EntreContos

Detox Literário.

O Vírus (GODOG)

Existe um estudo do Instituto Weizmann de Ciência, em Israel, que afirma que as 7,6 bilhões de pessoas do mundo representam apenas 0,01% de todos os seres vivos no planeta. A espécie humana é insignificante, as bactérias, por exemplo, representam 13% da vida no planeta e ainda assim, nada é tão beligerante, nocivo, violento e perigoso do que nós, os humanos.

 

Ele tossiu expelindo uma “nuvem” de gotículas, que ajustadas com os elementos suspensos: os gases, as combinações de átomos e a gravidade, formaram uma nova constelação de estrelas. 

Deus acordou de um breve sono, um cochilo de alguns milhões de anos e a sensação era de confusão mental, os sonhos que teve durante esse sono o perturbaram, e também havia um certo desconforto físico; a cabeça girava solta e uma leve tontura o aborrecia. Viajou pelo Universo, se transmutando ora em matéria ordinária, ora matéria escura ou energia escura e também em elementos menos complexos como a água, por exemplo, e foi nesse estado, ao passar por determinada área, que sentiu uma forte pontada, sinal de possível contaminação a percorrer o curso de seus veios, para se purificar, se fez lava e fogo, ficou nessa condição até decidir se seria carne ou rocha. Acabou escolhendo a carne, foi quando percebeu uma pequena mancha, algo quase insignificante, um minúsculo sinal em sua pele, tateou o local e sentiu um caroço, nada expressivo, um grão de areia num deserto, que somente sua extrema e extraordinária sensibilidade lhe permitia notar. Por mais desprezível fosse aquilo, fato é, que não deveria estar ali, não daquela forma.

 

Todos sabem que Deus é onipresente, onisciente, onipotente… em sendo assim, o Todo-poderoso não procura um médico ou coisa que o valha na esfera divina. Não. Ele é Seu próprio médico. E para isso, dividiu-se em dois; um, o enfermo aflito e o outro, um exemplar profissional de medicina, (que em latim significa a arte de curar), muito garboso em seu uniforme de um branco impecável. O seu Eu, doutor, examinou-lhe a região reclamada e com apenas o toque de Suas mãos deu o diagnóstico:

— É um vírus! Muito perigoso! — Fez questão de acrescentar, aí animou-se e começou uma mini palestra. — Os vírus são seres microscópicos, ou seja, muito pequenos. Menores que as bactérias da zona maior, o Senhor, ou melhor, Nós  não os veríamos a olho nu. Eu sei, estamos Nos perguntando como uma coisa tão insignificante pode Nos afetar desse jeito. Estamos contaminados por esses monstrinhos! Eu Nos respondo! Eles, os vírus, se multiplicam!

— Pare de exibir-se! — Disse Deus. — Disso tudo, Eu sei, como Vós também sabeis. Nós sabemos! Mostre-Nos onde? Em que célula do Nosso corpo está ocorrendo essa infestação pelo vírus?

— Os vírus chamam a célula em questão de Terra! Aquele lugarzinho aprazível em que estivemos antes do nosso cochilinho?

— Exatamente, fiz algumas experiências, lá… Dizimei uns lagartos que não evoluíram conforme Eu queria… Só se mexiam para comerem-se uns aos outros. Acabei com eles! Daí, acho que criei uns macacos e esses demonstraram um grande potencial… Não me diga que são…

— Os macacos. Exatamente. 

— Eu já sabia!

— Claro, Nós sabemos de tudo!

— Mas eu dormia… Disse Deus e por puro reflexo, bocejou.

— Resolvemos fazer uma “siesta” logo após a criação…

— E nesse meio tempo…

— Os macacos se multiplicaram e…

— E?

— Tivemos sonambulismo. E foi quando manifestamos algumas incongruências!

— Disso, eu não me lembro!

— Claro que não. O sonambulismo faz parte da classe de distúrbios que provocam comportamentos inadequados durante o sono, devido à ativação de áreas do cérebro. A pessoa com sonambulismo manifesta atividades motoras complexas, como caminhar ou conversar e geralmente, há pouca ou nenhuma recordação do ocorrido.

— Nós fomos buscar essa informação no Google, não fomos?

— Fomos. Mas, fato é que enquanto dormíamos, o sonambulismo manifestou-se mais de uma vez… E há registros de coisas bem absurdas!

— Tais como?

— Criamos um paraíso, colocamos duas criaturas solitárias em companhia de uma serpente malévola, depois despejamos Nossa ira sobre essas pobres criaturas, porque escolheram o livre arbítrio. Dormimos e em seguida outro ataque; descemos para ver as coisas e as coisas estavam uma bagunça, ao menos sob Nossa ótica. Daí, elegemos outro camarada de nome… espera um pouquinho — deixe-me ver os registros históricos… Ah, estão aqui! Gênesis VI, versículo 08! Noé! Escolhemos esse homem e sua família e lhe passamos a seguinte missão: arrebanhar um casal de cada animal da Terra e colocá-los num grande navio. Depois alagamos todo o planeta, matando os demais habitantes…

Deus parecia confuso com as informações que recebiam — Fizemos isso? E o tal Noé foi hábil a ponto de construir um barco capaz de abrigar a todos os animais?

— Foi.

— Os elefantes também! E os leões, do que se alimentaram durante a estadia na arca? Comeram a família do Zoé?

— Noé! E não! Não! — Diante das negativas do seu outro Eu, Deus continuou. — Que outras peripécias Nós cometemos?

— Pedimos a uma criatura de nome Abraão que nos desse em sacrifício a cabeça do seu amado filho e que esta deveria ser decepada pelo próprio pai! 

— Por que fizemos isso? 

— Humor celestial, decerto! Adotamos uma tribo como nossa preferida e a enchemos de privilégios contra todas as outras, Fizemos o diabo! Mandamos pragas de gafanhotos, matamos primogênitos, queimamos cidades e transformamos seus habitantes em estátuas de sal…

— Sim, lembro de ter tido pesadelos com isso!

— Mais adiante inseminamos o ventre de uma virgem com a Nossa luz e ela gerou o Nosso filho. Um garoto adorável, se bem me lembro! 

— E o que aconteceu a ele?

— Um final trágico, digno de uma trama Shakespeariana…

— Trama o quê?

— Nem todos os macacos são abomináveis, temos grandes exemplos de engenho, genialidade, dádiva e o mais puro reflexo de nossa divindade: Shakespeare, Michelangelo, Da Vinci, Bethoven, Mozart, Beto Jamaica… Quem mais? Einstein, Pelé, e a “tia” da barraca de doce que fica em frente ao colégio São Francisco em Taboão da Serra!

— Mas esses que Nós citamos, são exceções a regra! É isso?

— Exatamente. E a regra é que a humanidade é daninha!

Depois dessa última sentença, Deus se reincorporou, não carecia de mais análise, o diagnóstico estava formado: havia um mal, uma doença manifesta e o vírus causador, identificado, então, somente uma opção era correta: eliminar o vírus.

 

Deus desceu à Terra na forma de uma menina, negra, porque era assim que se lembrava de ter feito os primeiros homens. Uma infanta, que estaria ali na estação dos dez, doze anos. Sentou-se à beira de uma estrada pouco movimentada, onde hoje é Naqb ar Ruba’i, próxima ao Mar morto e que leva a Jerusalém. A paisagem inóspita, com muito pouca vegetação devido ao clima bastante seco de conformação semiárido ao norte e desértico ao sul, fez Deus pensar nas diferenças e na distribuição de privilégios e ruína. Muitos carros passaram e ignoraram que a beira da estrada havia uma menina sozinha diante de uma paisagem desolada. Cansada de ser invisível, a menina-Deus transformou-se em outra de pele alva e olhos claros e então, primeiro uma mulher parou seu carro, observou a menina sentada no guard-rail, desceu e lhe deu um frasco com spray de pimenta. Quando naturalmente, ocorreu que uma encostou na outra a mulher recebeu um choque e viajou por lugares nunca imaginados. Então, a mulher sorriu, pegou de volta o spray, fez um aceno de mão e partiu. Passado uns minutos, veio um homem, parou o carro, observou a menina sentada no guard-rail, perguntou se tudo estava bem e se desejava uma carona, diante do silêncio absoluto da pirralha, ele se aborreceu e partiu, prometendo chamar as autoridades, depois outros carros passaram,uns ocupados demais para notar, um que buzinou, outro parou, uivou uma proposta obscena e fugiu, quando percebeu a aproximação de terceiros, no caso, um jeep do exército com três militares. Desceram do veículo, armas em punho, metralhadoras apontadas, gritaram ordens e exigiram que a menina apresentasse documentos, origem e destino. Aborrecida com a audácia dos soldados, a menina-Deus esticou um braço até um determinado ponto numa dimensão não conhecida por nós e de volta trouxe algo similar a um caderno de notas, abriu onde constava a identificação dos rapazes e os apagou, fazendo com que seus corpos sumissem numa fumacinha ocre. Quase escurecia, quando um velho veio pelo acostamento estreito, puxando seu jumento que carregava uma carga de pequenas pedras vulgares.

— O que faz aqui? — Disse o velho defronte à menina.

— Observo esse cenário e os atores que nele vivem e o senhor?

— Eu carrego pedras!

— A mim, me parece que é o jumento, quem carrega!

— Exatamente. Muito boa, sua leitura! Sim, é o jumento quem suporta o peso! Mas, me diga: o que faz aqui, criança? — insistiu o velho na pergunta.

— Estou cansada e ferida, não tenho ânimo para seguir, mas gostaria de conhecer Jerusalém.

— Jerusalém está bem distante daqui. Pretendias ir caminhando? Onde estão seus pais?

— Estão aqui e também não estão… é complicado! O que fará com essas pedras? — Quis saber Deus.

— Não pensei em dar uma utilidade para elas. Servem somente para que o animal se habitue a carga que lhe é reservada. Agora mesmo me sinto obrigado a cuidar de você, criança. Se o seu desejo é chegar em Jerusalém, eu a levarei. Então vamos descarregar esses cestos de pedras e você ocupará o lugar delas.

 

O caminho seguia silencioso, mas Deus sondou a alma e a história daquele homem e viu algo que considerou bem significante; tinha uma passagem, uma rotina que ele praticava; subir uma escadaria muito alta que, de baixo, parecia uma escada para o céu, talvez seja desnecessário, mas lembramos que o homem avançava na idade e subir tantos degraus, devia não só ser cansativo, como também, uma provação imensa. Ao chegar no final da escada havia uma pequena fonte. O velho chegava ao topo sedento por um gole d’água, mas invariavelmente encontrava a fonte vazia. Deus não aguentou e perguntou:

— Por que o senhor subia as escadas?

— Porque havia promessa de água para matar minha sede.

— Quantas vezes o senhor subiu as escadas?

— Desde que eu era um menino aprumado sobre as pernas.

— E nunca achou água.

O velho acenou com a cabeça que não.

— Como chama isso? Loucura, alienação, desperdício de energia, teimosia? 

 — Eu chamo de fé! Por exemplo, eu não sei se você está aqui, se é real ou se é somente uma criação da minha cabeça lesada de sol, mas vou com você até o fim dessa estrada. Você acha que me criou, mas fui eu quem criou você!

A menina-Deus puxou a corda e fez o jumento parar, jogou sua perna direita para o lado do homem, permanecendo sentada sobre o animal, mas em condições de se inclinar e ficar mais próxima do ancião.

— Eu vim para destruir vocês! — Disse num quase um sussurro — Pensei em aproximar o sol um pouquinho, só o bastante para queimá-los vivos, ou sendo menos cruel, afastá-lo para transformar a Terra num enorme casulo de gelo… Ou talvez derramar só uma lágrima minha no oceano e provocar outro dilúvio… Há, tantas maneiras de apagar seus nomes do livro! Bastava soprar, somente um grito meu, apenas bater as palmas da mão… 

Deus fincou seus olhos no velho e da perspectiva do homem, Deus lhe pareceu imensurável, inalcançável com o olhar, enquanto Deus continuava a despejar intenções e razões.

— Vocês são uma praga que estão destruindo tudo o que eu criei.

— Entendo suas razões. É sensato. É justo! É merecido! — Disse o velho e olhando bem no fundo dos olhos da menina-Deus, desenrolou uma teoria:

— Meu pai morreu quando eu era bem miúdo, mas consigo lembrar do seu rosto, do som da sua voz e até do cheiro dele. Não fossem as minhas memórias, meu pai estaria morto… Mas, para mim e para tantos que estiveram com ele, meu pai permanece vivo. O homem é também a história que contam dele. Então, se o Senhor nos destruir quem lembrará do Senhor?

Ficaram presos por segundos, um olhando no mais profundo do outro. O velho piscou um centésimo de segundo e quando abriu os olhos, não estava mais na estrada, e sim, diante da escadaria de sempre, olhou para o alto e viu o céu sendo queimado por um sol laranja e vermelho, exitou, deu o primeiro passo e teve toda certeza de que finalmente sua sede seria saciada.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.