer a diferença entre palmeiras e coqueiros, decifrar o cheiro de cada tipo de raça de peixes do mar, que ela a menina até que chegou a se negar a degustar o ariacó , sabendo que não este não era o peixe que disseram em tentativa de escamoteação. Era tão esperta que de nada adiantava quando tentavam enganá-la,  para que tivesse o alimento garantido do dia, nas birras infantis. A menina cresceu, começou a correr em brincadeiras serelepes com as amiguinhas que, hoje, quem a vê , nem acredita no episódio da ressureição. Hoje ela brinca de sereia nas areias  de chantilly daquele lugar regado de mel e de ondas espumantes e sinestésicas . A pequena corre ligeiro, quando vê as gólgotas branquinhas de seus ancestrais  num vai- e-vem de ondas que lambem os pezinhos de princesa. Às vezes, cai e se levanta muito rápido com medo de ser também levada, assim como os seus queridos entes.  Nem sei se ela chega a pensar que aquele poderia já ter sido  o fecho de sua vida, mas um dia ainda saberá histórias sobre peixe – boi, sobre mula sem cabeça , sobre monstros do mar e monstros da terra e, com certeza, a sua avó tão esperta que é, multiplicará o repertório de perigos que nos rondam, principalmente quando somos crianças, por serem elas tão frágeis e inocentes.

Agora a menina já, sereia., recebe presentes da irmã mais velha que já se casara na cidade grande e fizera a sua família agora com um pai presente, sabe-se lá, até quando.Talvez seja para sempre. A seria de agora  corre lépida, para não ter ainda  aquele  desfecho da viagem libertadora de quem já vivera demais ou de menos, depende de quem se fala, feita em um nado embolado naquelas águas por ela ainda desconhecidas. Ela corre e sorri, sorri e corre em piruetas para lá piruetas para cá, roda, roda em cirandas e gritinhos que ora se confunde com medo , ora com felicidade em  um misto de descobertas de sabores , explosões  de alegria e esperança ,  pois ainda quer encantar os seus convives com o seu canto alegre de criança feliz como aquelas outras que vivem naquele lugar, até que cheguem os seus desejos de sereia moça que vive a encantar os viajantes que passam por aquele lugar.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 1.