EntreContos

Detox Literário.

Fogo Fátuo (Ígnis)

 

Era sujeito de pouca conversa. Dele, o que mais me marcou a infância, além do cinto de couro e a vara de marmelo, foi o silêncio desconfortável que trazia para casa, à noite, tão logo atravessava a soleira da porta. Carregava na fisionomia o cansaço de quem busca oportunidade para trabalhar na profissão que havia aprendido, muito bem e ainda jovem, enquanto vivia na Itália; a decisão de ter vindo para a terra nova, recém-casado, pesaria ainda mais sobre seus ombros naquela altura, perto dos trinta anos, caso aceitasse um emprego qualquer na lavoura, dez ou doze horas sob o sol, por muito menos dinheiro do que achava que merecia. 

Ainda pequeno, eu pressentia a sua chegada e corria para o quarto, com medo do temperamento toscano e da obrigação do beijo nas mãos grossas, manchadas de fumo. Ficava intimidado pela voz rouca, de grave profundo, quase tão apavorante quanto os ruídos estranhos que ouvíamos ao longe, às vezes, e que meu irmão mais velho dizia que eram os gritos das almas penadas. Muitas vezes, preferi fingir que estava dormindo para evitar a ceia em família. Mas, como a fome era maior, acabava enfrentando o medo; algumas vezes, mamãe me buscava no colo, ou meu irmão ia até o nosso quarto para me trazer, pela mão. Podíamos contar com os quatro pratos, copos e talheres; de resto, buscava-se o pouco que havia na despensa ou, em dias especiais, as receitas simples da terra de origem, como polenta, pappa al pomodoro ou gnocchi de batatas da terra. Às vezes, suco de uva para nós, vinho ou grappa para o pai – esses últimos, não podiam faltar à mesa. Nos meses frios, sobre a chapa do fogão a lenha, estalavam pinhões catados nos bosques. Quando havia galinha pronta no quintal, a mãe ficava responsável por torcer-lhe o pescoço, temperar e preparar, pois o pai não gostava de mexer com esses bichos em casa. Dizia que dava azar. Mas, uma vez pronta a canja, era sempre o primeiro a se servir. Depois de ter jantado, buscava a chaleira com água quente e ia até a varanda aliviar o desconforto dos pés na tina grande, de madeira. Pedíamos licença ao passar por ali, cabeça baixa, a caminho da casinha das necessidades, que ficava no fundo do quintal. 

As coisas começaram a melhorar em casa quando a fama do pai se espalhou pelas querências da redondeza. Decidiu que meu irmão devia começar a ir junto com ele, para ajudar no trabalho e aprender. Eu era pequeno demais. Em uma dessas saídas, meu irmão foi e não voltou. A morte veio buscá-lo. Não me contaram como, nem por quê.

 

Depois disso, o pai se ensimesmou. Mamãe também; ainda que fosse jovem e tivesse dentes perfeitos, arrancou definitivamente o sorriso do rosto e envelheceu, em aparência, trinta e dois anos de uma vez só. 

 

Quando alcancei os dez, última idade que meu irmão teve, só me lembrava de sua fisionomia pela foto incrustada na lápide. A única, post mortem, feita especialmente para ficar ali para sempre.  Mas a chuva e os anos já haviam borrado bastante o seu retrato e a minha memória. Gostava de ir ao cemitério à tarde, sozinho e escondido, e imaginar que ele estava ouvindo tudo o que eu dizia. Guardei os seus brinquedos, o pião de madeira e o bilboquê, e o som de sua risada, na minha imaginação, continuava reverberando pelas paredes vazias da nossa casa. Também herdei as roupas que sobraram e um par de calçados, tão novos que bem poderiam ser meus sapatos de missa, não houvéssemos abandonado a igreja. Mamãe ainda guardava suas rezas, não mais nas missas ou novenas, mas para os momentos em que visitava o cemitério; ou, escondida em casa, baixinho, durante tarefas cotidianas – e desde que o pai não estivesse por perto. Acabava rezando bastante, pois ele quase sempre estava fora. E havia dito a ela, um dia, que Deus é que devia estar morto.

 

O inverno chegou às últimas, mas ainda se respirava o sopro da friagem, com chuvas finas e constantes. Lembro que, naquela noite, havíamos nos recolhido mais cedo do que de costume. Sozinho, deitado em minha cama, tentava escutar o que meus pais diziam no quarto ao lado – e entender o que não eram capazes de dizer, um ao outro. Palmas tímidas do lado de fora, seguidas de um “ô de casa” e batidas insistentes na porta, fizeram o pai se levantar, contrariado. Lá estava o menino, um mulatinho, de doze ou treze anos, que raramente víamos na vila. Mamãe serviu de intérprete até que o pai entendesse do que se tratava o trabalho a fazer. Mas como o faria, sozinho, naquela hora da noite? Decidiu que já era tempo de eu ir com ele. Nós dois, mais o menino-mensageiro, daríamos conta do serviço. Mamãe tentou evitar, argumentando que eu ainda era muito pequeno. Sem medir palavras, o pai retrucou que, na minha idade, meu irmão já ajudava. Ela ainda tentou me segurar, chorando, mas o pai, inflexível, me afastou dos seus braços. Vestiu-se e me fez vestir uma roupa surrada; saímos, então, eu, ele e o menino, com os lampiões a óleo acesos, em meio à escuridão. Não eram nem dez horas da noite.

 

Descemos com cuidado a trilha íngreme a caminho da estância, que ficava a algumas léguas. Para mim, aquilo tudo era aventura. Já para o menino, era só o caminho de volta do armazém de secos e molhados na vila. À escola, nunca tinha ido. Até por isso, ficava ansioso por fazer amigos e, sem perceber o mau humor do meu pai, não parava de perguntar as coisas.

O sinhor não se caga de medo nessas hora, não? 

Che paúra, di cosa? – grunhiu o meu pai.

Das alma penada…  minha mãe diz que eles também têm esprito, como a gente têm, e  dispois de morto vem trás de nóis, como m´boi de fogo azul…

Meu pai fingia não entender para abreviar a conversa. Mas eu conhecia bem a história do boitatá, a cobra de fogo m´boi, que vinha para buscar e exterminar os que fazem mal aos outros. Apesar de disfarçar, senti um medo danado; e ao perceber isso, o menino continuou falando sem parar sobre assombração, para ver se eu me entregava. Como não dei trela, a conversa morreu por ali. O menino foi se aquietando e, ao ficar para trás, distraia-se a chapinhar as poças que a chuva do dia anterior havia colocado pelo caminho.

 

Chegamos à propriedade, onde nos aguardava o estancieiro. Era um português atarracado, manco e bem baixo, que nos anos seguintes acabou arruinado pela cachaça, os ciúmes e a geada. Vivia amasiado com a mãe do menino, mas nunca não teve coragem de apresentá-la como sua esposa na vila, e nem o menino como seu filho. Falou sobre alguns parentes que deveriam chegar nos próximos dias, e o quanto precisava que o serviço fosse bem feito, ainda naquela noite. A mulher, grávida, nos espiou pela fresta da janela; depois, ao perceber que havia sido vista, escondeu-se no interior da casa-grande, para cuidar da vida e dos seus afazeres.

 

Papai forçou a porta de madeira com um tranco de joelho e, ao abri-la, iluminou com o lampião todo o ambiente; depois, pendurou-o em um prego na coluna principal, acima da bancada de madeira. Mesmo tênue, havia luz suficiente para inspecionar os instrumentos e organizar o espaço de trabalho. Até aí, eu e o menino estávamos do lado de fora do galpão, só observando; o pai acendeu a fogueira de lenha entre pedras, e colocou o balde de latão com água para ferver.

Veio até a porta nos chamar e, em italiano, deu a instrução:

Non lasciarlo scappare! (Não o deixem escapar!).

Olhei para o menino e percebi que, mesmo sendo mais velho do que eu, ele estava tão apavorado quanto. 

 

O vulto moveu-se nas sombras, devagar, e emitiu um ronco curto. O bácoro, porco relativamente pequeno e cevado há alguns dias, aproximou-se de nós, tremendo de medo. Na penumbra, percebi que o animal tinha uma pelagem longa, de fios lisos e quase dourados, sobre a pele rosada. O menino o chamou e o bicho, dócil, veio e deitou-se à frente dele.  Meu pai aproveitou essa chance e, contornando pelo outro lado, agarrou as patas traseiras do porco, amarrando uma corda com duas ou três voltas ao redor delas. Assustado, o porco começou a se debater e a grunhir. Tentava fugir de nós e do seu destino certo. Descobri ali de onde vinham aqueles gritos que tanto nos apavoravam quando éramos pequenos.

 

O golpe certeiro do malho, aplicado com força na testa, fez o animal desmaiar. O mulatinho levou um choque, horrorizado, quase como se tivesse sido com ele. Enquanto amarrava o focinho do bicho com um barbante, o pai ordenou que eu trouxesse a bacia com vinagre e sal, que estava preparada na bancada. Obedeci, o mais rápido que pude. A seguir, mandou que eu ficasse de joelhos e segurasse bem as patas da frente, enquanto o menino da estância ficaria encarregado das patas traseiras do animal. O toque da pele do porco era quente e eu podia sentir nas mãos a sua pulsação acelerada.

Então o pai ajeitou a bacia no chão, bem próxima ao rosto do animal. Rapidamente, e com um só golpe, enfiou a lâmina fina até o cabo, na base do pescoço, girando a faca para abrir o corte de uns quinze centímetros, antes de puxá-la, com força, de volta. O sangue esguichou longe, escorrendo em volta da bacia e por entre os meus joelhos. 

O porco recobrou a consciência e olhou para mim.

Em seus olhos eu vi a surpresa e o desespero da morte. E tenho certeza de que ele viu a mesma coisa nos meus.

Começou a gritar e gemer, cada vez mais alto.

O pai arrancou a bacia das minhas mãos, aparando o jorro da ferida aberta. Rosnou que eu segurasse direito, senão todo aquele sangue não serviria para nada.

Mas o porco não morria. Sangrava, sem perder as forças; debatia-se, agônico, tentando morder a mão que o golpeara.

Só então o pai entendeu o que havia acontecido. Pediu ajuda para que deitássemos o bicho do outro lado. Com um estertor horrível, praticamente entregue, o porco ficou quieto por um instante e o pai aplicou o segundo e definitivo golpe na lateral do pescoço. Dessa vez, acertou direto o coração, que naquele porco estava do lado contrário à natureza. 

Ao ver o bicho inerte, o pai deu ao menino a tarefa de buscar água na fogueira. Deixou a carcaça um tempo de ponta cabeça ainda, pendurada num gancho da trave do galpão, para drenar o resto do sangue e amaciar bem a carne. Quando o menino voltou com o balde de água fervente, o pai levou a carcaça do porco até a bancada. Começou esfregando o couro com uma pedra afiada, enquanto pedia que jogássemos a água fervente com canecas, de tempos em tempos, até remover toda a pelagem da lateral. Repetiu o processo do outro lado, depois no dorso e no ventre. A seguir, soltou o final do intestino para não contaminar o resto da carne e, com um talho da barriga até o peito, fez escorrer as vísceras moles que o menino recolheu em um cesto de vime. Deveriam ser lavadas no rio e preparadas adequadamente, pela mãe dele, em algumas horas, ainda antes do nascer do sol.

 

O pai esfregou as mãos no avental manchado de sangue para receber do estancieiro o dinheiro devido pelo serviço. Guardou bem o pequeno maço dobrado no bolso da calça, onde encontrou um cigarro de palha enrolado, o qual que foi aceso ali mesmo, nas últimas brasas da fogueira. Nem o menino, nem a mãe, vieram se despedir de nós.

 

Madrugou. Caminhávamos, sem dizer nada. O pai, que ia sempre um pouco à frente, escolheu a trilha mais longa para o nosso retorno, bem menos íngreme do que na ida, mas que nos obrigou a passar em frente à igreja e a contornar o cemitério. A lua nova iluminava pouco e os lampiões bruxuleavam, praticamente sem óleo. Nessa hora, na direção do cemitério envolto em escuridão, percebemos o espocar e o brilho fugaz das chamas azuladas, que bailavam no ar e se desvaneciam, em instantes. 

Era M´boi.

O pai estancou o passo, virou-se e me perguntou, como se aquilo não fosse nada de extraordinário:

L’hai visto?

Fiz que sim com a cabeça. E tomei a coragem de perguntar:

— Pai, será que Deus não teve pena dele?

Ele não tinha a resposta. Foi a única vez em que vi meu pai chorar e, mesmo assim, ele estava de costas para mim. Depois, enxugou o rosto nas mangas da camisa e voltou até onde eu estava. Permanecemos sentados e em silêncio, admirando o fogo fátuo por um tempo que me pareceu a eternidade. Compreendi que o meu pai ainda não havia sido totalmente sangrado. E que lâmina fina de Deus continuava ali, atravessada no lado errado do seu peito.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.