EntreContos

Detox Literário.

A Salvo (Vivian Darkbloom)

O doutor Fay está no quarto, em silêncio, sentado à beira de uma cadeira ao lado da porta, quando Humbert sussurra em seu francês nativo: fini, como se saboreasse, naquelas quatro letras, todo conteúdo do livro recém-finalizado.

—Há pedaços de minha medula nestas páginas, aqui e ali, meu caro. Confesso que precisei camuflar fatos e experimentar alguns pseudônimos, mas está tudo aqui — A batida das folhas sobre a mesa, sendo alinhadas em um grosso calhamaço, tiraram o doutor Fay de sua inércia. Ao ouvir as palavras “camuflar” e “pseudônimos”, passou a considerar que ao final daquele dia talvez pudesse saborear ele mesmo o seu próprio fini, ainda que em língua diversa.

—E o que fará com estas anotações? — A pergunta que outrora soara mecânica, ganha um timbre novo, e um leve tremor.

—A bem da verdade, doutor, ainda não estou certo. — Tirou os olhos dos papéis e encarou o homem ao seu lado. —Cogitei ler fragmentos ao júri, mas vendo agora, tudo finalizado, talvez seja melhor preservar a minha amada enquanto viva. 

—Ao júri? — A pergunta sai mais alta do que planejara. 

—Sim, já falamos sobre isso, tenho certeza, meu caro Fake, digo, Fay. O julgamento se aproxima, e eu não tenho ilusões quanto a salvar minha cabeça, mas estas páginas podem ao menos salvar minha alma, não concorda?

Ciente de que a pergunta não aguardava uma resposta, fosse sincera ou não, balança de leve a cabeça e retorna à sua cadeira habitual, ciente também de que se entusiasmara cedo demais.

—O que importa agora é que estas recordações irão imortalizar a minha adorada Lo, para sempre, por gerações e gerações. — Abre e fecha insistentemente pequenas gavetas à sua frente. —Reuniria alguns cartões postais, mas não os encontro em parte alguma. E fotografias, ah as fotografias, se eu as tivesse. — Alisando os papéis à sua frente como a um animal de estimação, um cão, um gato, um macaco, continua: —  minha nynphette em seu estado mais pueril, sua pele macia sem a menor macha, os seios em botão, as axilas pontilhadas. 

—Bem, falemos sobre o tal julgamento.— Bate as mãos sobre as coxas, tentando recobrar a atenção de Humbert e recolocar a conversa no trilho de sua estratégia. — O que o senhor fez?

—Ora, meu caro, o que eu fiz foi alvejar algumas vezes, nem sempre de forma certeira, Clare Quilty por ter sequestrado minha menina. Um pai precisa defender sua filha, e o júri saberá que não havia outra opção senão a que escolhi. — Tira as mãos do calhamaço. —Meus outros erros, bem, devo dizer que eu mesmo condenaria Humbert Humbert a pelo menos 35 anos de reclusão. 

—Primeiramente, conte-me sobre o dia do assassinato.

—Ah sim, foi um triste confronto que durou mais de uma hora, a última peça encenada por Guilty. Quilty.  Dirigi até a casa dele com o Amigo, minha pistola, agasalhado em meu bolso. Ele estava bastante confuso, por alguma droga, e eu, pelo gim. Confundiu-me com um tal da telefônica, com um agente literário, ofereceu-se para comprar o Amigo e depois, perto do grand moment,  sugeriu que eu me mudasse para aquela casa. Não me agradaria morar ali. Fiz com que lesse a sentença poética que eu levara comigo. Imagine só, rolamos pelo chão, um sobre o outro e sobre nós mesmos, então o alvejei algumas vezes, uma delas enquanto ele executava acordes histéricos em seu piano. Devo dizer, sem remorso, doutor, que ele sangrou majestosamente.

—Uma cena um tanto bizarra —  o doutor Fay interrompe, referindo-se àquela narração que conhecia de cor. — Creio que tenha criado essa sucessão de ações para seu livro?

—Meu caro Ray, digo, Fay, tudo o que está nestas páginas ocorreu-me. Não só a mim, como à minha adorada Lo, à sua predecessora Annabele e a tantos outros que poderá conhecer no transcorrer da leitura.

Fay ajeita-se na cadeira de modo a posicionar o corpo na exata direção de seu interlocutor e eleva o tom de voz:

—Humbert, o dramaturgo Clare Quilty nunca existiu.— Com gestos igualmente exagerados, continua: —Não podemos retornar sempre ao mesmo ponto. O senhor precisa aceitar que ele talvez seja uma alucinação, uma versão do senhor mesmo.

— Clare, o Imprevisível, o gorducho, com seu bigodinho pincelado e a camisa sempre aberta não existe mais mesmo porque era preciso escolher entre mim e ele. E a escolha foi feita.  

Fay, deixa cair a mão sobre a perna, num gesto quase involuntário.

— Antes de sequestrar a minha menina, minha adorada ninfeta, nos perseguiu em nossa última viagem, com uma facilidade estonteante de trocar de veículo, um conversível creme, um pequeno sedã azul-horizonte, outro cinza-mar, cinza-areia e percorreu todo o arco-íris de cores claras e opacas. Inclusive fui capaz de anotar as placas. Na época não sabia ainda ser ele, mas hoje, sei.

— O senhor tem certeza de que ele esteve em todos estes lugares? — pergunta de forma objetiva.

Oui. Retornei aos motéis e procurei pelo rastro do demônio em todas as nossas paradas. Com um sorriso insinuante, inventei pretextos para folhear os registros de hóspedes e encontrei várias pistas de que ele estava em nosso encalço. 

—O nome dele estava nos livros? — Na entonação, a certeza da resposta.

—Não. O pervertido de certa maneira anteviu a minha investigação e plantou pseudônimos ofensivos dirigidos a mim. Notei seus t’s, w’s e l’s peculiares e as referências sutis que deixavam claros a sua personalidade, seu tipo de humor, suas alusões cultas. 

—Era neste ponto que eu queria chegar, Humbert. Também fizemos nossas pesquisas e constatamos que o senhor realmente esteve nestes hotéis, motéis e pensões no exato período. 

Humbert encara o médico e gesticula como quem diz: está vendo, não falei. —Preciso assinalar em especial o Caçadores Encantados. 

— Verificamos as tais identificações peculiares às quais se refere, as encontramos, como relata, destacadas nos livros de registro. Mas não encontramos nenhuma assinatura ou endereço referentes ao senhor e a sua… Dolores Haze. 

—Mas o senhor acaba de me confirmar que estive lá.

— Justamente. Alguns dos atendentes descreveram o senhor. Um homem de meia idade.

— De excepcional boa aparência, alto, cabelos sedosos e escuros, olhos sedutores — completa Humbert, de forma afetada, antes de ser interrompido.

—Sozinho.

Humbert sustenta o olhar, com um leve tremer das pálpebras.

—Sozinho, senhor Humbert. Em todos os motéis onde esteve entre 5 de julho e 18 de novembro, o senhor não foi visto na companhia de ninguém, de nenhuma ninf.— A palavra fica presa entre os dentes. — Nenhuma garota. Chegou e saiu sozinho. Inclusive no referido Caçadores Encantados.

Humvert levanta-se e caminha pelo quarto. 

— Doutor, conheço bem os truques de seu ofício, tentando afogar-me em devaneios. Minha adorada Lolita, com sua pele macia e sua boca flamejante, acompanhou-me, como minha filha, é claro.— Vai até a janela. —Nunca fui rico, fomos obrigados a compartilhar o quarto, a cama.— Um breve silêncio. —Julga-me, como o júri me julgará. E eu seria um canalha se negasse a minha natureza maldita.

—O senhor entendeu que Quilty não existe e que o senhor não é um assassino?

Observando além da vidraça, se demora a responder.

—Assimilei a sua ideia. Permita-me parabenizá-lo. A propósito, é meu advogado? 

Já perdendo a paciência e prestes a perder a postura que sua profissão exige, o médico dirige-se à porta. 

— Até manhã Humbert., até amanhã. 

Antes que saísse, o adverte:

—Não tenha ilusões, caro Fay, eu já não as tenho. E o júri não há de ser tão ingênuo.

Algumas horas mais tarde, três batidinhas na porta. 

— Senhor Humbert.

—Louise? Entre.

—Não me chame assim, senhor. Já lhe disse que me nome não é esse.

—Seja qual for seu nome, não importa, que cesta é essa?

—Deixaram para o senhor.

—Quem deixou? Foi ela? Dolores, Dolly, Lolita, minha Lo?

Antes que a mulher possa dar a resposta que não possuía, arranca a cesta de suas mãos e desembesta porta afora. Ao encontrar o salão de entrada vazio, debruça-se sobre o balcão, assustando a moça, que se levanta com os olhos arregalados. 

—Quem entregou esta cesta? Ela disse o nome? Lolita? Minha Lo?

—Foi um homem, senhor.

—Homem? Dick? Ele veio com ela? E o bebê?

—Só um homem, senhor, acho que era o motorista. 

—O desgraçado deve tê-la abandona e partido seu pobre coração. Uma criança. Conseguiu vê-la no veículo? 

—Não vi ninguém, senhor.

Entre a desilusão do encontro perdido e a esperança de uma chance futura, volta sua atenção à cesta, tentando farejar em seu conteúdo o perfume de sua ninfeta. 

— Bananas, bananas — grita, deixando a recepcão. 

No dia seguinte, quando o doutor Fay entra no quarto, percebe as frutas intactas sobre a mesa e Humbert ainda entre os lençóis. 

—Foi ela, Fay. Minha Lo., veio do Alasca e agora está aqui tão perto, posso sentir sua doce presença aqui nesta mesma cidade. Ontem trouxe-me frutas. Dia desses trará sua pele alva alascaína, seu nariz arrebitado com cinco sardas assimétricas. O doce adieu antes do meu julgamento. Darei a ela estas memórias, para que leia todo esse estado de coisas que registrei, com seus olhos acinzentados dissimuladamente surpresos diante de seu próprio passado.

Sem rodeios, o doutor, fecha a porta atrás de si, pronto para acabar com seu lépido delírio. 

—Não era a Dolores, o senhor sabe.

—Mas que insolente. Não quero conversar hoje. Ficarei aqui com minhas frutas, intocadas, invioladas. Por favor, saia.

—O senhor sabe quem era. — Insiste.

—A bem da verdade sei. Minha adorada filhinha.

—Sua esposa.

—Rita? Não creio, já está nos braços de outro.

—Refiro-me a Charlotte, sua atual esposa. 

Humbert solta um “ah” jocoso e um risinho de escárnio.

—Impossível. Desgraçadamente, ou nem tanto, a pobre Charlotte, Lady Hum, com o temperamento possessivo que lhe era próprio, ensandecidamente enciumada, morreu, atropelada, com algumas cartas na mão. Foi o destino quem quis. — Ajeita o travesseiro às suas costas. —Permita-me confessar, estou condenado de qualquer maneira, já pensei eu mesmo em tirar lhe a vida, mas não fui capaz de convencer-me a cometer tal crime. Veja só, na época, não era ainda um assassino.

Caminhando em direção à cadeira, cansado, mas com uma pontinha de esperança, o doutor Fay finge entusiasmo, daqueles que despejamos sobre fatos inéditos, embora não o fossem. 

—Conte-me um pouco sobre este dia. O do atropelamento. — Sua voz escapa ansiosa, assim como o balançar das mãos.

—Era um dia tão verde e azul, em que tudo estava dando certo. Não entrarei a fundo no que ocorreu antes de retornar à casa, mas estive com um médico, em busca de pílulas violáceas para dormir. 

—Sim. Fale-me sobre Charlotte.

—Quando cheguei em casa, ela escrevia cartas. Parou assim que entrei, chamou-me de monstro, havia lido minhas confissões em um diário, desvelava-se meu amor secreto. Disse que iria embora naquela mesma noite. Subi ao quarto e busquei o diário violado. 

—Onde estava Charlotte quando voltou ao andar inferior? — A ansiedade é tanta, que o doutor Fay quase responde ele próprio à sua indagação.

—Ao telefone que ficava junto à entrada da sala. 

—Com quem ela falava, Humbert? Com quem?

—Não sei, não pude ouvir, algo trivial, talvez uma encomenda.

—O que ela disse ao senhor depois de desligar o telefone? 

—O que ela disse eu não me lembro talvez porque estivesse eu ansioso para falar. Disse a ela que estava arruinando nossas vidas, que as anotações eram para um romance que eu escreveria, mas ela não dizia nada. Fui até a cozinha pegar os copos com uísque que havia preparado para nós. 

—O telefone, Humbert, o telefone tocou novamente, não tocou?

—Sim, era Leslie Tomson dizendo que Charlotte, Mlle Humbert, havia sido atropelada. Respondi que ela estava a salvo na sala, mas ela não estava.

—Então, ligaram avisando que Charlotte, que poucos minutos antes estava com o senhor, havia sido atropelada a metros dali?

—Exatamente.

—A polícia chegou ao local antes que o senhor percebesse a ausência de sua esposa na sala, enquanto buscava os copos na cozinha? 

—Disseram-me que chegaram ao local apenas um minuto após o acidente porque vinham multando carros nas imediações. 

Diante de tal relato, o doutor umedece os lábios e prepara-se, com certa ansiedade, para jogar sobre o paciente o que há tempos lhe coçava a ponta da língua.

—Tantas vezes tentei fazer com que o senhor se lembrasse, aguardando que chegasse sozinho à memória deste momento fatídico. Hoje, declaro-me um médico derrotado em minhas convicções, incapaz em minhas obrigações juradas há tantos anos. — Aproxima-se. — Senhor Humbert. 

—Humbert Humbert, por favor. Ao menos uma vez, Humbert Humbert.

—Humbert Humbert quem morreu atropelada naquele dia ao retornar antecipadamente do acampamento escolar foi Dolores Haze. O senhor não cometeu crime algum. Está a salvo. Todos. A salvo.

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Finalistas, FanFic - Grupo 2.