EntreContos

Detox Literário.

Do que mais me recordo… (O Velhinho)

De sorriso embargado abri, com gestos trémulos, com as mãos enrugadas das vicissitudes do tempo, aquela caixa de cartão. Os meus 80  anos estavam quase todos ali. Aquela caixa… toda uma vida passou diante do meu olhar de velha, do meu olhar velho como o tempo, dos meus olhos velhos e húmidos, de rugas feitas de lembranças… de lembranças que dão vida a uma saudade, a uma saudade que agora é sempre presente e feita de emoções.

Aquela fotografia, presa com um clip a um papel, amarelado por dias, meses, anos de espera silenciosa… mil camadas de pó esperaram, pacientes, este momento. Toneladas… toneladas pesadas de pensamentos iludiram a minha mente antiga, tornando-a outra vez jovem, outra vez menina, outra vez com pensamentos de menina, agora com pensamentos de menina feita mulher de muitas décadas.

Li, algures, que o tempo é um conceito relativo. Será? Os meus 17 anos estavam ali, naquelas letras bem desenhadas, naquelas letras cheias de sonhos… diz-se que entramos neste mundo com o destino já traçado… não me parece. Todo aquele percurso sonhado naquelas palavras, o percurso das palavras, foi-se diluindo ao longo de todas estas rugas, ao longo de todo este tempo. Velho. Velho como o tempo.

“Será que vou encontrar alguém que me toque o coração? Que sinta o que os poetas cantam nos seus versos? Será que vou ser feliz?”

“…Sei que ninguém manda no coração, mas… se pudesse ter um desejo concretizado para o meu futuro, escolheria ter o meu coração feliz, ter o meu coração transbordante daquela felicidade que dá vida à palavra, que dá vida à felicidade.”

Conseguia ver o brilho dos meus olhos de menina naquela foto, amarelecida, como eu agora, amachucada, como eu agora, velha, como eu agora… sonhos de menina, brilhantes de antecipação, brilhantes como os sonhos de meninas, sonhadoras como as meninas… eu era menina, era o que tinha que ser naquela altura. Menina!

Se o presente é uma dádiva, escolheria ter outro presente, outro que me trouxesse os pensamentos de outrora, outro que me concretizasse os pensamentos de outrora, quando todos os sonhos eram possíveis. Os nossos pés podem ter abandonado o passado, mas o nosso coração permanece lá. A alma? A alma também.

A minha mente, turva agora, turva como o meu cérebro já toldado, toldado por inúmeras recordações, recordações que me afloram o pensamento, quais ondas numa praia.

Diz-se que, na hora da morte, nos passam pela cabeça os momentos da nossa vida, aqueles que mais nos marcaram, tal como filmes em que somos espectadores comodamente sentados na plateia.

E que dizer daquele pedacinho do filme da minha vida, que agora me passa na frente dos olhos, destes olhos de velha… de velhinha trémula com as emoções, de velhinha sentimental com os sentimentos, de velhinha de lágrimas que deslizam neste rosto feito de pele enrugada. Daquele pedacinho de filme que passa a imagem através de mais um papelinho amarelecido. Um papelinho que, através de letras combinadas em palavras, palavras combinadas em frases, me conduzem àqueles tempos, tristes mas agora tão saudosos:

“Hoje de manhã, ao encaminhar-me para a escola, para a nossa, minha e vossa, escola, veio-me à memória uma história que há muito li. O chefe dos piratas, no conto de Peter Pan, estava sempre a fazer o seu discurso de despedida, porque receava que, quando chegasse a hora de morrer, talvez não tivesse tempo para o fazer. Pois bem, acontece-me, hoje, coisa muito parecida… estou a morrer um pouco, sim, estou a morrer um pouco. 

Sinto que Deus me deu um dom. Sinto que Deus me disse: “Toma, é isto que tenho para ti. É este o dom com que vais viver! O melhor meio para alcançares a felicidade é contribuíres para a felicidade dos outros!”

Sempre pensei que, um dia, se alguém me perguntasse como foi a minha vida de trabalho, do que tenho mais saudades, eu pudesse responder: “A palavra nostalgia tem, agora, um sentido para mim. Mas não consegue transmitir tudo o que a saudade comporta… há, também, a sensação de perda, a sensação de falta, a sensação de distância, os afectos, laços que foram sendo criados ao longo do tempo”… mas é tudo isto que faz com que o passado me seja entregue, me seja conduzido ao presente, a este presente sem vocês…

Nem sempre estivemos de acordo, nem sempre foi fácil… mas se assim o fosse, todos o faziam, não é? Ao fim de todos estes anos, sinto que cresci, a minha personalidade evoluiu com vocês. Serão o conjunto das nossas memórias a nossa personalidade? Seremos nós essas memórias? Então vocês são a minha personalidade!

De manhã, também pensei numa série de conselhos para vos dar. Conselhos de uma velha professora, que um dia, talvez, não mais recordem. Só isto: não coloquem a vida em espera, nunca!

Hoje o Sol empalidece, para mim!”

Com as lágrimas nos olhos, recordo com saudade este texto que publiquei no jornal da escola… agora, tudo não passa de recordações que deslizam com as lágrimas nestas rugas… rugas que têm tanto que contar, rugas que contam a minha história, a história de uma velha a quem nada mais resta senão estas rugas, a história destas rugas.

Vasculhando na caixa de cartão, eis que meus dedos, encarquilhados do tempo, roçam um pequeno livrinho. Que emoção, meu Deus! Neste livrinho, eu partilhava todas as minhas alegrias, todas as minhas tristezas, tudo o que me acontecia. Era o meu diário!! O meu coração pulou no peito como já há muito não acontecia. Que recordações, meu Deus! Será que meu coração aguenta? Vou tentar folhear… sei que esta velhinha talvez não aguente…

Como me lembro de cada uma destas histórias. Histórias não, história, História da Minha Vida. Assim se podia denominar este pequeno livrinho. História da Minha Vida! São as recordações que dão vida a esta saudade que agora sinto, esta saudade que magoa, esta saudade também que faz brilhar estes olhos de velhinha…

Olha… olha esta página! Tão actual… com pensamentos tão actuais. Que viagens, meu Deus…

Pensando bem, será que viajar no tempo, esse grande feito que o homem sempre perseguiu… será que não existe já? Será que as máquinas de viajar no tempo não existem já? Não serão as recordações, as nossas recordações, viagens ao passado? Não serão os sonhos, os nossos sonhos, viagens ao futuro? Não existirão já estas máquinas do tempo? Não persegue o homem um feito que existe desde sempre? 

Voltando a focar a minha atenção no diário e naquela página, os meus olhos percorreram aquelas palavras gastas pelo tempo, pelo tempo de uma vida:

“Envelheci… e não me dei conta. O tempo passou, o tempo, essa roda infernal, passou, também por mim e não me dei conta. Amanhã, desaparecerão as pessoas que me são mais queridas, o tempo levá-las-à… o tempo… esse mesmo tempo que me embranquece as têmporas, esse mesmo tempo que faz os olhos do meu neto luzir, “já tenho mais este ano, avó”, diz levantando o dedinho indicador, “já sou quase um homem”.

Um homem não chora, ouço dizer desde menina… e uma mulher? Chora? Uma mulher pode chorar? Hoje apetece-me chorar e até choro sem me apetecer. Hoje choro, hoje não sou menina. Não sou mais menina!

Para onde caminho? O nosso propósito, enquanto homens e mulheres, enquanto humanidade, é só e apenas, “viver”? Passar, deixar passar, o tempo… é só isto? É este o fim único da nossa existência? Passar este tempo, da infância a esta fase, à fase velha? Deixar passar…? Sinto que quase foi isso que fiz… e fui relegada, agora, para segundo plano, para um plano mais “triste”, para um plano da existência mais triste. Dizem-me que a velhice é bonita… bonita? Mas quem diz isso?  Quem nunca foi velha… velho é um tempo que não permite ir lá e voltar, ir lá ver como é e voltar. Velho, ser velho, é um lugar feio. Se puderem, nunca vão lá!

Os olhos de um velho estão sempre tristes, ausentes… estará a pensar na juventude, na infância. Nos anos que perdeu, diria eu. Afinal não os viveu? Mas o que é viver os anos? É, sempre, ver a engrenagem de um relógio avançar, inexorável, rumo a um destino, a um fado, já escrito!”

Dei.me conta que as lágrimas me molhavam o rosto… agora, já as lágrimas me molhavam o rosto…

Aqueles tempos, todos aqueles tempos, retratados nas páginas deste velho diário, foram parte da minha vida, escreveram parte da minha vida.

Envelheci!  Envelheci e não me dei conta. A Vida passou por mim… pensando bem nesta frase que faz cócegas nos trilhos do meu cérebro… A vida passou por mim ou fui eu que passei pela vida? Se, quando partir, alguém lá no céu ou na outra dimensão, me perguntar do que mais me recordo, saberei responder?

Acho que sim, que saberei. Apesar de me sentir velha, esta velhinha saberá responder, sim! Do que mais me recordo?

Da Vida!!

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.