EntreContos

Detox Literário.

Cinzas na primavera (Frotinha)

A vida inteira sonhara ter um carro esportivo, foi o que disse aos amigos.  Aos filhos, não deu satisfação, mas eles logo descobriram. A do meio sugeriu uma reunião de família, comprar um conversível vermelho era uma extravagância, talvez um indício de que a senilidade chegava.  O mais velho ressentiu-se. Ao pesquisar o preço, descobriu que daria para pagar por um ano o colégio anterior da filha, trocado por outro mais fraco, o pai sabia, por necessidade. Só a caçula — de longe, tentava a vida na Irlanda — minimizou. Era só um capricho de idoso, que não se preocupassem, logo passava.     

O fato foi que a Bela não fez caso do carro, tampouco o percebeu ao volante nos dois dias seguidos em que ele a aguardou — irreconhecível sob o boné nada elegante usado para evitar que o vento despenteasse os fios cuidadosamente arranjados para esconder a calva — em uma vaga bem frontal e visível à saída do edifício da clínica. 

Começara a frequentar a clínica fazia um tempo. Sua busca por diagnóstico, primeiro para as dores nos ombros, depois na lombar e por último no quadril, se desdobrara em retornos para exames que ocupavam tardes, menos tediosas então, com tantos compromissos agendados. Os especialistas, um após o outro, nada encontravam além de desgastes normais para a idade e prescreviam fisioterapia e anti-inflamatórios, dizendo que voltasse dali a um mês se as dores continuassem. Os remédios, começou de imediato; a fisioterapia, entretanto, achava ineficaz, implicância de velho, e ignorava.       

Saía do elevador no térreo a primeira vez que a viu. Ela subia para o sexto, escutou-a pedir, a voz macia, um sotaque estrangeirado. A mulher mais bonita em suas sete décadas de vida. Virou-se, não pode evitar, mas a porta se fechava deixando-o entrever apenas as melenas de um castanho indefinido caindo em ondas igualmente incertas emoldurando o rosto angelical. 

Também não pode evitar tomar o elevador ao lado e apertar o sexto andar. O coração, normalmente sereno, aos pulos, uma emoção irreprimível e violenta – amor à primeira vista — despertada pela visão da jovem.  

No corredor vazio, apenas a porta de vidro cinzenta e as letras decalcadas indicando — fisioterapia — em vermelho vivo. Entrou, os fiapos de cabelo alvoroçados, a expressão atordoada, procurou-a entre os pacientes que aguardavam ser atendidos pelas duas moças de azul-marinho atrás do balcão. Em vão, nem sinal de seu andar macio, da pele de seda, dos olhos que, de relance, lhe pareceram cor de açúcar queimado.  

Talvez fosse uma aparição, um sinal a indicar-lhe ser a fisioterapia a solução para suas dores indeterminadas, fantasiou, deixando-se levar por um pensamento mágico. A prescrição do tratamento estava guardada no envelope que trazia à mão. Pegou uma senha e aguardou ser atendido pelas moças de azul, vigiando a porta de acesso ao interior da clínica, desejando inquieto vê-la surgir a qualquer momento na sala.    

Agendou a avaliação para o dia seguinte e frustrou-se na primeira sessão ao ser atendido por uma senhora de meia idade, bem acima do peso, um buço ralo sob o nariz, os olhos redondos e juntos, uma gotícula de cuspe no canto direito dos lábios. Quis alegar um compromisso quando a mulher lhe pediu que despisse a camisa — a Bela ao longe, ocupada — mas conseguiu se controlar. Sua resiliência foi premiada pois ao passar por ele em certo momento, a Bela lhe sorriu um cumprimento simpático com os dentes grandes naturalmente claros entre os deliciosos lábios rosados. 

A partir da segunda sessão, não sem uma pequena manobra de véspera, pelo telefone, com a secretária, passou a ser atendido apenas por ela. Duas semanas depois já estava de carro novo em sua tentativa vã de se valorizar aos olhos da Bela, que, em não surtir o resultado esperado, forçou-o a pensar em outra estratégia. 

De perto ela era ainda mais linda e exalava um cheiro — não o do perfume, mas o da pele — de coisa limpa e saudável. Ele respirava fundo, as pálpebras cerradas, sobretudo durante os exercícios. Simulava inépcia, forçando-a a se aproximar e tocá-lo para corrigir as posições inadequadas. As mãos eram firmes e profissionais, porém a privação de afeto em sua pele avelhentada as fazia macias e ternas.  

Chamava-se Bibiana e era natural da Venezuela. Estava há menos de um ano no Brasil, emigrara para fugir da falta de futuro e oportunidades concretas em sua terra.  Estimulava-a a contar sobre sua vida, ela parecendo gostar de praticar a língua que ainda não dominava, ele querendo, além de conhecê-la melhor, ouvir sua voz grave e aveludada.  

Na terceira semana deu um jeito de ser atendido no último horário e ofereceu-lhe carona. Já sabia que ela vivia na zona oeste em um apartamento com duas amigas e inventou ter um compromisso bem próximo do endereço onde ela morava. Esforçou-se para disfarçar a dificuldade em entrar no carro, baixo demais até para um homem sem problemas nas costas. Bibiana, notando o contorcionismo, pensou em ensinar-lhe uma manobra mais anatômica para se acomodar, porém preferiu não falar nada evitando embaraçá-lo. 

Voltou para casa eufórico, a capota abaixada, os pneus cantando nas curvas, o vento fazendo mais leves os anos que lhe pesavam depois de trocar dois beijinhos no rosto ao se despedir da Bela naquela noite bem-aventurada.  

Rolou na cama de madrugada, sonhando acordado com os lábios úmidos de Bibiana e o roçar sedoso em seu pescoço dos cabelos perfumados dela. Agitado, dobrou a dose do Rivotril, contudo só conseguiu pegar no sono depois de maquinar um plano, que lhe pareceria sórdido pela manhã, factível a tarde e com alguma possibilidade de se concretizar na semana seguinte quando começou a sondar, muito discretamente, com uma conversa despretensiosa enquanto era manipulado nas costas, a hipótese de a Bela aceitá-lo. 

Pai zeloso, querendo saber como a filha estava vivendo em sua temporada irlandesa, seu plano tinha como mote uma viagem à Europa com o propósito de visitá-la. Antes da Irlanda passaria em Paris, talvez também em alguma outra cidade europeia, ainda não havia pensado. Dez a quinze dias no máximo, há muito não viajava, estava sentindo falta de respirar outros ares.  Gostaria que ela, Bibiana, aceitasse ir com ele. Como sua convidada, antes da visita à filha, durante a primeira parte da viagem. Tudo por conta dele: passagens, despesas com alimentação, hotel. Em quartos separados, obviamente. Além de lhe fazer companhia, ele não precisaria interromper a fisioterapia, foi seu argumento final, bem descabido e forçado.  

Mesmo achando estranho o convite, poucos dias e alguma reflexão foram suficientes para Bibiana se acostumar com a ideia. Não era ingênua, ponderou riscos e oportunidades inclinando-se cartesianamente em aceitar a oferta. Que mal havia em dar atenção e companhia àquele senhor solitário, ela também tão sozinha, como a filha dele, naquela terra que não era a dela? Na Europa, depois de se separarem, poderia aproveitar para fazer algum curso ou conhecer a terra natal de seus antepassados, imigrantes como ela, em outra época. 

Suava no aeroporto, ansioso, medo de que ela não viesse. Tomou dois cafés e uma garrafa inteira de água antes que ela aparecesse com uma mala média, os cachos presos no alto da cabeça, uma ruguinha na testa. Ele sorriu, os olhos apertados, sem mostrar os dentes, uma cara de pateta; ela torceu a boca numa careta nervosa. Estaria fazendo a coisa certa?

Estava. Tudo correu perfeitamente na viagem. Ele, um cavaleiro durante a maior parte do tempo, exceto quando se insinuava, normalmente após uma ou duas taças. Ela fingia não entender, ele desconversava, os dois em uma espécie de esgrima em que ambos buscavam o empate. As sessões de fisioterapia começaram diárias, no quarto dele, ao retornarem para o hotel, no final da tarde. No terceiro dia da viagem, cessaram de acontecer, os dois em um acordo tácito, aquele pretexto incômodo tornado desnecessário.  

A viagem estendeu-se por seis dias em Paris, a medida exata para ele lhe mostrar a cidade luz com calma. Poucos museus e muitos passeios a pé interrompidos a qualquer momento por cafés ou vinho branco gelado, o tipo de viagem que ele sempre sonhara. Bibiana, a companhia perfeita, entusiasmava-se com tudo que ele propunha e ouvia com atenção o que ele contava sem demonstrar impaciência ou tédio. 

Sentia-se grata, a Bela. E maravilhada. Faltou-lhe conhecer a noite parisiense, as baladas, mas não se incomodou, era jovem, não faltariam outras oportunidades. À noite, os dois saiam apenas para jantar. Ela sempre escolhia uma salada e bebia no máximo uma taça, fazendo sobrar o restante da garrafa para ele, que voltava ao hotel tropeçando, incapaz de incomodá-la.

Na última noite, brindaram com o champanhe mais caro da casa e Bibiana abriu uma exceção ao pedir um prato em lugar da habitual salada.

Talvez tenha sido o sabor da trufa ou uma espécie de nostalgia antecipada; talvez a bossa nova ao fundo ou a conversa excepcionalmente agradável; talvez ela tivesse aquele desfecho planejado desde o primeiro dia de viagem.  

Em vez de se despedirem na porta do quarto dela com os dois habituais beijinhos de boa noite que o faziam levitar, Bibiana o puxou suavemente para dentro, suas mãos mornas sobre as dele prometendo mágicas. Que mal havia em ficarem juntos? Amor não tirava pedaço.

Ele deixou-se conduzir com passos inseguros, alisou-lhe os braços lisos com os dedos gastos e abraçou-a com firmeza, os olhos fechados, o cheiro da pele, da nuca nunca experimentado por tanto tempo de tão perto. No negro das suas pálpebras cerradas, uma versão sua de outra época, a Bela entre os braços, surgiu imprecisa e vaga e ele estreitou o corpo de encontro ao dela. Mas ao abrir os olhos, um velho patético parcialmente eclipsado pela elegância da Bela em seu vestido cinza-claro, ele mesmo, o mirava do espelho no fundo do quarto.

Afastou-a delicadamente, segurou seu rosto entre as palmas e deu-lhe os dois beijos de sempre nas bochechas nacaradas. Alegou que seu voo partiria cedo, que a mala ainda não estava completamente arrumada, que era prudente recolher-se logo ao seu quarto e saiu todo afobado.

Na manhã seguinte lhe entregaram na recepção um bilhete de Bibiana, dizendo-se grata por tudo e desejando-lhe boa continuação de viagem. Ao pousar em Dublin, em outra mensagem no celular, ela dizia já estar em Madrid, chegara bem, o curso em que se matriculara começaria dali a pouco, no final da tarde. Foi a última notícia que teve dela antes do Natal.

Persistiu na fisioterapia por algum tempo. Sem Bibiana, porém, logo achou que estava curado. A mensagem de Boas Festas que ela lhe enviou foi bem simples mas serviu como ensejo para ele argui-la sobre o rumo que a vida dela tomara. Foi então que soube que ela estava na Grécia trabalhando como fisioterapeuta em um campo de refugiados, de Madrid seguira para lá, o trabalho era duro, mas estava realizada.

Aos filhos, que continuaram insistindo na inconveniência do carro, prometeu para encerrar o assunto que o venderia assim que o verão terminasse.  Na primavera ainda circulava, um boné sem glamour contendo os cabelos, pelas ruas da cidade. 

E Então? O que achou?

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.