EntreContos

Detox Literário.

Amado Saulo (Ayla Junqueira)

 

Amado Saulo (ou qualquer pseudônimo que esteja usando no momento),

Antes que comece a leitura dessa carta, quero que saiba o seguinte: esta carta tem um alto teor sentimental, beirando ao melodrama. Se, por algum acaso, quem está lendo não é você, Saulo, saiba que essa violação de privacidade não tem problema algum. Sim, nos tempos em que vivemos, creio que ler uma carta de amor pode ser o maior ato de desafio ao Sistema instaurado. 

Tenho muitos motivos para escrever essa carta. É até difícil saber por onde começar a enumerá-los. A principal e a mais importante é a saudade que sinto de você. Às vezes, no meio desses mil compromissos que arrumei (ou que me foram arrumados), me pego olhando pela janela, na expectativa de vê-lo chegando, pronto para contar os (não) acontecimentos do dia. Entendo que é difícil ouvir suas noticias. Há de chegar o dia em que a distância não será um grande empecilho para a humanidade, considerando como a tecnologia avança. Talvez, com um toque ou dois numa geringonça moderna, você poderá falar com uma pessoa do outro lado do mundo, trocar fotos, enviar e receber músicas… Se bem que, isso não vai resolver o problema da falta do tato humano (embora, eu não ficaria surpreendida caso um ou uma cientista resolva esse problema). 

Enfim, tanto a curiosidade quanto a saudade me fazem pensar em você. Se você desistiu dessa máscara de intelectual (é bem verdade que ela tem seu charme) e finalmente admitiu que a sua paixão não são esses livros grandes e cheios de teoria as quais tentam explicar o inexplicável, mas aqueles livretos, sobre as coisas extremamente (in) significantes? Sim, eu entendo que isso é uma forma de proteção. Como é que dizem os vira-casacas? “Se não pode com eles, junte-se a eles.” Não julgo pois, de certa forma, fiz o mesmo. E não me arrependo, mesmo que isso signifique essa distância entre nós. Ainda que você não tenha saído dessa vida, me contento em saber se está se sentindo realizado, à medida que avança em sua vida profissional.

Na verdade, qualquer noticia sua é um alento para mim, o que pode ser muito, considerando como se vive por essas bandas. Basta fechar os olhos e sou capaz de relembrar de você e a força de sua presença. Relembro facilmente suas caretas, o seu jeito único de contar histórias. O toque delicado da sua mão áspera na maçã do meu rosto, nos meus braços, pernas, cabelos… Era quase como se você tivesse, ao mesmo tempo, um grande medo de me machucar e uma vontade irresistível de encostar num brinquedo extremamente divertido.  

Quando não busco novidades, vou atrás das antiguidades mesmo. Não sei o porquê, mas me imagino como aquelas personagens do Romantismo. Presas num ambiente que não gostam, obrigadas a colocar um sorriso no rosto, com palavras cândidas e um tom suave. Entretanto, no primeiro momento que surge, dentro do quarto, elas pegam um baú num local muito bem escondido e o reviram, leem suas cartas, nas quais trocam confidências com o outro, repletas de amor e ternura. Exceto que todas as minhas lembranças com você estão dentro de uma caixa que imita um livro. Fotos juntos, algumas das nossas cartas fofas trocadas (sinto tanto sua falta, que até me presto ao papel de falar “fofas”). Tudo que considero importante está lá. Num momento qualquer, quando preciso escapar, abro o esconderijo dos sentimentos e sinto um sorriso tão nostálgico e rebelde me invadir o rosto. 

Já que mencionei as fotos, devo dizer que, mesmo que não fosse recomendável ou até mesmo seguro, eu revelei três. Sei o quanto o você gosta de descrições e o quão não criativa eu sou. Por isso, nem deveria me arriscar nisso, mas aqui vou; tirei a foto enquanto você dormia. Embora fosse um dia quente, você ainda mantinha-se parcialmente coberto pelo lençol azul-claro fino. Uma gota de suor descia pelo seu pescoço, indo lentamente em direção à sua clavícula. Foi a minha primeira fotografia com a câmera que você me deu, umas três horas antes. Os detalhes da câmera mostravam os pêlos grossos e crespos de sua barba preta, cuidadosamente aparados. Sua expressão enquanto dormia era tão serena quanto a calma que você demonstrava usualmente. Por mim, eu viveria esse dia por, pelo menos, duas vidas inteiras. 

 Tem dias que eu confesso não entender os motivos que levaram a nossa separação. Será que não podíamos simplesmente superar? Sim, simples assim, sem considerar nada mais. Dane-se os outros, as outras, o sistema e claramente, o Acaso. Às vezes, eu queria ter tido o brilho necessário para criar uma terceira opção. Opção essa que vivíamos num lugar tranquilo, afastados de todo esse turbilhão da capital. Um quintal com espaço suficiente para árvores, a parede de escalada da Felícia, a gatinha que arrumei por aqui, e para o seu cachorro (Roel, né?! Saulo, confesso que nunca entendi da onde surgia esses nomes tão diferentes para personagens) fazer suas travessuras. 

Bom, esse será o último parágrafo (assim espero) que no qual vou falar de saudade. Acho que você ficará feliz ao saber que adotei alguns de seus métodos de leitura. Usualmente, aos sábados pela parte da tarde, compro frutas, garrafinhas de vinho (mais barato que água, pasme(m)!), biscoitinhos e salgados. Então, pego um livro e leio nas praças de Lisboa. Vez ou outra, como quem não quer nada, me aproximo de um senhor ou uma senhora que anda sozinha, pergunto se posso ler um trecho do livro para eles. Não entendem muito bem minha atitude. Nem eu entendo muito bem. Acho que faço isso para abrandar um pouco a solidão.

Toda vez antes de dormir, leio pelo menos um capítulo de um livro. Geralmente, é o tempo que necessito para voltar à calma, freando os meus pensamentos preocupados. Talvez fique desapontado, mas não estou lendo os clássicos os quais me recomendou. São complicados demais. Embora, devo confessar que me apaixonei por Machado. Ele é tão atrevido, mesmo passado quase 100 anos depois de seu tempo. Acho que dependendo de quem lê, Machado ainda pode ferir com a mesma precisão. Contudo, ainda prefiro esses romancezinhos de banca de revistas, simples e apaixonantes. Vez ou outra, leio um de policial. São interessantes, por vezes. Mas o que gosto (e me identifico bastante) são os tais romances eróticos. Os portugueses são um tanto recatados, até na hora de falar de putaria.

Foi lendo eles que tive uma epifania sobre nós.

Desde a primeira vez que te vi, eu senti uma forte conexão. Lembro de você entrando na casa da Dona Afrodite, uma das mais quentes dos inferninhos de Copacabana. Acompanhado de outros engomadinhos, não parecia sentir-se confortável com aquele clima libidinoso, ao contrário de seus colegas. Dirigiu-se ao bar, desviando dos errantes. Sentou-se e, distante, assistia às pessoas, como se observasse um fenômeno da natureza com extrema (e devida) atenção. Mesmo diante da quase ausência completa da luz, você escrevia algo no seu bloquinho de notas. As meninas comentavam, ironicamente, que você devia ser algum extremado do governo, achando que era mais do que tempo para acabar com aquela pouca vergonha. Mas isso jamais ia acontecer, já que vários políticos, religiosos e militares, bastiães da Moral cristã e dos bons costumes, adoravam visitar o inferno de Copa atrás da busca pela redenção.

Na hora, achei que você era o desafio da noite. Sim sim, ledo engano, como diriam. Sempre tem aquele cara quieto, que parece que não quer nada. Por isso, mesmo com a investida de um ou outro, não dei muita bola. Fiquei um tanto instigada. Será que você realmente seria um exagerado, um verdadeiro bastião? Eu me aproximo de você e sou extremamente bem tratada. Contudo, você reluta a ceder aos meus flertes e encantos, quase como se não compreendesse. Ainda depois de todos esses anos, recuso a acreditar que você, de fato, não entendia os meus avanços. Quanta ingenuidade pode caber dentro de um jovem homem que bebe uísque, enquanto assiste as movimentações de um bordel?    

Com ou sem ingenuidade, com o passar do tempo, começamos a nos envolver. Lembro dos comentários jocosos das outras meninas:

-Olha lá, seu paciente chegou!

Por mais inacreditável que lhe pareça, você não foi o meu primeiro dedo de prosa (embora, como nós dois sabemos, e quem mais estiver lendo, não ficamos muito tempo no bate-papo). Tem esse senso comum sobre nós putas. Como se quem nos procura está somente preocupado com três orifícios. Mil perdões pela falta de palavras bonitas sobre o assunto, mas as mulheres da vida também podem ser os ouvidos tão desejados por palavras que não podem ser ditas. Aliás, uma quase solução perfeita, não acha? Se a nossa voz não tem tanto valor, os segredos que carregamos também terão um baixo valor, certo?

Mas, tentando voltar ao assunto, eu caí no maior erro que essa profissão pode nos oferecer. É, estava óbvio demais que isso ia ocorrer, até porque, desde o primeiro momento, algo em você me prendia a atenção. Sim, eu tinha um forte interesse em você, para ser bastante simplória. Tive a certeza disso quando, depois de uma noite a qual dormimos abraçados e nus, ignorando a noite quente típica da Cidade Maravilhosa (?). Acordei por volta das duas horas da manhã. Se você fosse um cliente (essas palavras me soam bastante amargas, agora), logo depois do seu ultimo gemido contido, eu pegaria a grana, me limparia e iria embora. Saulo, você não era um cliente. Por isso, quando acordei, preferi simplesmente esquecer todo o procedimento típico. Fiquei, aproveitando a sua ótima companhia adormecida.

Calma, já chego a parte da epifania. Começou num misto de um sonho e uma lembrança ordinária de uma noite que vivemos. Na famosa conversa de travesseiro, você me contava sobre os planos de escrever um livro. Se não me engano, foi a primeira vez que você me falou do seu lado artístico. Não sei se eram os drinks que tomamos, porém, era uma história mirabolante que fazia muito sentido. Uma critica velada ao governo, numa série de elogios sutilmente jocosos (eu agradeço por você ter me apresentado essa palavra). Então você, rapidamente, procurou o bloco de notas em sua pasta, folheou algumas paginas rabiscadas, virou-se para mim e leu um conto inteiramente dedicado para mim.

Depois de alguns anos, finalmente me veio a explicação. Enquanto eu rememorava suas doces palavras sobre mim, percebi que não foi a primeira vez que fui uma personagem. Peço perdão às atrizes, mas, por vezes, também somos pagas para interpretar. Eu mesma já fui uma mulher responsável por punir um péssimo juiz, uma professora ensinando as coisas mais importantes da vida a um aluno e, para o espanto (ou seria encanto de quem está lendo?), a amiga atrevida e misteriosa de uma dona de casa entediada que volta depois de anos no exterior.

A questão é que nunca perguntam qual personagem a prostituta quer ser. Sempre impõem algo, não importando muito nossa vontade. Pode ser que, eventualmente, nós desempenhamos um papel que gostamos. Ainda assim, faltará algo. Parece que, na verdade, nunca nos encaixamos no papel que nós mesmas atuamos. Guardado às suas proporções, o escritor também passa por isso, Saulo. 

Lembro que, depois de um certo tempo, você me confidenciou o seguinte desejo:

– Eu sempre quis saber como eu seria retratado se fosse um protagonista. Sair do ponto de escritor e ser a inspiração.

Espera-se que o escritor (ou escritora. Por favor, repita o substantivo feminino para todos os casos similares) crie universos e mais universos, personagens e mais personagens, conseguindo encaixar todos à sua volta na história, com precisão. Mesmo que possa fazer uma biografia de sua vida em primeira pessoa, ainda assim, você não será fielmente retratado e, provavelmente, em algum ponto de sua narrativa, não se sentirá o protagonista. O autor nunca se encaixa completamente na sua própria história, mesmo que sua escrita seja a mais fidedigna possível.

No final das contas, nem o escritor nem a prostituta se encaixam completamente em suas histórias. E foi isso que me encantou em você. Duas pessoas não adequadas podem se adequar entre si?

Não sei se deu para compreender. Algo me diz que você, Saulo, compreendeu. Já os outros, duvido. Considero isso como uma pequena traquinagem minha, um revide por ler algo pessoal. Como tenho um coração grande, vocês ainda saíram no lucro; leram a história de amor entre um escritor e uma prostituta, mesmo que salvo de alguns detalhes.

Enfim, o ultimo motivo. Não quero deixar a carta maior já está. Chegou a hora de cumprir seu desejo. Quer ser o protagonista? Vamos ver se tenho talento para ser autora. É pequeno, não vou negar, porém singelo e de coração.

“Da despedida no Aeroporto do Galeão, enquanto embarcava para o vôo em direção à Lisboa, trocamos o que podia ser o nosso último olhar. Mesmo apesar de tudo, você mantinha o sorriso, mostrando os dentes e quebrando seu aspecto bruto, proveniente da barba crespa. Não fazia forças para evitar a queda das lágrimas. Não pude deixar de notar, pela milionésima vez, a sua força cândida. Não demonstrava o menor sinal de esforço para evitar as lágrimas. Deixava-as escorrer, até que desaparecesse no meio da barba escura e crespa. No meio do olhar castanho-escuro, dizia que era um sacrifício válido, embora doesse, como qualquer sacrifício digno de ser feito. Podia sentir essa estranha mania que você possui, e me ensinou, de ter fé na vida. A vida em Lisboa seria boa (perdoe-me pelo trocadilho infame), mesmo sem sua presença, com o velho e guerreiro bloquinho de notas. ” 

Nessa história, até podemos não ter controle das nossas ações.Espero que tenha gostado, Saulo, meu protagonista.

Da sua amada, ontem, hoje e sempre,

Ayla Junqueira (Ou Samara, Heloísa… Enfim, qualquer pseudônimo que você prefira)

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C.