EntreContos

Detox Literário.

Amado Saulo (Givago Thimoti)

 

Amado Saulo (ou qualquer pseudônimo que esteja usando no momento),

Antes que comece a leitura dessa carta, quero que saiba o seguinte: esta carta tem um alto teor sentimental, beirando ao melodrama. Se, por algum acaso, quem está lendo não é você, Saulo, saiba que essa violação de privacidade não tem problema algum. Sim, nos tempos em que vivemos, creio que ler uma carta de amor pode ser o maior ato de desafio ao Sistema instaurado. 

Tenho muitos motivos para escrever essa carta. É até difícil saber por onde começar a enumerá-los. A principal e a mais importante é a saudade que sinto de você. Às vezes, no meio desses mil compromissos que arrumei (ou que me foram arrumados), me pego olhando pela janela, na expectativa de vê-lo chegando, pronto para contar os (não) acontecimentos do dia. Entendo que é difícil ouvir suas noticias. Há de chegar o dia em que a distância não será um grande empecilho para a humanidade, considerando como a tecnologia avança. Talvez, com um toque ou dois numa geringonça moderna, você poderá falar com uma pessoa do outro lado do mundo, trocar fotos, enviar e receber músicas… Se bem que, isso não vai resolver o problema da falta do tato humano (embora, eu não ficaria surpreendida caso um ou uma cientista resolva esse problema). 

Enfim, tanto a curiosidade quanto a saudade me fazem pensar em você. Se você desistiu dessa máscara de intelectual (é bem verdade que ela tem seu charme) e finalmente admitiu que a sua paixão não são esses livros grandes e cheios de teoria as quais tentam explicar o inexplicável, mas aqueles livretos, sobre as coisas extremamente (in) significantes? Sim, eu entendo que isso é uma forma de proteção. Como é que dizem os vira-casacas? “Se não pode com eles, junte-se a eles.” Não julgo pois, de certa forma, fiz o mesmo. E não me arrependo, mesmo que isso signifique essa distância entre nós. Ainda que você não tenha saído dessa vida, me contento em saber se está se sentindo realizado, à medida que avança em sua vida profissional.

Na verdade, qualquer noticia sua é um alento para mim, o que pode ser muito, considerando como se vive por essas bandas. Basta fechar os olhos e sou capaz de relembrar de você e a força de sua presença. Relembro facilmente suas caretas, o seu jeito único de contar histórias. O toque delicado da sua mão áspera na maçã do meu rosto, nos meus braços, pernas, cabelos… Era quase como se você tivesse, ao mesmo tempo, um grande medo de me machucar e uma vontade irresistível de encostar num brinquedo extremamente divertido.  

Quando não busco novidades, vou atrás das antiguidades mesmo. Não sei o porquê, mas me imagino como aquelas personagens do Romantismo. Presas num ambiente que não gostam, obrigadas a colocar um sorriso no rosto, com palavras cândidas e um tom suave. Entretanto, no primeiro momento que surge, dentro do quarto, elas pegam um baú num local muito bem escondido e o reviram, leem suas cartas, nas quais trocam confidências com o outro, repletas de amor e ternura. Exceto que todas as minhas lembranças com você estão dentro de uma caixa que imita um livro. Fotos juntos, algumas das nossas cartas fofas trocadas (sinto tanto sua falta, que até me presto ao papel de falar “fofas”). Tudo que considero importante está lá. Num momento qualquer, quando preciso escapar, abro o esconderijo dos sentimentos e sinto um sorriso tão nostálgico e rebelde me invadir o rosto. 

Já que mencionei as fotos, devo dizer que, mesmo que não fosse recomendável ou até mesmo seguro, eu revelei três. Sei o quanto o você gosta de descrições e o quão não criativa eu sou. Por isso, nem deveria me arriscar nisso, mas aqui vou; tirei a foto enquanto você dormia. Embora fosse um dia quente, você ainda mantinha-se parcialmente coberto pelo lençol azul-claro fino. Uma gota de suor descia pelo seu pescoço, indo lentamente em direção à sua clavícula. Foi a minha primeira fotografia com a câmera que você me deu, umas três horas antes. Os detalhes da câmera mostravam os pêlos grossos e crespos de sua barba preta, cuidadosamente aparados. Sua expressão enquanto dormia era tão serena quanto a calma que você demonstrava usualmente. Por mim, eu viveria esse dia por, pelo menos, duas vidas inteiras. 

 Tem dias que eu confesso não entender os motivos que levaram a nossa separação. Será que não podíamos simplesmente superar? Sim, simples assim, sem considerar nada mais. Dane-se os outros, as outras, o sistema e claramente, o Acaso. Às vezes, eu queria ter tido o brilho necessário para criar uma terceira opção. Opção essa que vivíamos num lugar tranquilo, afastados de todo esse turbilhão da capital. Um quintal com espaço suficiente para árvores, a parede de escalada da Felícia, a gatinha que arrumei por aqui, e para o seu cachorro (Roel, né?! Saulo, confesso que nunca entendi da onde surgia esses nomes tão diferentes para personagens) fazer suas travessuras. 

Bom, esse será o último parágrafo (assim espero) que no qual vou falar de saudade. Acho que você ficará feliz ao saber que adotei alguns de seus métodos de leitura. Usualmente, aos sábados pela parte da tarde, compro frutas, garrafinhas de vinho (mais barato que água, pasme(m)!), biscoitinhos e salgados. Então, pego um livro e leio nas praças de Lisboa. Vez ou outra, como quem não quer nada, me aproximo de um senhor ou uma senhora que anda sozinha, pergunto se posso ler um trecho do livro para eles. Não entendem muito bem minha atitude. Nem eu entendo muito bem. Acho que faço isso para abrandar um pouco a solidão.

Toda vez antes de dormir, leio pelo menos um capítulo de um livro. Geralmente, é o tempo que necessito para voltar à calma, freando os meus pensamentos preocupados. Talvez fique desapontado, mas não estou lendo os clássicos os quais me recomendou. São complicados demais. Embora, devo confessar que me apaixonei por Machado. Ele é tão atrevido, mesmo passado quase 100 anos depois de seu tempo. Acho que dependendo de quem lê, Machado ainda pode ferir com a mesma precisão. Contudo, ainda prefiro esses romancezinhos de banca de revistas, simples e apaixonantes. Vez ou outra, leio um de policial. São interessantes, por vezes. Mas o que gosto (e me identifico bastante) são os tais romances eróticos. Os portugueses são um tanto recatados, até na hora de falar de putaria.

Foi lendo eles que tive uma epifania sobre nós.

Desde a primeira vez que te vi, eu senti uma forte conexão. Lembro de você entrando na casa da Dona Afrodite, uma das mais quentes dos inferninhos de Copacabana. Acompanhado de outros engomadinhos, não parecia sentir-se confortável com aquele clima libidinoso, ao contrário de seus colegas. Dirigiu-se ao bar, desviando dos errantes. Sentou-se e, distante, assistia às pessoas, como se observasse um fenômeno da natureza com extrema (e devida) atenção. Mesmo diante da quase ausência completa da luz, você escrevia algo no seu bloquinho de notas. As meninas comentavam, ironicamente, que você devia ser algum extremado do governo, achando que era mais do que tempo para acabar com aquela pouca vergonha. Mas isso jamais ia acontecer, já que vários políticos, religiosos e militares, bastiães da Moral cristã e dos bons costumes, adoravam visitar o inferno de Copa atrás da busca pela redenção.

Na hora, achei que você era o desafio da noite. Sim sim, ledo engano, como diriam. Sempre tem aquele cara quieto, que parece que não quer nada. Por isso, mesmo com a investida de um ou outro, não dei muita bola. Fiquei um tanto instigada. Será que você realmente seria um exagerado, um verdadeiro bastião? Eu me aproximo de você e sou extremamente bem tratada. Contudo, você reluta a ceder aos meus flertes e encantos, quase como se não compreendesse. Ainda depois de todos esses anos, recuso a acreditar que você, de fato, não entendia os meus avanços. Quanta ingenuidade pode caber dentro de um jovem homem que bebe uísque, enquanto assiste as movimentações de um bordel?    

Com ou sem ingenuidade, com o passar do tempo, começamos a nos envolver. Lembro dos comentários jocosos das outras meninas:

-Olha lá, seu paciente chegou!

Por mais inacreditável que lhe pareça, você não foi o meu primeiro dedo de prosa (embora, como nós dois sabemos, e quem mais estiver lendo, não ficamos muito tempo no bate-papo). Tem esse senso comum sobre nós putas. Como se quem nos procura está somente preocupado com três orifícios. Mil perdões pela falta de palavras bonitas sobre o assunto, mas as mulheres da vida também podem ser os ouvidos tão desejados por palavras que não podem ser ditas. Aliás, uma quase solução perfeita, não acha? Se a nossa voz não tem tanto valor, os segredos que carregamos também terão um baixo valor, certo?

Mas, tentando voltar ao assunto, eu caí no maior erro que essa profissão pode nos oferecer. É, estava óbvio demais que isso ia ocorrer, até porque, desde o primeiro momento, algo em você me prendia a atenção. Sim, eu tinha um forte interesse em você, para ser bastante simplória. Tive a certeza disso quando, depois de uma noite a qual dormimos abraçados e nus, ignorando a noite quente típica da Cidade Maravilhosa (?). Acordei por volta das duas horas da manhã. Se você fosse um cliente (essas palavras me soam bastante amargas, agora), logo depois do seu ultimo gemido contido, eu pegaria a grana, me limparia e iria embora. Saulo, você não era um cliente. Por isso, quando acordei, preferi simplesmente esquecer todo o procedimento típico. Fiquei, aproveitando a sua ótima companhia adormecida.

Calma, já chego a parte da epifania. Começou num misto de um sonho e uma lembrança ordinária de uma noite que vivemos. Na famosa conversa de travesseiro, você me contava sobre os planos de escrever um livro. Se não me engano, foi a primeira vez que você me falou do seu lado artístico. Não sei se eram os drinks que tomamos, porém, era uma história mirabolante que fazia muito sentido. Uma critica velada ao governo, numa série de elogios sutilmente jocosos (eu agradeço por você ter me apresentado essa palavra). Então você, rapidamente, procurou o bloco de notas em sua pasta, folheou algumas paginas rabiscadas, virou-se para mim e leu um conto inteiramente dedicado para mim.

Depois de alguns anos, finalmente me veio a explicação. Enquanto eu rememorava suas doces palavras sobre mim, percebi que não foi a primeira vez que fui uma personagem. Peço perdão às atrizes, mas, por vezes, também somos pagas para interpretar. Eu mesma já fui uma mulher responsável por punir um péssimo juiz, uma professora ensinando as coisas mais importantes da vida a um aluno e, para o espanto (ou seria encanto de quem está lendo?), a amiga atrevida e misteriosa de uma dona de casa entediada que volta depois de anos no exterior.

A questão é que nunca perguntam qual personagem a prostituta quer ser. Sempre impõem algo, não importando muito nossa vontade. Pode ser que, eventualmente, nós desempenhamos um papel que gostamos. Ainda assim, faltará algo. Parece que, na verdade, nunca nos encaixamos no papel que nós mesmas atuamos. Guardado às suas proporções, o escritor também passa por isso, Saulo. 

Lembro que, depois de um certo tempo, você me confidenciou o seguinte desejo:

– Eu sempre quis saber como eu seria retratado se fosse um protagonista. Sair do ponto de escritor e ser a inspiração.

Espera-se que o escritor (ou escritora. Por favor, repita o substantivo feminino para todos os casos similares) crie universos e mais universos, personagens e mais personagens, conseguindo encaixar todos à sua volta na história, com precisão. Mesmo que possa fazer uma biografia de sua vida em primeira pessoa, ainda assim, você não será fielmente retratado e, provavelmente, em algum ponto de sua narrativa, não se sentirá o protagonista. O autor nunca se encaixa completamente na sua própria história, mesmo que sua escrita seja a mais fidedigna possível.

No final das contas, nem o escritor nem a prostituta se encaixam completamente em suas histórias. E foi isso que me encantou em você. Duas pessoas não adequadas podem se adequar entre si?

Não sei se deu para compreender. Algo me diz que você, Saulo, compreendeu. Já os outros, duvido. Considero isso como uma pequena traquinagem minha, um revide por ler algo pessoal. Como tenho um coração grande, vocês ainda saíram no lucro; leram a história de amor entre um escritor e uma prostituta, mesmo que salvo de alguns detalhes.

Enfim, o ultimo motivo. Não quero deixar a carta maior já está. Chegou a hora de cumprir seu desejo. Quer ser o protagonista? Vamos ver se tenho talento para ser autora. É pequeno, não vou negar, porém singelo e de coração.

“Da despedida no Aeroporto do Galeão, enquanto embarcava para o vôo em direção à Lisboa, trocamos o que podia ser o nosso último olhar. Mesmo apesar de tudo, você mantinha o sorriso, mostrando os dentes e quebrando seu aspecto bruto, proveniente da barba crespa. Não fazia forças para evitar a queda das lágrimas. Não pude deixar de notar, pela milionésima vez, a sua força cândida. Não demonstrava o menor sinal de esforço para evitar as lágrimas. Deixava-as escorrer, até que desaparecesse no meio da barba escura e crespa. No meio do olhar castanho-escuro, dizia que era um sacrifício válido, embora doesse, como qualquer sacrifício digno de ser feito. Podia sentir essa estranha mania que você possui, e me ensinou, de ter fé na vida. A vida em Lisboa seria boa (perdoe-me pelo trocadilho infame), mesmo sem sua presença, com o velho e guerreiro bloquinho de notas. ” 

Nessa história, até podemos não ter controle das nossas ações.Espero que tenha gostado, Saulo, meu protagonista.

Da sua amada, ontem, hoje e sempre,

Ayla Junqueira (Ou Samara, Heloísa… Enfim, qualquer pseudônimo que você prefira)

16 comentários em “Amado Saulo (Givago Thimoti)

  1. Tom Lima
    15 de dezembro de 2019

    Amado Saulo (Ayla Junqueira)

    Resumo: Uma carta “beirando o melodrama”. Uma carta de alguém que sente saudades, pois está separado da pessoa para quem escreve. Parece se passar em algum passado pé internet e telefones. Aquela que escreve está em Lisboa. O destinatário tem aspirações de escritor. Ao longo da carta ficamos sabendo que esse amor começou em um bordel em Copacabana, onde a autora da carta trabalhava e o destinatário frequentava, mesmo não entendendo bem o que acontecia ali. Ela nos conta que ele tem o desejo de ser um personagem em uma história, quer saber como era retratado, e ela satisfaz esse desejo no fim da carta, narrando o que pode ter sido a despedida dos dois.

    Comentário: É uma escrita muito bonita. A preocupação com a estética, com a expressão do sentimento da protagonista pelo Saulo (ou qualquer outro pseudônimo que esteja usando no momento) parece ter sido central na criação. Mas essa beleza também ofusca a história. Temos um relacionamento que começa quase por acaso e que por algum motivo precisa ter um fim, ou ao menos uma longa separação, com um oceano no meio. O Saulo acaba ficando apagado, o que faz o amor entre eles perder um pouco do foco, da forma, talvez.

    Conclusão: É uma linda carta de amor, escrita de maneira primorosa. Mas enquanto conto não chega a funcionar pra mim. É uma boa história com bons personagens, mesmo com o Saulo um tanto sem contornos, mas a escolha do formato epistolar ofusca essa história, deixando a carta em primeiro plano. Foi uma escolha de quem escreveu, que não sei se chega a atrapalhar, há ganhos no uso dessa forma de carta, e o resultado aqui foi bem interessante. Parabéns.

  2. gabrieldemoraes1
    15 de dezembro de 2019

    Uma carta de uma mulher para um homem, supostamente a sua paixão, no final, descobrimos a origem do amor e que na verdade, a mulher é uma prostituta e ele é um escritor.

    Achei incrível como as revelações são entregues de forma a manter o ritmo da história veloz, as lembranças e as comparações feitas são emocionantes (em especial quando ela conta que o escritor e a prostituta nunca são protagonistas, brilhante!). Gostei muito da carta!

  3. Felipe Rodrigues
    15 de dezembro de 2019

    Leitura de uma carta de amor de uma prostituta para um escritor, definida ao final como peça ou conto e utilizando metalinguagem como trunfo principal.

    Prontamente realizado como se fosse uma atuação em primeira pessoa, traduzido com simplicidade de uma voz autoral anônima e desvinculada de grande academicismo, a carta-conto, parte de um pressuposto em que o leitor será envolvido por este recorte sentimental em espaço-tempo, mas há um enfado que, mesmo feito de forma proposital a adequar o personagem ao todo, acabou por me afastar como pessoa que espia essa trama pela janela. Eu não continuaria espiando essas cenas se não me fosse obrigação.

  4. Michele Barão
    14 de dezembro de 2019

    O conto inicia com uma carta redigida por uma mulher apaixonada ao amado. No desenrolar a escrevente se intitulava como a prostituta que se apaixonou por um rapaz que almejava ser escritor. Separados, ela passa a viver em Lisboa e passa a adotar os mesmos hábitos literários que o ex; deixando claro a vontade de um possivel reatamento; tudo exposto na própria carta. No final descorre um texto produzido pela própria onde fica evidenciado sua veia literária.
    Gostei. A linguagem usada e evoluída. A leitura atraente e envolvente. Abraço.

  5. Thata Pereira
    12 de dezembro de 2019

    RESUMO : uma prostituta escreve uma carta ao seu “amado”. Relata fatos, diz estar com saudade. A mulher adquiriu o hábito de Saulo de ler. Lendo, recordou do dia que percebeu que na relação deles havia sentimentos. Lembrou do dia que Saulo disse que gostaria de saber como ele seria, se fosse um protagonista de livro. Então, ao final da carta, ela conta a breve história da despedida deles, que viaja para Lisboa e a deixa, em um texto no qual ele é o protagonista.

    CONSIDERAÇÕES: achei bastante criativa a ideia. Se for mesmo necessário apontar um mínio defeitinho, eu diria que a primeira metade é mais ágil que o restante do conto, acredito por ter poucos parágrafos. Nada que atrapalhe a ideia. Acho que esse casamento de prostituta, amado, leitura e escrita casou lindamente bem. Uma coisa que me passou perdia foi a ideia dos pseudônimos. Por qual motivo ele usava um pseudo? Não gosto muito de ler um conto pela segunda vez antes de votar, então depois vou voltar aqui para tentar entender.

    Boa sorte!!

    • Givago Domingues Thimoti
      16 de dezembro de 2019

      Oooi, Thata!! Tudo bem??

      A ideia do conto era uma carta, feita no período da Ditadura. Os pseudônimos seriam uma estratégia para disfarçar quem são os interlocutores, enganando um possível membro do governo o qual confiscasse (você leitora ou leitor) a carta

  6. Val
    12 de dezembro de 2019

    Sinopse:
    A narrativa em primeira pessoa, escrita em forma de carta, por uma prostituta autodenominada Ayla, narra o encanto da personagem por um grande amor. A personagem vai narrando os momentos únicos que viveu com Saulo, mas se atém a maiores detalhes sobre ambos. Saulo ambiciona ser escritor e revela a Ayla seu desejo de ser inspiração, acaba por se tornar a inspiração de Ayla.

    Opinião:
    Achei muito difícil fazer uma sinopse desse conto. Uma obra linda, com muita poesia nas entrelinhas. A ideia de escrever como se fosse uma carta contando uma história tão íntima foi brilhante. E enquanto eu lia algumas referência brotavam na minha mente. Isso não é necessariamente bom, pois limita a interpretação do seu conto à miséria do meu repertório. E, às vezes, acaba guiando o leitor para uma interpretação diferente da imaginada pelo autor.

    Porém, vou passar algumas coisas que me vieram a mente.

    A princípio tentei entender a época em que se passa a história. Não sei se é importante, mas penso que sim. Gosto de localizar as coisas no tempo. Ajuda a entender o contexto dos fatos. Samara (gosto mais desse, por questões puramente sentimentais) menciona a possibilidade de ainda surgirem tecnologias que já temos hoje e menciona que se passaram “quase 100 anos” após o tempo de Machado de Assis (acredito que seja esse Machado), são referências muito vagas, mas minha mente, incansavelmente em busca de referências, se ateve ao começo dos anos 1970, no auge dos anos de chumbo. Se eu estiver errado, por gentileza, me fale.

    Vemos Samara se apaixonar por um rapaz mais jovem, que se esconde atrás de livros para vestir uma máscara de intelectual e planeja escrever um livro com críticas jocosas ao governo. Acho que ele conseguiu e provavelmente foi perseguido por isso, culminando na necessidade de exílio.

    A necessidade de exílio de Samara é explicada pela brilhante passagem: “Ouvidos tão desejados por palavras que não podem ser ditas.” Quando procura uma puta o homem procura três orifícios, pensei besteira, admito, mas a sua versão fez muito mais sentido. O momento da confidência pós-coito é bem verdade. Samara ouviu mais do que deveria e precisou buscar exílio, provavelmente para se proteger de perseguição do governo. Mas com muita sutileza ela é bem sarcástica nesse parágrafo.

    Também é muito interessante essa metalinguagem que você utiliza. Como Saulo gostaria de ser retratado como um protagonista vemos ele ser muito bem descrito por Samara. Ela exacerba suas qualidades e minimiza os defeitos de Saulo, colocando ele em um patamar que, talvez, nem mereça ocupar.

    Saiba que você autora (ou autor) mexeu muito com a minha cabeça. Além, é claro, de satisfazer meu desejo de ler uma história com essas características, complexa na sua simplicidade. Quando você diz que “o autor nunca se encaixa completamente na sua própria história, mesmo que sua escrita seja a mais fidedigna possível”, eu me identifiquei de verdade. E refleti um bocado. Acho que muita gente passa por isso, de achar que a vida dos outros é sempre melhor e esquece de olhar para a própria vida. Acho que essa passagem tem muito mais poder de ser a epifania de Samara. O que posso dizer é que foi para mim.

  7. jetonon
    5 de dezembro de 2019

    AMADO SAULO

    Resumo: A amante da vida fácil escreve ao seu cliente, onde, não o considera assim, mas a pessoa a qual se identificou, onde se sentia bem e confortável na sua companhia. A carta descreve seus bons momentos quando juntos. Suas confidências, suas posições quando dorme e o mais importante suas memórias de uma amante.
    Comentários : Creio a carta ter sido única escrita descrita à um cliente, onde a “fulana” lava sua alma. Gostei. Achei interessante a forma como se expressa do sentimento da saudade e falta que o cara está lhe fazendo. E também uma informação interessante ao cara que pela expressão das lágrimas também sente algo pela pessoa.
    Correções:
    1. Não que deixar a carta maior já está. Não seria: Não quero deixar a carta maior que já está.

  8. Pedro Paulo
    2 de dezembro de 2019

    Embora a carta se trate como uma declaração de amor, enxergo algumas reflexões, inclusive sobre o ofício de escrever, que extrapolam esse sentido e valoram o conto para além da técnica envolvente e intimista. O início é necessariamente lento, pois além de estabelecer a profundidade da relação entre destinatário e remetente, nos apresenta, sempre de forma um pouco tangente, alguns gestos que pouco a pouco dão traços das personagens e do impacto do relacionamento deles. Desse modo, o leitor vai se envolvendo com as personagens de pouquinho em pouquinho, até se surpreendendo um pouco às vezes e, portanto, enquanto lê a nascente história de amor entre as personagens, não se aguardava pelas reflexões literárias que despontam próximo ao fim, totalmente pertinentes quando uma das personagens é um escritor. Mas o brilhante da autora foi justamente conseguir imprimir um olhar estrangeiro ao nosso trabalho, isto é, de uma pessoa que não escreve para a literatura, mas se desafia, influenciada e dedicada ao escritor que foi sua antiga paixão, a refletir sobre o processo e, por fim, presentear o amado com um trecho de sua autoria, uma resposta a uma questão que achei bem curiosa e instigante, que talvez eu guarde como um desejo próprio, descobrir o que seria de mim como protagonista de outra pessoa. Enfim, parabéns e boa sorte.

  9. Priscila Pereira
    30 de novembro de 2019

    Olá, Autor!
    A sensação de estar lendo realmente uma carta de amor destinada a outra pessoa foi alcançada com sucesso… kkkkk Achei bem legal o ar intimista do conto, as revelações vindo aos poucos, os segredos revelados, o desenrolar lento e constante da trama e me peguei torcendo para que Saulo conseguisse ler a carta. Muito bom! Parabéns e boa sorte!

  10. Laryssa Cristiny Nascimento Moraes
    22 de novembro de 2019

    RESUMO: Ayla escreve uma carta de amor para Saulo, um escritor que encontra em um prostíbulo, um romance, que aparentemente acabou pela distância.

    COMENTÁRIO: Alguns detalhes poderiam ser melhor explicados ( o que pode fazer sentido pra autora da carta que não “deve” explicações pra quem é de fora, mas como ela menciona o tempo inteiro um terceiro interlocutor, acho que deve sim) como por exemplo se Saulo mora no Brasil, como Ayla chegou em Lisboa se ela morava no Brasil, etc. Ayla parece saber demais sobre o futuro, prevendo celulares e aplicativos de compartilhamento de músicas. Fora isso, vejo grande potencial de desenvolvimento para um livro completo, pois a personagem é forte e a história original.

  11. Bruna Francielle
    15 de novembro de 2019

    Resumo: Prostituta escreve carta para homem do qual gostou. O homem, Saulo,desejava ser escritor e andava com um bloco de notas. A carta descreve momentos dos dois, como quando se conheceram, e divaga sobre o que é ser escritor e prostituta. Finaliza com um texto da prostituta onde Saulo seria o protagonista.
    Análise: Achei bem escrito no geral, a narrativa não foi cansativa. Isto já é o suficiente para me agradar pelo menos um pouco. Achei diversas partes bastante inverossímeis quando contidas no enredo, como por exemplo as divagações da prostituta sobre o que é ser escritor, quando no começo ela havia deixado claro que a carta era de amor. Não houve muita coisa de amor na carta, pelo contrário. O conteúdo divergia bastante do proposto. Achei o enredo incompleto. Na minha visão, ficou faltando algo do que o Saulo tivesse a dizer sobre a carta, sobre a situação ou sobre as divagações da mulher. Deveria ter algum tipo de resposta ou reação dele. Faltou este impacto e a história terminou em baixa. Resumindo, enredo não muito bom, escrita fluida e fácil de ler.

  12. Luis Guilherme Banzi Florido
    14 de novembro de 2019

    Bom dia/tarde/noite, amigo (a). Tudo bem por ai?
    Pra começar, devo dizer que estou lendo todos os contos, em ordem, sem saber a qual série pertence. Assim, todos meus comentários vão seguir um padrão.
    Também, como padrão, parabenizo pelo esforço e desafio!
    Vamos lá:

    Tema identificado: romance, carta de amor

    Resumo: a carta de amor (e saudades) de uma prostituta para seu amado, um escritor. A carta retrata toda a trajetória do casal, desde que se conheceram no bordel onde ela trabalhava.

    Comentário: um conto em formato de carta de amor. Em geral, gosto dos contos que fogem do formato tradicional de narrativa. Nesse caso, também funcionou bem, a apesar de não haver grandes emoções ou clímax, o conto ganha muito por deixar em aberto todo o contexto social em que a carta foi escrita.

    Pela referência ao Machado, acredito que a história se passa em alguma data entre 1950 e 1980 (essa ideia fica fortalecida pelas referências à comunicação da época, e pelos desejos da mulher de futuras tecnologias).

    Além disso, referências à ditadura militar me fizeram crer que a história de amor se passou no período da ditadura brasileira, e que o homem pode ter sido exilado ou fugido do país, o que teria causado a ruptura do relacionamento. Acertei?

    Enfim, o fato de tudo isso ter ficado no ar, sem que você tenha deixado obvio, caiu bem. Especialmente pq a carta de amor é entre duas pessoas que se conhecem. Não teria sentido, portanto, se a moça começasse a explicar tudo detalhadamente, soaria falso. Do jeito que está, fica convincente, sabe? Mérito seu.

    Sobre o enredo, como já disse, não tem nada de novo em si. É uma história de amor meio comum. Acho que o conto se sustenta muito na forma e na técnica, no modo como foi sendo revelado aos poucos e deixando muito no ar, como já citei.

    Gostei muito do desfecho, quando ela, em homenagem, cria uma história com ele como protagonista. Fiquei arrepiado lendo aquele trecho, foi bem legal.

    Enfim, é um bom conto, que ganha muito pela técnica e forma como é contado, valorizando uma história de amor que a princípio não teria nada de muito interessante.

    Parabéns e boa sorte!

  13. Fernanda Caleffi Barbetta
    5 de novembro de 2019

    Muito bom o seu conto, uma ideia que de início parece “mais do mesmo” mas que se revela justamente o contrário. Talvez um pouco longo, mas muito bem escrito. No final, cheguei à conclusão de que o escritor e a prostituta talvez sejam os únicos a utilizarem pseudônimos.

    Obs: este não é um comentário obrigatório neste desafio, por isso não há resumo nem observações gramaticais.

  14. Rubem Cabral
    4 de novembro de 2019

    Olá, Ayla.

    Resumo da história: mulher, que descobrimos mais tarde ser ex-prostituta, apaixonou-se por um cliente e relata, através de uma carta, suas saudades de seu grande amor: Saulo.

    Considerações: um conto bonito e sensível. É notável a forma como o relato é conduzido, dando ares reais ao que é contado. Logo ficamos envolvidos, o que é impressionante, pq relatos em forma de cartas podem ser uma armadilha. Enfim, não há uma “grande” história ou algo mirabolante, mas um texto honesto e sensível e bem escrito sobre um grande amor, o maior dos temas. A qualidade da escrita é bastante boa tbm, e vi pouquíssimas coisas por arrumar.

    Boa sorte no desafio!

    Nota: 8

  15. Pedro Teixeira
    2 de novembro de 2019

    Mulher separada de seu amado escreve carta de amor.
    Belo conto, um de meus preferidos no desafio até agora. Trabalha com muita sutileza o perfil e a voz da narradora-personagem, com belos toques de ironia e uma escrita de qualidade. O trecho que fala sobre o que os dois tem em comum me deixou dividido: por um lado provoca reflexões interessantes por ser algo que tem a ver com os dois, por outro me pareceu uma reflexão um tanto banal. Mas isso pode ser fruto de minhas limitações como leitor.

E Então? O que achou?

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Publicado às 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série C e marcado .