EntreContos

Detox Literário.

Palavras (Mateus)

 

Quando jovem, Guilherme tinha certeza de que um dia seria o Papa. 

A retidão inabalável, a presença de púlpito aliada à dicção perfeita, o carisma transbordando num sorriso onipresente ao lidar com os devotos e, sobretudo, o dom divino de, com perícia de advogado tarimbado perscrutando parágrafos e incisos num tribunal, citar o versículo exato, encontrar a passagem que traria mais conforto e acalentaria o espírito de qualquer fiel em sua hora mais desesperada – todos esses talentos o levavam a crer que nascera para se tornar o sumo pontífice e era questão de tempo até que a fumaça branca subisse e seu nome fosse anunciado na Santa Sé. Ele então poderia ajudar não só a um bairro ou uma cidade, mas ao mundo inteiro. 

Ironicamente, essa ânsia de ajudar, de fazer a coisa certa, aliada à inaptidão para  politicagens e bajulações exigidas para se chegar ao alto clero, acabaram afastando-o cada vez mais do destino que sonhara quando menino, até que os caminhos insondáveis da fé conduziram-no a Santa Edwiges do Pinhal, um município esquecido na divisa de dois estados esquecidos, que estava para o Vaticano como uma pintura rupestre Neanderthal estava para um afresco de Michelangelo. Mas se o criador de todas as coisas, com sua infinita sabedoria, decidira enviá-lo para lá, algum propósito maior haveria de existir – assim resignava-se Guilherme, no confessionário que já era mais banquete de cupim do que cabine.

– … padre, eu juro pro senhor, olha, vai parecer mentira, mas não é mentira, não. A danada me provocou, padre. Olha, ela me encarou assim, ó… só faltou falar, juro pro senhor. Daí, olha, agora eu me arrependo, mas na hora não aguentei, não. Fui lá e sapequei a danada.

– Filho, você cometeu bestialidade… de novo.

– Eu sei, padre, mas, olha, ela me provocou eu ju…

– Tenho certeza de que a cabra não te provocou, Nestor – Guilherme se exaltou, menos pela tentativa débil do homem justificar o pecado do que pelo tédio da repetição. Retomou a serenidade: – “Nem te deitarás com um animal, para te contaminares com ele”, é isso o que ordena o Senhor. Reze dez vezes o Pai Nosso e dez a Ave Maria, Nestor. E pense no quanto isso é errado para você, para o pobre animal e para Deus. Vai-te e não peques mais, filho.

Três semanas haviam se passado desde a transferência. Tempo suficiente para conhecer praticamente todos os habitantes da não tão acolhedora Santa Edwiges do Pinhal, decorar seus costumes, manias e pecados, e, desafortunadamente, comprovar que alguns esteriótipos da vida no campo não existiam apenas nas anedotas maldosas contadas na capital. Imaginou como seria passar meses e anos ali, encarcerado numa capela caindo aos pedaços, ilhado num oceano de pastos e terra vermelha, até pleitear uma nova mudança que, se dependesse do bispo Fernando (que Deus lhe conservasse a saúde, apesar de tudo), jamais ocorreria. Sentiu vontade de chorar.

– Ainda tem tempo pra ouvir mais um pecado, padre? – uma voz feminina vinda do outro lado da grade arrebatou Guilherme dos devaneios.

– Claro, filha. Sempre há tempo para a confissão e arrependimento – ele respondeu, observando o rosto da mulher através das frestas.

– Eu desejei a morte de alguém, padre. Muitas vezes – ela disse, a voz num amálgama de rancor e impotência. – E meu único arrependimento é não conseguir realizar esse desejo com as minhas próprias mãos.

– Filha, isso é muito grave – Guilherme falou, inclinando-se para frente, um pouco assustado, um muito curioso. – Quem é essa pessoa para quem você deseja a morte?

– Antes de responder isso, preciso te mostrar uma coisa, padre. Meu nome é Isabel, sou governanta na fazenda do coronel Otacílio. O senhor tem que visitar a filha dele. Tem uma coisa muito errada acontecendo com aquela menina… Vá até a fazenda amanhã, padre. Lá o senhor vai entender.

***

No dia seguinte, o padre tocou o sino na porteira da fazenda.

Um dos capatazes conduziu-o de carro até a “casa grande”. No caminho, contou sobre os pensamentos pecaminosos de um amigo a respeito de relações extraconjugais. Guilherme fez obervações protocolares, mas não deu muita atenção. O olhar estava perdido na paisagem bucólica, nos campos que se estendiam a perder de vista no horizonte, nos rostos sofridos dos lavradores que caminhavam à beira da estrada compondo um cenário quase pré-lei-áurico. Enquanto isso, pensamentos apreensivos, uma inquietação incomoda de mãos suadas esfregando-se uma à outra, com a imaginação regada a versículos do apocalipse desenhando os piores cenários para o encontro com a menina. Isabel o aguardava, em pé, abrigando-se nas sombras da varanda.

– Padre Guilherme, essa é Janaína. Janaína, esse é o padre Guilherme – a governanta fez as apresentações logo ao entrarem. – Ele será seu professor de catecismo – completou, para surpresa do “professor”.

– Oi, padre – a menina cumprimentou, abrindo um sorriso desfalcado de alguns dentes de leite recém-levados pelo barbante amarrado à fechadura. – Eu tô desenhando, quer ver meu desenho?

– Quero, quero sim…

– Essa aqui sou eu – apontou um borrão rosa. – Essa é a mamãe – disse, batendo o indicador sobre um emaranhado de linhas azuis e amarelas no alto da folha. – Ela tá lá no céu, né, tia Isa?

– E esse aqui, quem é? – Guilherme mostrou uma figura verde, cortada por um risco dourado, algo que lembrava um dinossauro fugido de um quadro de Picasso.

– Esse? Esse é… o monstro… – Com lápis vermelho, Janaína começou a riscar a figura.

O “ric ric” da ponta do lápis quase trespassando o papel soou aos ouvidos de Guilherme como navalha afiada tirando espuma e pelos do pescoço numa barbearia silenciosa. Viu mais alguns desenhos e depois começou as lições do catecismo (já estava ali mesmo e a menina estava na idade, afinal). Janaína revelou-se um pequeno prodígio para a entender os conceitos da criação do mundo – o Céu definitivamente estava reservado aos puros de coração.

– Tirando o “monstro”, não vi nada de errado até agora – o padre comentou com Isabel quando a menina foi ao banheiro.

– Pois pergunte a ela sobre as histórias que o pai conta. Daí o senhor vai ver, padre.

Quando a menina voltou, Guilherme controlou a ansiedade e continuou com os estudos do Gênesis. Tentou preparar o terreno para encaixar a pergunta de modo natural, no momento oportuno:

– Encerramos por hoje, querida. Na próxima vamos falar sobre a história de Adão e Eva. Você já ouviu falar deles?

– Não…

– Ah, é uma história bem conhecida… pensei que seu pai pudesse ter te contado…

Então Guilherme viu.

O semblante, até então ingênuo e sorridente, desmanchou em rubor e desolação. Os olhos castanhos, cheios de vida havia dois segundos, encheram-se de lágrimas e acinzentaram-se. Seu   rosto, antes iluminado, exalava alegria suficiente para encher um casarão, mas agora, depois daquela maldita frase, parecia tão triste quanto folhear o álbum de casamento de um casal que não se ama mais.

– Meu pai… não… me conta história nenhuma… – Janaína correu para o quarto, batendo os pés escadaria acima.

– Viu? – Isabel perguntou, conduzindo o padre a um canto reservado da sala de jantar. – Se eu contasse, o senhor ia achar exagero, não é? O pai dela… o coronel Otacílio – ela tomou fôlego –, ele faz com essa menina coisa que pai nenhum devia fazer com uma filha, padre. E que homem nenhum devia fazer com uma criança…

– Isabel – Guilherme sussurrou, agarrando-a pelos ombros –, isso é uma acusação muito grave. Se você tem provas, tem que levar à polícia…

– Polícia? – a governanta deu um riso tão desesperado quanto irônico. – O coronel manda e desmanda aqui, padre. Ele é a polícia. Não dá pra pedir ajuda pros homens, padre. Eu tive que pedir ajuda pra Deus.

As palavras voltariam incontáveis vezes para atormentar Guilherme naquela noite. Ele também era só um homem, o que poderia fazer? Realizar ele próprio a denúncia? Com quais provas? Confrontar diretamente o coronel, tentar obter mais informações com a menina? E se Isabel estivesse mentindo, droga, mas por que ela mentiria sobre uma coisa dessas? Reportar ao bispo? Quanto tempo demoraria até algo efetivo ser feito, se todo aquele horror fosse verdade, quanto tempo Janaína passaria nas mãos de um monstro sem que ninguém pudesse salvá-la. Um monstro. No âmago, de alguma forma Guilherme sabia que era verdade. Sabia que ajudar aquela menina era seu propósito. E, sabia também, que para o mal prevalecer, basta que os bons não façam nada. Ele estava disposto a fazer. Mas o quê?

No dia seguinte, com a insônia pendendo em bolsas escuras abaixo dos olhos, recebeu a visita do coronel Otacílio.

***

– Fiquei sabendo que o padre foi lá em casa ontem – disse Otacílio, tirando o chapéu ao entrar na capela. Contrariando as imagens mentais feitas por Guilherme, o coronel era um homem de gentil aspecto, magro, sem barba, com um sotaque interiorano bastante carregado. – A Janaína tava precisando mesmo entrar pro catecismo.

– Ela aprende muito rápido.

– Bom. Muito bom – disse Otacílio, encarando o padre. – Por aqui é bom a gente aprender rápido, seu padre. Saber onde a gente pode pisar, onde não pode. Muito bom.

– Combinamos de ter uma aula por semana, se o senhor estiver de acordo.

– Estou de acordo, sim, seu padre. Vou até fazer uma oferta mais gorda esse mês, pra ajudar na reforma aqui da igreja. Isso aqui tá um chiqueiro que dá nojo – disse o coronel, não desprovido de razão, observando as paredes e bancadas. – O outro padre, que Deus o tenha, tinha um bom coração, mas tava muito acomodado, preguiçoso. Ficar muito tempo no mesmo lugar deixa a gente assim. É bom ter sangue novo de vez em quando. Muito bom.

– Toda oferta será muito bem recebida e utilizada, coronel.

– Otacílio. Me chama só de Otacílio. Foi bom tirar esse dedinho de prosa com o senhor, seu padre. Só queria te conhecer melhor, pra não colocar minha filha em contato com qualquer um, sabe como é esse mundo. Até mais ver, seu padre.

Enquanto Otacílio saía da igreja, Guilherme não pôde deixar de reparar no lustre do sapato do coronel, na qualidade da camisa e do couro do chapéu e, sobretudo, no cinto que lhe segurava as calças – parecia feito de ouro.

***

– Tem certeza disso, Isabel?

– Tão certo quanto vaca prenhe dar bezerro em virada de lua, padre.

Guilherme se questionou milhares de vezes sobre qual seria o certo a se fazer. Não encontrou respostas. O que Jesus faria na mesma situação? Certamente não se esconderia no armário dentro do quarto de uma menina, esperando pelo flagrante derradeiro com um celular na mão. Isabel planejara tudo. Depois da aula, o padre permaneceria na fazenda, alegando uma indisposição qualquer. A governanta o conduziria ao quarto de hóspedes e o tiraria de lá no momento oportuno, entre o banho e o sono da menina, pouco antes da hora das “histórias”. O padre filmaria a atrocidade e teria provas para levar à polícia da capital que, assim esperavam, trancaria Otacílio numa cela e não o tiraria de lá nunca mais. O plano soou totalmente absurdo quando Isabel contou pela primeira vez. E ficou ainda mais absurdo no escuro, entre vestidos e casacos, dentro do guarda-roupa que era quase um cômodo à parte. Mas ali estava ele, feito herói de fábulas infantis, movido pela fé e pela certeza do propósito. Aguardando e observando pelas frestas, com um arrepio nada heroico percorrendo-lhe periodicamente os intestinos. Isabel colocou a menina para dormir e, ao sair do quarto, acenou positivamente na direção do armário.

O Lobo Mau não tardou a chegar.

– Quer escutar uma historinha hoje, filha?

– Não sei…

– Ah, quer sim. O papai vai te contar uma historinha que você vai gostar bastante, viu? Igual a mamãe gostava – disse Otacílio, de pé em frente à cama de Janaína. Então ele tirou o cinto dourado e baixou o zíper.

– Hoje eu que vou te contar uma história, seu Otacílio – disse o padre, saindo do armário com o ímpeto de um serafim, espetando as costas do coronel com a faca que trouxera, por insistência de Isabel, certo de que jamais usaria.

– Seu padre, seu padre – Otacílio falou com calma, ajeitando as calças –, pensa bem no que o senhor vai fazer.

– Eu só vou dar uma volta com o papai e adiantar uma aula do catecismo com ele, tá bom, querida? – disse Guilherme, dirigindo-se à menina que se encolhia assustada junto ao travesseiro.

***

Saíram de caminhonete, Otacílio dirigindo com a faca pronta para lhe trespassar as costelas. Passaram pela porteira, sob o olhar mais sonolento do que desconfiado do capataz. Seguiram até um lugar ermo onde uma olaia solitária balançava os galhos ao gosto da brisa fresca trazida pela noite enluarada. Desceram pela porta do motorista, Guilherme pulando os bancos com agilidade para não desgarrar do refém.

– De costas – o padre ordenou e o coronel obedeceu. – De joelhos. Eu falei pra ficar de joelhos, coronel – dessa vez, a ordem precisou de um pequeno auxílio da faca para ser cumprida. – Agora, filho… confesse. Confesse todos os seus pecados, todas as iniquidades que você fez com aquela criança. CONFESSE!

As lágrimas falaram mais do que quaisquer palavras. Otacílio sucumbiu a um choro de soluços, como se uma barragem de arrependimento tivesse desmoronado em seus olhos. Encolheu-se, sujou as mãos na terra escura. Só na terceira tentativa conseguiu falar sem desabar em prantos.

– Eu… eu queria parar, seu padre… eu quero… mas desde que Deus levou a minha Cristina… é mais forte do que eu, seu padre. Quando eu vejo, já tô lá no quartinho dela. E daí no dia seguinte o mal tá feito e eu quero me matar, mas não me mato, me engano que vou mudar, mas não mudo.

– Você se arrepende, filho?

– Mais do que tudo nesse mundo – Otacílio respondeu, as lágrimas voltando a escorrer a cântaros.

– “E, se tua mão direita te fizer pecar, corta-a e atira-a para longe de ti. Pois te é melhor perder um dos teus membros do que ter todo o teu corpo lançado no inferno”, isso é o que disse Jesus, seu Otacílio. Essas são as palavras em que eu acredito. Acho que você entendeu o que eu quis dizer – disse Guilherme, jogando a faca ao lado do coronel. – Eu acredito no poder da fé, acredito no poder de Deus, acredito que as pessoas podem mudar. E se nada disso for verdade, se tudo isso forem só vãs palavras, prefiro não continuar vivendo. Estou aqui, rezando por você, filho. Espero que tome a melhor decisão.

O padre virou as costas e ajoelhou-se, fechou os olhos e começou a rezar, a alguns passos do coronel. Otacílio pegou a faca caída a seu lado e secou as lágrimas antes de examinar a lâmina. Sabia que o padre tinha razão, sabia qual era o certo a se fazer. Olhou para trás, o pescoço desprotegido de Guilherme praticamente cintilando ao luar. Não, não poderia fazer aquilo, tinha que mudar. Por Janaína. Pela doce Cristina. Tão difícil. Tanto arrependimento, tanta dor. Respirou fundo. E finalmente decidiu. 

A lâmina fez seu trabalho e um grito ecoou na noite. A terra escura sob a olaia recebeu seu quinhão de sangue.

Numa fazenda perto dali, o galo cantou pela terceira vez.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.