EntreContos

Detox Literário.

Raízes (Maria)

 

1

Larinha não gostava muito das festas da família. Havia uma porção de coisas legais rolando no celular – pessoas pulando de um prédio para o outro, explodindo garrafas de refrigerante… Mas ali estava, a única criança da casa da avó, quer dizer, ela e Maicon.

A menina ficou como um morcego no sofá e dessa forma viu as canelas finas do avô aproximarem-se. “Vai começaaaaaarrrr!”, ele gritava. Não perderia por nada o “Especial de Natal com Reinaldo Aguinol”.

Era um programa em que o mesmo cantor de todos os anos interpretava as mesmas músicas na mesma igreja.

– De terno nesse calor? Ele vai passar mal – disse Larinha.

– Vai nada! – respondeu o avô Antônio. – O Reinaldo Aguinol é o melhor cantor do país…

– O que isso tem a ver?

– Imagina, um calorzinho desse não derruba ele, não…

– Calorão!

– Já que é tão esperta, diga uma coisa: sabia que o Reinaldo Aguinol nasceu aqui?

– Ué, é claro, ele é brasileiro.

– Sim, menina, mas nasceu aqui no nosso bairro.

– Na Vila Ipê?

– Não exatamente, mas no bairro que fica aqui do lado… O Goiabinhas.

– Eu não sabia!

– Se você conversasse mais com o vovô Antônio, aprenderia muito mais. Você só fica no celular.

– Eu duvido que você saiba mais coisas que o celular!

– Pois eu sei.

A menina cansou e logo chamou Maicon. A dupla fez um esforço para vencer a multidão que estava na casa: pessoas vestidas como se estivessem na festa da Rainha da Inglaterra e conversando feito loucas. Fugiram para o quintal.

– Nossa, estou suando, Má! – disse Larinha.

– Mas é claro, recruta! O batalhão familiar da nonagésima terceira ocasião natalina dos uniformes requintados conseguiu a façanha de comprimir todo o seu contingente na casa da vovó, maaaaais uma vez.

– Hahaha! Maicon! – disse a menina jogando-se com o amigo na rede.

– Está mesmo chato aqui… – disse Maicon.

– Chato é apelido. Está chato + chato.

– Ah! Então está chataratato!

Do nada, ouviram um sino tilintando pelas ruas. O vovô gritava da sala, e o tio Naldo puxou Lara da rede.

– Larinha! São eles!

– Eu sei… O Papai Noel e a Mamãe Noel.

 

2

O trenó da dupla natalina parou na frente da casa. O Bom Velhinho saiu cantarolando, seguido pela Mamãe Noel, que carregava o saco de presentes na costas. Papai Noel era baixinho e sua barba quase se arrastava pelo chão, enquanto Mamãe Noel era alta e forte, como se pudesse pegar o noelzinho no colo quando quisesse. Após passarem pelo portão, ela gritou:

– Hooohooohoooo! Mamãe Noel chegou!

– Ho-ho-ho… – riu o Papai Noel meio sem graça. – Mamãe Noel! Eu disse que sou eu que anuncia a chegada!

Os dois se entreolharam com estranheza, mas depois gritaram:

– Hooohooohooo! O Casal Noel chegou!

Se algo podia ser dito daquela família era que venerava o Papai e a Mamãe Noel. Eles mantinham a tradição de visitar a casa de Larinha todos os anos. Não eram noéis comuns, estes traziam presentes exóticos, sabiam dançar e contar piadas.

– Boa noite, Mãe-Noér! – disse a vovó Jussara, com seu sotaque.

– Boa noite, vózinha… – respondeu a Mamãe Noel.

Larinha sorriu quando ouviu a avó falando “Mãe-Noér”. Desde que se entendia por gente, via graça naquilo: “Mãe-Noér”. Parecia que a Mamãe Noel era uma mamãe comum como a sua: a “Mãe Lúcia”. Mas a “Mãe-Noér” era só da vovó Jussara.

– Lara! – disse Maicon.

– O quê?

– Acorda!

– Eu estava pensando na Mãe-Noér

– Quê? Ora, enquanto todos estavam distraídos, fiquei bem quietinho e percebi uma coisa. 

– Percebeu o quê?

– Me segue!

Maicon e Larinha foram andando pelo quintal, passando como detetives por baixo das janelas. Pararam em uma que permitia ver a sala, subiram nas costas dos elefantes de pedra que enfeitavam o jardim. Ajeitaram-se em cima dos animais e assim tinham como observar tudo que acontecia.

– Lara, olha lá, presta atenção na Mamãe Noel.

Mamãe Noel estava ao lado do aparelho de som e dançava junto com a tia Joana, as duas faziam passinhos. Iam para frente, viravam o rosto para um lado, depois para o outro e voltavam de costas, mexendo os braços como se fossem robôs. Acabavam a série dando uns gritinhos: “yey!”.

– Nossa, que dança legal! – disse Larinha.

– Você prestou bem atenção nelas?

– Sim!

– Agora olha pro espelho!

Tia Joana continuava dançando, mas sozinha no ar. O reflexo da Mamãe Noel e seus passinhos não aparecia no espelho.

– Minha nossa! – disse a menina e depois encobriu os olhos.

– Assustador, não é?

– Ela não têm reflexo! – disse Larinha.

– Sim, e o Papai Noel também não!

– Vamos sair daqui antes que eles percebam.

Correram e se jogaram na rede de novo, encobriram as cabeças.

– Quem eles são? – disse Larinha.

– Quem não aparece em espelho é vampiro.

 

3

– Mãe-Noér! Mãe-Noér! Vem aqui, rápido – disse a avó Jussara.

– O que aconteceu, Dona Jussara?

– Olha só como está linda! – disse Jussara apontando uma flor.

– É a orquídea que te demos no ano passado!

– Sim, eu adorei. Você me ajuda a mudar o vaso dela de lugar?

– Claro! Mas pode deixar que eu levo sozinha.

As pétalas da flor tinham uma mistura de marrom e vermelho. Mamãe Noel pegou o vaso, mas enquanto carregava até a sala, Papai Noel veio abraçado com o Tio Naldo e parou na frente dela atrapalhando a passagem. Mamãe Noel ficou furiosa e abaixou para colocar o vaso no chão. Ao levantar, deu um berro, pois suas costas tinham travado.

– Gente, ajuda aqui! – gritou o Tio Naldo.

– Chama o Antônio! – disse a vovó.

O vovô pegou a Mamãe Noel pelos braços, puxando-a como se fosse um boneco e aplicou uma espécie de golpe de judô. “Crec!”. O barulho deixou todos assustados, mas logo a Noel estava novinha em folha.

– Acho que vocês estão trabalhando demais, por que não ceiam com a gente e dormem aqui? – disse Lúcia.

– Eu acho mesmo é que a gente está precisando de um ajudante – disse a Mamãe Noel.

– Os presentes estão muito pesados! Imaginem só que este ano pediram um trator – disse o Bom Velhinho.

– Mas o peso eu ainda aguento, viu!? A gente precisa de alguém pra Comunicação.

– O Tio Naldo!  O Tio Naldo não faz nada! – disse o vovô.

– Não faço nada? Estou é desempregado!

– Sei…

– Ah, vovô! Não dá. Tem que ser alguém menor, pois os Ajudantes-de-Papai-Noel são pequeninos, sabe? – disse a Noel.

– Hummm… Então por que não levam a Larinha?! Ela é a única pequena e adora vocês! – disse Antônio.

– Mas como uma menininha pode ajudar? – disse Lúcia.

– A gente só quer alguém pra ditar as direções, igual um GPS!

– Mas e as renas? Não são elas que guiam o trenó?

– As renas? Vovô! Neste fim-de-ano, todas as renas resolveram ser figurantes do Especial de Natal do Reinaldo Aguinol! – disse o Papai Noel.

– Puxa, que sortudas!

Larinha pesquisava sobre vampiros quando o tio a puxou para o colo. Voltou exibindo-a para o Casal-Noel. O bom velhinho propôs que ela os ajudasse, mas a menina saiu correndo.

– Má! Os vampiros querem me levar!

– Lara! É a nossa grande chance de desmascarar esses dois!

– Certo! Vamos mostrar pra nossa família que estão sendo feito de bobos!

– Eu vou com você!

– Mas como?

– Ora, vou no seu bolso!

 

4

O trenó subiu pelas nuvens, tendo Maicon se ajeitado em algum lugar do banco de trás. A garota mantinha os olhos no celular, estava atenta e dava todas as direções à Mamãe Noel. “Esquerda, direita, vire em 200 metros, após a rotatória, vire à esquerda!”, assim seguiam… Até que Larinha desconfiou de algo.

– Ei, Mamãe Noel! Direita-esquerda-esquerda-direita-vire-em-900-metros-seis-sete!

– Obrigada, Larinha – disse a Mamãe Noel.

– Mamãe Noel! Você não está seguindo o que digo!

– Eu avisei que ela era esperta – disse o Papai Noel cutucando a companheira.

Então o trenó parou, flutuando entre as nuvens. Mamãe Noel olhou para Larinha e sorriu. Um frio tomou conta da barriga da menina, pois começaram a girar, girar e cair a toda velocidade. Nada se via aos lados. Água espirrou por todo lado. Após uma calmaria, a Lua iluminou o grupo que agora navegava em uma canoa.

– Lara, quem são eles? –  disse Maicon.

– Eles não parecem mais eles.

À frente da embarcação estava uma mulher de cabelos longos e pretos, tinha se tornado ainda mais alta, forte, e remava com os braços longos. Em seu ombro estava um homenzinho careca e peludo, parecendo um papagaio de pirata. A neblina confundia a visão das crianças. O homenzinho desceu pelas costas da mulher como se estivesse num escorregador e disse:

– Já estamos chegando!

– Chegando onde?

 

5

O céu tinha tons de marrom e um brilho vermelho. Fora da canoa, a mulher enorme voltou-se para a dupla.

– Bem-vindos à Terra-do-Meio!

– Vocês não são vampiros?! – disse Lara.

– É claro que não! – disse o homenzinho.

– O que é que vocês são?

– Na seu bairro me chamam de Mamãe Noel, mas a Terra-do-Meio revela minha identidade. Meu nome é Raiz Grande.

– Meu nome real é Pedra Pequena – disse o baixinho.

– Mas que lugar é esse?

– A Terra-do-Meio é um lugar onde habitam as criaturas mágicas.

– Nossa, quanta coisa lá no alto! – disse Larinha.

Seres com diversos tamanhos, alguns lembrando animais e outros parecendo humanos, voavam pelo céu e mergulhavam nas águas. A claridade vermelha saía de seus corpos.

– Lara, repare no seu amigo… – disse Raiz Grande. – Aqui ele é uma criatura mágica, como todos nós.

– Má! Você está brilhando!

Maicon voava na mesma cor dos seres da Terra-do-Meio. Explorador e curioso como era, começou a flutuar por todos os cantos do lugar e logo sumiu entre a multidão de criaturas ao alto. Larinha gritou:

– Maicon, não vá embora!

– Ele não vai deixar você, Lara.

– Raiz Grande, por que você mentiu pra mim?

A garotinha começou a lacrimejar, e Raiz Grande colocou-a na palma de sua mão. Então assobiou o canto dos pássaros. Pedra Pequena batia os pés no ombro de Raiz Grande, acompanhando. Larinha se acalmou

– Olhe pra mim, Lara. Não tenha medo, chegue bem perto.

A pequena encarou os olhos misteriosos de Raiz Grande.

– O que você vê? – disse a criatura.

– Ué, são os olhos da…

– Vovó Jussara… 

– Isso!

– Lara, eu sou a mãe da mãe da mãe da sua avó.

– Então você é minha bisavó?

– Hum… Vejamos… Sou a sua tatara-tatara-tatara-avó.

– Então você deve ser muito, muito velha – completou a menina.

– A idade não existe aqui, Lara. Eu sou Raiz Grande e tenho que alimentar o tronco, as folhas e os frutos da árvore da família. Você ainda é semente, Lara.

– Mas por que você faz isso?

– É o meu desígnio. Somos os seres ancestrais da terra. Muito tempo se passou desde que viemos pra Terra-do-Meio, mas nossas raízes nunca se perderam.

– Raízes?

– Tente lembrar do seu bairro. Por baixo das casas, dos carros e de tudo que foi construído existe uma terra onde todos nascemos, vivemos e partimos. Tudo isso fica escrito nela, na terra. As raízes, ou seja, a nossa história fica gravada na terra.

– E pra que você finge que é a Mamãe Noel?

– Ah, isso é só um detalhe, pequena. Como criatura mágica, me transformo naquela senhora engraçada para que possa chegar perto do coração de vocês. Lara, por que você acha que a família continua se reunindo todos os anos, mesmo os mais distantes, na casa da avó Jussara?

– Porque é Natal!

– Sim, pois gostam de se unir às suas raízes. E agora que você entendeu, olhe ao seu redor.

Raiz Grande transformou-se em uma árvore gigante. Larinha via admirada aquela metamorfose. Os pés da mulher-vegetal adentravam a terra e espalhavam-se por todos os lados, fazendo brotar muitos tipos de plantas e flores. Maicon espantou-se.

– Nossa, Lara! Parece o jardim da sua avó!

– Simmmmmm…. – a voz de Raiz Grande vinha do alto, grave e forte.

– Raiz Grande, cadê você? – disse Larinha.

– Laaaaaaaara, observe aquelas flores – disse o ser.

– Nossa, é a orquídea da vó Jussara!

– Simmm… Ela veio daquiiiii…

Ao longe, Larinha reparou algo conhecido. Correu através de uma trilha e chegou a um lugar onde árvores estavam interligadas: uma família. Por seus troncos subiam cipós, eles se prolongavam até encontrar outras árvores. Formavam redes de balanço com tamanhos e alturas diferentes. Larinha escolheu uma delas, sentou e deu impulso com os pés.

– Sei que gosta de balançar na rede, Lara… – disse Raiz Grande.

– É muito legal! Tem duas redes lá na casa da minha vó.

– Pois elas também vieram daqui…

– Mas estas são diferentes, né?

– Sim. Os seres ancestrais inventaram as redes. A primeiras eram feitas de cipó, mas depois começaram a ser costuradas com tecido.

– Gostei das duas!

– Sim, mas agora você e Maicon precisam voltar pra casa.

– Ah, não!

– Já é quase meia-noite, Larinha. Sua mãe ficará muito triste se não passar o Natal ao seu lado.

– Mas eu quero conhecer mais a Terra-do-Meio!

–  Não se preocupe, Lara. Você faz parte daqui.

– Como assim?

– O meu ciclo como Raiz Grande está terminando. Você é minha sucessora natural após três gerações.

– Mas como eu vou saber o que fazer?

– Não se preocupe, Lara. Para tudo, há seu tempo.

Lá no céu, os seres foram escurecendo, o brilho caía como areia e apagava antes de tocar o solo. Cada pedaço da Terra-do-Meio ia sumindo aos poucos. Raiz Grande flutuava ao lado de Pedra Pequena, eram tragados para junto de outras criaturas. Maicon, novamente invisível, voltou ao bolso de Larinha. Tudo ficou no mais completo breu.

 

6

Lara estava no sofá da casa de sua avó. A música do Especial Reinaldo Aguinol invadia seus ouvidos. Ao redor, o restante da família esperava o grande momento.

– Faltam cinco minutos! – disse a mamãe.

Era de praxe. Reinaldo Aguinol subia pelas escadarias até o altar da igreja e fazia a saudação natalina. O cantor estava com mais calor, andava com dificuldade, já tinha afrouxado a gravata e tirado paletó. Quando todos se preparavam para comemorar o Natal, Aguinol chegou ao topo, levantou a tradicional taça dourada e, exatamente à  meia-noite, gritou:

– FELIZ ANO NOVO!

Na casa da avó Jussara todos riam da gafe do grande Reinaldo Aguinol. Só mesmo o avô Antônio defendeu o ídolo.

– Mas é espirituoso o Reinaldo! Grande artista mesmo!

Após a troca de presentes, Lara foi até a árvore de Natal e pegou um dos pacotes onde se lia em uma etiqueta:

 

De: “Mãe-Noér” 😉

Para: Larinha

Ela correu para o quintal, deitou na rede com o presente no colo e abriu. O volume grande do pacote era na verdade uma pegadinha, ideia do Pedra Pequena.

Após espalhar jornais amassados por todo lado, encontrou finalmente uma caixinha de madeira. Larinha abriu, e uma luz avermelhada tomou seu rosto. Retirou duas sementinhas e colocou na palma da mão. Então lembrou-se de quando estava nas mãos de Raiz Grande.

– Você ainda é semente, Lara – recordou-se da voz da criatura.

A garota jogou os grãos, que afundaram na terra do jardim. Uma raiz luminosa correu por entre as pedras e flores, abrindo caminho na direção das botas coloridas de Lara.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.