EntreContos

Detox Literário.

Fanho (Servente Ananias)

 

Na praça, o brilho debochado do sol incomodando os olhos funcionava como bodoque na volta para casa. Tinha mais gosto quando estendia o corpo na velha cama. Não diria mais gosto, mas bem menos cobrança. Janela fechada, imerso na escuridão. Aboiando. Fitando o telhado sem nada querer enxergar. Arriado.

Fazia tempo que o quarto transpirava desmazelo. As dezenas de caixas, empilhadas nas prateleiras, acumulavam sucessivas camadas de poeira. Meses e meses de desleixo. Anos. Januário ficava ali. Naquela prostração em que só a cachola não parava. Uma mastigação descabida de agruras, de ambições frustradas. E de amores. Aquela extrema carência de ânimo dava inquietação. E, povoando tamanha desventura, a imagem de Veridiana.

Naqueles últimos tempos, nem as lembranças daquele engenheiro desgranhento incitavam sua raiva. Nada de fúria. Ninguém poderia carregar a culpa por ele ter sido tão desarmado. Parvo. Também não queria pensar nisso. Foi bom enquanto durou.

A vida lhe cobrou silêncio. Viveu assim, quase mudo. Parecia mais fácil. Não queria mais ouvir conversa. Conversa sempre exigia resposta, e, para ele, responder era custoso.  

Não sabia que desvario era aquele de ficar num puxamento do passado, desfiando alusões, amargando os minutos. Não queria mais ter aflição no peito. Tinha a cabeça cansada, corpo cansado. Cansado de ser velho. Não sentia falta dos projetos, das obras, das ferramentas.  Não desejava nada. Inerte. Queria não pensar.  

Obstinado por futebol, nem mesmo a proximidade da Copa o animava. Tudo estava diferente. Nem carregava mais o rádio de pilha. O time do Santos já não encantava, Pelé não importava mais.  

E existiu Veridiana. Por muito tempo, a razão primeira de despertar. A galeguinha dos olhos gateados que morava na casa mais próxima. Raiava como o sol. Era lindo observá-la estendendo roupa no varal. As linhas perfeitas dos braços, a cintura bem marcada com o amarrio do avental, os cabelos aloirados, a delicadeza dos movimentos. Era um bailado. Em sã consciência, ninguém acreditaria que Januário alimentava qualquer esperança. Mas, sim, alimentava. Somente ele sentira os olhares penetrantes, o falar sem palavra. Chamado infinito. E foram inúmeras as vezes.  

Na fieira de filhos, Januário era o oitavo. Depois dele, só Marineide. Moleque esperto como os demais, mas veio com defeito na língua. Apesar de todo o empenho que mostrava para articular as palavras, elas saíam estranhas, quase indecifráveis. E o som era anasalado. O pai dizia que era língua presa, e, para definir na máxima simplicidade da ciência, Januário era fanho. Totalmente fanho. 

Quem olhasse a casa da família notava que, apesar do ofício de pedreiro dos moradores, nenhum planejamento fora usado. De início, uma casa comum, pequena. Era normal, num único quarto, abrigar todos os filhos. Mas, com o passar dos anos, as idades exigiam certos pudores, certos segredos. E, então, começou o espichamento. Terreno adentro, a fileira de quartos, num total de quatro, com portas voltadas para um grande corredor, lembrava um alojamento. Januário ocupava o último, pareado com o banheiro. 

E ficou ali, mesmo depois que todos tomaram novos rumos. Todos, não. Marineide não escolheu outra estrada. Ou não teve chance. Continuava ali, com ele. E preferiu ficar no quarto dos pais, quando eles morreram. Depois, com a velhice assentada, poupando trabalho, ela trancava todos os outros cômodos que não eram usados. Todos em ordem, mas trancados. 

Naquele casarão, sobraram os dois idosos, Januário e Marineide. Passavam apuros. Com a carestia, o pouco dinheiro juntado acabou. Não fosse a ajuda do vereador Chico Lopes, difícil imaginar o que poderia ter acontecido. 

A ajuda veio num tempo de eleição. Um dia, o carro do vereador parou na frente da casa. Chico Lopes levou a carteira de trabalho de Januário, esfolada, sem qualquer registro, e acompanhou Marineide até o escritório do Doutor Adauto. Providenciou um monte de documentos e, pouco tempo depois, cada um dos dois irmãos recebia um salário mínimo de aposentadoria. Foi uma alegria só. Marineide, pela primeira vez, recebia pagamento. E tudo começou a ficar enfeitado. Os cabelos, o pescoço, as orelhas… O jardim continuava cuidado, mas as flores de plástico encheram a casa.

Na época de escola, a condição de fanho não atrapalhou Januário. Tumultuou, mas não foi empecilho. Aluno brilhante. Terminado o primário, integrou a equipe do pai. Mais um filho no ofício de pedreiro. Pelo talento de trabalhar com números, começou cuidando do estaqueamento. Projetos novos não havia. As obras seguiam padrão único. Casas com dois ou três quartos, comércio com salão simples. Mas, se o dono da obra exigisse qualquer melhoramento na planta, cabia a Januário o cuidado do desenho e das medições.  E não parou por aí. Detalhista com amarração dos telhados, madeiramento com entalhes, passou a ser o mestre marceneiro. E passava os dias perdido entre esquadro, formão, grosa, trena, plaina, malho, régua, serrote… E prumo, no trabalho e no juízo. Nada de assentar tijolo, erguer parede. Com ele ficava o zelo pela perfeição. Era o mestre Fanho. Se pudesse, teria escolhido ser mestre Januário. Mas não teve chance, escolheram por ele.

Quando o pai resolveu separar parte do pagamento para o ainda pequeno Januário, brotou nele uma paixão por loteria. Gostava do desafio da aposta. E, criteriosamente, reservava o dinheiro para tentar a sorte. Nem tanto pela ânsia de lucrar, mas pelo prazer de desafiar a sorte ou o palpite. Tornou-se freguês assíduo da banca do Seu Nicolau. Vivia correndo os olhos pelas tiras de loteria federal dependuradas por toda parte. Procurava os números. Por ali, não havia jogo do bicho. Se houvesse, também não apostaria. Gostava das coisas certas, do papel impresso, da chancela do governo. 

– Januário, a comida tá pronta!

Era Marineide e sua convocatória diária. A voz já foi mais estridente. Arrefeceu um pouco, mas ainda aperreava. Em Januário, provocava suspiros profundos de amolação. Estava enjoado de tudo. Não tolerava mais. 

Por iniciativa, começou a anotar os resultados dos sorteios da loteria, do primeiro ao quinto prêmio. Anotava os números e a data. Aos poucos, manualmente, foi montando uma estatística dos números que se repetiam em sorteios diferentes, levando-se em conta centena, dezena e unidade. Era a distração das noites. Virou mania. 

Jogava com parcimônia, jamais comprou bilhete fechado. Não. Apostava em frações diversas, observando a numeração das premiações mais repetidas num determinado período que ele mesmo balizava. E nada de prêmio grande. Apenas valores menores ou mesmo a troca por outro bilhete. Mas isso não importava. Gostava da aposta, do desafio. Tentar acertar era o atiçamento. Nada de loteria esportiva. Amava futebol, mas separava as coisas. Não interessava apostar em palpites sem lógica. 

Um dia, Seu Nicolau mostrou a Januário um manual que havia chegado para ser vendido na banca. Trazia o título: “Como ganhar na Loteria Federal”. Foi amor à primeira vista.  Aquela noite foi curta para leitura e anotação de todas as dicas. E, dali, surgiram muitas alterações nos palpites e nos balizamentos das apostas.    

As frações não premiadas, o que ocorria com a maioria das apostas, Januário não conseguia descartar. Seguindo rigorosa ordem numérica, levando-se em conta os três algarismos finais, os bilhetes eram guardados em caixas, juntamente com os cadernos de anotação. Foram muitos. E as caixas, sempre numeradas, cuidadosamente colocadas em ordem nas prateleiras. Tudo seguia ordem, tudo matemático, controlado. E Januário achava que a vida era assim, lógica. E, para ele, foi. Foi?!

A vida seguia. Serviço não faltava, trabalhava o ano inteiro. A arte de mestre Fanho só fez crescer. E, já homem maduro, com a morte do pai e a saída de outros irmãos, a equipe de trabalho foi renovada.  

Num determinado momento, a prefeitura foi alertada sobre um tal de código de posturas. Alguma coisa não estava sendo observada nas construções. Então, um engenheiro da capital ficaria um tempo por ali, acompanhando as obras. E chegou Doutor Peçanha. 

Tipo diferente de gente. Usualmente, trajava calça social, camisa de mangas compridas milimetricamente dobradas até nas proximidades dos cotovelos. Cinto estreito de couro, sempre a combinar com os sapatos. E o inseparável chapéu panamá, puxado mais à frente, carimbava a figura. Aparentemente, trazia um ar de soberba. Com o tempo, a impressão primeira foi afrouxada. Um pouco. Era educado no falar, no tratar, mas marcava território. 

Doutor Peçanha apreciava o trabalho de Januário. Era observador contumaz, e isso incomodava. Não economizava elogios. De maneira discreta, deixava claro que Fanho era dos melhores mestres com quem tinha convivido. Januário nem se importava. Quando muito, fazia um gesto com a cabeça, arqueava a sobrancelha ou sorria com um canto da boca. Sabia que era bom no que fazia. Não por ouvir falar, mas por sentimento. Vivia por aquilo. A necessidade de superação, em cada dia, fizera dele seu próprio crivo. E foi capaz.

Pelas prosas alongadas com os ajudantes, Doutor Peçanha inteirou-se do modo de vida de Januário. Descobriu a paixão pela loteria e as engenhosas estatísticas das apostas. E, destilando comentários sarcásticos, amolava Januário. As brincadeiras iam ao limite da paciência. Januário sentia vontade de gritar, de esbofetear o engenheiro. E a contrariedade maior veio quando Doutor Peçanha o chamou de simplório por acreditar em manual para acertar na loteria. Ria alto e dizia que somente um idiota acreditaria num engodo daquele. E afirmou que se o criador do manual tivesse o poder de acertar as apostas, não ensinaria a ninguém, seria vencedor em todos os sorteios. Januário ouvia palavra por palavra, engolia a zanga, cerrava os punhos para controlar a ira, queria exigir respeito. Mas que nada. Se tentasse falar, seria mais um motivo para caçoada. Na vida, sempre foi assim. Silenciar era a escolha certa. Não sabia se era a certa, mas era a menos sofrida.  E esse comedimento sem trégua, aos poucos, dilacerou sonhos. Na verdade, nem sabia se eles existiam.   

– Januário, Januário, num vou chamar mais! A comida tá pronta! Vou descansar as pernas…

Pronto. Depois que Marineide dizia que ia descansar as pernas, podia esquecer. Dormia até que escurecesse. E era um sono profundo. Envelheceu muito, e de maneira repentina. A disposição era pouca. A limpeza da casa, nos últimos tempos, andava precária. Pouco enxergava. Era comum colocar o açúcar no café sem se aperceber das formigas que cobriam o pote. Nem as novelas de rádio a encantavam mais.  Estava velha. Velha e só. Tal qual Januário, não formou família.

Veridiana, aquela da casa ao lado, não aparecia no terreiro fazia tempo. Januário estranhou. Depois de uma semana, bastante aflito, perguntou para a mãe o que era feito da galeguinha. A mãe rodeou, desconversou, mas, diante da teima do filho, revelou que Veridiana havia sido levada para outra cidade em busca de socorro. Sangrava em descontrole, sem explicação. 

Naquele dia e nos seguintes, Januário perdeu a paz. Não aprumava juízo em nada, não dormia. Nem gostava de olhar o quintal da casa de Veridiana. E logo a notícia chegou. A galeguinha havia deixado de raiar, a vida foi levada pelo sangue. Ele viu o tumulto diante da casa, ouviu o choro gritado da mãe da moça. A multidão tomava a rua. Não quis ver o corpo. Sabia que lá não estaria a formosura que guardava na lembrança. Não veria o brilho dos olhos gateados, a luz dourada dos cabelos, o tom roseado da pele, o sorriso tímido e brejeiro daqueles lábios. Guardava as imagens, precisava daquela lembrança. 

E depois de tudo que ouvira daquele engenheiro miserável, Januário tornou-se ainda mais desesperançado. Aos poucos, desencantou-se das anotações, dos palpites.  Quando percebeu, cético, já não mais apostava. 

A noite se aproximava. No quarto, a pouca claridade que vazava do telhado e das frestas era quase nada. E aquela aflição no peito queimava. Tirava o sossego. Depois da noite, viria o dia, depois outra noite e outro dia… Ali, naquela angústia. No sol da praça, na conversa evitada, na cama, na solidão, no remoer, a voz de Marineide, o comer, o dormir. Não. Não queria mais. 

Levantou-se. Com os dedos, penteou os ralos fios de cabelo, ajeitou a calça na cintura, meteu os pés nos velhos sapatos, próximos da cama, abriu a porta do quarto. Olhou para os lados. Nada. Ninguém. Esfregou as mãos no peito como se quisesse alisar a camisa, puxou a porta e pôs-se a caminhar rumo ao portão. E continuou, sem parar…

– Januário, você num toma jeito! Num almoçou, num guardou a comida… Ara!!!

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.