EntreContos

Detox Literário.

Espada na Escuridão (Jorge Ribeiro Rodrigues Martins)

O medo pertence ao inverno, quando o sol esconde o rosto durante anos e os Outros se movem pelos bosques. Eles eram coisas frias que odiavam o ferro, o fogo, o toque do sol e todas as criaturas com sangue quente nas veias.

 

O barulho do vento lembrava a lamúria de uma criança e, enquanto se aventurava pelo branco onipresente da nevasca, Nymeron pôde jurar que não se tratava de mera impressão e que alguma criança jazia a chorar por perto. Era bem possível. Entre os ventos do inverno, seria difícil haver uma criança que estivesse viva e não chorasse. Para ver suas lágrimas congelarem ainda nas bochechas. Quando avistou a cabana arruinada, já estava a poucos metros dela. A neve como caía não permitia horizontes. Pouco antes dali havia tropeçado em um cadáver meio soterrado, o que o fez acelerar o passo. Tudo acontece de repente. Com isso em mente e uma mão em torno do punho da espada, adentrou.

A mulher encolhida contra o canto oposto da entrada se virou de sobressalto. Apontava-lhe um punhal. Nymeron nem sequer insinuou puxar a espada. Livrou a mão da arma e sentou numa bancada próxima à entrada, preservando a mesma distância entre os dois. Entre os três. O monte de mantos de peles que cobria a mulher se mexeu e daquela bagunça brotou uma cabeça tomada por cachos castanhos salpicados de neve. O garoto se virou em sua direção, mostrando um rosto magro, com dois grandes olhos que piscaram várias vezes ao verem-no. O sorriso de Nymeron era invisível por conta do cachecol levantado até o nariz, mas o menino percebeu e sorriu também. A mulher atrás dele não abaixou o punhal.

─ Baixe isso! Não vê o manto dele? É preto! Ele é um patrulheiro, um irmão da Patrulha da Noite, da Muralha! 

A mulher não cedeu. O sorriso nos lábios de Nymeron morreu, não por ela, mas pelo que tinha escutado. O garoto não desanimou.

─ Diga a ela, sor, diga que vem do Norte, que vem da Muralha e está aqui para nos proteger!

Não sabia se o rapaz já havia visto outro irmão da Patrulha ou se apenas tivera a sorte de escutar o que ainda se falava de bom daqueles que vestiam o preto e serviam o restante de suas vidas na Muralha. Fosse como fosse, a esperança nos olhos da criança era genuína. Não sem meditar por um instante, Nymeron concluiu que era uma inocência sem lugar sob as neves que caíam.

─ Sim, rapaz. Eu era um irmão juramentado da Patrulha da Noite, mas a Patrulha acabou… e a Muralha caiu.

A mulher enfim abaixou o punhal, num movimento lento, quase como se o braço estivesse adormecendo. Ela também tinha esperança? Notou, agora podendo enxerga-la por detrás da arma que antes apontava em sua direção, que era uma mulher, mas uma mulher recente. Não devia ter mais do que quinze anos. O que achou ser o irmãozinho dela o contemplava com um sorriso constrangido e um olhar confuso. Nymeron baixou o cachecol. Não se ofendeu pela surpresa dos irmãos. Era um roinar e todos os seus traços eram evidência disso: lábios grossos e escuros, pele negra e cabelos pretos e volumosos, estes ainda ocultos pelo capuz. A argola dourada que usava no lóbulo esquerdo também devia ser novidade para os dois. Sorriu.

─ Vocês nortenhos não têm muito estilo, é bem verdade. Quando cheguei na Muralha, em pouco tempo peguei um apelido: Dornense. Não tinha nem mencionado que vinha de Dorne. Nasci em Sangueverde, tão ao sul de Westeros como pode ser… mas não é da minha vida que querem saber, não é?

Certamente ouviriam, caso contasse. O garoto não piscara uma única vez desde que começara a falar, numa espécie de curiosidade devota. Já a irmã mirava algum ponto no chão. Depois de um longo suspiro, que formou uma nuvem translúcida à frente da sua boca, Nymeron contou-lhes tudo o que havia acontecido na última semana. Contou-lhes como a Muralha, um extenso muro de gelo maciço, em duzentos metros de altura e quilômetros de largura, o limite entre a civilização dos Sete Reinos e a selvageria do extremo norte, caiu. E, junto com ela, a Patrulha da Noite.

─ A primeira coisa que precisam saber é que na Patrulha os berrantes trazem mensagens. Um toque longo significa patrulheiros à vista. Dois toques, selvagens. E três… os Outros

O garoto se retraiu e Nymeron hesitou. Mas agora a irmã o escutava e se por algum milagre dos deuses – fossem os dos rios, os sete ou os antigos – eles sobrevivessem, seria por causa dela. Agora ela estava ouvindo. Ele continuou.

─ Alguns dias depois do assassinato do Senhor Comandante da Patrulha, Jon Snow, ouvimos toques de berrante. Três nossos… mas então um quarto, longo e fechado, como um lamento no meio da escuridão. Ueeeeeeeeaaaaaaaunnnn. A situação na Muralha não era nem um pouco boa quando isso aconteceu. Eu conhecia Jon Snow. Lutamos contra os thenn em Castelo Negro e, depois, quando seguramos a Muralha contra Mance Rayder e seus milhares de selvagens e os gigantes! Sim, menino, existem gigantes e eles são tão assustadores como dizem… e são piores agora, que todos morreram.

“Votei em Snow para Senhor Comandante e comemorei sua eleição. Torci o nariz quando ele decidiu deixar os selvagens passarem pela Muralha depois que os derrotamos com ajuda de Stannis Baratheon. Ele dizia que tínhamos um inimigo em comum. Eu não podia imaginar nada pior do que os gigantes e seus mamutes, mas eu conhecia as histórias e acreditava no que ele dizia. Além do mais, entre várias canecas de cerveja os selvagens se tornavam boa companhia como qualquer outra e, pelos deuses, tinham mulheres… mas não foram todos que pensaram assim. Quando o Senhor Comandante decidiu resgatar selvagens em Durolar, provocou insatisfação e a palavra que corria entre os irmãos era de insubordinação. O próprio Jon comandaria a patrulha e eu estava entre os voluntários para segui-lo, mas ele nos convocou todos no Salão dos Escudos e anunciou a mudança de planos. Anunciou que abandonaria a Patrulha e chamou quem quisesse acompanha-lo para lutar em Winterfell, onde tinha crescido. Não apoiei. Assim como ele, eu havia feito votos, e nos deixar sem comando em uma hora dessas… Bowen Marsh e seu grupo de traidores esfaquearam o Senhor Comandante e o deixaram para morrer.”

Quando a traição ocorreu, Nymeron se lembrava de um gigante que havia assassinado um homem da patrulha. No alvoroço, quase não notaram o corpo de Jon Snow caído na neve. Ele já estava sem vida quando o acharam e não foi difícil descobrir quem havia feito, já que o próprio Bowen Marsh se proclamou Comandante por enquanto que uma nova eleição não fosse feita. A bruxa vermelha, Melisandre, queria o corpo de Snow, mas assim que foi solto, o lobo gigante que o acompanhava para cima e para baixo se pôs em guarda ao lado do cadáver e não deixou que ninguém se aproximasse. Jon chamava o lobo de Fantasma. Nymeron continuou.

─ Os patrulheiros ficaram divididos entre si. Já não bastasse, havia selvagens e a guarnição da rainha… só vencemos os selvagens com ajuda de Stannis, mas este um foi guerrear em Winterfell para submeter quem não se ajoelhava perante ele e para trás deixou sua filha doente e a esposa bigoduda, que se chamava de rainha e andava colada no traseiro de sua bruxa vermelha… quando Jon Snow morreu, todos começaram a brigar, eu saquei minha espada e a apontei contra meus próprios irmãos. Um dos traidores de Marsh tinha roubado a espada do Senhor Comandante. Era uma espada para lordes, de aço valiriano e com o botão esculpido em formato da cabeça de um lobo branco. Chamava-se Garralonga… sim, é esta espada que carrego comigo, às vezes esqueço que a tenho. Eu a tirei daquele garoto, pois o certo era que Snow fosse queimado com a própria espada, mas então…

Após o quarto e inesperado toque de berrante, seguiu-se primeiro uma quietude. Os homens, que antes gritavam e se amaldiçoavam, brandindo suas armas e preparados para tirarem sangue uns dos outros, calaram-se e tudo que se pôde ouvir foi o sopro agourento do vento. O primeiro estalo soou alto, como o puxar de uma corda. Os beligerantes olharam uns para os outros, ao redor, para o chão e, por último, para o alto. Então repararam na longa rachadura que marcava a Muralha de baixo à cima. Ouviram-se novos estalidos na medida em que novas ramificações se desenhavam ao longo da superfície azulada da Muralha. Alguém gritou que ia cair. Profecia. A enormes pedaços, a Muralha ruiu. Nymeron fez como todos os outros e correu. Olhou para o lado e constatou que até onde seus olhos enxergavam, a Muralha estava caindo. Quando os primeiros blocos alcançaram o chão, a neve se levantou e tomou o rumo do vento, escondendo todo o caos numa neblina branca e fina.

─ Fui tomado pela neve e pude ouvir apenas o alvoroço de gritos, relinchos e o estrondo da queda… em algum momento eu caí. Demorei a me levantar, mas quando eu me pus de pé, segui tateando e achei um irmão que por um milagre conseguiu juntar cavalos. Montei em um deles, formamos um grupo, queríamos procurar os outros, organizar… mas a Muralha não caiu, ela foi derrubada. Do silêncio que se seguiu à queda, ouvíamos um ou outro ferido gritar. Os gritos ficaram cada vez mais frequentes até que todos os homens estivessem gritando. Éramos quatro e quatro fugimos. Olhei para trás enquanto cavalgava e vi… vi, entre a neblina enevoada, o brilho dos olhos azuis. Os Outros e seu exército de mortos, onde quer que eu olhasse, aquelas silhuetas se levantavam… e eu sabia que viriam por nós.

“Cavalgamos até o amanhecer e depois cavalgamos mais, até alcançarmos Winterfell. Procurávamos Stannis, os Bolton e os lordes nortenhos, quem quer que pudesse nos ajudar. Encontramos apenas cadáveres enterrados na neve e um castelo fechado. Não sei o que aconteceu em Winterfell e não desejo saber. Pegamos o que por algum milagre sobrou de comida no acampamento de Stannis e cavalgamos para o Sul. Um de nós ficou para trás, implorando para que o deixassem entrar no castelo. Um morreu para o frio e eu e o outro decidimos nos separar. Ele tinha família nas Vilas Acidentadas ou algo assim. Em nenhum momento dessa jornada eu cavalguei sem estar acompanhado de nevasca e do frio ou podendo enxergar mais do que alguns palmos à minha frente… meu cavalo quebrou uma pata e eu o deixei para os lobos. Comecei a andar.”

Não era toda a verdade. Depois do fiasco em Winterfell, Nymeron acordou para o som do que parecia ser uma discussão e se levantou de vez ao ouvir o grito. Os dois irmãos que o acompanhavam estavam engalfinhados. Um caiu no chão, ferido, e o outro levantou as mãos quando Nymeron apontou-lhe a espada de Jon Snow. Esse outro tinha um punhal ensanguentado numa das mãos, seu cavalo estava solto e a bolsa onde reuniram a comida estava na sela. Quando ele atacou, Nymeron evitou seu golpe e, contra-atacando de mal jeito, por pouco não decapitou o rapaz, que só terminou de morrer no chão. Ao que tinha sido apunhalado, fez o favor de esperar ao seu lado enquanto morria… e depois os dois mortos levantaram, seus olhos brilharam azuis e Nymeron fugiu. Agora que terminara de contar, sua mente voltava àquele rapaz que ficara para trás, defronte aos portões de Winterfell. Ele argumentara que os senhores daquele castelo eram protetores do Norte.

─ Nós somos o escudo dos reinos dos homens…

Os Stark protegiam o Norte. Nymeron havia pensado. Mas estão todos mortos e Jon Snow foi o último deles. Não deu esses detalhes aos dois irmãos.

O que antes era uma curiosidade admirada agora se transformara em horror no rosto do menino. A irmã se limitou a apertar o irmão contra o peito. Quanto eu devo ter andado? Se alcançara os pântanos, já estava bem a sul de Winterfell. Mesmo aqui, a neve cega, enterra e sufoca. Por um tempo, preferiu o silêncio que sucedeu sua narração, mas quando o cinza no céu deu lugar à escuridão estrelada, disse algo.

─ Durmam, mas não se acostumem. Amanhã partiremos por caminhos diferentes e vocês precisam saber que, caso ladrões ou o frio não te matem, a noite matará. Pois é à noite que os Outros atacam. Farei vigília esta noite.

A irmã falou. A voz ainda é de menina.

─ Para onde você vai?

─ Para casa… para o Sul. Quanto mais para o Sul eu puder.

Aproveitou o sono dos irmãos para examinar a construção precária que os abrigavam. Ficava à beira da estrada e a olhando constatou que estava perigosamente coberta de neve. Deixou suas coisas na parte da bancada longe dos dois jovens adormecidos. Suas tentativas de retirar a neve do topo da cabana foram todas frustradas. Um frio mais duro do que podia tolerar o convenceu a entrar e estava para alcançar a entrada da cabana quando distinguiu o que achou ser uma silhueta no meio da nevasca. A sombra poderia ser um truque da escuridão, mas não os dois brilhos azuis. Eu tropecei num cadáver antes de chegar aqui

Descoberto, o morto não se moveu de onde estava. Nymeron começou a caminhar para trás, olhos fixos nos olhos mortos que o vigiavam da escuridão. Sua primeira intenção era alcançar a espada, mas se lembrou dos irmãos. O menino despertara. Seus grandes olhos estavam bem abertos enquanto ele assistia à morte da irmã. O antigo patrulheiro gritou. 

O que escutara como lendas, Nymeron veio a conhecer de perto no Norte. Gigantes, os Outros… diziam eles por vezes montavam em cavalos cadavéricos, mas que também chegavam montados em aranhas do tamanho de lobos gigantes, de corpo esbranquiçado como se fossem feitas de cristal. Uma dessas, até aquele preciso momento lendárias, tinha as oito patas articuladas num abraço mortal em torno da mulher. O traseiro volumoso, translúcido, apontava para cima enquanto afundava suas presas na ferida aberta que era o abdômen da garota. Para seu horror, Nymeron percebeu que a menina também estava acordada. Seus olhos úmidos tremiam, mas ela não aparentava dor. Ao invés de gritar, os lábios se moviam para pronunciar algo, sem emitir: fuja. Levantou-se, içou a bolsa no ombro, pegou Garralonga com uma mão e com a outra apanhou o menino. Ele era leve, mas estava rijo como pedra e só conseguiu leva-lo com uma corridinha desajeitada. Foi fora da cabana que o garoto começou a se debater, repetindo aos gritos o que Nymeron achou ser o nome da irmã. 

O menino escapuliu, Nymeron se desiquilibrou e caiu. Viu o rapazinho se levantar e empacar. Certamente correria de volta para a irmã, mas entre ele e a cabana, uma dúzia de vultos o encaravam com brilhantes olhos azuis. Estavam próximos o suficiente para deixarem de ser possíveis truques da escuridão; o que Nymeron e o garoto viam à frente deles era uma fileira de cadáveres, parados e de pé. Todos usavam traje de malha, alguns ainda envoltos em mantos com estandartes. Eis o desfecho de Winterfell. Os olhos de Nymeron se detiveram no monstro que centralizava a fileira. Era branco da cor de gelo, na pele e nos cabelos, com fantasmagóricos olhos azuis bruxuleando nas órbitas. O rosto enrugado estava repuxado por um sorriso sutil, mas horroroso. Uma armadura cristalina protegia seu corpo esguio e uma espada de gelo, de lâmina fina e translúcida, ocupava uma de suas mãos. Os olhos da criatura se detiveram no menino e foi na direção dele que o Outro começou a caminhar.

Nymeron pôs-se de pé para fugir. Deu mesmo os primeiros passos para trás, mas sem conseguir tirar os olhos do menino, ali petrificado, enquanto um monstro invernal vinha ao seu alcance. O que adianta se eu me pôr entre os dois, só para me tornar mais um de seus soldados mortos? Lembrou-se do garoto que esperou à porta de Winterfell. O próximo passo de Nymeron foi em frente.

─ Sou o fogo que arde contra o frio ─ não foi mais que um sussurro, mas o Outro escutou e aquilo o deteve ─ a luz que traz consigo a alvorada.

O peso e o tamanho da espada de Jon Snow não eram uns aos quais Nymeron estava acostumado e suas mãos estavam dormentes, então puxou a espada desajeitadamente. O garoto estava entre os dois, o irmão juramentado andou para a esquerda e, para sua surpresa, como seria em um duelo, o Outro o acompanhou. Atrás dos combatentes, os mortos não se moveram ou fizeram qualquer barulho. O que se podia ouvir era o sibilo do vento. A neve caía suave, mas incessante, ondulando ao redor do vivo e do monstro.

─ Sou o escudo que defende os reinos dos homens. Dou a minha vida e a minha honra à Patrulha da Noite, por esta noite e por todas. ─ O patrulheiro se posicionou. ─ Eu sou a espada na escuridão.

O Outro, graças aos deuses, deixou de sorrir. Ele atacou, aço e gelo se chocaram. Antes que pudesse afasta-lo, o Outro se recolheu e veio pela sua garganta. O patrulheiro deteve esse golpe também, mas a custo do próprio equilíbrio. Recuou alguns passos atrapalhados com o seu oponente o perseguindo. O Outro saltou e antes que seus pés tocassem o chão, baixou a lâmina em sua direção. Nymeron, que mal estava de pé, ainda conseguiu levar sua espada de encontro ao ataque. A criatura pousou de um lado e o patrulheiro caiu do outro.

Ainda se levantando, teve que desviar de um novo golpe. A lâmina de gelo tirou sangue de sua coxa esquerda e, em seguida, fez um corte superficial na região das costelas. O Outro girou em torno de si próprio e acertou seu rosto com o punho da espada de gelo. Nymeron caiu de joelhos, mais consciente do sangue que amargava sua língua do que do golpe que caía sobre si. Foi por instinto que levantou Garralonga, evitando que a espada daquela coisa encontrasse o topo de sua cabeça. O Outro se afastou com passos graciosos, Nymeron se obrigou a ficar de pé.

Sentia-se cansado, sua respiração pesada se congelava diante dos seus olhos e o frio parecia encontrar caminho pelas suas feridas para correr em sua carne, em seus ossos. O máximo que fez contra o novo golpe foi manter sua espada entre os dois. Os mortos vigiavam, não via sinal do garoto. Ele fugiu…

Caiu sobre um joelho, mantendo a espada do Senhor Comandante levantada o suficiente para que não tocasse o chão. Salvei o garoto. Acima de si, brilhavam olhos azuis, o pouco de luz oferecida pela noite resplandeceu na lâmina frígida do Outro. O rosto da criatura embranqueceu por completo e ela deu dois passos para trás, com sua espada de gelo mais para trás do que para cima. Num salto desajeitado e desesperado, Nymeron se levantou com a espada em riste, até passar um terço da lâmina pelo pescoço da criatura.

O Outro abriu a boca para gritar, mas sua garganta se fora. No lugar disso, Nymeron escutou algo quebrar e se espantou ao ver a pele da criatura rachar e se liquefazer numa substância leitosa. Sua espada ficou gelada o suficiente para que pudesse sentir por através das luvas e uma gosma azul escorria pela lâmina. Pele, carne e ossos, tudo branco como gelo e agora como leite. Nymeron achou o garoto atrás de si, na mesma posição em que havia atirado a bola de neve. Colocou-o sobre o ombro e correu. Permitiu-se olhar para trás e avistou a mesma fileira de olhos azuis. Os mortos não se moveram, exceto por um deles, que só então acresceu a fila. Tinha saído da cabana.

Evitou a estrada e tomou o caminho da mata. Correu até avistar o céu mais cinza do que negro. Deixou-se cair sobre uma árvore e o menino escorregou por entre as suas pernas. Olharam-se. O menino tinha lágrimas congeladas abaixo dos olhos, não disse palavra alguma. Aconselhou que ele dormisse e em pouco tempo o garoto de fato adormeceu. Cobriu o corpo dele com seu manto negro. Nymeron recostou o corpo sobre o tronco da árvore e então se permitiu chorar. Assim como as do garoto, suas lágrimas tornaram-se cristais sob as bochechas. Pensou em Dorne, lembrou do sol e do calor, algo tão longínquo que pareceu irreal. Com todo o frio que sentia, a própria ideia de calor pareceu mentira. Olhou para o menino adormecido sobre o seu peito.

─ O escudo dos reinos dos homens…

Foi pensando nos rios de sua infância que Nymeron adormeceu. Entretanto, de todas as lendas obscuras que aprendera e que agora tentavam mata-lo, sonhou com outras histórias que se contavam em Dorne. Enquanto dormia, Nymeron sonhou com dragões.

E Então? O que achou?

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.