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Detox Literário.

Asas de graúna (Chiquinha)

Não se sabe se Graúna ganhou o apelido por conta da cor de sua pele e cabelos, ou da potente voz soprano,  que encantava todos os um mil e quinhentos e doze habitantes do formoso município de Bem Distante. Eclética, cantava em casamentos, quermesses, batizados, enterros e em eventos menos pudicos, como inauguração de reforma de puteiro e churrascada embriagante no único mercadinho do lugar,  meio dublê de bar, farmácia, secos e molhados. Mais molhados do que secos, que seja bem dito. De memória invejável, sabia desde sambas de raiz, clássicos da MPB, bossa-nova, funk, hip-hop até Baby Shark Turururu, que colava, de forma definitiva e irremediável, no público dos 8 meses aos 88 anos. 

Nos preparativos para a festa de aniversário de cem anos da fundação de Bem Distante, o prefeito, Seu Justinho, pesquisou a história da cidade em jornais antigos e encontrou uma foto da inauguração onde o prefeito, a primeira dama e várias autoridades assistiam uma apresentação artística no coreto da praça recém-inaugurada. Sim, ela mesma, a Graúna, vestida com uma túnica brilhante, uma mão no coração e outra oferecida aos céus. Inconfundível.   Lendo a legenda da foto não havia dúvidas: “A grande cantora Graúna saúda com sua voz de melro os orgulhosos bendistantentes e convidados.” Seria a avó de Graúna? Pesquisou na internet e só achou referencias ao pássaro e nada sobre uma família de divas. Procurou a cantora e mostrou a foto. Ela não se fez de morta, sou eu sim. Naquele dia cantei “Ó abre alas” em homenagem a fundação da cidade na terça-feira gorda de carnaval. Eu estava fantasiada de messalina, um espetáculo. Com certeza o primeiro escândalo da cidade, já que o prefeito não tirava os olhos de minhas curvas fartas. Minha avó? Claro que não, sou eu mesma, pode perguntar para a tua mãe, eu cantei no casamento dos pais dela, amigos do prefeito que, diga-se de passagem, era um pedaço de mau caminho. Não o seu avô, que era feio como um trem virado, que Deus o tenha, falo do primeiro prefeito, Aristides Fonseca de Araújo. Que homem, que homem… Minha idade? Tenho cento e vinte, nasci preta livre e peguei o gosto. 

A notícia se espalhou e logo não havia outro assunto na cidade. Qual o nome verdadeiro de Graúna? Onde nasceu? Filha de quem? Como veio parar em Bem Distante? Como ela chegou aos 120 com cara de 60? E aquele cabelo preto? Só pode ser pintado, é asa de graúna demais para ser de verdade. Ela deve ter feito pacto com o capeta, vendeu a alma em troca da voz e até hoje o coisa-ruim está esperando ela pagar a dívida. E a danada adiando, adiando. Valei-me minha virgem Maria, que isso não é coisa do bem. 

Aos poucos os convites para festas foram rateando, o povo saindo de fininho quando Graúna se aproximava. Passou a cantar sozinha pela rua. As letras das músicas foram se confundindo, as notas musicais se atropelando, as asas perdendo as penas, a penugem brilhante sendo substituída por foscos tufos acinzentados e a voz assumiu o timbre torpe do silêncio; até que voou.

Na festa do centenário, uma estátua de Graúna foi erguida no coreto da praça, homenagem à talentosa e amada cidadã misteriosamente desaparecida. Não houve música no evento. 

Enquanto isso, brincando absorta na areia, uma menina cantarolava uma antiga marchinha de carnaval.  

Nota: “Ó abre alas”, primeira marchinha de carnaval da história, composta por Chiquinha Gonzaga em 1899.

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 1.