EntreContos

Detox Literário.

Graça (OTABOL)

– Cadê a cachorrinha?

– Ela… ela…

– Cadê ela?

– A moça, sinhá, a das Dores… que começou no outro dia… foi embora… e levou ela junto…

– Como assim, foi embora?

– Ela catou as coisa dela e foi…

– Quando?

– Ontem mesmo… depois que a sinhá pegou a bichinha e…

– E levou aquele pinto gorado?

– Levou, sinhá.

Dona Inácia se enfureceu, gritou, ameaçou. Mas então se calou, menos porque se acalmara e mais porque não havia mesmo o que fazer. Aquele maldito 13 de maio de novo. Agora nem podia mandar alguém atrás da infeliz que tinha lhe roubado aquele lixo, pra lhe dar uma lição. Qualquer coisinha e já chamavam a polícia. Qualquer coisinha. Falando com o vigário nesta tarde, entretanto, percebeu que ele estava certo: era um favor que lhe haviam feito. Quem precisava daquela coisa ruim, daquele trapo? Sim, o padre tinha razão. Ela já tinha feito demais pela criatura; quem a quis levar que então cuidasse dela. Sim, agora ela se dava conta de que fora um livramento. Deus sempre escrevendo certo por linhas tortas, como bem disse o Monsenhor Lopes. Nem despesa iria dar mais. 

– Só prestava pra uma coisa, aquela: era boa pra um cocre!

E foi assim que saiu para sempre a menina da vida de Dona Inácia. Já Dona Inácia saiu também assim para sempre da vida da garota, mas não sairia nunca de seus pesadelos. Do dia anterior, pouco ficaria na sua lembrança, criança de sete anos que era. Esse pouco, porém, provar-se-ia demais. 

Para sempre ela se lembraria de ter visto Dona Inácia adentrando a cozinha com ódio no andar; se o tinha nos olhos, não podia dizer, pois nunca a olhava nos olhos. Lembrar-se-ia das mãos gordas da senhora, uma segurando-lhe o pescoço e a outra lhe abafando os gritos. Lembrar-se-ia do som que fez o ovo, agora tornado morno com sua saliva, quando Dona Inácia finalmente o tirou de sua boca e o bateu com força sobre a mesa de madeira. Lembrar-se-ia do silêncio que ficou quando ela saiu do cômodo, deixando-a caída ali, entre as outras mulheres. Lembrar-se-ia de ouvir Dona Inácia recebendo na sala o vigário, que chegava naquele momento, e algumas frases soltas: não se pode ser boa nesta vida, criando aquela órfã, que trabalheira, caridade, virtudes, Deus. Lembrar-se-ia de ter sido recolhida do chão por mãos negras como as suas e de ter sido colocada sobre a pia e de ter água jogada em seu rosto, que sobre os lábios destroçados e quentes de sangue pulsante veio ao mesmo tempo como um gozo e uma agonia. Lembrar-se-ia de ter ouvido sussurros acusatórios das mulheres que a cercavam e balbucios explicativos. Tu tá feliz agora? Eu num pensei. Que dó da bichinha. Como eu ia saber? Criança é assim, fala coisa que nem sabe. Eu num achei que ela ia fazer isso. Pru mode de um xingamento de nada. Achei que ia ser só um cascudo. Uma bobagem de criança. Eu num pensei que ela ia fazer uma coisa dessa. Ocê não conhece a infeliz. Eu num sabia. Carecia de ter falado? E então ela não se lembraria de ouvir mais nada.

Quando acordou, encontrou-se embalada por braços finos, que só conseguiam segurá-la porque também ela era toda fina: braços, mãos, pernas, pés, pescoço, costelas, tudo pele, ossos e ligamentos. Se algum dia já estivera naquela posição, cabeça apoiada sobre um antebraço, tendo um rosto assim, tão perto do seu, olhando-a sem ódio, não se recordava. Todas as vezes em que alguém a tocara fora apenas pra poder lhe dar um beliscão ou para segurá-la enquanto lhe dava um pontapé bem dado, ou ainda quando a arrastavam de um lugar para outro. Sua primeira reação foi a de fugir dali, antes mesmo de reconhecer quem a embalava. Os braços a apertaram ainda mais, instintivamente.

– Não, não, fica aqui, fica aqui… num precisa ficar com medo, não…

Seu corpinho, tenso, ficou imóvel, e a criança finalmente reconheceu a mulher que a segurava apertado, e encheu-se de pavor. Estava nos braços da criada nova, aquela que tinha lhe roubado um pedaço de carne do prato, aquela a quem tinha xingado por isso, com uma das poucas palavras que conhecia. “Peste? Espera aí! Ocê vai ver quem é peste!”, ela havia dito antes de ir ter com a patroa. Fora ela quem, com um sorriso de triunfo, entrara na cozinha logo atrás de Dona Inácia, e que a levantara do chão segurando-a pelo pulso estreito, e que a colocara de pé. O que a criança não viu, porém, foi o momento em que o sorriso vitorioso desapareceu de seu rosto e foi lentamente sendo substituído pela perplexidade e, finalmente, pelo terror. Dona Inácia, ao contrário do que a criada esperava, não dera um cascudo ou mesmo um beliscão na menina. Quando a patroa pediu um ovo, a moça imaginou a pobrezinha sendo obrigada a comê-lo cru, mas logo viu que estava de novo enganada. A patroa colocou ela mesma uma chaleira de água a ferver, ovo dentro, e lá ficou, mãos na cintura, muda, antecipando o prazer que a aguardava, os olhos fixos na infeliz, que tremia de volta ao canto no chão onde estivera antes. A moça, ainda nova na casa, nada entendia. Os minutos passaram em total silêncio. As outras criadas, acostumadas aos rompantes da patroa desde os tempos em que ela era feroz senhora de escravos, se já imaginavam o que viria em seguida, nada disseram. “Venha cá!”, Dona Inácia vociferou, e a criança obedeceu. “Abra a boca!”.

Os urros que saíram pelas narinas da garotinha, já que se via amordaçada pelas mãos de Dona Inácia, atingiram a moça no peito como um soco. Ficou ali, estarrecida, queixo caído, as pernas bambas. Como seu próprio nome prenunciava, já tivera ela mesma sua história de torturas e martírios e essa era forte demais para que ela algo dissesse ou para que tentasse intervir. Os gemidos da menina, asfixiados, diminuíam na mesma proporção em que suas lágrimas aumentavam, escorrendo por seu rostinho negro e deixando rastros brilhantes peito abaixo.  

E agora ela estava aqui, em seus braços, seus olhos assustados, a boca uma flor bizarra de pele escamada, sangue coagulado e bolhas.  

– Fica quietinha, fica… num vou fazer nada de ruim, não… juro por Nosso Senhor Jesus Cristo…

A criança, ainda retesada em seus braços, desviou os olhos dos seus e passou a vasculhar o local, como se planejando uma fuga. Não reconhecia aquele lugar. Sua vida se passara entre o chão da sala, onde ficava com Dona Inácia por horas e horas sem nada dizer ou fazer, com os braços cruzados como exigia a senhora, e o chão da cozinha, onde comia e dormia entre farrapos de esteira e panos imundos. Estava em um cômodo iluminado apenas por uma lamparina em cima da mesa pequena, entre paredes de taipa. Pela janela ela viu que já era noite.   

– Eu num queria isso, não… juro por Nossa Senhora… eu num pensei… não falei pru mode dela fazer isso, não… eu num queria… quem tem coragem de fazer uma coisa dessa, meu Deus do céu…

A menina voltou os olhos arregalados aos da moça. Nada falava, mas talvez nada pudesse por um tempo. Sua língua, que tanto ardera, apenas repousava imensa e amortecida, como se não lhe pertencesse. A dor mesmo, a dor excruciante, aquela que escurece a vista e ameaça um apagão, veio quando o ovo foi empurrado, ainda pingando a água fervente, para dentro de sua boca pequena onde ele mal coube, queimando a pele fina dos lábios pelo caminho. Lidaram melhor do que eles o palato, a língua e o interior das bochechas, ou talvez só tivessem doído menos porque o limiar da dor recém infligida fosse alto demais para ser atingido uma segunda vez. 

 

– Ocê vai drumir aqui… não vai mais ficar no chão, não… vou trazer uma sopinha pr’ocê, bem facinho de tomar… ocê agora vai ficar comigo…

E ela deitou a garotinha no colchão de palha seca, que nem se moveu com a leveza daqueles quinze quilos mal pesados.

– Ocê vai ficar comigo. E daqui em diante eu vou cuidar d’ocê. Ninguém mais vai fazer malvadeza c’ocê, não. 

E a moça, sentada ao seu lado na cama dura, pousou a mão na testa quente da criança, fechou os olhos e iniciou um murmúrio que mal se conseguia ouvir. Novamente, daqui a menina apenas se lembraria um dia das palavras soltas sussurradas: perdoa, juro, Senhor, resto da vida, Deus, olhar por ela, perdão. A garota era jovem demais para compreender o que estava se passando ao seu redor, e a dor agora amenizada mas ainda latejante lhe confundia os pensamentos, se os tinha. 

A moça, ela também uma menina aos dezessete anos, abriu os olhos e acariciou longamente os bracinhos raquíticos da criança, onde havia toda sorte de cicatrizes e marcas. A sensação do toque morno daquelas mãos ásperas e calejadas causou-lhe, como um reflexo, um tremor de medo. Mas então a menina finalmente rendeu-se àquele prazer desconhecido, e por um longo momento dissipou-se toda a dor; não só a pulsante que sentia nesse momento, mas também aquela sem adjetivos que sentira durante toda sua curta vida. 

– E ninguém mais vai chamá ocê de Negrinha, não. Ocê tem nome, sabia? Me falaram que ocê chama Maria, que nem eu. Só que ocê é Maria da Graça. E é assim que eu vou chamar ocê: Graça.

Das Dores sorriu.

Graça fechou os olhos, e, se pudesse, teria sorrido também.

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Finalistas, FanFic - Grupo 1.