EntreContos

Detox Literário.

Para Além do Vale da Esperança (Elias)

 

– Vai-se lá, mano! Que história é essa de dar educação aos pretos?

Ouviu a tal pergunta atentamente, mas já estava decidido. Ajuntou a sua mala e partiu. Subiu ao trem pouco antes das três. O moço a vir lhe checar o bilhete tinha mal hálito e cheirava a crisântemos, o que lhe causou um incomodo desnecessário.

Durante os três dias de viagem, admirou as paragens, com seus longos verdes. Vez ou outra, deparava-se com rebanhos enormes, brancos ou pretos, mas nunca misturados. Ao longe divisava o que imaginava ser um vaqueiro, que imaginava gritar ao gado. No entanto, àquela distância, sua voz desaparecia por debaixo do soprar do vento e mesmo do mugir das vacas.

Ao final do terceiro dia, já chegando ao seu destino, choveu às troças. A máquina teve de parar, com o moço a entrar no vagão explicando-lhe o medo de dilúvio.

– Pois não há forma de prosseguir no atual estado. – disse o moço, com o chapéu à mão. Fitava-lhe com certa tristeza, a tal ponto que quase lhe perdoou os odores, mas bastou virar-se para que a ojeriza voltasse a toda potência, e ele praguejou contra o pobre por ofender-lhe o olfato.

Chegando ao destino, desceu à plataforma agarrado às malas. Uma velha se aproximou pedindo esmolas e ele atirou-lhe uma moeda. A senhora, feito um cão, lançou-se ao pedaço de metal, mordendo-lhe para checar a consistência.

Esperava-lhe por ali um tipinho magro, de dentes poucos, que prometia levar-lhe ao endereço que procurava. Saltou então ao lombo de uma mula cadavérica e prosseguiu embaixo de Sol. O sujeito ao lado mascava algo que não pôde distinguir. Vez ou outra, cuspia por sobre o ombro um misto disforme preto-avermelhado que fê-lo perguntar se não achava melhor ir procurar o doutor. O sujeito sorriu de volta mostrando uma gengiva branca e repleta de vermes.

Chegaram a uma vila já beirando o crepúsculo. Via-se por ali uns projetos de casa pairando sobre um areal estéril. Os olhos que fitavam-lhe dos outros lados das janelas eram de dar dó. Pareciam lhe pedir por algo. Só não sabia o quê.

Aquietou-se por uma construção que parecia um pouco menos suscetível a desabar do que as outras. Dormiu um sono intranquilo no qual foi visitado por uma garota, metade preta, metade branca. Quando perguntou-lhe quem era, ela disse com voz de choro e de riso: “Sou tua filha natimorta”.

Levantou-se antes do sol, das galinhas e do leiteiro. Conversou com a noite por alguns instantes e depois partiu ao meio da quadra onde falou ao pároco local. O homem santo lhe perguntou sobre suas intenções, e ele disse por entre dentes:

– Não é justo que esse povo possa, ao menos, ler? – mas logo abaixou a cabeça, ciente dos absurdos que dizia.

Pouco após o nascer do Sol, já estava sentado à praça, cercado de crianças pretas, livro à mão, falando sobre aritmética. Uma menina mirrada, com uma dúzia de anos e de quilos, perguntou-lhe se com aqueles números poderia contar os golpes que mataram o seu pai.

Ao final da lição, o padre chegou para aproveitar a reunião e falar um pouco sobre seu deus. Ele percebeu como os olhinhos atentavam-se às palavras do religioso em busca de algum significado que sua ciência era incapaz de conferir.

Caminhou até um comércio e pediu duas doses de álcool e uma de esperança. O homem do outro lado do balcão colocou três copos na mesa, dois cheios, o outro vazio.

Outra noite sonhou com a menina. Perguntou-lhe se havia algo que pudesse fazer por aquele povo e ela respondeu: “Chorar o sangue que não tem coragem de derramar”.

Três dias mais, e seus ineficientes esforços cansavam-lhe. Os copos no balcão aumentavam à medida que as crianças na praça diminuíam. O padre disse-lhe das inutilidades de seus atos e aconselhou-o a partir. Deu-lhe um terço para que rezasse, e uma garrafa de vinho para que bebesse.

Em sua última noite na vila, sonhou com a menina pela última vez. Apesar de não lhe perguntar nada, ela lhe disse: “E se Deus existir e ele não gostar da gente?”.

Encontraram-lhe no quarto por volta da hora do almoço. As roupas encharcadas de vinho, o terço enrolado no pescoço, asfixiando-o.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.