EntreContos

Detox Literário.

Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços – Clássico (Kazuo Ishiguro)

Discurso de agradecimento do Prêmio Nobel de Literatura de 2017

 

Se você cruzasse comigo no outono de 1979, acharia difícil me classificar socialmente ou até racialmente. Eu tinha então 24 anos . Minhas feições pareceriam japonesas, mas, diferentemente da maioria dos japoneses vistos na Grã-Bretanha naquela época, eu usava os cabelos até os ombros e tinha um bigode caído, tipo bandido. O único sotaque discernível em minha maneira de falar era o de alguém criado nos condados do sul da Inglaterra, às vezes infligido pelo lânguido, já datado vernáculo da era hippie. Se conversássemos, poderíamos discutir o Futebol Total da Holanda, o último álbum de Bob Dylan ou, talvez, o ano em que passei trabalhando com moradores de rua em Londres. Se você mencionasse o Japão, me perguntasse sobre a cultura do país, poderia até detectar um traço de impaciência em minhas maneiras, ao declarar minha ignorância com o argumento de que eu não havia pisado naquele país – nem mesmo de férias – desde que de lá partira aos cinco anos de idade.

Naquele outono, cheguei com uma mochila, um violão e uma máquina de escrever portátil em Buxton, Norfolk – uma pequena vila inglesa com um antigo moinho de água e campos agrícolas ao redor. Fui para lá porque havia sido aceito em um curso de pós-graduação de redação criativa na Universidade de East Anglia, com duração de um ano. A universidade ficava a 16 quilômetros de distância, na cidade catedral de Norwich, mas eu não tinha carro e a única maneira de chegar lá era por meio de um serviço de ônibus que operava apenas uma vez pela manhã, uma na hora do almoço e outra à tarde. Mas logo descobri que isso não era uma grande dificuldade: raramente eu ia à universidade mais de duas vezes por semana. Aluguei um quarto em uma pequena casa de propriedade de um homem na casa dos trinta, cuja esposa acabara de deixá-lo. Sem dúvida, para ele, a casa estava cheia dos fantasmas de seus sonhos destruídos – ou talvez ele só quisesse me evitar; de qualquer forma, eu não o via por dias a fio. Em outras palavras, depois da vida frenética que eu levava em Londres, aí estava eu, diante de uma quantidade incomum de silêncio e solidão para me transformar em um escritor.

De fato, meu quartinho não era diferente do sótão do escritor clássico. Os tetos inclinavam-se claustrofobicamente – embora, se eu ficasse na ponta dos pés, veria, pela única janela, os campos arados que se estendiam para longe. Havia uma pequena mesa, cuja superfície era ocupada quase inteiramente por minha máquina de escrever e por um candeeiro. No chão, em vez de uma cama, havia um grande pedaço retangular de espuma industrial que me fazia suar durante o sono, mesmo durante as noites frias e rigorosas de Norfolk.

Foi nessa sala que examinei cuidadosamente dois contos que havia escrito durante o verão, imaginando se seriam bons o suficiente para apresentar aos meus novos colegas de classe. (Éramos, eu sabia, uma turma de seis alunos que se encontravam uma vez a cada duas semanas.) Naquele momento da minha vida, eu havia escrito pouca coisa em prosa ficcional que fosse digna de nota, tendo ganho meu lugar no curso com uma peça escrita para uma rádio, que na verdade fora rejeitada pela BBC. De fato, tendo feito planos firmes para me tornar uma estrela do rock aos vinte anos, minhas ambições literárias só recentemente tinham se tornado conhecidas por mim. As duas histórias que eu examinava haviam sido escritas em pânico, em resposta às notícias de que eu havia sido aceito no curso da universidade. Uma era sobre um pacto macabro de suicídio, a outra sobre brigas de rua na Escócia, onde eu havia passado algum tempo como trabalhador comunitário. Não eram tão boas. Comecei outra, sobre um adolescente que envenenava seu gato, ambientado como as outras na Grã-Bretanha atual. Certa noite, durante minha terceira ou quarta semana naquele quartinho, me vi escrevendo, com uma intensidade nova e urgente, sobre o Japão – sobre Nagasaki, a cidade onde nasci, durante os últimos dias da Segunda Guerra Mundial.

Devo salientar que isso me surpreendeu. Hoje, a atmosfera predominante é tal que é praticamente instintivo para um jovem aspirante a escritor, com uma herança cultural mista, explorar suas ‘raízes’ em seu trabalho. Mas isso estava longe de ser o caso então. Ainda estávamos alguns anos longe da explosão da literatura “multicultural” na Grã-Bretanha. Salman Rushdie era um desconhecido com um romance esgotado. Quando solicitado a nomear a principal romancista britânica da época, as pessoas poderiam mencionar Margaret Drabble; dos escritores mais velhos, Iris Murdoch, Kingsley Amis, William Golding, Anthony Burgess, John Fowles. Estrangeiros como Gabriel Garcia Marquez, Milan Kundera ou Borges eram lidos apenas em pequenos números, seus nomes sem sentido mesmo para leitores interessados.

Tal era o clima literário daqueles dias que, ao terminar aquela primeira história japonesa, apesar da sensação de ter descoberto uma direção nova e importante, comecei imediatamente a me perguntar se isso não significava auto-indulgência; se eu não deveria voltar rapidamente a um assunto mais “normal”. Foi somente após uma hesitação considerável que comecei a mostrar a história a outras pessoas, e continuo até hoje profundamente grato aos meus colegas, aos meus tutores Malcolm Bradbury e Angela Carter e ao romancista Paul Bailey – naquele ano escritor-residente da universidade – pelas respostas decididamente encorajadoras. Se tivessem sido menos positivos, eu provavelmente nunca mais teria escrito sobre o Japão. Assim, voltei ao meu quarto e escrevi e escrevi. Durante o inverno de 1979-80 e até a primavera não falei praticamente com ninguém a não ser os outros cinco alunos da minha turma, o vendedor da vila de quem comprava os cereais matinais e os rins de cordeiro responsáveis por minha existência, e minha namorada, Lorna (hoje minha esposa), que vinha para me visitar em fins de semana alternados. Não era uma vida equilibrada, mas nesses quatro ou cinco meses consegui completar metade do meu primeiro romance, “Uma Pálida Visão dos Montes”, também ambientado em Nagasaki, nos anos de recuperação após o lançamento da bomba atômica. Lembro-me ocasionalmente, durante esse período, de mexer em algumas ideias de contos que não se passavam no Japão, só para descobrir meu interesse diminuindo rapidamente.

Aqueles meses foram cruciais para mim, na medida em que sem eles eu provavelmente nunca teria me tornado escritor. Desde então, sempre olho para trás e me pergunto: o que estava acontecendo comigo? O que era toda aquela energia peculiar? Minha conclusão é que, exatamente naquele ponto da minha vida, eu havia me envolvido em um ato urgente de preservação. Para explicar isso, vou precisar voltar um pouco.

*

Cheguei à Inglaterra aos cinco anos de idade, com meus pais e irmã, em abril de 1960, na cidade de Guildford, Surrey, no chamado “cinturão de corretoras”, trinta milhas ao sul de Londres. Meu pai era um cientista pesquisador, um oceanógrafo que viera trabalhar para o governo britânico. A máquina que ele inventou, aliás, hoje faz parte da coleção permanente do Museu de Ciências de Londres.

As fotografias tiradas logo após nossa chegada mostram a Inglaterra de uma época desaparecida. Os homens usavam pulôveres de lã com gola em V e gravatas, os carros ainda tinham estribos e uma roda sobressalente à retaguarda. Os Beatles, a revolução sexual, os protestos estudantis, o ‘multiculturalismo’ estavam logo ali adiante, mas é difícil acreditar que a Inglaterra que nossa família encontrou suspeitasse disso. Encontrar um estrangeiro da França ou da Itália era algo raro – muito mais do que alguém do Japão.

Nossa família morava em uma rua em saída com doze casas, exatamente onde as estradas pavimentadas terminavam e o campo começava. Em uma caminhada de menos de cinco minutos chegava-se à fazenda local e à estrada abaixo, onde fileiras de vacas iam e vinham pelos campos. O leite era entregue a cavalo e carroça. Uma visão comum que me lembro vividamente dos meus primeiros dias na Inglaterra era a de ouriços – criaturas fofas e noturnas com seus espinhos, então numerosas naquela região – esmagadas por rodas de carros durante a noite, deixadas no orvalho da manhã, deixadas ordenadamente na beira da estrada, aguardando a coleta pelos homens da limpeza.

Todos os nossos vizinhos iam à igreja e, quando eu brincava com seus filhos, notava que eles faziam uma pequena oração antes de comer. Eu frequentava a escola dominical e, em pouco tempo, estava cantando no coral da igreja, tornando-me, aos dez anos, o primeiro corista principal japonês em Guildford. Ia à escola primária local – onde era a única criança não inglesa, possivelmente em toda a história daquela escola – e, aos onze anos, viajava de trem para a escola secundária, em uma cidade vizinha, compartilhando o vagão todas as manhãs com homens de terno listrado e chapéu-coco, a caminho de seus escritórios em Londres.

Nessa fase, eu me tornara completamente treinado nas maneiras que se esperavam dos garotos de classe média inglesa naqueles dias. Quando visitava um amigo, sabia que deveria me levantar se um adulto entrasse na sala. Aprendera que durante uma refeição tinha que pedir permissão antes de sair da mesa. Por ser o único garoto estrangeiro no bairro, uma espécie de fama local me seguiu. Outras crianças sabiam quem eu era antes de nos conhecermos. Às vezes adultos que me eram totalmente estranhos se dirigiam a mim pelo meu nome quando me viam nas ruas ou nas lojas da região.

Quando olho de volta para esse período e percebo que menos de vinte anos haviam se passado desde o fim de uma guerra mundial, em que os japoneses haviam sido inimigos ferrenhos, fico impressionado com a abertura e a generosidade instintiva com que nossa família foi aceita por essa típica comunidade inglesa. O carinho, o respeito e a curiosidade que tenho até hoje pela geração de britânicos que passaram pela Segunda Guerra Mundial e construíram um novo e notável estado de bem-estar depois disso, derivam significativamente de minhas experiências pessoais daqueles anos.

Porém, durante todo aquele tempo eu estava levando outra vida em casa com meus pais japoneses. Em nosso lar havia regras diferentes, expectativas diferentes, um idioma diferente. A intenção original de meus pais era que voltássemos ao Japão depois de um ano, talvez dois. De fato, durante os primeiros onze anos na Inglaterra, estávamos em um perpétuo estado de voltar ‘no próximo ano’. Como resultado, a perspectiva de meus pais continuava sendo a de visitantes, não de imigrantes. Eles costumavam trocar observações sobre os curiosos costumes dos nativos sem o dever de adotá-los. Por muito tempo, permanecemos com a ideia de que no Japão é que eu viveria minha vida adulta e por isso nos esforçamos para manter o lado japonês da minha educação. A cada mês chegava um pacote do Japão contendo quadrinhos, revistas e resumos educacionais do mês anterior, o que eu devorava ansiosamente. Essas encomendas pararam de chegar em algum momento de minha adolescência – talvez depois da morte do meu avô -, mas a conversa de meus pais sobre velhos amigos, parentes e episódios de suas vidas no Japão mantinham em mim um suprimento constante de imagens e impressões. Por isso sempre tive meu próprio estoque de memórias – surpreendentemente vasto e claro: dos meus avós, dos brinquedos favoritos que eu deixara para trás, da casa japonesa tradicional em que morávamos (que ainda hoje posso reconstruir em minha mente, cômodo por cômodo), de meu jardim de infância, da parada de bonde local, do cachorro feroz que morava perto da ponte, da cadeira na barbearia especialmente adaptada para meninos pequenos, com um volante de carro fixo em frente a um grande espelho.

O que tudo isso significou foi que, enquanto eu crescia, bem antes de pensar em criar mundos ficcionais em prosa, eu estava ocupado construindo em minha mente um lugar ricamente detalhado chamado ‘Japão’ – um lugar ao qual eu de algum modo pertencia e do qual extraía certo senso de identidade e confiança. O fato de eu nunca ter retornado fisicamente ao Japão durante esse período apenas serviu para tornar minha própria visão do país mais vívida e pessoal.

Daí a necessidade de preservação. Pois, quando cheguei aos vinte e poucos anos – embora jamais tivesse reparado na época – estava percebendo certas coisas importantes. Estava começando a aceitar que “meu” Japão talvez não correspondesse a algum lugar para onde eu pudesse ir de avião; que o modo de vida sobre o qual meus pais conversavam, algo de que eu me lembrava desde a infância, havia desaparecido em grande parte nas décadas de 1960 e 1970; em todo caso, o Japão que existia na minha cabeça poderia ter sido a construção emocional de uma criança sem memória, imaginação e especulação. E, talvez o mais significativo, eu percebi que a cada ano que envelhecia, esse meu Japão – esse lugar precioso com o qual cresci – se desvanecia cada vez mais.

Agora tenho certeza de que foi esse sentimento, de que o ‘meu’ Japão era único e ao mesmo tempo terrivelmente frágil – algo que não está aberto à verificação externa – que me levou a trabalhar naquela pequena sala em Norfolk. O que eu estava fazendo era colocar no papel as cores especiais daquele mundo, seus costumes, suas etiquetas, sua dignidade, suas deficiências, tudo o que eu já pensara sobre o lugar, antes que desaparecessem para sempre da minha mente. Era meu desejo reconstruir meu Japão na ficção, torná-lo seguro, para que depois pudesse apontar para um livro e dizer: ‘Sim, lá está o meu Japão, lá dentro’.

*

Primavera de 1983, três anos e meio depois. Lorna e eu estávamos agora em Londres, alojados em dois quartos no topo de uma casa alta e estreita, que ficava em uma colina em um dos pontos mais altos da cidade. Havia uma antena de televisão por perto e quando tentávamos ouvir nossos discos, vozes fantasmagóricas invadiam intermitentemente os alto-falantes. Nossa sala não tinha sofá ou poltrona, mas dois colchões no chão cobertos com almofadas. Havia também uma mesa grande em que eu escrevia durante o dia e onde jantávamos à noite. Não era luxuoso, mas gostávamos de morar lá. Eu havia publicado meu primeiro romance no ano anterior e também escrevera um roteiro para um curta-metragem a ser transmitido pela televisão.

Eu havia ficado razoavelmente orgulhoso do meu primeiro romance, mas, naquela primavera, um pequeno sentimento de insatisfação surgia. Aí estava o problema. Meu primeiro romance e meu primeiro roteiro de TV eram muito parecidos. Não no assunto, mas no método e no estilo. Quanto mais eu olhava para o romance, mais o enxergava como um roteiro – diálogo e instruções. Isso foi bom até certo ponto, mas meu desejo agora era escrever ficção que funcionasse de forma correta apenas como livro. Por que escrever um romance se isso resultaria em uma experiência mais ou menos parecida que aquela que se obtém ao ligar a televisão? Como a ficção escrita poderia sobreviver contra o poder do cinema e da televisão, se não oferecesse algo único, algo que as outras formas não podem fazer?

Nessa época, peguei um vírus e passei alguns dias de cama. Quando passei pelo pior e já não sentia mais vontade de dormir o tempo todo, descobri que o objeto pesado, cuja presença no meio da minha roupa de cama me incomodava há algum tempo, era na verdade uma cópia do primeiro volume de Marcel Proust: Lembranças das Coisas Passadas (como o título era então traduzido). Lá estava, então comecei a ler. Minha condição ainda febril talvez tenha sido um fator, mas fiquei completamente fascinado pela Abertura e por Combray. Eu as li repetidamente. Além da pura beleza dessas passagens, fiquei emocionado com os meios pelos quais Proust conseguia fazer com que um episódio levasse ao próximo. A ordenação de eventos e cenas não seguia as demandas usuais da cronologia, nem as de um enredo linear. Em vez disso, as associações de pensamento tangenciais ou os caprichos da memória pareciam mover a escrita de um episódio para o outro. Às vezes eu me perguntava: por que esses dois momentos aparentemente não relacionados foram colocados lado a lado na mente do narrador? De repente, percebi uma maneira emocionante e mais livre para compor meu segundo romance, algo que poderia produzir riqueza apenas nas páginas de um livro, oferecendo movimentos internos impossíveis de se adaptar em qualquer tela. Se eu pudesse migrar de uma passagem para a seguinte, de acordo com as associações de pensamento do narrador e suas memórias à deriva, eu poderia compor algo parecido com o que faz um pintor abstrato, ao distribuir formas e cores em uma tela. Eu poderia conceber uma cena de dois dias atrás ao lado de uma de vinte anos antes, e pedir ao leitor para refletir sobre a relação entre as duas. Dessa maneira, comecei a pensar, eu poderia sugerir as muitas camadas de auto-engano e de negação que encobrem a visão de qualquer pessoa, de si mesma e de seu passado.

*

Março de 1988. Eu tinha 33 anos. Agora tínhamos um sofá e eu estava deitado, ouvindo um álbum de Tom Waits. No ano anterior, Lorna e eu havíamos compramos nossa própria casa em uma parte antiga mas agradável ao sul de Londres, e nesta casa, pela primeira vez, tive meu próprio estúdio. Era pequeno e não tinha porta, mas fiquei emocionado ao espalhar meus papéis sem ter que recolhê-los ao final de cada dia. E nesse estúdio eu acabava de terminar meu terceiro romance – ou pelo menos assim acreditava. Era o primeiro a não ter um cenário japonês – meu Japão pessoal se tornara menos frágil ao escrever meus romances anteriores. De fato, meu novo livro, que se chamaria Vestígios do Dia, parecia extremamente inglês – embora, eu esperava, não à maneira de muitos autores britânicos da geração mais velha. Ao contrário de vários deles, eu tivera o cuidado de não supor que meus leitores seriam todos ingleses, familiarizados com as nuances e as preocupações tipicamente inglesas. Naquela época, escritores como Salman Rushdie e VS Naipaul abriam caminho para uma literatura britânica mais internacional e voltada para o exterior, que não reivindicava nenhuma importância central ou automática para a Grã-Bretanha. Seus escritos eram pós-coloniais no sentido mais amplo. Eu queria, como eles, escrever ficção ‘internacional’ que pudesse atravessar facilmente as fronteiras culturais e linguísticas, mesmo ao escrever uma história ambientada no que parecia um mundo peculiar inglês. Minha versão da Inglaterra seria de uma espécie mítica, cujos contornos, eu acreditava, já estavam presentes na imaginação de muitas pessoas ao redor do mundo, inclusive aqueles que jamais visitaram o país.

A história que eu recém terminava era sobre um mordomo inglês que percebia, tarde demais, que vivera sua vida pelos valores errados, que havia devotado seus melhores anos para servir um simpatizante nazista; que, ao falhar em assumir sua responsabilidade moral e política, percebia, no fundo, o desperdício dessa vida. E mais: em sua tentativa de se tornar o servo perfeito, proibira a si mesmo de amar ou ser amado pela única mulher com quem havia se importado.

Li o manuscrito várias vezes e fiquei razoavelmente satisfeito. Ainda assim, havia uma sensação de que algo estava faltando.

Então, como eu disse, estava em nossa casa certa noite, em nosso sofá, ouvindo Tom Waits. E Tom Waits começou a cantar uma música chamada ‘Ruby’s Arms’. Talvez alguns de vocês a conheçam. (Eu até pensei em cantar um trecho aqui e agora, mas mudei de ideia.) É uma balada sobre um homem, possivelmente um soldado, que deixa sua garota enquanto ela dorme. É de manhã cedo, ele desce a estrada, entra em um trem. Nada de anormal nisso. Mas a música é apresentada na voz de um andarilho americano rude, totalmente desacostumado a revelar suas emoções mais profundas. E chega um momento, no meio da música, quando o cantor nos diz que seu coração está partido. O momento é quase insuportavelmente emocionante por causa da tensão entre o sentimento propriamente dito e a enorme resistência que obviamente fora superada para declará-lo. Tom Waits canta esse trecho com uma catarse magnífica, de um jeito em sentimos o estoicismo de uma vida toda, de um cara durão, se esfarelando diante de uma tristeza monstruosa.

Enquanto ouvia Tom Waits, percebi que ainda havia algo a fazer. Eu havia tomado a decisão sem pensar, algum tempo antes, que meu mordomo inglês manteria suas defesas emocionais, que ele conseguiria se esconder atrás delas, de si mesmo e de seu leitor, até o fim. Agora eu via que tinha que reverter essa decisão. Apenas por um momento, no final da minha história, um momento que eu teria que escolher com cuidado, eu precisava fazer com que a armadura dele rachasse. Tinha que permitir que um desejo vasto e trágico fosse vislumbrado de maneira subliminar.

Devo dizer aqui que, em várias outras ocasiões, aprendi lições cruciais com cantores. Refiro-me aqui menos às letras sendo cantadas e mais ao canto real. Como sabemos, a voz humana na música é capaz de expressar uma mistura incomensuravelmente complexa de sentimentos. Ao longo dos anos, aspectos específicos da minha escrita foram influenciados por, entre outros, Bob Dylan, Nina Simone, Emmylou Harris, Ray Charles, Bruce Springsteen, Gillian Welch e minha amiga e colaboradora Stacey Kent. Ao captar algo em suas vozes, eu dizia a mim mesmo: ‘Ah, sim, é isso. É o que eu preciso capturar nessa cena. Algo muito próximo’. Muitas vezes, era uma emoção que não conseguia expressar em palavras, mas que existia na voz dos cantores, que se transformava em algo a ser buscado.

*

Em outubro de 1999, fui convidado pelo poeta alemão Christoph Heubner, em nome do Comitê Internacional de Auschwitz, a passar alguns dias visitando o antigo campo de concentração. Minha acomodação era no Centro de Reuniões da Juventude de Auschwitz, na estrada entre o primeiro campo de Auschwitz e o campo da morte de Birkenau, a três quilômetros de distância. Conheci os locais e fui apresentado informalmente a três sobreviventes. Senti que chegava perto, ao menos em termos geográficos, do coração da força sombria sob a qual minha geração crescera. Em Birkenau, em uma tarde chuvosa, fiquei diante das ruínas das câmaras de gás – estranhamente negligenciadas e sem qualquer cuidado – que permaneciam da maneira como os alemães as deixaram ao explodi-las, fugindo logo a seguir do Exército Vermelho. Agora eram apenas lajes úmidas e quebradas, expostas ao clima polonês, deteriorando-se ano a ano. Meus anfitriões falaram sobre seu dilema. Esses restos deveriam ser protegidos? Deveriam ser construídas cúpulas de perspex para cobri-las e preservá-las para as gerações seguintes? Ou deveriam, lenta e naturalmente, apodrecer até se desintegrarem? Pareceu-me a metáfora poderosa de um dilema maior. Como essas memórias deveriam ser preservadas? Cúpulas de vidro transformariam essas relíquias do mal e do sofrimento em exibições mundanas? O que deveríamos escolher para lembrar? Quando é melhor esquecer e seguir em frente?

Eu tinha 44 anos. Até então, considerava a Segunda Guerra Mundial, seus horrores e triunfos, como algo pertencente à geração de meus pais. Mas agora me ocorria que, em pouco tempo, muitos dos que haviam testemunhado esses grandes eventos em primeira mão não estariam vivos. E então? O fardo de lembrar deveria ser carregado pela minha geração? Não tínhamos experimentado os anos de guerra, mas pelo menos fôramos criados por pais cujas vidas tinham sido indelevelmente moldadas por eles. Eu, agora, como contador público de histórias, tinha um dever que até então desconhecia? Um dever de transmitir, o melhor que pudesse, essas memórias e lições da geração de nossos pais para a que se seguiria à nossa?

Pouco tempo depois, eu estava falando diante de uma plateia em Tóquio e um dos presentes perguntou, como é comum, qual seria meu próximo trabalho. Mais especificamente, essa pessoa disse que meus livros frequentemente tratavam de indivíduos que viviam momentos de grande convulsão social e política e que então olhavam para trás e se esforçavam para chegar a um acordo com suas memórias mais sombrias e vergonhosas. Meus futuros livros, ela perguntou, continuariam a cobrir um território semelhante?

Eu me vi dando uma resposta bastante despreparada. Sim, eu disse, costumava escrever sobre gente que se via em conflito entre esquecer e lembrar. Mas, no futuro, o que eu realmente queria fazer era escrever uma história sobre como uma nação ou uma comunidade enfrentava essas mesmas questões. Uma nação se lembra e se esquece da mesma maneira que um indivíduo? Ou existem diferenças importantes? Quais são exatamente as memórias de uma nação? Onde elas são mantidas? Como elas são moldadas e controladas? Há momentos em que o esquecimento é a única maneira de parar os ciclos de violência ou impedir que uma sociedade se desintegre em caos ou guerra? Por outro lado, nações estáveis ​​e livres podem realmente ser construídas sobre fundamentos de amnésia voluntária e justiça frustrada? Eu me ouvi dizendo à pessoa que fizera a pergunta que queria encontrar uma maneira de escrever sobre essas coisas, mas que, naquele momento, não tinha a menor ideia de como o fazer.

*

Certa noite, no início de 2001, na sala escura de nossa casa no norte de Londres (onde morávamos naquela época), Lorna e eu começamos a assistir, em uma fita VHS de qualidade razoável, um filme de Howard Hawks de 1934 chamado Suprema Conquista. O título do filme (em inglês, Século XX) logo descobrimos, não se referia ao século que havíamos deixado para trás, mas a um famoso trem de luxo da época, que conectava Nova York e Chicago. Como alguns de vocês devem saber, o filme é uma comédia em ritmo acelerado, ambientada em grande parte no trem, sobre um produtor da Broadway que, com crescente desespero, tenta impedir que sua atriz principal vá para Hollywood e se torne uma estrela de cinema. O filme é construído em torno de uma performance cômica monstruosa de John Barrymore, um dos grandes atores de sua época. Suas expressões faciais, seus gestos, quase todas as frases que ele profere vêm revestidas de ironias e contradições grotescas, típicas de alguém que se afoga no egocentrismo e na autodramatização. É uma performance brilhante. No entanto, à medida que o filme se desenrolava, eu me via curiosamente alheio. Isso me intrigou a princípio. Normalmente eu gostava de Barrymore e tinha apreciado bastante outros filmes de Howard Hawks daquele período, como Jejum de Amor e Paraíso Infernal. Então, por volta da marca de uma hora do filme, uma ideia simples e reveladora veio à minha mente. A razão pela qual tantos personagens vívidos e inegavelmente convincentes em romances, filmes e peças tantas vezes falharam em me tocar foi porque esses personagens não se conectavam a nenhum dos outros personagens de maneira interessante. E imediatamente, surgiu o seguinte pensamento sobre meu próprio trabalho: e se eu parasse de me preocupar com meus personagens e me preocupasse com seus relacionamentos?

À medida que o trem seguia para o oeste e John Barrymore se tornava cada vez mais histérico, eu pensava na famosa distinção que E.M. Forster estabelecera entre personagens tridimensionais e bidimensionais. Um personagem de uma história se tornava tridimensional, ele havia dito, porque “nos surpreenderam de forma convincente”. Assim eles adquiriam o que se chama “arredondamento”. Mas, eu me perguntava, e se um personagem fosse tridimensional e seus relacionamentos não? Em outra parte da mesma série de palestras, Forster usara uma imagem bem-humorada, de um fórceps extraindo o enredo de um romance, para ser examinado sob a luz como um verme contorcido. Poderia eu fazer algo semelhante, mantendo sob minha lâmpada os vários relacionamentos que cruzam qualquer história? Poderia eu fazer isso com meu próprio trabalho – com histórias que eu havia completado e com outras que ainda planejava? Eu poderia olhar, digamos, para essa relação mentor-aluno perguntando a mim mesmo: soa como algo perspicaz e fresco? Ou obviamente não passa de um estereótipo cansado, idêntico aos encontrados em centenas de histórias medíocres? Esse relacionamento entre dois amigos competitivos parece dinâmico? Tem ressonância emocional? Evolui? Surpreende de forma convincente? É tridimensional? De repente, eu sentia que havia entendido melhor por que, no passado, vários aspectos do meu trabalho fracassaram, apesar dos remédios desesperados. O pensamento veio a mim, enquanto eu continuava olhando John Barrymore: todas as boas histórias, não importa o quão radical ou tradicionalmente foram contadas, fundamentaram-se em relacionamentos importantes ao olhos de todos nós: são histórias que haviam nos emocionado, nos divertido, nos irritado, nos surpreendido. Talvez, no futuro, se eu prestasse mais atenção aos relacionamentos, meus personagens cuidassem melhor de si mesmos.

Enquanto digo isso, percebo que talvez esteja falando de algo que sempre foi óbvio para vocês. O que posso dizer é que essa foi uma ideia que me veio à cabeça surpreendentemente tarde em minha vida de escritor, e a vejo agora como um ponto de virada, comparável a outros que descrevi antes. A partir de então, comecei a construir minhas histórias de uma maneira diferente. Ao escrever meu romance Não me Abandone Jamais, por exemplo, parti desde o início pensando em seu triângulo central de relacionamentos e depois nos outros relacionamentos que dele derivariam.

*

Reviravoltas importantes na carreira de um escritor – talvez em muitos tipos de carreira – acontecem assim. Muitas vezes, são momentos pequenos e desalinhados. São faíscas silenciosas e solitárias de revelação. Não vêm com frequência e, quando o fazem, podem surgir sem alarde, sem a percepção de quem quer que seja. Muitas vezes, essas reviravoltas precisam competir pela atenção com demandas aparentemente mais urgentes. Às vezes, o que revelam pode ir contra o grão da sabedoria predominante. Mas quando vêm, é importante saber reconhecê-las pelo que são. Ou irão escorregar entre seus dedos.

Tenho enfatizado aqui o pequeno e o privado, porque é essencialmente sobre isso que desenvolvo meu trabalho. Uma pessoa escrevendo em uma sala silenciosa, tentando se conectar com outra pessoa, lendo em outra sala silenciosa – ou talvez não tão silenciosa. Histórias podem divertir, às vezes ensinar ou trazer um assunto à discussão. Mas, para mim, o essencial é que elas comuniquem sentimentos. Que apelem para o que compartilhamos como seres humanos para além de nossas fronteiras e divisões. Existem grandes e glamourosas indústrias em torno de histórias; a indústria do livro, a indústria do cinema, a indústria da televisão, a indústria do teatro. Mas, no final, as histórias se resumem a uma pessoa dizendo a outra: é assim que isso me parece. Consegue entender o que estou dizendo? É o mesmo para você?

*

Então chegamos ao presente. Recentemente despertei com a constatação de que vivia há anos em uma bolha. Que havia falhado em perceber a frustração e as ansiedades de muitas pessoas ao meu redor. Percebi que meu mundo – um lugar civilizado e estimulante, cheio de pessoas irônicas e de mentes liberais – era de fato muito menor do que eu jamais imaginara. O ano de 2016, repleto de eventos políticos surpreendentes – e para mim deprimentes – na Europa e na América, inclusive atos doentios de terrorismo em todo o mundo, obrigou-me a reconhecer que o avanço dos valores humanistas e liberais que eu tinha como certo desde a infância pode ter sido uma ilusão.

Sou parte de uma geração inclinada ao otimismo, e por que não? Vimos nossos avós transformando com sucesso a Europa dos regimes totalitários, do genocídio e da carnificina nunca vista antes, em uma região invejável de democracias liberais, que vive em amizade quase sem fronteiras. Vimos os velhos impérios coloniais desmoronarem ao redor do mundo, juntamente com as suposições repreensíveis que os sustentavam. Vimos um progresso significativo no feminismo, nos direitos dos gays e nas batalhas em várias frentes contra o racismo. Crescemos em um cenário de grande conflito – ideológico e militar – entre capitalismo e comunismo, e testemunhamos o que muitos de nós acreditamos ser uma conclusão feliz.

Mas agora, olhando para trás, a era desde a queda do Muro de Berlim parece ser de complacência, de oportunidades perdidas. Permitiu-se o crescimento de enormes desigualdades – de riqueza e de oportunidade – entre nações e dentro das nações. Em particular, a desastrosa invasão do Iraque em 2003 e os longos anos de políticas de austeridade impostas às pessoas comuns após o escandaloso colapso econômico de 2008 nos levaram a um presente no qual proliferam ideologias da extrema direita e nacionalismos tribais. O racismo, em suas formas tradicionais e em suas versões modernizadas, está novamente em ascensão, agitando-se sob nossas ruas civilizadas como um monstro enterrado que desperta. No momento, não parece haver nenhuma causa progressiva para nos unir. Em vez disso, mesmo nas democracias ricas do Ocidente, estamos nos fraturando em campos rivais, competindo por fontes de energia.

E logo à frente – ou já teríamos passado esse ponto? – estão os desafios trazidos pelo impressionante progresso nas ciências, na tecnologia e na medicina. Novas técnicas genéticas – como a edição de genes CRISPR – e avanços em Inteligência Artificial e robótica nos trarão benefícios surpreendentes, que salvam vidas, mas também poderão criar meritocracias selvagens semelhantes ao apartheid, além de provocar desemprego maciço, inclusive entre a elite profissional de nossos dias.

Então aqui estou eu, um homem na casa dos sessenta anos, esfregando os olhos e tentando discernir os contornos, lá fora na névoa, desse mundo que até ontem eu nem suspeitava existir. Posso eu, autor cansado que sou, de uma geração intelectualmente cansada, encontrar energia para olhar na direção desse lugar desconhecido? Ainda tenho algo que possa ajudar a fornecer perspectiva, a trazer camadas emocionais aos argumentos, às lutas e às guerras que virão quando as sociedades lutarem para se adaptar às grandes mudanças?

Continuarei a fazer o meu melhor. Porque ainda acredito que a literatura é importante e será particularmente importante quando atravessarmos este terreno difícil. Mas procurarei os escritores das gerações mais jovens para nos inspirar e liderar. Esta é a época deles e eles terão o conhecimento e o instinto de que me faltarão. Nos mundos dos livros, do cinema, da TV e do teatro, vejo hoje talentos corajosos e emocionantes: mulheres e homens nos seus quarenta, trinta e vinte anos. Então, estou otimista. Por que eu não deveria estar?

Mas deixe-me terminar fazendo um apelo – se preferir, meu apelo Nobel! É difícil consertar o mundo todo, mas vamos pelo menos pensar em como podemos preparar nosso próprio cantinho, esse canto da ‘literatura’, onde lemos, escrevemos, publicamos, recomendamos, criticamos e premiamos livros. Se quisermos desempenhar um papel importante neste futuro incerto, se quisermos tirar o melhor proveito dos escritores de hoje e de amanhã, acredito que devemos nos tornar mais diversificados. Quero dizer isso em dois sentidos particulares.

Primeiro, precisamos ampliar nosso mundo literário para incluir vozes além da nossa zona de conforto, essa zona de cultura de elite de primeiro mundo. Devemos procurar com mais energia para descobrir as joias do que ainda hoje são culturas literárias desconhecidas, seja de escritores que vivem em países distantes, seja daqueles que vivem dentro de nossas próprias comunidades. Segundo: devemos tomar muito cuidado para não definir de maneira muito estreita ou conservadora nossas definições do que constitui uma boa literatura. A próxima geração virá com maneiras novas, às vezes desconcertantes, de contar histórias importantes e maravilhosas. Devemos manter nossa mente aberta para eles, especialmente em relação ao gênero e à forma, para que possamos nutrir e celebrar o melhor que eles têm a oferecer. Em tempos de divisão perigosamente crescente, precisamos ouvir. Boa escrita e boa leitura derrubarão barreiras. Podemos até encontrar uma nova ideia, uma grande visão humana em torno da qual nos unir.

À Academia Sueca, à Fundação Nobel e ao povo da Suécia que, ao longo dos anos, fizeram do Prêmio Nobel um símbolo brilhante do bem pelo qual nós seres humanos lutamos – agradeço.

……………………………………..

Original em inglês disponível no site do Comitê do Prêmio Nobel.

Tradução: Gustavo Araujo

Um comentário em “Minha Noite no Século Vinte e Outros Pequenos Avanços – Clássico (Kazuo Ishiguro)

  1. Anderson Do Prado Silva
    19 de julho de 2020

    Olá, Gustavo!

    Muito obrigado pela tradução e divulgação, neste espaço, do texto! Leitura obrigatória para qualquer um que não pretenda praticar ou consumir uma literatura que se esgote em si mesma!

    Abraço!

    Anderson do Prado Silva.

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Publicado às 17 de julho de 2020 por em Clássicos e marcado .