EntreContos

Detox Literário.

Por Outros Trilhos (Mikhail K.)

Um pequeno passo à frente. Sente o ar mudar: o inverno finalmente chegou. O trem também logo chegará, e então será a hora de partir. De vez. 

É isso mesmo o que pretende? Assistir ao extinguir da chama que ainda se abriga nas páginas onduladas pelo tempo? 

Por um breve momento, antevê a eternidade e segue ao encontro das memórias, como se assim pudesse empurrar os ponteiros em sentido anti-horário. Mal percebe a antes inflexível determinação tornar-se invalidada pela culpa, testemunha de pecados que nem se lembra de haver cometido. Mas os outros, sim. Todos lembram. O alto círculo da sociedade em São Petersburgo, seja lá o que isso queira dizer, mantém o registro de cada transgressão.  

O início de tudo, se houve de fato um estopim, foi a conversa inocente entre duas mulheres durante uma viagem de trem. A breve trajetória percorrida mais em sua mente do que na realidade. Foi como aconteceu. A senhora encantou-se com a beleza e os modos da jovem sentada à janela. Palavras e elogios foram trocados, e também alguma informação sobre família e conhecidos em comum. Depois, o desembarque apressado e o alvoroço de olhares até então desconhecidos. Um confronto que se repetiu em outros encontros sem o consentimento do bom senso. 

Acredita em destino? Em amor à primeira vista?  

Respira fundo, recolhe passo e pensamento. Sabe que remexer nas gavetas do passado não deve ser o mais sensato a se fazer agora. O frio embaralha o raciocínio e esconde possibilidades. Há dúvidas quanto à existência de outras opções além da já formulada durante as noites insones. Concentra-se na respiração, tentando manter um ritmo regular do trafegar do ar. 

Desde o amanhecer, questiona-se sobre as razões que acabaram por desenhar o desfecho aguardado, o fim da linha. Todos os envolvidos parecem ter contribuído de alguma forma para que se chegasse a esse acerto de contas. Cada qual com a sua motivação.

Como uma mulher considerada bem casada e usufruindo de excelente posição social, pôde se render a um romance de folhetim? Como uma Madame Bovary entediada, uma Marguerite abrindo mão das camélias, uma Capitu em revolta tumular, jurando inocência. Mas não é sobre elas que quero falar. Preste atenção, por favor. Dizem que a história se repete…  

 Um caso amoroso fadado ao desbotar de cores, respingos de tinta que certamente recairiam em qualquer reputação. A paixão seria o suficiente para manter a relação? Talvez fosse apenas a causa da inveja dos demais, dos que se mantinham ao redor como insetos atraídos pelo brilho de uma lâmpada. E os apaixonados, vagando em círculos sem se darem conta dos inimigos invisíveis. Os que se diziam do bem, e os que nem lhes queriam mal. Cada um desempenhando o papel que lhe cabia.  

Veja quem se movimenta em paralelo às linhas férreas. Sente simpatia por quem vê? E quem afinal você vê?  

As lembranças caem como flocos de neve, empalidecendo o sorriso que ainda guarda. Sente saudades da alegria espalhada em folhas de um diário jamais escrito.  O frio desperta sua consciência e tenta esmiuçar os detalhes que já não pode ignorar. O ponto de queda. A falha derradeira, o engano que desatou o nó. O que fez tudo se desapegar do querer. 

Que características considera atraentes aos amantes? O que seduz um homem pode também cativar uma mulher? Alguém de caráter reto e amoroso, capaz de afugentar todas as inseguranças. Talvez fosse o que ambos buscavam. Enganaram-se.     

Um estranho torpor faz com que as emoções embacem o raciocínio, reduzindo os reflexos a um piscar de olhos. Nada parece reter sentido algum. O que consola é saber que tudo será logo esquecido. A dor transformada em alívio. Tudo acabado. Tudo em paz.  

Pense no que você faria de pior. Mataria e chutaria um cavalo? Trairia quem lhe deu abrigo? E sendo assim perverso, alguém que não mereceria ser seguido por um exército de anjos, mas talvez por uma legião de demônios, o que faria? Choraria aos pés de quem já amou? 

Não é hora de se debater em questionamentos. Nunca apreciou debates filosóficos, e os próprios conflitos prefere apenas ignorar. Pouco lhe interessa o que se passa com a sociedade e suas questões antropológicas. Considera o assunto inútil e bastante enfadonho. Prefere dançar a analisar qualquer comportamento, mesmo sendo o seu. Assume a própria vaidade como um direito e não se repreende por isso.     

Parece injusto resumir tudo a um ego exacerbado, que talvez só tenha aprendido a conjugar verbos em primeira pessoa. Mas o que você aponta como egoísmo, narcisismo descompensado, pode significar amor-próprio. Ou talvez fosse assim. Agora já não se sabe ao certo. 

 Absorve os minutos que resgatam provas de um amor que seguiu o curso da clandestinidade. Dias de abandono alternados com noites de promessas. A sociedade acompanhando a ascensão e queda dos enamorados.  Anna, esposa e mãe, uma jovem desde sempre admirada por sua beleza e desenvoltura. Vronski, um atraente cavalheiro de pouca consciência. União improvável.  

Um homem, que se proclama imperador de seus atos e emoções, poderia perder de repente o juízo? Talvez se uma mulher fosse capaz de vencê-lo nesse jogo… Ou até mesmo esquecê-lo. O que acha?

O romance perdurou mais do que o pretendido, rendendo delírios cúmplices de mocinhas e matronas. Casais de respeito, e toda essa gente que se diz de bem, fingem não se perturbar com a felicidade alheia. Invejam, mas calam. Todos se reconhecem como iguais, frequentando a mesma fonte de moral e bons costumes. Mas os felizes, o que provam ser? 

Descuidaram-se, perderam o bom senso. Ignoraram o alerta e caíram na armadilha das suas próprias tramas. Foi o que disseram, mas olhando daqui…só vejo o sofrimento, e não consigo concluir nada.    

Mulheres de todas as idades, aparências e credos, atravessam a estação, com seus passinhos curtos, pés abraçados por veludo e pelica estrangeira. Parecem compartilhar o mesmo calar de almas. Sob as camadas empoeiradas de tradição, e postura treinada por décadas de acirrada disciplina, escondem súplicas. Desejam um destino que as faça também vibrar. Talvez um destino igual ao de Anna. Mais do que a chance de serem amadas, querem se reconhecer vivas. Mas seguem tementes a qualquer senhor que responda por pai, marido, ou parente responsável. Até a divindade a quem clamam corresponde a um universo masculino, um senhor-deus, que responde por elas.  

Estas mesmas donzelas, senhoras e anciãs que aqui trafegam apressadas e desocupadas de ideias, fecham os olhos para os próprios desgostos. Quando reunidas, reforçam seus medos ao falar de uma Anna que mal conhecem, mas a quem julgam e condenam. Todas elas. 

Quando deita sua cabeça no travesseiro, nunca pensa nos desacertos que cometeu? Atira a primeira pedra, sendo ela um diamante ou um pedaço de carvão? A quem dirige o seu arrependimento? Para quem guarda o seu perdão?   

Consulta a temperatura em suas entranhas. Sente vontade de despir as luvas, desabotoar o pesado casaco, livrar-se da pele que roça nos tecidos. Não é a mesma pele que deseja ter encostada na sua. Procura se aquietar, manter uma postura altiva. Ainda faz boa figura, sabe disso. Alguns olham em sua direção com uma insistência pouco polida. Decerto apenas contemplam o seu belo porte, admirando a elegância de seus trajes. Ou talvez reconheçam o pesar do arrependimento. 

Sempre se pode negar a verdadeira versão dos fatos. Não percebe que as histórias de amor acontecem muito além das margens de convenções sociais? 

 Sente o ar faltar, a vida falhar. Para onde ir? Que direção tomar agora que tudo parece perdido? Deseja levar todos os presságios para o abrigo de suas fantasias, aconchegá-los entre lençóis e sonhos, até perdê-los em esquecimento. 

Não se pode repreender alguém por isso. Por tentar fugir do seu inferno particular, por querer permanecer à distância do último degrau da dignidade. Será prova de inocência? Ou apenas loucura? 

Recorda-se de ter desejado voltar atrás, apagar pegadas e ações, aniquilar as atitudes tomadas em momentos de desvario. Ainda agora quer retroceder a história, sacudindo os próprios ombros, até que os pensamentos se despreguem da árvore doentia dos ciúmes. 

Convence-se de que nada mais poderá fazer a não ser dar cabo de tudo. Rápido. Nada mais será capaz de resolver a situação a que chegou de livre vontade. 

Um trabalhador passa, coberto de graxa e fuligem. Todo ele sombrio, um ponto apagado sobreposto a um cenário também escurecido como a noite. Apressa-se para dar conta do seu serviço. Mais alguns minutos e o movimento sobre os trilhos começará. Manobras feitas, mudanças a serem aceitas. Por um instante, seus olhares se tocam. Os dois se percebem diferentes, mas pertencentes ao mesmo desespero.  

Entende a dor mais do que tudo, mais do que qualquer um poderá entender. A compreensão vem da simplicidade, de uma vida bruta alinhavada aos trilhos. Tormentas recontadas dia após dia. Sabe o que ele reconhece e você não?

O reflexo em uma das vidraças revela olhos de um tom antes de madurar. O ciúme tem olhos verdes, mas cegos. Agora sabe disso, e anseia por render-se às evidências de um prólogo. Que não se demore.  

Partículas de memórias caem como flocos de uma nevasca tardia. Ecos de um passado nem tão distante, os dois em exílio. O tédio misturado às cores vibrantes de Anna, e o marasmo disposto a romper a tessitura da paixão. O luto pela descoberta da impermanência da primavera surgindo antes da perda do tom. Amantes a descombinar desejos. 

Não é mais capaz de se lembrar de como ultrapassou a linha desgastada da sensatez. Em que momento decidiu assumir tudo por vontade própria, quando tudo se desvaneceu. Em desatino, condenou-se sem contar com o segredo de confissão. A verdade não merecia penitências e culpas, era o que pensava. Mas os outros… Os outros, aqueles outros, vestiram-se de repentina santidade. Todos eles, agora juízes de ocasião, os nobres, os empregados, a família e até os que se diziam amigos, todos a apontar indecências.  

Por que afinal não se mantiveram longe do repúdio? Também não sei responder. Se fosse você, o que teria feito?

O perdão concedido, em momento de desespero, ainda ressoa longe de qualquer redenção. Sem trégua. O marido voltando atrás, a ameaça de entrar com o processo de divórcio e afastar mãe e filho.  Um pesadelo! 

Quando tudo parece estar tomando um novo rumo, volta-se ao mesmo ponto. Não importa a direção que se queira tomar. Às vezes, trilhos diferentes levam ao mesmo caos. 

Se tivesse partido mais cedo, ou reconhecido a derrota, talvez estivesse a salvo, mas nada disso é mais possível. São apenas abstrações. É preciso cometer um erro antes que se possa corrigi-lo. Se tivesse dito desde o princípio o que pensava, ao invés de tentar traduzir sentimentos, talvez não ouvisse o chamado do precipício. 

É tarde demais, o trem surge ao longe…

O que poderia fazer se o que todos apontavam como sua perdição, parecia-lhe salvação garantida? Se era seu destino o entrelaçar de iniciais, como poderia continuar a escrever os próximos capítulos sem aquela assinatura? 

Trata de aceitar o seu engano como ignorância de melhores caminhos. Assim como a escravidão das mulheres decorre da falta de instrução, que as mantém longe do protagonismo. Presas a uma existência escrita por outras mãos. E o erro dos homens é se julgarem diferentes, livres. Não são capazes de enxergar a verdade:   o que aprisiona um, liberta o outro; e vice-versa. Sabe disso agora.  

Qualquer que seja o seu fim, assumirá a responsabilidade por ter construído peça por peça o seu destino, caprichando nos detalhes mais obscuros pelo simples prazer de se livrar dos limites estabelecidos pelas convenções.   

Agora, sujando os calçados na neve pisada e repisada, enlameada como seus sentidos, sente o peso do ostracismo social. Por um conjunto de erros, uma série de passos que julgou serem parte de graciosa dança, experimenta o banimento do apreço das famílias respeitáveis. E os outros, todos os outros, também pecadores e infiéis, permanecem frequentando casas e bailes como se nunca tivessem recolhido pecados em colo amante. 

O vulto do trem se desenha ao fundo.   

Volta a cabeça para trás, pedindo ao próprio coração que desacelere para que possa pensar em uma solução. Sente falta de uma alternativa qualquer que fuja da redenção presumida, mas se recusa a perder tempo com lamúrias. 

Talvez seja hora de simplesmente sumir. Não sabe mais se é capaz de seguir com o planejado. Teme enlouquecer antes mesmo de se entregar ao caos. 

Poderia se afastar um pouco? Deixe que a trama se encerre como deve. Se nunca caminhou por atalhos proibidos, e nem mesmo se deixou levar pelas emoções, trate agora de se controlar.  Apenas acompanhe a virada, a próxima página. O final já se vislumbra. Não há como evitá-lo. Como poderia desviar alguém do próprio abismo? 

E os compassos disparam, os minutos vibram sob os pés. A melodia que se ouve no assobio do vento assemelha-se a um adeus. O fim se acerca, fatídico convidado que antecipa a tragédia.

O trem se aproxima.  

E neste momento em que vozes deveriam se intercalar como murmúrios tristes e exaltadas orações sem nexo, os braços se afrouxam. 

Cada vez mais próximo, o trem parece engolir os trilhos.  

Larga a pequena maleta vermelha, e derrama todas as vertentes que cegam seu futuro. Chora. Talvez esse não seja afinal o pior dos destinos. Fecha os olhos e, como em prece, clama tão baixo quanto a sua voz permite. 

─ Perdoa-me por tudo… 

Vronski dá as costas para os vagões que começam a se distanciar, levando toda a carga de escuridão. Volta o olhar para o céu e observa o lacrimejar da neve. Então se dá conta da única verdade que poderia escolher como sua. 

As pessoas felizes se parecem entre si; já as infelizes são infelizes à sua maneira. 

Talvez esta seja a dele. 

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 24 de agosto de 2020 por em FanFic, FanFic - Grupo 2.