EntreContos

Detox Literário.

Mulher-Dama (Guadalupe)

Não fosse a dor lancinante nas pernas, não sairia da cama antes que o sol estivesse a pino. Mas tornou-se insuportável. Precisava de café forte. 

Tateando as paredes, chega à cozinha. Noite fechada. Requenta a sobra do bule, despeja na caneca e completa a medida com conhaque. Sorve tudo em três goladas. Ajudaria a suavizar a dor. 

Destranca a porta e arrasta a cadeira para o quintal. Brisa minguada, silêncio. Castigados pelos porres sucessivos, garganta e peito queimam. Sensação de garras afiadas rasgando as carnes. O suor brota sob os ralos fios de cabelo prateados, escorre pela nuca, encharca a roupa. Calor do tempo, do conhaque, das pernas intumescidas. Fogo. 

De início, Lucila não bebia. Era feliz. Ou pensava ser. Casada de pouco, amoldada, sem fantasias, horizonte limitado. Até conhecer aquele outro. Primeiro notou o bigode, depois os olhos de fisga. A cor jambo da pele realçava os dentes perolados que rasgavam o sorriso malicioso. Foi flecha no juízo, desatino do sossego. Ali teve início a luta da decência, o total desvario. Ambos casados.

Não adiantava a repetição silenciosa ecoando no pensamento de que “não poderia ser”, Lucila percebia que “seria”. E foi por muito tempo. Encontros arriscados, insanos, beirando a loucura. Perdeu-se o limite da ousadia. Riscos não eram avaliados, aventura alucinante.

O marido passou a beber com mais frequência. E não bebia sozinho. Trazia para casa, além do costumeiro rum, vinhos doces e suaves. Bebidas que Lucila apreciava. Logo o vinho passou a ficar insosso para ela, o rum misturado ao licor de groselha trazia mais prazer, depois com gengibre e, finalmente, rum puro, gin, uísque…

E veio a primeira gravidez. Depois, a segunda, terceira… 

Nos olhos dos dois primeiros filhos e na cor da pele, transpareciam sinais traiçoeiros. Quanto mais cresciam, mais lembravam a figura do pai. Aquele outro.

Com o tempo e os comentários aumentando, o cerco fechando, os encontros se escasseando, a bebida ocupava noites e dias. A convivência familiar não mais se mantinha, os cuidados com os filhos caíam no desleixo, e crises de fúria acometiam o marido. Violência estabelecida.

Assim, numa noite de muita dor, Lucila fugiu de casa. Caminhou rapidamente por entre as casas e ruas até ganhar a estrada. E, de boleia em boleia, atravessou cidades, cruzou o Pantanal. Chegou a vilarejos que cercavam áreas de garimpo e parou na capital rondoniense. 

Formosa, não demorou a formar uma clientela seleta. Pagamentos feitos em ouro. Em pouco tempo, construiu um vistoso prostíbulo e contratou várias meninas. Enriqueceu. Sabia administrar e as meninas seguiam à risca suas determinações. 

De mulher de meia volta na chave, tornou-se cofre. Cravou trancas em todas as portas e janelas da alma. Dizer que não sentia saudade daquele outro, nunca disse. Calava. Boca e coração.

E os filhos? Ela nunca soube desenredar o remorso da dor. Tudo era uma só navalha a lhe retalhar as entranhas. 

Inconscientemente, sublimou. Nada de lembranças dolorosas, nada de pensamentos incômodos. Concentrava energia nas demandas que sempre resultavam em negócios bem sucedidos. Dias e dias somando. Anos. Não pode afirmar que foi amorosa, foi prática. Valorizava o serviço na casa, mas exigia. Foi generosa. Menina nenhuma saiu de seu domínio sem norte na vida. Cada qual escolhia o seu destino, e levava seu quinhão.

De repente, cansou.  Por um bom período, depois de encerrar o expediente do bordel, e até que o dia clareasse, bebia incontrolavelmente. Sem tristeza, sem mágoa. Apenas bebia. Por gosto. Ou desgosto…

Silenciosa, foi se desfazendo dos compromissos. Ajeitou o que deu para ajeitar, abandonou o que não deu. 

Não demorou muito a se acomodar numa casinha de fundo. A frente era ocupada por Genivaldo, inquilino antigo e dono do bar. Amigo leal, parceiro de bebedeira, ouvido de aluguel. Se bem que ela falava pouco, quase nada.

Quis resguardo, privacidade. Mais que isso, buscou invisibilidade. Teria conseguido, não fosse Genivaldo, seu anjo da guarda. E isso irritava Lucila. Não gostava de cuidados.

O negrume da noite começa a se desfazer, é possível vislumbrar formas, perceber recortes das copas das árvores. O sol dá sinais do parto diário. A luz incontida vai tomando o espaço, e os olhos de Lucila, involuntariamente, mostram a turvação. Quem sabe formada pelas lágrimas represadas. E essa claridade a incomoda. Deixa à mostra as mãos envelhecidas, judiadas. As unhas encardidas em nada lembram os tempos dos esmaltes carmins. Febris, as pernas agigantadas pelo inchume deixam um brilho estranho na pele. Desagradável aos olhos. 

Indisposta, quer entrar. Chega de olhar, de ver. Já viu de tudo, nada mais importa. As pernas pesam mais que sempre, difícil caminhar. Joga-se na cama desfeita, aconchega-se ao travesseiro e cerra os olhos. Porcaria! Não sente nada além da fraqueza. Queria sentir, mas não sente. E não queria pensar. Escolheu a vida que teve? Errou? Se tivesse chance, faria tudo de novo, da mesma maneira? Não tem resposta alguma, nem quer ter. A vida só lhe mostrou o dia seguinte, foi sempre assim. 

Para espantar o incômodo, o engolir sem sabor, tenta levar o travesseiro ao rosto como se quisesse abafar um grito. Não consegue. Quer tentar novamente, mas nem sabe onde está o travesseiro. Mergulha num vácuo. Inerte, o braço desliza para o lado da cama.  

Distante dali, milhares de quilômetros, os primeiros raios de sol apontam. No ambiente solitário da terapia intensiva, um velho agoniza e, ofegante, balbucia palavras. A enfermeira se aproxima e ouve: “Lucila, espere, estou indo, pegue a minha mão”. Generosamente, a cuidadora aperta a mão do homem. Os olhos dele continuam fechados, não mostram a fisga. Mas o sorriso malicioso esboçado ainda marca o rosto. Daquele outro.

 

Guadalupe, simplesmente Lu

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Informação

Publicado em 22 de março de 2020 por em Envelhecer, Envelhecer - Grupo 2.