EntreContos

Detox Literário.

Dentista-Prático (Zé Penca)

 

Na década de setenta, mudou-se para uma cidadezinha esquecida no interior de Minas Gerais um dentista que atendia pelo nome de Divino. Velho de manias, mas correto como todo homem deve ser, Divino tratou logo de conquistar uma boa clientela. Arrancava dentes podres, confeccionava dentaduras artificialmente sadias, obturava bloco resistente, limpava gengiva de tabaqueiro e era sério feito o diabo. Era um dentista-prático, com hífen mesmo, um profissional do setor informal de mão-de-obra odontológica. E era só nestes, que nasceram para ofício queimando nas veias, que o povo matreiro do interior realmente confiava.

— E o quê que vale um diproma pindurado na parede se o que presta memo é uma coroa bem infiada naquele dente lá de trá da boca?

— Arreda a cadera e vai sentano, Bosta de Porco! — emendou Divino, envaidecido que só ele com o elogio do paciente.

E não pense que o vocativo usado pelo dentista foi alguma espécie de xingamento. Era assim mesmo que Ernesto da Costa Pinto era chamado. Está maluco que Divino destratava cliente e brincava em serviço? De jeito nenhum! Bosta de Porco era apelido. E não tinha nada a ver com o cheiro que saía dele. Feder, ele até que fedia, mas era daquele perfume antigo, barato, que vinha sempre na bagagem de caixeiro viajante.

Bosta de Porco só saiu do consultório depois que Divino o deixou de boca tinindo. E para completar, fez o serviço fiado. Confiava nos seus devedores assim como os devedores confiavam no serviço dele. Divino achava bonita essa frase porque parecia por demais com alguma coisa que Cristo falou um dia.

Com isso, a boa fama de Divino começou a ser construída. Sua reputação ilibada culminou-se quando, por falta de um médico no hospital largado da cidade, foi chamado para auxiliar a parteira Timita num parto complicado lá no morro da cidade. O menino nasceu já roxinho, mas chorou mais que viola em seresta de madrugada.

— De manera que o minino nasceu no dia de todos os santos e tem vida por causa do Seu Divino, há de ter o memo nome. — decretou a parteira, tão negra quanto o rebento, que tão cedo nasceu já recebeu o apelido de Xororó.

Mas como nem tudo são flores, benditos e frutos, deparamos com o primeiro grande dilema de nosso estimado herói. Tudo desandou quando passou muito do dia marcado de Divino receber o pagamento do devedor. A caderneta preta no canto do consultório desatinava a cabeça do dentista como um dente zangando a carne machucada. Apenas um nome sangrava com tinta vermelha: Ernesto, devedor.

O fato é que Bosta de Porco vivia de fazer bicos. Um serviço aqui, outro acolá. Depois de passar a tarde inteirinha capinando o quintal do Furtado, havia gastado todo o vintém recebido no estabelecimento da esquina. Muitos chamavam sua doença de safadeza, falta de vergonha na cara, boemia…

—  Gastou o dinhero todo no bar do Seu Zé Cutia. Encheu o cu de cachaça, Seu Divino! — falou Apolônio sentado no banco da praça. — Por que ocê não cobra ele?

—  Eu num levo prumo pra essas coisas, não… Ele é homi, sabe que deve…

Não demorou muito para que todos da cidade já dessem conta da vida e da dívida de Ernesto. Olhares censuradores perseguiam o rastro do álcool impregnado. Os globos oculares obsessivos cobravam muito mais do que qualquer agiota encrespado e com sede de vingança.

Com o intuito de fugir da obrigação de pagar, como também de tirar das próprias costas a culpa que a comunidade lhe empurrava goela abaixo, Bosta de Porco começou a declarar – primeiro bêbado, depois sóbrio – que não pagaria pelo serviço do dentista-prático. Apontava machucados na boca, discorria sobre hálito prejudicado, afirmava que dentista bom é o que tem o diploma na parede.

— Dentadura malefeita não merece pagamento… Ele não tem nem diproma!

Pensando ter sido a melhor solução, uns até já concordavam com o devedor balançando a cabeça e oferecendo rapé da caixinha, Bosta de Porco voltou a dormir tranquilo. Seu erro fatídico. Porque enquanto seu sono corria solto com direito a flatulências fermentadas, quem não dormia mais era Divino.

Decidido a por um fim naquela história, ele passou a mão no 38 que guardava dentro na gaveta – bem debaixo da bíblia sagrada que ficava a aberta na parte dos mandamentos que ninguém seguia porque não conseguia – e partiu atrás de Ernesto da Costa Pinto. Sim, não era mais nem bosta, nem porco. Para Divino, Ernesto não era mais digno de apelido. Era o homem que maldizia seu serviço e que precisava pagar por isso. Se não fosse com dinheiro, seria com a vida.

Vou ser bem direto, foi em frente ao boteco do Seu Zé Cutia que os tiros rolaram soltos em direção ao peito de Ernesto. Dentista-prático tem mão firme e mira certeira. E arrisco dizer que se Divino tivesse parado por ali, até que muitos o defenderiam. Mas ele ainda não tinha se sentido vingado o suficiente. Fazer dentadura dá trabalho. É um tal de tirar molde, misturar pó com líquido para virar resina, esperar secar. E o acabamento então? Ô trabalheira dos diabos.

Divino sentiu o bolso direito pesar. Um peso absoluto, incômodo, tentador. Retirou dele, com uma calma invejável, o canivete que lhe pesava. Curvou-se sobre Ernesto e cravou a lâmina afiada no pescoço, cortando-o de fora a fora. O sangue grosso manchou parte da cara de Divino, escorreu por entre as pedras da rua. Em seguida, lenta e involuntariamente, a dentadura escorregou para fora da boca de Ernesto. Como um sorriso mudo, ela consolidou-se em um ornamento sinistro na rua Paulo Honório.

Um tiro dá cadeia? E dois? E três? E se for o tambor  inteiro e mais um canivete afiado? Eu, sinceramente, não sei explicar como as leis funcionam naquelas terras – e olha que sou de lá. O fato é que Divino não foi parar na cadeia, considerada muito pouco para ele. O vingador foi encaminhado para outro tipo de prisão: o hospício. O maior e mais afastado do Estado. Bem ali, onde o filho chora e a mãe finge que não escuta.

No início não foi nada fácil. Seu Divino foi privado de comer, andava nu por entre outros, tomava banho de mangueira – e isso não era uma coisa boa. Quando estava distraído devido a certas seringas de conteúdo branco, levava mordida de doido de tudo quanto é tipo. Os dentes cravados nas costas, braços, nádegas, remetiam-lhe à dentadura ensanguentada sorrindo-lhe, sozinha, no meio da rua.

Depois de algum tempo, era Divino que mordia. Mordia de raiva, de medo, de fome. Ficara louco? Ou louco sempre fora?

— E quem é que entra aqui e sai são um dia? — disse um enfermeiro gordo jogando Divino contra a parede cinza. — E para de dizer que não é doido, vai ser pior pro cê.

O tempo naquele lugar passava de forma diferente. Foi ali que Divino aprendeu o verdadeiro significando da expressão “é relativo”. Começou a relativizar tudo. Relatizava a morte de Ernesto, a sua existência, até a evolução humana. Num lugar onde os hóspedes são tratados como animais, não foi difícil para Divino entender que apenas um pedaço de pau com objetivo separa os homens de outras espécies. E foi assim que conseguiu sobreviver. Bateu no peito como um primata em pleno refeitório no sábado à tarde, fez-se louco. Um louco com função.

Dentro de um tempo impossível de ser mensurado, Divino conquistou a simpatia da equipe técnica. Era um verdadeiro suplício obrigar doido a tomar remédio. Às vezes precisavam de três ou mais pessoas para fazer um engolir o comprimido amargo. Quando viam que era esse o caso, chamavam logo o dentista-prático.

— Seu Divino! Esse aqui não quer colaborar…

Então ele se aproximava e estendia o remédio. Bastava um olhar e o louco se endireitava rapidinho. Engolia a medicação como se fosse pipoca doce na feirinha da cidade.

Dizem que o dia da partida de Divino do hospício foi uma choradeira danada por parte dos funcionários e uma comemoração emocionada pelos loucos varridos. Como não tinha família, Divino saiu de lá sem eira nem beira, sozinho. Pegou o cata-jeca – termo carinhosamente usado para ônibus – e foi em direção ao único lugar que ele poderia chamar de seu: o consultório.

Desceu na encruzilhada dos treze quilômetros e começou a percorrer a pé a estradinha de terra que levava à cidade. A cada passo sentia-se um desgraçado. O sol na moleira só complicava ainda mais as coisas. Não sentia gozar de todas as suas faculdades mentais. Estava mesmo fadado a ser louco?

Enquanto remoía o medo da loucura que lhe rondava, ouviu um barulho vir do mato. Esfregou os olhos com força quando avistou um leão cruzar a estradinha acompanhado de duas leoas. Atrás de si, a tromba de um elefante tocou o seu ombro displicente. Divino não se moveu diante da certeza que mais temia: ficara realmente louco. Olhou para uma árvore que balançava na beira da estrada, pulando nos seus galhos, dois chimpanzés faziam arte. Sorriu para eles e acenou, entregou-se por inteiro ao seu estado de alucinação.

Parado mais a frente, estava um homem de chapéu estranho, bigode com pontas para cima e um sobretudo colorido. Olhava espantado para a tranquilidade que Divino recebia o cumprimento do elefante e para sua animação ao cumprimentar os macacos. Aproximou-se com cautela do dentista, com receio de chamá-lo de doido, enquanto seus empregados traziam as jaulas puxadas por carros e trailers.

— Estou levando meu circo para a próxima cidade e deparei-me com o infortúnio das jaulas se abrirem devido aos demasiados buracos da estrada. Se puder distanciar do elefante, com cuidado, com muito cuidado, eu poderei te dar uma caroninha.

Se alguém já disse que é impossível ficar aliviado e aterrorizado ao mesmo, mentiu. Naquele momento, Divino sentiu as duas coisas ao mesmo tempo. Terror porque estava perto da morte. Alívio porque, afinal, não estava assim tão louco. Distanciou-se do elefante e aceitou a carona do dono do circo.

Tão cedo chegou na cidade, abriu logo o consultório. Mas nem alma penada passava por lá. Olhares desconfiados, passos apressados e cochichos por toda a parte. A cidade inteirinha borrava as calças de medo do Divino.

Ocê pensano que doido de sentar naquela cadeira e dever um sirviço? E se eu não tiver o dinhero pra riscá meu nome da caderneta dele?

Si não tiver cê tá pirdido! Acho que vendo meu cu mas num devo um vintém pro Divino Matador.

Divino Matador – como agora era chamado – já não tinha o que comer. Como ele já havia passado pela fome lá na prisão peculiar que ficara, sabia exatamente o quão penosa era a tal experiência do estômago vazio. Quando estava sem um pingo de esperança, pronto para dar cabo da própria vida, ouviu alguém chamar do lado de fora. Era o dono do circo.

— Opa!

— O senhor que é o tal Divino Matador?

— Meu nome é Divino, mas matar mesmo eu só matei uma vez. — respondeu meio sem jeito. — Meu ofício memo é dentista.

— O senhor me desculpa, mas foi como te chamaram. Estou necessitado mesmo é do ofício de dentista e de um homem corajoso. E pelo o que eu vi na estrada, encontrei a pessoa certa.

Sr. Aprígio Rezende e seu bigode com pontas para cima ganhou a simpatia de Divino que aceitou logo o serviço. Havia dias que o leão do circo estava com dor de dente, mal comia e ninguém se atrevia a se aproximar dele. Aprígio sabia que estava prestes a perder o trunfo do circo. Depositou todas as esperanças em Divino que entrou na jaula como se fosse na zona, numa animação surpreendente – era a fome. O dentista-prático, com habilidade nata, encontrou o dente ruim e em poucos segundos retirou-o da boca do animal, levantando-o para cima como quem ergue um troféu.

Divino Matador virou herói para o pessoal da caravana. Quando o circo foi embora depois de trinta dias, Divino fechou o consultório com cadeado e decidiu seguir com ele. Viajou pelo Brasil todo, arrumando dente de bicho e fazendo sua fama. Em alguns anos ele ficou conhecido como Dentista de Bicho Brabo. E foi por causa desse apelido que recebeu a incumbência de curar o dente do bicho mais temido do planalto: o General Salgado.

Não se sabe bem ao certo o que se sucedeu. O que eu fiquei sabendo foi que o dente não ficou bom não, porque o tal general era pior que veneno de cobra jararaca. Depois de ter feito o serviço na boca do militar, botaram fogo no circo e Divino passou anos desaparecido. Ninguém sabia do paradeiro dele.

 Por fim, apareceu vivo em 1985 lá na cidadezinha do interior.

— Pois eu te juro, Bastiana. Eu vi com esses zói que a terra há de comer! — disse a Maria da Cotinha. — Chegou ontem, puxano de uma perna, com a língua mei atrapalhada e cego de um ôi.

— E quem é que teve coragem de mexer com um homi daquele? Será que foi lião?

Lião que nada! Deve ter sido bicho muito mais pirigoso.

Divino sentou no banco de madeira que ficava em frente ao consultório pensando se viria mesmo algum cliente para atender. Seu olhar era duro e distante. Viu se aproximar um menino negro, pé no chão, com uma caixa de madeira apoiada no ombro.

— Engraxate! Engraxate! — gritava aos ventos. — Quer engraxar o sapato, sinhor?

Divino ficou parado um tempo, mas acabou por afirmar com a cabeça, aceitando a oferta. O moleque lhe dirigiu um sorriso grande, branco, com uma cárie pretinha enfeitando os dois dentes da frente.

— Hoje tá quente, heim, sinhor? É o dentista novo daqui da cidade? — indagou o menino com uma felicidade tão pura, tão dele. Passava o paninho para lá e para cá com destreza. — O sinhor não é de muita cunversa não, né? Tem pobrema não, eu é que falo mais que a fofoqueira da Maria da Cotinha.

— Qual seu nome? — perguntou com dificuldade, a língua meio embolada.

— Meu nome é Divino, sô. Mas aqui sou conhecido como Xororó.

O dentista-prático já desconfiava, só queria confirmação. Depois de ver seu sapato velho brilhando como nunca, entrou no consultório, trouxe um trocadinho e entregou para o engraxate.

Agradicido

— Sabe ler? — perguntou, pegando-o de surpresa.

— Sei não, sinhor. — quase que o sorriso careado desmancha.

— Quer ser dentista?

— Dentista? Eu? O sinhor vai me ensinar o ofício?

Divino tentou sorrir, mas não conseguiu.

— É. Primeiro vai ter que aprender a ler… — retrucou. — Mas eu te ensino isso também.

— Minha nossa senhora! — ria bobo numa alegria contagiante. — Minha mãe nem vai acreditar num trem desse, ! Vou ser dentista! Começo quando?

Divino tentou retribuir o sorriso do menino outra vez, sem sucesso.

— Por mim, pode começar agora…

Xororó largou a caixa de madeira no chão e esfregou uma mão na outra, animado. Tinha alguma chance de aquilo não dar certo? Nenhuma. Afinal, para se tornar um dentista-prático e para aprender a sorrir só uma coisa é necessária: a prática.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série A.