EntreContos

Detox Literário.

A Pecadora (Emma Bovary)

Perdi minha identidade em um dia infeliz, mas não foi naquele setembro chuvoso.

Há muito tempo tinha perdido minha identidade e minha dignidade. Muito tempo.

Minha dor foi que se concretizou naquela primavera…

Era uma tarde setembrina como outra qualquer, chovia. Saí de casa, com meu filho e minha enorme barriga. Eram outros tempos, outros interesses. As pessoas não me suportavam porque quis estudar, me formei professora. Casei-me com um jovem amigo de papai. Sem caráter e sem nobreza, queria para si o nome de minha família. Nome que eu não respeitava, diziam meus familiares. Contrariando minhas cruéis expectativas, fomos felizes. Acreditavam. Ele me conquistou com flores, poemas e perfumes, noites regadas de bons vinhos, saraus de músicas e encontros literários, desde que ninguém lesse nada meu, obviamente. Mas era tão pouco o que eu estava abandonando em “nome de nossa felicidade”, diziam. Só meus sonhos de fazer poesia e de ensinar alguém! Ensinar, diziam as amigas, eu poderia fazer isso por meus filhos. Filhos que eu nunca pensei ter. 

Foram cinco anos felizes, para os outros, até que veio a primeira barriga, que não vingou. Senti muito. Não queria ter filho, mas uma barriga modifica uma mulher. Para bem ou para mal. Chorei meu luto, não fui compreendida. “Tantas mulheres deixam descer seus filhos”, diziam. Enterrei os sonhos que criei com minhas formas se desfazendo. Então, voltei meus olhos para novos interesses e o marido começou a pedir por um filho. Medo de uma nova gravidez frustrada, saudades dos sonhos, muitos foram os empecilhos, mas, um dia, a barriga veio. “Estado interessante”, dizia meu padrinho, que infelizmente morreu antes de meu filho nascer. Dindo era o único elo entre a mulher que eu quis ser e a que eu estava me tornando. Era o único, além de mim, que chorava por me ver abandonar meus livros e poesias. 

O filho nasceu e foi a alegria dos avós, do pai e minha também, confesso. O povo dizia que mãe ama desde sempre, eu não o amei antes. Apaixonei-me por ele desde o primeiro choro. Era tão lindo, tão carente de mim, fitava meus olhos como se lesse minha alma e me entendia sempre. Nosso amor foi crescendo na mesma proporção em que o amor de meu marido esfriava. Não foi o filho, como diziam as amigas, acusando-me. Eu tinha perdido a função de esposa, o prestígio de meu nome, agora, era dele. Meus pais lhes deram o direito de usar nosso nome e o brasão da família. Ele havia dado um herdeiro para os Almay de Noronha Assis e Toledo. E eu fui sendo anulada até à invisibilidade. 

E foi na invisibilidade que eu peguei nova barriga. Bem quando as más línguas diziam que eu estava perdendo meu marido para a minha maternidade doentia.  As mesmas línguas, que, antes bondosas, me aconselhavam o casamento, a maternidade, o abandono da carreira, a inutilidade da leitura e da poesia.

Agora, eu ouvia aquelas vozes, como uma doença mental. Sempre um murmurinho sem rosto e sem forma pelos camarotes de teatros e pelas poucas salas familiares que se atreviam a me convidar. Eu me vestia com a mesma elegância da juventude, mesmo já tenho passado dos vinte e dois anos. Usava pó de arroz, Kohl  e carmim. Não me deixei abater, mesmo quando ouvia que meu marido andava às voltas com a filha de um fabricante de carros. Eu não acreditava em nada, pois ele dizia que me amava e que estava tudo bem. Mas eu sabia, antes das vozes, que não estava. Sempre vi sua alma por baixo da cal de finesse que ele exibia. 

Assim que apareci grávida de novo, o marido sugeriu que fôssemos de viagem para o Norte. Fomos. Marido, filho e eu, sem mostrar barriga, ainda. Era um complexo de casas de madeiras, isoladas por dunas artificiais, lindas.  À noite, ele saiu para buscar água na casa-sede e eu acabei dormindo. Despertei com o vizinho quebrando a porta. O fogo estava já no berço… Foi um susto enorme e nada do marido. Encontrou-nos no hospital. Obviamente reclamou das instalações, mas esqueceu de perguntar por nosso filho. O vizinho preocupado, informando que estávamos bem e o marido nervoso, mostrando seu embaraço. Acabar com as férias dos outros, “onde já se viu?”. Voltamos para casa. Dias depois, as más línguas reiniciaram as difamações. Eu tinha um amante. E ele havia nos seguido, diziam. Só assim para explicar que ele surgiu, de repente, salvando-nos.

Então, sofri uma queda do cavalo. Do cavalo que eu montava regularmente, manso. Fui parar no hospital, de novo. Quando voltei, o cavalo Serafim não existia mais, sacrificaram-no. Meu marido, tão preocupado comigo e cauteloso para que mais nenhum mal me acometesse, tinha ficado revoltado com a raiva do animal. Nunca entendi o que aconteceu, porém comecei a ficar assustada. Teve a sala molhada, perto da escada. A aranha na cama…

Passei a viver alerta e, mesmo assim, era surpreendida por pequenos acidentes. Passei a ter medo de tudo e descobri que temer é ficar vivo. Estar alerta era o que me salvava, sempre. Quem queria me ferir? E por quê? 

Comecei a olhar debaixo da cama, dentro dos sapatos, ficar com receio da comida. Passei até a cozinhar a comida do menino e a minha, sob as reclamações da cozinheira de que “patrãozinho não vai gostar, patroinha”. Dias depois, um estranho me parou na rua. Perguntou por um endereço e eu fui explicar. Ele me segurou pela cintura, disse meu nome e me beijou. A surpresa foi tanta que levei um tempo para empurrá-lo, e as mulheres começaram a me chamar de adúltera. Corri para a casa de meus pais. Foi lá que meu marido me achou, mais tarde. Minha mãe já havia me tratado como a uma prostituta, e, agora, ele vinha e dizia que fora desrespeitado em público. Foi um alvoroço, um turbilhão de pensamentos confundindo minha cabeça. Ninguém queria me ouvir. Ninguém para me entender.

Eu, chorando, fui com meu filho para casa. Pobre criança a entender nada. E, lá, fui mais uma vez humilhada. Eles tiraram nomes dos cachorros vira-latas e lançaram sobre mim, exatamente quando as chuvas voltaram a castigar a cidade. As dúvidas sobre a paternidade de meu filho, aquela estranha barriga, como se eu não vivesse maritalmente com um homem, por quase dez anos.

E foi assim que eu me tornei a Pecadora. Saí pelas ruas, segurando uma barriga enorme e puxando um menino pela mão. “Um suplício merecido para uma meretriz e seu fruto do pecado”, diziam. Faltava pouco para que, os melhores que Jesus, jogassem pedras sobre mim. A chuva impiedosa foi tomando conta do dia e eu não encontrava apoio em nenhum lugar por onde passava. Meus filhos sofriam. Um fora, que eu já não conseguia segurar, o outro na barriga. O garoto chorava. Com o rosto sujo, tinha fome e fazia muitas horas que comera o último pedaço de pão que eu havia conseguido colocar no embornal. Eu sei que chorava, embora não sentisse mais nada além do desespero. Nem meu dinheiro valia por um pedaço de pão ou um copo de água. Os santos não mercantilizam com pecadores. Santos que nem criam em Deus e que agora me repudiavam. 

Não sentia meus pés, só o cansaço. Não sentia mais as mãos, minhas costas, a alma, tudo era uma massa disforme. Estava por minha sorte, e sorte de vagabunda era o prostíbulo, que nem tinha na cidade. E, mesmo que tivesse, eu não iria. O que eles fariam com uma mulher nas minhas condições?

Inconsciente da minha vergonha, bati palmas na casa de meus pais e fui enxotada. Alta e clara era a voz de minha mãe, que nem se dignou a dar as caras, enquanto me amaldiçoava. Maldições que não doeram tanto quanto o desprezo com que se dirigiu ao seu herdeiro, que lhe chamava, sem nada entender: 

 – Não tenho filha ou netos! – Era sua voz de sempre, firme, inflexível, mordaz.

Aquele foi meu momento de dor definitivo, o auge do sofrimento. A alma, o corpo e a memória trêmulos, ferventes, insensíveis à água que não acalmava e nem irritava. O desespero se acumulou sobre meus ombros exatamente no momento em que o sino bateu dezessete vezes. Cada badalada, uma lembrança…

Um. Dois. Três. Quatro. Cinco. Seis

O fogo na casa de madeira. A escada molhada. O tombo do cavalo. O remédio errado. A água de gosto estranho. O estranho seguindo-me na rua. O tiro na casa de chá. O escorregão do menino na estrada, exatamente quando a charrete ia passando. O bonde… A pessoa estranha na cozinha…

Meu corpo foi voltando a responder. O medo começou a fazer tremer meus dentes. O rio, no fim do caminho, era a solução. Alguém me quer morta? Morrerei! Mas com dignidade,  de meu modo, os céus que me perdoem. Não há saída. Eu mereço isso. Nem minha mãe me quer. Sou culpada. E o menino chorando. Meu filho, Jeremias, morreremos juntos. Nem sabe o que é a vida. Pobrezinho, ainda chora esperando uma salvação, que não virá… Tem fome, eu sei. Não tenho nada para lhe oferecer. Só lágrimas, dele e minha, e isso nos iguala. Ele inocente, eu pecadora.

É por ali o rio. É só seguir o pôr do sol. Sim. Chove e faz sol. Foi assim desde o momento em que a vergonha desceu sobre nós. Posso ir sossegada. Com essa chuva, as lavadeiras certamente nem apareceram e, se ainda se arriscaram, uma hora dessas, já se foram. As raparigas, mulheres da vida, também já devem ter se banhado. Daqui a pouco, começa a lida da noite. Tenho que pensar tudo, direitinho, não quero testemunhas. Dizem que as águas dos rios acalmam as almas. Deve ser por terem recebido muitas pessoas desiludidas, assim como eu.

Já é quase noite. O sol reluta com as águas, quer ficar no céu. Cansada. Pés e alma sujos, as pedras dificultam meu caminho, a barriga pesa demais. Pobre criança, nem verá a luz do sol. E para quê? Para sofrer?

Mais alguns minutos, tudo acabará. A cidade, há muito, está distante. Não há viva alma pelo caminho. Tudo perfeito. Já ouvindo a queda d’água, comecei e pedir perdão ao pequeno Jeremias. Hoje, fazendo jus ao nome, não cessa o choro. Antes alto, enquanto acreditava encontrar apoio, agora entregue, quase soluços.  

       – Fique em paz, querido. Logo estaremos juntos para sempre. Nós e os anjos. E seus irmãozinhos. O que se recusou a nascer e o que jamais nascerá, Jeremias. Obrigada a você, meu filho, por ter vindo ao mundo para me dar alegria. Sem você, os últimos anos teriam sido piores. Desculpe esses beijos  de dor. 

E o barulho da água, nossa salvação, se aproximava mais, nos chamando… 

Lembrei-me, enquanto me aproximava das pedras do rio, do dia em que, por brincadeira, me afastei da margem. Era o mesmo rio, mas a margem era outra. Os tempos também. Dindo vivia e eu era feliz. Eu era pouca coisa maior que meu Jeremias. Nadei para longe e acabei afundando. Desespero e água me levando para o fundo, como mãos poderosas. A mente tentando me salvar, porém o corpo não obedecia. Desisti de lutar e me entreguei. As águas invadindo meu corpo, pequeninos peixes multicores vindo em minha direção e então um Tritão surgiu. Sem garfos e sem calda. Abraçou-me e subiu comigo para fora das águas. Dessa vez, ele não surgiria. Ele e nem mais ninguém. Ele já se foi, faz tempo, meu Dindo… 

Fui entrando nas águas revoltas do rio com a lembrança do Dindo. E, então, estanquei. Não tinha deus do mar. A mulher que surgiu das águas era uma deusa. Talvez a protetora das almas dos afogados.  Escura como canela, de uma beleza que até para mim, que pensava na morte, era difícil de passar despercebida. E era um erro em meus planos. Ela não deveria estar ali. Todos os meus planos ficaram suspensos. Ela se ergueu mais uma vez, os muitos cabelos escondendo seu corpo, que eu adivinhava nu. Saiu das águas, sem vergonha alguma, e, assim, sem palavras, ofereceu-se para nos acompanhar. Eu soube que ela era a guia para o meu desterro. 

Eu sei que você acredita que estou viva. Não estou. Mas não morri naquele dia. Fui viver no morro. E não era a única branca desterrada. Lá, lecionei. Lá, fiz poesia. Lá, conheci o meu José e me amancebei com ele. Tivemos filhos. Nossas raízes se multiplicaram. 

Hoje, estamos juntos de novo. Em outro plano.

Sobre Fabio Baptista

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Informação

Publicado em 1 de novembro de 2019 por em Liga 2019 - Rodada 4, R4 - Série B.